quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

COMIDA: UMA AVENTURA NA KOREA

Comida preparada da mesa.
 Adoro comer.
Passei dois anos nos EUA fotografando e falando sobre tudo que eu comia, cada restaurante, cada coisa nova, cada fruta regional, cada sanduíche... enfim, adoro comer e acho que essa é uma boa forma de conhecer a cultura de um país que visito. Sempre sou muito curiosa em relação a comidas que não conheço, acho fascinante pensar na história da comida, como aquele povo desenvolveu determinados hábitos alimentares e paladares. Penso também se existe humanos comendo aquilo e tem a mesma fisiologia que eu, posso comer também. Tudo é uma questão de hábito. É claro que posso até comer apenas uma vez, ou posso rejeitar pelo cheiro, mas mesmo assim acho fascinante conhecer. Sou baiana e a minha comida  favorita é  "caruru". Não posso julgar quem se recuse a come-lo por sua aparência. Caruru é feio e delicioso. Parto do principio que se adoro caruru e tem baianos que gostam de sarapatel (feito com tripa de porco), quem sou eu pra julgar cultura dos outros. 

Comida saudável


Passarei um tempo aqui em Seul, capital da Coréia do Sul, e terei um universo imenso e desconhecido de pratos e comidas pra desbravar e compartilhar com vocês.

O curioso em Seoul é perceber que as pessoas são magras na sua imensa maioria. Muito difícil encontrar um Coreano acima do peso. Eles são esbeltos, esguios, muito elegantes mesmo (falarei sobre a questão estética em outro post). Isso é um bom sinal. Podemos supor que eles tem uma alimentação saudável. Eles comem muitos legumes, cogumelos de várias espécies e frutos do mar em abundância.
Coisas estranhas




Essas coisas estranhas sendo vendidas na rua me chocaram um pouco. Demorei alguns instantes para me dar conta de que eram frutos do mar seco. Polvo, lulas, algas, peixes..etc...tudo desidratado. Parece muito popular. Nos remete ao nosso camarão seco.

comida de rua




Existem uma infinidade de pequenos restaurantes nessa área que moro e muitos ambulantes que vendem comidas  em suas barraquinhas que são muito frequentadas apesar do frio. Passo olhando cada uma delas e fotografando, tentando imaginar o que é aquilo que está sendo vendido, uma coisa é certa, tem pimenta. O Coreano ama pimenta. Assim como na Índia que tive que me acostumar com a pimenta, aqui acho que vai ser a mesma coisa. 
O que será meu Deus?

SOJU
Eles bebem SOJU. É a "cachaça" deles. É mais fraca que a nossa cachaça, muito mais fraca que Tequila ou Vodka, ou mesmo que o Sakê. É fraquinha...ou pelo menos parece ser...eles costumam colocar um shot de Soju em um copo de cerveja. Mistura que me pareceu deliciosa e que, só depois entendi, disfarça o Soju, quando percebi já não tinha volta. Fiquei de pilequinho.
O povo adora, mas o que será?











Minha gente...isso é cheiroso!!!
Depois descobri que é lula frita!
Parece que fica crocante e sequinho.
Esse é certo que vou comer.





Duas dificuldades a serem dribladas:

Cardápio com Fotos
 1- Os cardápios são na sua imensa maioria em Coreano e graças a Nossa Senhora Protetora dos famintos, eles tem fotografias, na maioria das vezes escolhemos nossos pratos por elas e contamos com a sorte.



2- Não existem talheres ocidentais nos restaurantes. Eles comem com a maior desenvoltura usando seus chopsticks de metal e nós ficamos no esforço. Nunca tive dificuldade para comer de "pauzinhos" nos restaurantes japoneses que frequentava no Brasil, mas esqueçam, lá a gente usa pauzinhos de madeira, a comida não escorrega, tem atrito. Aqui os "pauzinhos"são de metal como os nossos talheres. A comida escorrega ... damos um show a parte para eles que não entendem a nossa falta de habilidade. Estamos superando. 


Pegando habilidade


Bom....o capítulo "Compra no Supermercado" será provavelmente o seguinte. Não percam. Supermercado é como a Disney. Mil coisinhas para nos divertirmos. Mil letrinhas que parecem desenhos e com instruções de preparo em Coreano também. Uma coisa fofa e divertida.

Até a próxima!

Ludmila

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PRIMEIRA IMPRESSÃO DE SEUL

O Frio
Estou morando em Seul, (ou Seoul - se diz como Soul em Inglês), na Korea e, a partir de hoje começo a compartilhar as minhas impressões com voces.

Pra entender a importancia de Seoul não podemos esquecer que ela renasceu de um pós-guerra que a devastou quase completamente. O país depois de 1950 estava destruído e faminto, depois de anos e anos de guerras que acabaram por dividir o país em dois. Moro na Coréia do Sul, que foi apoiada pelos EUA após a Guerra Fria. Um país pequeno, localizado entre a imensa China e o poderoso Japão. Pra quem nasceu no Brasil ouvindo dizer que nós éramos o país do futuro, começo a me dar conta de que o futuro, de fato chegou para os Coreanos, pra nós acabou sendo um promessa jogada ao vento.

Chegamos em uma noite gelada de começo de inverno. Logo as descer no aeroporto me deparo com a beleza do mesmo...lindo.. imenso e extremamente bem sinalizado e eficiente. Sei por um cartaz luminoso que esse aeroporto foi escolhido como o melhor do mundo entre 1700 aeroportos selecionados. Acreditem, é de impressionar mesmo... mas, ele não dá medo... de tão bem planejado, me deixou segura e com a certeza de que eu estava entrando num mundo "que funciona", que não preciso contar com a sorte. Fiquei tranquila.

Fofinhos
Os meus primeiros dias tem sido de descoberta, muitas descobertas. Começo a reconhecer alguns sons que se repetem nesse idioma impossível. Começo a descobrir as saudações do dia-a-dia. Muito incrível isso. Descubro que não me sinto pressionada a nada aqui. Ninguém pode me cobrar nada, nem mesmo meu ego, porque minha ignorância aqui é um fato, e não um problema, e isso é libertador.

Como um bebê, começo a descobrir como me relacionar com as pessoas e com as coisas nesse país tão diferente.  É uma sensação prazerosa, que me alforria de qualquer cobrança. Muito bom! Sinto que estou liberada pra andar de boca aberta de espanto enquanto olho as coisas..., liberada pra rir de mim mesma quando faço uma "besteira" ... a ignorância total me coloca em um patamar protegido que só as crianças tem direito. Decido fazer um bom uso disso e aventurar... olhar pra tudo com toda curiosidade que tenho direito...e fazer exclamações de espanto sem contenções....e me liberar da vaidade egóica que me cobraria saber o que não sei. Me divirto assim. 

Amanhecer da janela do meu quarto

As primeiras impressões são incríveis. A cidade é enorme, cheia de gente e, o inverno é frio, muito frio. Nosso primeiro dia foi brindado com a primeira neve desse inverno. Em qualquer direção que olho, vejo pessoas andando para lá e para cá. Preciso explicar que a pertinência desse comentário reside no fato de que antes de vir pra cá, estava morando em Houston, cidade grande do Texas, onde é quase impossível ver pessoas andando nas ruas. Elas estão dentro de seus carros. Aqui elas estão em todo lugar, nos carros, em um trânsito pesado, nos trens do metrô, que cobrem 100% da cidade de Seoul, andando nas calçadas e ruas. Adoro isso!!! Adoro ver gente! Posso passar um dia inteiro sentada em algum lugar apenas olhando pessoas passarem..olhando seu andar, suas roupas, seu gestual, suas expressões...realmente adoro, e percebi logo que isso eu terei em abundância aqui. 

Resolvo que sairei a andar livremente pela cidade conhecendo cada cantinho...sem pressa...e com curiosidade infantil. Com a curiosidade daqueles que sabem ver o extraordinário no ordinário. Resolvo que tudo aqui será extraordinário e não é difícil fazer isso. Acho que fiz isso em cada país que visitei...fiz isso nos EUA...farei isso aqui. Está decidido.

Casamento acontecendo em um shopping
O contato físico aqui não vem acompanhado de um "I'm sorry" como nos EUA. Cada pessoa que se esbarra sem querer com a gente não pede desculpa por isso. Percebi que esses dois anos que vivi no Texas já foram suficientes para incorporar esse comportamento, percebi que eu aqui me desculpava o tempo inteiro e que ninguém dava bola para minhas desculpas. Parei com isso. Relaxei. Que coisa boa. Os contatos físicos aqui são menos carregados de tensão. Começo a ver que os namorados se abraçam com carinho e trocam olhares apaixonados em todo lugar. O Coreano é um povo romântico!!! Que coisa linda de ver. Os rapazes carregam as bolsas das namoradas no metrô.

A estética coreana é um capítulo a parte. Cheguei cheia de idéias preconcebidas e de informações equivocadas que caíram por terra rapidinho. As mulheres são simplesmente lindas!! Elas são magras, esbeltas, elegantes e estão bem vestidas o tempo todo. Casacos lindos, botas lindas, cabelos e maquiagem bem feitas....elas são show. Muito difícil encontrar alguém com visual descuidado e relaxado. As pernas que são lindas, sempre estão expostas. Saias curtas o tempo todo. Os jeans e camiseta dos americanos dançaram aqui. Elas usam saias, vestidos com as pernas cobertas por meias pretas que valorizam ainda mais a beleza natural. Elas são realmente lindas e elegantes, e tenho a impressão que elas sabem que a estética oriental está na moda. Elas são sexualizadas e alegres, bem diferente das americana que oscilam entre os extremos da histeria e da assexualidade. Diferente também da erotização comum no Brasil, que beira a deselegância.

Esse país que ressurgiu das cinzas em um pouco mais que 50 anos, pobre e faminto, hoje tem o melhor e mais eficiente sistema de transporte público do mundo. Toda Seoul pode ser visitada de metrô. Eles são bem sinalizados, modernos, seguros e limpos. Andando neles (minha grande paixão no momento) vejo cenas fantásticas. Vejo que as pessoas entram, colocam seus pertences em uma prateleira que tem acima das cabeças e sentam. Passam o trajeto inteiro sem checar se a bolsa ainda está lá. Quando chegam ao destino, levantam, pegam seus pertences e saem. Eu, brasileira assustada, fico tensa, olhando, achando que alguém vai me roubar. Será que um dia me curo desse trauma?

Bonecas do artesanato coreano
 Em uma das minhas andadas fui parada por um grupo de estudantes coreanos para uma entrevista. Educadamente me pediram que perdesse um pouco do meu tempo com eles. Estudavam inglês e tinham como atividade de casa, entrevistar alguém em inglês. Expliquei que meu idioma era o português, mas eles me quiseram mesmo assim. Tive os 15 minutos de contato mais caloroso com estranhos desde que deixei de morar no Brasil. Eles eram doces e educados, perguntavam se eu conhecia alguma marca coreana. Ficaram encantados quando contei que meu último carro era coreano e que havia sido o melhor carro que já tive. Perguntaram se eu já havia andado de metrô e queriam saber como era o sistema de transporte do Brasil. Falamos sobre futebol, sobre a Copa do Mundo...eles só tinham 5 perguntas do homework pra fazer, mas ficamos papeando...e rindo.. eles riam muito de mim e eu deles. Achei isso tão próximo de nós brasileiros. Apaixonei. Despedimos com fotos, em que ficamos corporalmente coladinhos...pude sentir o calor do corpo de uma menina que estava pertinho de mim. Que saudade estava disso depois de dois anos morando nos EUA, onde o espaço físico do outro não deve ser invadido. Fiquei com saudade deles.
Meus entrevistadores

Gente... escrevendo agora, me dou conta que quando comecei esse blog estava percorrendo uma jornada dura, na luta contra o câncer do meu marido, esse blog nasceu como uma terapia para mim na época, todos os posts dessa época falam disso; em seguida a jornada morando nos EUA e tudo que aconteceu comigo lá..... e agora percebo que mais uma jornada começa aqui, em Seul na Coréia do Sul... Quero dizer que conto com a companhia de vocês e adoro quando vocês me escrevem e comentam o post. Ficarei contando e refletindo aqui nesse espaço sobre as minhas experiências nesse tempo meu que começa agora. No fim do ano estarei em Bali para o reveillon, e contarei pra vocês como é esse lugar mágico que jamais sonhei conhecer.... e já tenho outras viagens agendadas para logo mais aqui na Ásia.

Conto com a companhia fiel de voces.
Escrevam, comentem...me contem como estão sendo tocados pelo meu blog. Eu agradeço.

Beijos


Ludmila Rohr

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

CONFESSO QUE VIVI

Hoje foi meu último dia em Houston, estou mudando para Seul na Coréia.

Dois anos atrás eu chegava em Houston no Texas e me descobria apaixonada por aquela que seria minha casa por esse período. Houston é organizada, moderna, bela, limpa e fácil de se locomover. Adorei me perder e me achar nessa cidade imensa e cheia de viadutos e highways. É certo que nesses dois anos também fiz várias viagens ao Brasil, várias aqui dentro dos EUA e até a Europa. Foram 2 anos de muitas milhas de vôos, de descobertas de novos lugares, novas pessoas, novas paisagens e principalmente, foi um tempo de me descobrir capaz de viver em outras culturas e de sentir que posso estar e ser feliz independente do lugar.

Esse foi um tempo muito excitante para essa capricorniana que adorava uma rotina. Vivi na prática aquilo que sempre soube, que minha estabilidade, de verdade, é interna. Gostei imensamente disso. Me dou conta de uma sensação inebriante de liberdade no meu corpo e na minha alma quando penso nisso! Nunca me senti tão livre e tão expandida. A liberdade que vem do desapego e da meditação ( e como meditei nesses dois anos!!). A liberdade que nasce do aprendizado e da resignificação de muitas coisas. A liberdade que vem de uma nova ordem de prioridades e da certeza que tenho que não preciso manter na minha vida nada que me impeça de crescer e de ser feliz.

Meu trabalho que antes era focado no consultório, teve que ganhar asas, tive que ser criativa e inventar uma nova firma de trabalhar. Criei um site sobre Sexualidade Feminina e escrevi um livro, além dos grupos de Respiração e Círculo das Deusas que fiz aqui em Houston que me alimentaram profundamente. Descobri que a forma e o lugar é o que menos interessa, que independente de onde eu esteja sempre terei algo para dar e muito para receber. Estou em paz com isso. Posso trabalhar em qualquer lugar e tenho certeza de que posso criar novas formas de fazer isso.

Minha família sofreu muitas mudanças. Caio, meu filho mais velho, ficou no Brasil....isso é o motivo de muita saudade no meu coração, mas nunca achei que algo estivesse errado, ele está seguindo com a vida dele, e isso é perfeito. Tenho confiança absoluta na sua capacidade de encarar o mundo. Ele é lindo, maduro, emocionalmente estável e consistente. Lucas, meu caçula, que veio conosco, está tendo a chance de estudar em uma universidade americana, com nossa ida, vai ter a chance de morar só e de cuidar da vida dele. Isso não é incrível? Quem não gostaria de ter uma chance dessa? Eu gostaria. Apesar da saudade, fico feliz e em paz com esses arranjos que a vida fez. Meus filhos são pessoas muito interessantes e são pessoas melhores que eu. 

Quando sai do Brasil não só deixei minha cidade, minha família e meu trabalho, deixei também amigos queridos. Nunca achei que teria problemas em fazer amigos, principalmente porque sei que amizade consiste em troca, em dar e receber, e como sou disponível para dar e aberta para receber, sempre penso que farei amigos em qualquer lugar. Mas essa estadia em Houston me possibilitou não apenas fazer amigos, mas ter encontros de alma, conheci pessoas que entraram na minha alma e deixaram marcas profundas, daquelas que o tempo não apagará. Pessoas incríveis que só posso concluir que minha alma mereceu encontra-las. Falarei delas em outro post, mas tenho certeza de que elas sabem dessa conexão que me refiro. Obrigada amigas serei grata por toda a vida, e tenham certeza de que gratidão é um dos sentimentos que mais adoro sentir! 
O Mundo é o meu lugar

Não seria capaz em apenas um post de dizer tudo que vivi e aprendi sobre mim e sobre a vida nesses dois anos. Anos que foram intensos com seus ganhos e perdas, e como sempre desejei estar inteira nas minhas experiências, como sempre quis vivê-las com intensidade e nunca pela metade, posso desde já afirmar que meus desejos foram atendidos.

Plagiando Neruda posso dizer: Confesso que vivi.

...e que venha TUDO que a VIDA preparou pra mim!!!

Coréia estou chegando!!

Ludmila Rohr

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ELE REVELOU AS DEUSAS QUE EXISTEM EM MIM

Essa semana mais um mestre se foi.
Roger Woolger morreu.
A psicologia perdeu um mestre. 
O mundo perdeu uma pessoa iluminada.
Eu perdi um professor e um grande amigo.

Tentarei falar para quem não o conheceu já sabendo que essa missão será impossível. Roger foi uma pessoa tão especial que não serei capaz de traduzi-lo. Tenho que começar dizendo que não conheci na minha vida alguém tão especial quanto ele. Não consigo imaginar a psicóloga que eu seria se ele não tivesse feito parte desse caminho. Não consigo imaginar a pessoa que eu seria se ele, com seu saber tão amoroso não surgisse em minha vida.

Tento escrever sobre Roger e as lágrimas brotam o tempo inteiro...choro de pensar que ele não está mais entre nós, choro de pensar que não o encontrarei mais em algum lugar por aí.

Roger Woolger, era um PhD, ele formou em psicologia na Inglaterra, país onde nasceu. Desenvolveu um trabalho lindíssimo com Terapia Regressiva. Ministrava cursos de formação em Deep Memory Process em vários países do mundo, e foi assim que o conheci nem lembro quantos anos atrás quando ele ministrava um workshop na Bahia de Terapia Regressiva e resolvi ser sua aluna. Ele publicou alguns livros, sendo que dois deles publicados no Brasil e bastante conhecidos, "A DEUSA INTERIOR" e "AS VÁRIAS VIDAS DA ALMA".

Me apaixonei por aquele professor que sempre começava uma aula nos fazendo escutar uma música (normalmente clássica ou ópera) e um poema ( Rumi era seu poeta favorito). Nunca conheci ninguém tão culto quanto ele, mas apesar de tanta cultura, dos idiomas que falava, de tantos países que conhecia, ele era absolutamente simples, nunca conheci alguém tão especial e tão simples. Culto, sofisticado e simples. Uma pessoa aberta e disponível para ensinar e para aprender.

Durante 2,5 anos fui aluna dele. Aprendi com ele aquilo de mais precioso que conheci na psicologia. Cada vez que penso nas experiências que tive ao seu lado, nas profundas viagens ao encontro da minha alma e da minha sombra conduzidas por ele, mais sinto o quanto fui abençoada por tê-lo conhecido. Roger me deu tanto...tanto... que choro de gratidão só de pensar. Ele foi testemunha de uma parte da minha alma que só pude ter acesso por que ele me conduziu com segurança e amorosidade até lá. 

Certa vez o hospedei na minha casa, ele permaneceu lá por algum tempo enquanto terminava de organizar um livro que era uma coletânea dos poemas que ele costumava usar em seus seminários. Ele trabalhava o dia inteiro sem sair do quarto. Jantávamos e conversávamos todas as noites regadas a vinhos que ele apreciava e conhecia, enquanto ouvíamos suas histórias. Minha família se encantou por ele, até minha empregada que não entendia nada que ele falava, caiu de amores por ele.

Sempre me senti muito especial ao lado dele e confesso que queria muito acreditar que eu realmente era especial para ele, a despeito de saber que ele fazia com que todos se sentissem assim. Quando terminei de escrever um livro (ainda não publicado) sobre Sexualidade Feminina, comentei com ele, que apesar de ser ocupadíssimo, se ofereceu para ler o livro e me dar um feedback. Tempos depois, ele me escreveu dizendo que queria prefaciar o livro, se eu aceitaria. Se eu aceitaria????? Eu nem podia acreditar naquilo que lia. Ele então, escreveu um artigo em seu site sobre meu livro, que voces podem acessar nesse link ( Sexualidade Feminina ). Quase morri de felicidade e honra! Quando recebi o prefácio, nem pude acreditar no que lia. Entendi que ele acreditava mais em mim do que eu mesma.  

Minha vida tem muitos marcos, e Roger é um deles. Roger Woolger demarcou minha vida e minha alma profundamente. Sou, antes dele e depois dele. Roger Woolger revelou minhas Deusas e minha sombra. Ele me ajudou a fazer conexão com a luz mais forte da minha alma ao me levar aos lugares mais assustadores da minha sombra. Ele me ajudou a descobrir que eu não devia temer o meu poder!

Roger Woolger foi um mestre, um amigo, e continuará sendo eternamente uma referência.

Te amo meu amigo.. Sou uma Athena que adorava estar na sua presença.
O mundo ficou menos iluminado sem sua presença e meu coração chora triste sua partida.

Roger fazendo sua despedida do mar de Salvador-BA
Descanse em paz.

Ludmila Rohr




sábado, 12 de novembro de 2011

CURVA ORGÁSTICA

Nunca fiquei tanto tempo sem postar aqui. Ontem completou 1 mês do último post. É verdade que tenho andado bastante ocupada. Comecei a organizar várias mudanças. Dia 7 de dezembro mudo para a Coréia do Sul, moraremos por um tempo em Seul, tenho que mandar coisas minhas para lá, mandarei de volta para o Brasil muitas outras coisas, e ainda estou organizando a mudança do meu filho que ficará aqui no Texas morando sozinho. Tudo isso sozinha já que o marido esteve todo esse tempo trabalhando na Coréia.

Entretanto por mais ocupada que eu esteja, sei bem que esse não é o motivo de não ter postado nada no Blog nesse mês. A explicação está na CURVA ORGÁSTICA. Estive nesse último mês vivendo o fim de uma curva imensa. O tamanho da tensão que antecedeu o seu ápice, que é o orgasmo, é proporcional ao tamanho do prazer e do relaxamento posterior......Estive, nesse mês de silêncio aqui do blog, naquele momento em que não há nada a ser feito após o gozo ... apenas relaxar...e reviver a memória dele.

Sob um olhar "bioenergético" o orgasmo físico acontece após a excitação sexual alcançar seu nível de tensão máxima, resultando em uma descarga de energia, que no corpo, sentimos como prazer. Ser capaz de acumular energia e concentrá-la, ou seja, dar conta da excitação, e em seguida ter habilidade de permitir que a descarga aconteça, nos torna pessoas POTENCIALMENTE ORGÁSTICAS. Quanto maior a nossa capacidade de dar conta da excitação, maior será a descarga de energia ... maior será o orgasmo, maior será o prazer experienciado, maior será "Curva Orgástica". Aumentar a nossa potencia orgástica é um trabalho bem interessante no sexo e na vida. 

Nos descobrirmos capaz de suportar (dar conta) uma carga energética cada vez maior, nos levará a experimentar prazeres cada vez maiores também. Descobrir que somos capazes de sonhar e desejar alçar vôos maiores, nos levará a experiências cada vez mais incríveis. Perceber que podemos muito mais do que imaginamos, que podemos sustentar cargas de tensão grandes e da mesma forma experimentar prazeres maiores, é a grande delícia da vida.

O Ciclo orgástico que faço referência no início desse texto e que entendo como o maior motivo para estar ausente do blog por um mês, não é exatamente o orgasmo que imediatamente pensamos, embora seja tão gostoso quanto. Lancei um livro. Esse foi o orgasmo que vivi recentemente pela primeira vez. Esse era um orgasmo inédito. Muita tensão que antecedeu o momento do lançamento....descarga na mesma proporção... prazer na mesma intensidade.

Depois do livro....nada a ser feito...apenas ficar quietinha...respirando...e sentindo....o prazer enorme que ele me proporcionou, que só de lembrar, posso sentir outra vez...

Estou voltando....meio cambaleante ainda .... mas, quem já gozou um dia, sabe exatamente do estado que estou falando.... e de como ficamos assim...meio que em êxtase... na verdade, nada de meio, em inteiro e completo êxtase!!!

Obrigado por me aguardarem aqui...
Na próxima semana falo do livro!

Ludmila Rohr

terça-feira, 11 de outubro de 2011

PARA ONDE O AMOR ME LEVAR...

 Desde que me mudei para os EUA, tenho meditado muito. A meditação já era uma prática comum e regular na minha vida desde os meus 16 anos quando encontrei o yoga. Mas nesses últimos dois anos tenho meditado muito mais do que sempre fiz. Sair do meu país e deixar para trás uma carreira de psicóloga clínica com clientes que lotavam meu consultório, não foi fácil. Deixei no Brasil um filho também. Meus pais, minha irmãs, meus amigos, uma cidade que faz parte da minha história e onde eu me reconheço em cada esquina. Gostava muito da minha vida lá. Nenhuma reclamação, além das que todo brasileiro tem. Realmente amava minha casa e minha rotina. 

As pessoas me perguntam porque eu vim para os EUA? Posso responder de várias formas. Posso dizer que penso que essa é uma experiência incrível, que eu queria poder morar em outros lugares, conhecer nova cultura e idioma, posso dizer que seria bom para meu filho caçula estudar em uma universidade americana..., mas nada disso é verdade. A verdade tem a ver com a certeza que tenho que a vida é fugaz, tudo se perde de repente, nada é permanente... o tempo passa muito rapidamente e a única coisa que levarei dessa vida é o amor que amei. Não sei quando vou morrer, ninguém sabe, mas sei que quero viver até o fim ao lado do meu amor. Então a resposta mais sincera é: Porque eu quero viver ao lado do meu amor todos os dias possíveis da minha vida.

Já tentamos viver longe um do outro, mas não conseguimos. Claro que não "morremos" nessas "separações" eventuais, mas a vida fica tão sem graça. Ele poderia ter desistido desse trabalho se eu não quisesse vir, e tenho certeza de que ele faria pelo mesmo motivo, porque me ama. Ele já fez isso em outros momentos, mas essa foi a minha vez. 

Não tenho apego a coisas. Não me sinto obrigada a ser fiel a nada. Posso mudar de opinião e direção. Nunca tive sonho de viver nos EUA , nem acho que isso aqui é uma grande coisa, acho que é um lugar como outro qualquer, cheio de defeitos e qualidades. Nunca acreditei, nem busquei um Xangrilá. Sempre soube, por conta de tantos anos de meditação, que esse paraíso estava dentro de mim e me acompanharia aonde eu fosse. Nunca localizei em coisas ou em lugares o meu bem estar. Por isso, posso perder sem me desesperar e posso ganhar sem me envaidecer. Sinto uma liberdade enorme nisso. Nenhum lugar é o "inferno", muito menos o "céu", mas me dou conta de que só não posso ficar  muito tempo longe do meu amor. Esse é o meu limite. A vida é tão curta, quero viver a minha vida ao lado dele o máximo possível.

Sinto saudades dos meus filhos. O amor que tenho por eles é maior que o mundo, mas posso ficar longe deles. Não os criei para viverem comigo. Eles terão suas vidas e terão suas famílias. Acho lindo pensar que eles podem viver bem sem mim e eu posso viver bem sem eles por perto. Tenho por eles um amor desapegado...que oferece liberdade....é verdade que as vezes a saudade aperta, mas não acho que existe algo de errado em estamos distantes fisicamente. Não pensei em uma vida com meus filhos ao meu lado para sempre..., mas confesso que sonhei e sonho com uma vida com meu amor ao meu lado para sempre...

O mais legal é pensar que mesmo amando-o tanto e de dois anos para cá, seguindo-o por aí, nunca precisei abrir mão de nada da minha vida. Fiz algumas adaptações, é verdade. Mudei a "forma" do meu trabalho. Não tenho mais consultório na forma de uma sala, tenho o skype. Não tenho mais uma sala de aulas com alunos regulares, tenho o twitter e esse blog, e por incrível que pareça nunca me senti tão criativa e produtiva. Acabei de lançar um livro e outro está a caminho! Percebi que minha energia de trabalho pode continuar viva apenas mudando a forma de se expressar. É bem verdade que desses dois anos que moro aqui, fui ao Brasil 6 vezes a trabalho. 

Em breve estaremos mudando para a Coréia, passaremos algo em torno de dois anos lá. Mais um país a desbravar, culturas e idiomas diferentes. Estou muito excitada com essa perspectiva. Penso que viverei entre Salvador onde estão mãe, irmãs, um filho e trabalho, Houston onde ficará outro filho e Seul onde estará meu amor. Se me perguntarem onde é minha casa, responderei: Onde estiver meu coração!  Acho que minha casa só tem crescido nesses anos...que bom, né? 

Que bom meditar e perceber que o amor que sinto faz meu mundo se expandir.

Ludmila Rohr


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CHEGADAS E PARTIDAS

Tenho vivido momento bem intensos em relação a esse tema.
Tenho a sensação de que de uns tempos para cá, minha vida tem sido uma sequência interminável de "Chegadas e Partidas".

Dois anos atrás me mudei de Salvador na Bahia, pra Houston no Texas. Grande mudança, principalmente porque deixei no Brasil um filho e uma vida que eu amava. Não fiz essa mudança porque estava insatisfeita com minha vida, muito pelo contrário. Adorava a vida que levava.

Nesse mesmo tempo perdi dois amigos queridos para o câncer. Gustavo e Verinha lutaram por suas vidas por longos e sofridos anos, mas nos deixaram e eu ainda sinto muito a falta deles. ( ELA SE FOI e RESPEITO É BOM E É CURADOR )

Três mêses atrás meu pai se foi, ainda é difícil falar sobre isso sem chorar. Ele foi uma pessoa muito especial e incomum. Falei sobre essa partida em A LUTA CONTINUA COMPANHEIRO

Meu primeiro mestre yogue, Swami Shurimahananda,  ( Ao mestre com carinho ) desencarnou logo em seguida e, hoje soube que meu grande mestre da psicologia, aquele que transformou minha vida, me conduziu a um mergulho profundo na minha alma e me ensinou o que é ser uma psicóloga, Roger Woolger, PhD., está partindo também. Eles foram minhas primeiras referências espirituais e da psicologia. Tanto Shurimahananda quanto Roger, marcaram minha vida de uma forma muito intensa, a ponto. Posso me compreender antes e depois de Shurimaha, assim como, antes e depois de Roger. 

No meio de tantas perdas, tenho que lidar com minha mudança para a Coréia do Sul. Estarei morando lá, a partir de dezembro e deixarei em Houston, meu outro filho e tantos amigos queridos que fiz aqui, que nem sei ainda como será isso, mas sei que será bem difícil.

Apesar de tantas perdas não me sinto frágil, e muito menos, desestruturada. Sinto minha força mais que nunca, talvez até mesmo porque precise lidar com tantas dores. Minhas forças estão aqui. Me sinto em paz e criativa. Me sinto estimulada e corajosa, mas sinto saudade...muita saudade de um tempo que tudo era mais simples. Sinto que perdi algo com todas essas "partidas", perdi uma certa ingenuidade. Estou em contato com uma Deusa com quem sempre flertei, estou mergulhada em Perséfone, mergulhei nos aspectos desse arquétipo. Estou mais sombria, mais intuitiva, mais mergulhada em mim, recolhida é a palavra. A minha face Perséfone tomou conta de mim nesse momento da minha vida. Gosto dela.

Bom, estou indo para Salvador, e dia 29 de setembro será o lançamento do meu "livrinho", "AS TRÊS CERTEZAS LIBERTADORAS", que nasceu a partir de muita meditação e depois de uma palestra com esse mesmo nome. Gostei de escrevê-lo. Não sou escritora, definitivamente, sou no máximo uma psicóloga  blogueira. Mas foi legal escrevê-lo, pois falei sobre algo que tenho refletido muito, que acredito e tenho experimentado na minha vida. A palestra foi feita no improviso e o livro saiu nasceu sem muito esforço também.  

Como disse muito bem Milton Nascimento,

"E assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem. 
O trem que chega é o mesmo trem da partida.
A hora do encontro é também despedida.."

assim estou....não sei mais onde é o começo e o fim de algo..
Não distinguo as chegadas das partidas.
Não tenho mais de forma clara qual o tipo de lágrimas que nascem dos meus olhos... choro de saudade...de alegria, de amor...

Estou chegando em Salvador, verei e me despedirei (mais uma vez) de tantas pessoas que amo...

Apareçam no Espaço Mahatma Gandhi pra me ver ... 
Minha agenda já está disponível na secretaria (71) 3248-7533 , serão apenas 15 dias no Brasil...chegarei e partirei..voltarei pra Houston e partirei para a Coréia... e assim continuará a ser.. 


Ludmila Rohr

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Estive viajando. Passei 10 dias entre a Alemanha e Rep. Tcheca. Amei essa viagem. Lugares lindos ... alguns revisitados, mas pela primeira vez fui a Praga. Amei Praga. Amei suas ruas e sua história. Andava pelas ruas de Praga e relembrava do incrível  "A Insustentável Leveza do Ser" de Kundera,....esse livro e a "Primavera de Praga" marcaram minha adolescência... fui pega pela mesma sensação que ele despertou na época....ainda estou assim...

Prestes a me mudar dos EUA, onde vivo agora, para a Coréia, onde provavelmente viverei por algum tempo, sinto que fui inundada por uma vibração forte vinda da minha alma. Todo o meu corpo reverbera essa vibração, e o nome dela é SAUDADE.

Estou com saudade ... estou com muita saudade, e não pensem que sinto saudades dos EUA...não, não é desse país que sinto saudade embora tenha passado tempos muito bons aqui, mas a minha saudade é muito antes disso. Conheci pessoas lindas aqui e delas sentirei muita falta, isso é verdade, mas a saudade que me toma agora é muito maior do que a que uma mudança geográfica pode produzir... Tenho saudade de mim. Tenho saudade de algo em mim. Tenho saudade de uma sensação que existia em mim e que parece que não existe mais. 

Tenho saudade da minha vida no Brasil... Tenho saudade da minha rotina lá. Saudade do meu trabalho, do consultório, dos alunos...Tenho saudade de acordar cedo, ir trabalhar...de ver meus filhos em casa... de voltar pra almoçar...de chegar em casa de noite, cansada de um dia de trabalho, mas muito satisfeita....de conversar com meu marido sobre o quanto eu estava feliz com a aula que havia dado...com os atendimentos que havia feito..

Me pego sentindo saudade de mim, da pessoa que eu me reconhecia ser. A insustentável Leveza do Ser... 

Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade do meu cachorro que morreu essa semana (lá no Brasil), tenho saudade de meu filho que está lá... já tenho saudade do filho que deixarei aqui... Tenho saudade da sensação de ter uma rotina conhecida (sou capricorniana, adoro minha rotina) ... Tenho saudade de um tempo que fazia planos e eles eram simples de serem realizados...sinto saudade de uma leveza... A insustentável Leveza do Ser...

Toda essa saudade convive com uma excitação pelo novo, pelas possibilidades de crescimento e aprendizado..., não sou cega a isso, muito menos fechada para isso. Quero muito que a Ásia entre na minha vida...quero muito conhecer novos lugares, novas comidas, novas pessoas...quero muito tudo que a vida tem a me oferecer e, no fundo sei que tudo isso foi, e é muito desejado..., mas não posso negar que nesse momento o que mais sinto, é saudade...

Sinto saudade do tempo em que eu acreditava que a leveza era sustentável ..
Sinto saudade de um tempo em que as consequências pareciam menos categóricas..., pareciam menos dramáticas...menos contundentes... Saudade de um tempo que os recomeços eram mais fáceis...

eu tirei essa foto...em Praga...
Sinto saudade de um mundo mais aconchegante e com mais bordas....agora tudo parece amplo demais...aberto demais...e com retornos de menos...  A consciência cada vez mais forte de que não existem retornos possíveis...de que o tempo não volta...de que o que está feito, está feito...

Estou bem. Não se preocupem...só estou com saudade, e entendi que o tempo não fará isso passar, apenas relativizará o que sinto...

O tempo me dará outras perspectivas de análise...e me fará ver o quão tudo é impermanente....

Tudo, menos a saudade...

Ludmila Rohr


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AO MESTRE COM CARINHO

Eu estava com 16 anos quando a conheci. Já se passaram 32 anos desde então. Buscava algo que fizesse sentido na minha vida. Eu era uma adolescente velha. Não tinha interesse algum em nada que as pessoas da minha idade tinham. A sensação era de ser uma E.T. Nada me atraía. Apesar de ser baiana, odiava carnaval e não era de festas, nem de multidão. Não suportava conversas que julgasse bobas e poucas coisas no meu mundo naquela época pareciam interessantes ou que valessem a pena para mim.

Havia lido algo sobre yoga e sobre a Índia. Entendi que queria muito conhecer aquilo. Queria para mim o mundo da meditação e do Yoga. Foi assim que a conheci. Ela era uma professora de yoga. Eu a amei desde o primeiro dia que a vi. Sua voz e sua energia me levaram a sentir algo que eu nunca havia sentido antes. Ela trouxe significado para minha vida e me levou a sentir que as coisas tinham um porquê. Eu senti que havia me reencontrado. Que eu havia encontrado minha alma e um caminho para minha espiritualidade se expressar.

Swami Shurimahananda não era uma pessoa comum. Ela era absurdamente forte e impactante. Tinha uma energia impressionante. Era impossível que ela passasse despercebida em qualquer lugar. As pessoas a amavam ou detestavam. Eu amei. Por muito tempo ela foi o meu mestre. Entendi que ela tinha muito a me ensinar e abri meu coração para aprender. Ela falava de Jesus apaixonadamente. Aprendi sobre Buda, Krishna, Babaji, Mahatma Gandhi, sobre os Mestres Yogues, sobre Kabala, Numerologia, Cristais, sobre os Chakras, percebo que aprendi tantas coisas que pude depois desenvolver e aplicar na minha vida que nem conseguiria listar. Entretanto consigo destacar que dentre tudo que vivenciei, o que aprendi de mais importante foi sem dúvida alguma sobre Karma Yoga, sobre o servir ao próximo, sobre voluntariado. Aprendi a amar o SERVIR. 

Por muitos anos fui voluntária no Plantão da Fraternidade, serviço fundado por ela. Atendíamos por telefone, 24 h por dia pessoas que buscavam carinho, conselhos e até mesmo aquelas que buscavam apenas serem ouvidas e sair da solidão. Amava isso. Amava ser plantonista. Amei muito. Servi e Amei muito. Como não ser grata a essa pessoa que me favoreceu isso? O Yoga e o Plantão da Fraternidade continuaram na minha vida até hoje, me tornei uma  Professora de Yoga e uma Psicóloga.

Ela tinha lindos e penetrantes olhos azuis que me acolheram tanto e por tantos anos. Ela celebrou meu casamento, viu meus filhos nascerem, foi testemunha da minha transformação de uma adolescente insatisfeita em uma adulta buscadora. 

Shurimaha não era uma pessoa fácil. Poderia fazer uma lista enorme de coisas que não gostava nela, mas não faria isso. Sou tão grata por tanto que recebi. Ela se foi desse mundo. Hoje só quero agradecer publicamente por tudo que ela me deu, e não foi pouco. Um mestre é aquele que ensina algo, e ela me ensinou. Tenho um histórico pessoal muito positivo e inesquecível com ela.

Um dia ela me deu um nome espiritual, me chamou Halina. As pessoas que me conhecem dessa época lembram disso. Amei esse nome. Ela me disse que Halina significava: "Aquela que dá sabor". Amei. Adorava ser Ludmila, que meu pai me deu ao nascer,  que significa "Amada pelo Povo" e amei ser chamada espiritualmente de Halina. Triste pensar que os dois se foram desse mundo quase que na mesma época. 

Ao saber do seu desencarne senti uma gratidão enorme no meu coração. Sou grata à vida por ter te encontrado e ter tido uma adolescência tão atípica que me fez a pessoa que sou hoje. Sou grata por ter vivido experiências tão fortes ao seu lado. Sou grata por por tantas coisas... que só posso dizer: 

Muito Obrigada Swami Shurimahananda por ter me entendido, respeitado e me amado até no momento que não consegui mais estar ao seu lado e te deixei.

Shanti....!

Halina


terça-feira, 9 de agosto de 2011

O QUE ME SEPARA DE MIM MESMA?

 Os opostos sempre me atraíram.  Gosto muito do conceito de "Sombra" que Jung ofereceu para a psicologia. Assim como gosto muito da idéia do "Inconsciente" de Freud. Gosto de pensar que existem partes em mim que não conheço ou que são inconscientes. Sinto-me desafiada e estimulada e descobrir o que existe por trás das primeiras impressões.

Sempre que conheço alguém ou vivo uma situação diferente na minha vida, gosto de me perguntar sobre os aspectos daquilo que não estou vendo pelo simples fato de estar olhando para aquela face que se mostra. 

A imagem que vi e registrei na foto que publiquei no último post ( O que voce pensa/sente ao ver essa foto? ) foi mobilizadora de muitos conteúdos em mim. Era uma momento simples. Havia levado minha mãe para passear em um zoológico na Alemanha. Nada de muito complexo ou subjetivo naquela experiência, até que me deparei com aquela criança que admirava aquele bicho tão grande. Protegida por um vidro espesso, ela que era tão frágil e parecia tão vulnerável diante daquele animal que provavelmente a destruiria com o próprio peso, me pareceu uma imagem incrível. Fotografei.

Nem lembrava dessa foto até que por conta de um recurso automático e aleatório do facebook, ela apareceu diante de mim, na minha página. Parei pra admirá-la. Confesso que estava sem nenhuma inspiração para escrever para esse blog e tive a idéia de colocá-la aqui com um questionamento. Queria saber se outras pessoas seriam mobilizadas por ela como eu fui, ou de que forma seriam mobilizadas.

Recebi muitos comentários, além dos que ficaram registrados no blog. Pessoas me enviaram emails falando sobre impressões que tiveram. Umas  falaram sobre lembranças de quando eram crianças, diante de autoridades, mas a maioria descreveu impressões conceituais de energias e características opostas que sentiam que habitavam suas mentes e suas almas.

Três elementos chamam minha atenção nessa foto. A criança pequena, ingênua e frágil, o animal absurdamente forte, grande mas quieto e, o terceiro elemento, que Helena trás a tona em seu comentário, que é o vidro que separa os dois.

Se penso na criança como a minha mente consciente e o animal como símbolo de conteúdos poderosos e adormecidos, o que seria esse vidro? O que faria essa separação entre o que sabemos de nós, e desse poder absurdo? adormecido ... quieto ... mas vivo, ...ali ... parece que esperando ser despertado. Parecendo um poder que tanto pode ser destruidor como exatamente o oposto. Algo que poderia nos destruir e ao mesmo tempo nos salvar.

Se todos os elementos da foto podem ser vistos e entendidos como partes de mim mesma, o que é esse vidro? O que me mantém separada de uma porção tão poderosa que me pertence? Seria possível rompê-la? Seria possível incorporarmos essa energia? Seria possível trazermos essa porção poderosa para a consciência e nos apropriarmos dela?

Como se esse blog fosse um grande grupo de terapia, quero deixar uma segunda pergunta para vocês:

 "Se encararmos o animal como um poder, o que estaria nos separando dele?"

Ludmila Rohr

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O QUE VOCE PENSA/SENTE AO VER ESSA FOTO?

O que voce pensa e/ou sente ao olhar essa foto?
Que pensamentos ou lembranças são mobilizadas?
Que memórias são evocadas?
ou.... o que ela representa pra voce? Como voce a descreveria?
Consegue pensar em uma metáfora diante dela?

Visitando um álbum de uma viagem que fiz em 2008 a Alemanha encontrei essa foto que tirei no zoológico de Koln. Lembrei exatamente da sensação que tive ao ver essa cena e que me levou a tirar essa foto. O contraste entre a delicadeza e fragilidade da criança e a força do animal me chamaram atenção e me me fez refletir sobre a nossa alma, sobre as forças opostas que coexistem dentro de nós.

Vou escrever sobre isso a partir das respostas que chegarem... 


segunda-feira, 25 de julho de 2011

RELATIVIZANDO DORES E PERDAS (ALMA CHEGANDO)

Duas semanas ou três semanas sem postar...
Depois que cheguei do Brasil não tive tempo, nem energia ou inspiração pra isso. Sempre tenho a sensação, depois de uma viagem dessas, de que meu corpo chega, mas minha alma vem devagarinho...vai chegando aos poucos... Respeito isso.

Esses dias algumas pessoas começaram a me cobrar posts novos. De verdade não me sinto cobrada, nem tenho um impulso de escrever para atendê-las. Sei também que elas fazem isso com carinho, acho até bonitinho sentirem falta do meu blog. Agradeço e respondo que logo logo escreverei, mas espero meu tempo chegar... 

Hoje fiquei com uma pequenininha vontade de escrever...parece que por uma fresta pequena e ainda estreita minha alma começa a se instalar em mim outra vez. Aos pouquinhos estou ficando inteira de novo.

A alma que encontra meu corpo nessa volta do Brasil é uma alma com algumas marcas e mais sensível. A alma de quem perdeu o pai adorado ( me despedi dele três posts atrás). A alma de quem não sabe como é o  país que estará morando dentro de alguns mêses, a alma que sabe que em breve deixará para trás uma cidade que aprendeu a amar, amigos queridos que construiu ... A alma de quem se afastará geograficamente do segundo filho em breve, e terá que acostumar com os dois filhos longe...bem longe....

Tenho uma forma de lidar com as coisas que me parece interessante. Gosto de pensar no que vou aprender de novo. Gosto de pensar nos ganhos que terei ou tive me cada situação, mas não dá pra esquecer que tudo tem um preço. Não dá pra fazer de conta de que tudo são flores. Não sou assim, e nem conseguiria ser.

A próxima grande mudança na minha vida, que tudo indica que será para a Coréia do Sul, vai me colocar perto de vários países que tenho a maior curiosidade em conhecer, mas vai me deixar longe de muitas pessoas e coisas que amo. Estarei bem pertinho da China, Japão, Indonésia, Laos, Vietnan, Butão...enfim, tantos lugares que não conheço e sempre quis conhecer e estou excitada com isso.

Tenho a sensação clara de que vou porque tenho mais a ganhar do que a perder e, tentarei entender como afastamento e não como perda, aquilo que deixarei aqui quando for. Entendo que Houston e os amigos que fiz são uma expansão do meu território e das minhas conquistas e não como perdas que terei. Sinto que voltarei sempre que quiser e os verei de novo... bem diferente da perda do meu pai que não o verei mais quando voltar ao Brasil. Essa sim, uma perda de verdade.

Depois de lutar por dois anos ao lado do meu marido contra um câncer aprendi ainda mais a relativizar as dores e os problemas. Parece que muitas coisas perdem importância depois disso ou são redimensionadas. Depois da morte do meu pai, aprendi a relativizar as perdas. O que é realmente perda diante disso? Só as mães que perdem seus filhos continuam a me comover completamente sem que exista relativização possível na minha mente. As outras perdas que vejo amigos e pessoas queridas passarem, todas eles me deixam compassiva, mas não me provocam pena.

Bom...minha alma está fluindo....sem pressa vai chegando...

Obrigada a todos que me aguardaram e ainda aguardam...
.... estou chegando devagarinho....

Ludmila Rohr






sexta-feira, 8 de julho de 2011

EU ERA FELIZ E SABIA !!!!

Tenho muita pena da pessoa que com pesar, constata que "Era feliz e não sabia"

Pra mim essa frase diz respeito a um arrependimento de não ter curtido ou mesmo valorizado algo que tinha, e que só percebeu quando perdeu e não a  tem mais. 

Não lembro de ter sentido isso na minha vida. Não lembro de ter usado essa expressão, de forma séria, alguma vez. A minha necessidade de viver cada dia como se fosse o único me coloca em contato com uma noção do presente e com uma vivência intensa dele. Não sobra espaço para arrependimentos de algo que não vivi por que fui descuidada ou por não ter valorizado o suficiente. 

Ontem nessa minha quarta semana em Salvador, fui a um restaurante em Itapuã que fez parte da minha vida por muitos anos. Eu e meu marido o freqüentávamos quase todas as semanas nos últimos 15 anos que moramos em Salvador. Conhecíamos todos os garçons, e escolhíamos nossos pratos sem nenhuma necessidade de olharmos o cardápio, de tão familiar que ele nos era. Desde que mudamos para os EUA, não tínhamos voltado lá. 

Além do atendimento e comidas perfeitas, esse lugar nos evoca tantas boas lembranças.... Quando saí do restaurante pensei que se eu tivesse que voltar a morar no Brasil hoje, eu voltaria feliz. Me dei conta de uma sensação deliciosa de alegria. A única frase que vinha na minha mente era: "Eu era feliz e sabia!" Sempre soube...

Uma vez ouvi um ensinamento indiano em forma de parábola. Era assim: 

"No portão que dava acesso a uma pequena vila na Índia, morava um sábio e seu discípulo. Cada pessoa que entrava na vila conversava com o sábio, as perguntas mais comuns eram a respeito de como eram as pessoas que viviam naquela vila. A essa pergunta, o sábio sempre oferecia uma outra pergunta como resposta. Dizia: Como eram as pessoas do lugar onde voce vivia? Algumas pessoas respondiam, - eram más, egoístas, invejosas...por isso saí de lá. Outras diziam: - Eram muito boas, amigas, companheiras, solidárias...foi uma pena deixá-las. A ambas as respostas, o sábio dizia a mesma coisa: - As pessoas daqui, são como as de lá. Seus discípulo ouvindo isso questionou o porquê do sábio "enganar" aqueles viajantes, o que ele respondeu com um ensinamento belíssimo, não as estou enganando, só podemos ver do lado de fora, aquilo que temos dentro de nós. As pessoas sempre encontrarão a si mesmas, independente do lugar que forem."

Quando eu cheguei em Houston, me peguei olhando com encantamento para tudo que a cidade tem de muito bom! Adoro aquela cidade, por mais que veja seus defeitos, não existe a menor chance de sair de lá com algum tipo de sensação de que vivi algo que não gostei, ou de que perdi tempo da minha vida. Adoro aquele lugar e sentirei saudades dele, assim como de todas as pessoas que conheci lá. Tenho certeza de que terei tantas histórias pra contar, tantas boas lembranças... sou feliz em Houston. 

Existe uma chance grande de mudarmos em breve para Seul na Korea. Essa mudança não me assusta, muito pelo contrário, fico extremamente excitada em pensar que poderei passar um tempo conhecendo países asiáticos. Daquele continente apenas conheço a Índia e o Nepal. Morando lá, terei chances de conhecer Japão, China, Laos, Cambodja, Vietnan... só em pensar nisso fico animadíssima. Embora muitas pessoas achem estranho minha animação e tentem me deixar preocupada por ser um país de uma cultura tão diferente da nossa, não consigo deixar de achar que terei experiências incríveis lá. 

Vivi toda minha vida em Salvador na Bahia, nasci e cresci nessa cidade que amo. Conheço seus defeitos. Acreditem, não sou bairrista a ponto de ficar cega para eles, assim como não sou deslumbrada com os EUA para não perceber que assim como aqui, eles também têm seus problemas. Diferentes dos nossos, mas eles também os têm. 

Realmente acredito no ensinamento da parábola do sábio indiano. Acho que o lugar é apenas um lugar, e que não adianta mudar de lugar tentando fugir de algo, pois seus conteúdos e seus olhos irão junto com voce. A simples mudança geográfica não muda a sua forma de lidar com as coisas que estão do lado de fora. É preciso uma reflexão profunda e um reconhecimento da sua responsabilidade pessoal nisso para que algo realmente mude. Conheço pessoas que fugiram do estresse das cidades grandes, em busca de uma vida bucólica no campo, e que vivem muito estressadas com os ruídos dos sapos e das corujas. Mudanças externas precisam vir acompanhadas de mudanças internas para que de fato funcionem. 

Me dou conta de que amo Salvador e que poderei voltar a morar aqui e serei feliz. Amo Houston, ficarei com saudades de lá...amarei Seul...tenho certeza disso, porque um dos meus mantras pessoais e que me definem é: "O que existe aqui, existe lá. Se não existe aqui, não existe em lugar algum."

Eu era feliz em Salvador, sempre soube e disso. Sou feliz em Houston, (apesar dos dias de saudade imensa) não podia ser diferente. Serei feliz em Seul ou em qualquer lugar que eu for.

Ludmila Rohr

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O ÓDIO CONTRA UM SER HUMANO, É CONTRA TODOS!

Recentemente, por defender a causa dos homossexuais, fui violentamente ofendida e ameaçada no Twitter.  Embora acredite que as injustiças cometidas contra qualquer criatura são problemas meus também, entendo que normalmente as pessoas pensem que se um problema não as afeta diretamente, signifique que aquele problema não é delas. Esse é, normalmente, o raciocínio das pessoas. Convivo mais com isso do que gostaria. Sei que é dessa forma pequena e egocentrada que normalmente as pessoas vivem.

Esse comportamento egoísta é o que sustenta o Bullying. A grande maioria das pessoas não são nem vítimas, nem agressores em uma situação de bullying. A maioria faz parte do grupo que se cala porque entende equivocadamente  que nada tem a ver com aquilo. Para mim é claro que a maioria silenciosa e por isso mesmo conivente, é que sustenta o comportamento de agressores cada vez mais violentos e confiantes de que não terão seus atos reprimidos. Assim como, essa mesma maioria é que teria o poder de mudar essa realidade.

Tenho acompanhado com interesse especial o trabalho do querido Jean Wyllys, escritor baiano e que no último pleito, foi eleito Deputado Federal. A forma corajosa com que ele luta pelo direitos dos homossexuais me comove. Adoro ler seus tweets e o acompanho com atenção. Normalmente replico seus tweets e reflito sobre preconceito e discriminação. Coloco minha opinião sobre o quão inútil (ao meu ver) é a luta contra o PRECONCEITO, já que o preconceito é interno, é um pensamento, vem de crenças e da ignorância sobre a vastidão do que é ser humano e só teria fim com muita informação e não pela força da lei. Reforço a importância da luta contra a DISCRIMINAÇÃO, que é a ação do preconceito. Acredito piamente que a discriminação deve ser combatida, reprimida e punida pela força da Lei, mas não acredito que possamos acabar com o preconceito usando das mesmas armas.

Normalmente quando estou discutindo esse tema, recebo tweets de pessoas que me perguntam porque me envolvo com isso? Recebo também tweets de pessoas que perguntam se sou lésbica. Minha resposta sempre é a mesma. Digo que isso é um problema de todos nós, que quando alguém é injustiçado, todos nós somos injustiçados também. Esclareço que as causas não existem para atender a necessidades individuais, que as minorias injustiçadas são responsabilidade de todas as pessoas conscientes. Discuto o papel da conivência gerada pelo silencio. Quando me irritam, perco a paciência e respondo que não sou lésbica e também não sou estúpida.

Achar que a causa dos homossexuais que têm seus direitos negados é um problema dos homossexuais é um pensamento extremamente egoísta. Esse é meu pensamento com relação a toda minoria ofendida e violada nos seus direitos. Se podem negar direitos a um grupo de pessoas, quem garante que não negarão a outros grupos e mais outros e um dia teremos perdido nossos direitos e a nossa voz?

Tenho empatia por lutas de qualquer grupo que sinta que seus direitos estão sendo negados, sinceramente, dói em mim. Não preciso ser lésbica ou ter um filho gay, para ter empatia com a causa gay. Quem conhece meu blog já leu em vários posts sobre o quanto isso me incomoda. Odeio a filosofia do "cada um por si", ou do "farinha pouca meu pirão primeiro". Acho a falta de sentimento de coletividade uma doença grave da humanidade.

Essa semana em mais um dia de tweets sobre comportamentos homofóbicos, fui atacada. Recebi ameaças de morte. Me chamaram de "vadia", "rameira", "sapatão" e "puta", disseram que eu "merecia a morte por empalamento", disseram que "Deus não teria tempo de me punir", porque "eles" que se auto-intitulavam "defensores do bem", o fariam. Um dos tweets que foi assinado por um tal de "anjo branco", dizia que "nem para ser estuprada eu servia", que "com minha cara de sapatão" eu deveria ser morta.  Essas são algumas das pérolas produzidas pelo ódio contra os homossexuais que respingaram em mim.

Repliquei muitos dos tweets, e imediatamente pessoas muito carinhosas me defenderam, e diziam que eu não merecia isso, ou que eu não ligasse para eles. Recebi o carinho, mas fiquei muito preocupada com essa reação. Expliquei que nenhum dos tweets violentos haviam "me" ofendido. Que ninguém estava ofendendo Ludmila Rohr, eles estavam ofendendo a todos nós. Não era um ódio contra a minha pessoa, era ÓDIO, simplesmente ÓDIO, e esse sentimento é contra todos. Que eles não deveriam ter pena de mim, e sim de todos nós e de si mesmo também.

O que quero dizer é que o ÓDIO não vê cara. Quem odeia e alimenta ódio, simplesmente exalará esse ódio e mesmo que ele não seja canalizado na minha direção, ele me afetará. O ódio contra um ser humano é contra todos os seres humanos. Cada vez que respiro aliviada por que não fui eu a vítima dessas pessoas, mais eu as alimento. Somos todos vítimas do ódio e precisamos todos combatê-lo independente da direção que ele assuma.

Moro nos EUA, e por conta do meu tipo físico, não sou vítima de nenhum tipo de preconceito contra imigrantes, mas não posso me esquecer que sou uma imigrante quando minha faxineira El Salvadorenha é ofendida. Quando um negro é ofendido por sua cor, eu sou ofendida. Quando um homossexual é ofendido por sua orientação sexual, eu também sou. Quando me perguntam porque me ofendo, respondo: Por que meu mundo seria muito melhor sem os homofóbicos, racistas, xenofóbicos.... o meu, o seu, o nosso mundo seria muito melhor sem o ódio gratuito que essas pessoas disseminam acobertadas por aqueles que calam.

Quero encerrar esse post com esse poema que eu amo e que talvez nos ajude a refletir.

"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, 
e conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta, e já não podemos dizer nada."
Eduardo A. da Costa. (O poema que Maiakovski nunca escreveu)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

DIVIDINDO TETO E CONSTRUINDO INTIMIDADE *


Acredito no casamento. Estou casada há 25 anos e não me arrependo um só dia disso. Nesse tempo construí uma relação que envolve amor, amizade, respeito a  individualidade do outro, sexo de qualidade e admiração. Entretanto como psicóloga tenho visto no consultório muita gente infeliz e culpando seus casamentos por isso. Homens e mulheres vivendo uma vida de infelicidade e traições aos próprios desejos e sentimentos por conta de casamentos falidos. Essas pessoas normalmente relatam um início de vida a dois, cheio de paixão, excitação e sonhos. A grande pergunta que elas se fazem é porque chegaram a esse ponto? O que aconteceu no meio do caminho?

Muitas revistas femininas e livros de auto-ajuda falam sobre como ter um casamento feliz e tentam nos ensinar um caminho seguro para que sejamos bem sucedidos nesse intento. Não tentarei isso aqui porque não acredito em fórmulas, muito menos em manual de instrução que orientem pessoas como serem felizes, também porque penso que o casamento é um terreno complexo demais para fórmulas simplistas. Por isso, resolvi refletir sobre alguns ingredientes que tenho encontrado e que são comuns a todos os casamentos bem-sucedidos e que talvez seja o grande (ou simples) segredo deles.

É frase comum dizer que precisamos cuidar do nosso amor ou que o amor é como uma flor delicada que precisa ser cuidada diariamente. Penso que o amor é um encontro de almas, diferente da paixão que vem de um encontro de corpos, de química e de excitação. Entretanto, tanto um quanto o outro, acontecem sem que pensemos neles. É natural, sem esforços. Somos tomados pela paixão sem que a razão esteja presente. Nos descobrimos amando da mesma forma, naturalmente. Podemos nos apaixonar e amar pessoas que nunca imaginamos ser possível, ou mesmo aquelas bem diferentes de nós. É assim. Simplesmente acontece para os que se disponibilizam e abrem o coração para essas energias e não as temem. Isso é suficiente para namorar e se envolver com alguém e viver momentos quentes, excitantes e felizes.

No entanto, quando falamos de casamento, penso que amar é pouco. Precisamos construir algo muito mais que patrimônio para que ele dê certo. Precisamos ter muito mais que filhos, para que tenhamos chances de sermos felizes. Precisaremos construir intimidade. A intimidade que pressupõe amizade e respeito. Intimidade que se alimenta de admiração e orgulho e que gera desejo e excitação. Intimidade que possibilita que um esteja diante do outro sem disfarces, sem máscaras e se respeitem. Intimidade que sustenta a relação apesar das diferenças e que sustenta a convivência apesar das descobertas das zonas de desencontro (que certamente surgirão).

Estar diante do outro com quem sou “íntima”, pressupõe a possibilidade de me desarmar, de me mostrar inteira e também poder ver o outro com suas fragilidades e “defeitos”. Desenvolver “intimidade” é poder lidar com o que descobriremos do outro quando a paixão serenar. A “intimidade” torna possível a expressão pura do desejo e a mostra simples dos sentimentos. Quando somos íntimos podemos mostrar nossa vulnerabilidade e confiar que ela não será usada contra nós. Podemos nos despir. Podemos expressar nossa excitação com a mesma liberdade que expressamos o medo, a raiva, a insatisfação e o amor. Podemos ser quem somos e respeitar o outro na sua verdade, e para isso, precisaremos nos conhecer e estar abertos para conhecer o outro que se revelará a cada dia.

Ludmila Rohr


* texto publicado pela Revista YACHT Noivas & Festas