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sábado, 8 de agosto de 2009

Entre netos e cachorros...


Sou clichê. Já disse isso aqui.

Não conseguiria deixar de falar do meu pai, hoje, véspera do Dia dos Pais.

Todos que me conhecem sabem do orgulho imenso que sinto por ser filha dele. Tenho admiração e respeito. Meu pai é alguém muito especial, mas não é porque ele é meu pai. Acho que ele é realmente especial. No mínimo, ele é muito diferente. Ele sempre foi muito diferente dos outros pais.


Meu pai era comunista na época da ditadura. Foi preso político em 64, logo após meu nascimento. Perdeu emprego e teve direitos cassados. Ele foi anistiado muitos anos depois junto com outros tantos brasileiros. Foi sindicalista e teve uma vida muito dura. Nasceu em uma família muito humilde, perdeu o pai quando era uma criança.

Meu pai, era o único pai (que eu conhecia), que tinha viajado à União Soviética (ainda existia) e à Cuba. Era exótico isso. Todos os outros íam pra Europa. Ele não.

Ele escolheu os nomes russos dos seus 4 filhos. Eu, Vladimir, Tatiana e Larissa. Todos os nomes tinham uma história. Ele lia muito sobre guerras, sobre história... e lia pra gente.


O pouco dinheiro que ele ganhava, não era pra guardar..ele vivia. Nos proporcionava coisas que não poderiamos ter. Sempre estudamos em boas escolas. Junto com minha mãe, lembro da dureza pra manter finaceiramente essa família grande. Mas ele, achava que era importantíssimo nos levar pra tomar sorvete nos domingos. Ele achava fundamental que fôssemos aos domingos assistir a matinê no cinema. Ele achava que valia a pena sonhar.


Teria muitas histórias sobre ele pra contar, aliás, eu poderia fazer uma palestra muito incrível sobre ele, mas hoje só quero falar de duas coisas.


A primeira é a relação deles com os 3 netos, e a outra sobre a relação dele com os cachorros. Isso mesmo: netos e cachorros.


O amor a a paciencia dele para com os netos e para com os animais é algo incomensurável. Ele verdadeiramente os ama. Meu pai nunca reclamou de absolutamente nada que os netos e os cachorros tenham feito. Ele é completamente permissivo e apaixonado por todos. Ele não dedica nem uma ínfima parte disso pra ninguém mais. Acho que não tem mais saco pra ninguém (exceto nós, os filhos), mas os netos e os cachorros merecem, da parte dele, toda a deferencia e isso é recíproco.


Convidá-lo para um lugar onde ele não possa levar os cachorros é uma ofensa. Ele até vai, mas arranja um jeito de voltar logo. Ele, aos olhos de alguém que entende de cachorro, estraga os bichinhos. Ele faz todas as vontades. Ele dá a própria comida a eles. Não preciso dizer que os cachorros acabam hipertensos e acima do peso (como ele). Ele adora qualquer cachorro. Os meus, da minha irmã, os deles...e qualquer um que chegue perto. Ele simplesmente encanta os cachorros, e os cachorros o amam também.


Voces podem até estar pensando que ele entende alguma coisa sobre cachorro...que ele possa ter técnicas para lidar com eles. Não, não tem. Ele é absolutamente permissivo..e os cachorros ficam completamente mal educados com ele. E ele se diverte muito com isso. Ele faz com os cachorros, o mesmo que fazia com a gente. Permitia tudo. Nos tirava de castigos que minha mãe colocava, nos autorizava a transgredir e a quebrar regras. Nos autorizava a ser aquilo que podíamos ser. A seguir nossa natureza. Assim ele é com os cachorros. Ele não pretende que um cachorro haja como um ser humano adulto, mesmo porque, ele acha que os cachorros são superiores aos humanos. Ele simplesmente os aceita, e por isso é venerado pelos mesmos.


E os netos? Não existe pessoas mais importantes para meu pais que os netos. Ele os chama de "os catitos", são homens barbados, mas para ele, são "os catitos". Eles podem tudo. Ele fará qualquer coisa por eles. Ele não estranha nada que eles façam. Apesar da idade, ele não critica os cabelos longos dos meus filhos. Ainda diz que se Jesus era cabeludo, porque os netos dele não podem ser? Quando Caio pintou o cabelo de azul, e, ele soube por minha mãe, que estava meio assustada, ele disse: Se voce pode pintar de "amarelo" por que ele não pode pintar de azul?


Ele acha um barato as namoradas dos meninos e, nunca fez nenhuma crítica a eles, nem aos seus hábitos, roupas, cabelos e amigos. Não interfere em nada, apoia absolutamente tudo. Os netos e os cachorros são os seus amores. Max (o atual cachorro), Rafael, Caio e Lucas contam com o apoio irrestrito do meu pai. Eles contam com a maior defesa que alguém pode desejar.


Ninguém pode brigar com um cachorro na sua frente, assim como ninguém pode falar mal dos seus netos, (nem nós,os pais).


Essa é uma história de aceitação da natureza. Meu pai aceita os cachorros como cachorros que são. Não cobra, nem espera nada que eles não tenham na sua natureza canina pra dar. Ele aceita os netos como são. Cada um do seu jeito. Ele vê as diferenças entre eles, mas simplesmente os aceita.


Acho que nenhum cachorro poderia ter um dono melhor.

Acho que ninguém poderia ter um avô melhor.


Namastê


Ludmila


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Rei Leão se despedindo....


Ontem acordei estranha....a vida continuando....trabalho, pessoas, compromissos e, os amigos que sentiram que eu não estava bem ontem, ou que leram o blog, me ligando. Uma pessoa me disse: Voce precisa se cuidar. Apesar de sentir que estou me cuidando, tive que refletir sobre essa recomendação, pois não me sentia nos melhores dias. Estava triste, mas não estava mal...apenas triste, e como uma convalescente, precisando ficar quieta. Ouvi a recomendação. Não escrevi no blog ontem, fiquei quieta, calada e, à noite, dei aula de yoga, que amo muito, e em casa, chorei um choro que simplesmente vinha, como se aquelas lágrimas, simplesmente quisessem sair....lavando algo...levando algo....


Uma coisa ficou muito clara pra mim hoje de manhã quando acordei ao lado do meu marido. Sinto muita falta dele. Sinto falta de abraçá-lo, sinto falta do contato físico. Meu corpo e minha alma sentem essa falta. Ontem na minha tristeza ou estranheza, eu precisava simplesmente abraçá-lo, sentir seu corpo colado ao meu, mas isso nesse momento é impossível. Temos uma cicatriz imensa entre nós dois...uma cicatriz que está no corpo dele e atravessa de leste a oeste o seu abdomem. Cada dia que passa, ela está melhor, por que o tempo faz isso...o tempo passa...e as coisas vão acontecendo....as coisas vão cicatrizando.....


Eu também estou cicatrizando....mas tem um tempo pra isso. Minha aura ontem tinha um buraco...sentia falta do meu companheiro, do meu amor. Sentia falta do contato, de ficar juntinho, quietinho, mas juntinho. Ele me ofereceu o ombro, eu recebi, mas queria mais, muito mais. Sempre quero muito. Nossas áuras caminham juntas há muito tempo.


Nesse momento preciso estar conectada a muitas virtudes da minha alma, e uma delas é a paciência. É preciso ter paciência pra aceitar o ritmo das águas que correm independente das nossas vontades. É preciso ter paciência, fé e gratidão. É preciso estar recolhido para lamber as feridas, mas nem tanto, para não nos transformarmos em pessoas fechadas em suas dores, pessoas que não conseguem olhar para os lados, pessoas que se incomodam com a alegria alheia.
É preciso reconhecer que o que existe no mundo e, que é meu também. Assim como quando estamos alegres não podemos fechar egoísticamente os olhos para as dores do mundo; ao estarmos tristes, não podemos excluir as alegrias e expressões de excitação que existem e que sempre existirão, para nos lembrar o quanto a vida é cíclica, dinâmica e que não para...sempre anda.....Não posso cobrar paciência das pessoas, mas eu preciso ter paciência comigo e respeitar os meus limites...


Quero contar hoje pra voces, sobre Simba. Ele é um cachorro poodle, que nasceu pra nossa família 16 anos atrás, ou seja, ele agora é um senhor idoso, muito idoso...e ele está morrendo... está cego, não anda mais e esses dias parou de comer....ontem à noite quando cheguei em casa, Caio veio me falar assustado que acha que chegou a hora de Simba ir, e sinto que é verdade. Seu nome foi dado em homenagem a Simba, O Rei Leão, desenho da Disney, da época e ele realmente era um guerreiro, valente...nos defendia (apesar de ser um poodle). Acho que ele nunca entendeu que era um poodle, ele se achava algo maior como um dobermam, ou algo assim...Quando Caio e Lucas moraram nos EUA, Simba enlouqueceu de saudade, fazia xixi no quarto dos meninos, ficava por lá...Ele hoje, nem de longe lembra o nosso "Simba", é um velhinho que viveu muito bem, correu livre tudo que pôde (sempre moramos em casa com quintal), teve muitas namoradas, defendeu a nossa casa de todos que passavam diante dela...e nos amou muito....mas agora teremos que ajudá-lo a ir embora, sem dor, sem grandes sofrimentos para ele.

Só de escrever sobre isso choro muito....não vai ser fácil me despedir de Simba, ele viveu tantas coisas conosco e agora não deveria simplesmente desaparecer, mas o ciclo dele está se concluindo, e como Judson me lembrou ontem...ele foi muito, muito feliz... Acho que se ele pudesse avaliar a sua vida, ele diria que não se arrepende de nada e que viveu tudo que tinha que viver... Um dia, quem sabe eu consiga escrever algumas histórias sobre ele pra que voces o conheçam, mas sem dúvida nenhuma, ele jamais será esquecido por nós....Nesse momento sinto uma dor em pensar que ele esteja se sentindo sozinho, que ele pense que nos esquecemos dele, ou que queremos nos livrar dele...Acho que a casa não será mais a mesma sem Simba, e Zack ,nosso outro poodle idoso, vai sofrer muito com sua partida...eles eram inseparáveis e pareciam siamêses quando corriam sempre juntos...Já a algum tempo Zack não tem seu companheiro de corridas e acho que hoje, ele o perderá pra sempre.

Hora de despedida...ciclos que se fecham....perdas que deixam marcas e lágrimas que lavam a alma....

Namastê!

Ludmila Rohr

P.S. Esse é um símbolo do Budismo Tibetando...o Nó da Eternidade...ele nos fala sobre esse giro que transforma, mas que nos mantém sempre no ambiente da criação....tudo que um dia foi criado...de fato, gira nesse ciclo da eternidade. Nada de fato desaparece!