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segunda-feira, 6 de julho de 2015

FAZENDO PLANOS PARA A VELHICE


Sou capricorniana, portanto penso no futuro, faço planos. Fazer planos e construir idéias é praticamente sinônimo de ser capricorniana. Pensar é um vício para mim, penso o tempo todo e faço planos. Alguns dão errado, não eram pra ser; outros dão certo, fico feliz. Outra coisa importante é que  sou pragmática, as coisas precisam ter uma função, precisam funcionar, se não funcionam, elas perdem a importância. Costumo me desfazer das coisas que não tem função, para mim, com muita facilidade. 

Estou escrevendo esse post no meu último dia de uma estada na França. Passei 10 dias no interior da França acompanhando meu marido que veio a trabalho. Ficamos numa cidade linda, chamada Grenoble. Passeamos muito em todo nosso tempo livre. Atravessamos várias cidades dos Alpes franceses, eu e ele.

Enquanto ele trabalhava, eu andava sem rumo ... mas sempre pensando... andava de lá pra cá, e daqui pra lá . Observava as pessoas, os detalhes das janelas das casas, as flores dos jardins, as crianças brincando nos parques, os ciclistas, as pessoas pegando sol nos gramados, os pássaros que vinham beber água nas inúmeras fontes da cidade e o sol que avançava as horas e teimava em não dar espaço para a noite, que só conseguia mostrar suas estrelas depois das 10 .... 

Amei cada minuto desses dez dias aqui na França, e me peguei pensando na velhice, em como eu quero vive-la. Pois é, a França me fez pensar na velhice. Fiz isso a minha vida inteira, como disse antes, faço planos. Posso olhar pra trás e ver o quanto que construi a partir de uma intenção clara, de desejos definidos e reconhecidos, de metas traçadas. É claro que muito da nossa vida, vem do imprevisto, do impensado, daquilo que não pudemos imaginar, mas acredito que até a forma e os instrumentos internos, necessários para lidar com os imprevistos, podem ser construidos. 

Descobri muito cedo que deveríamos saber o que queremos na vida, e que deveríamos buscar os instrumentos para alcançar isso. Acredito no esforço, acredito no poder da mente. Acredito na força da vontade quando ela é focada em objetivos claros, e acredito na resiliência para se reconstruir sempre que for preciso.

Não sei se viverei até a velhice, ninguém sabe, mas comecei a pensar nela e em como quero vivê-la. Meu trabalho não depende de juventude, muito pelo contrário, ser psicóloga tem ficado cada vez melhor na minha vida, com o passar dos anos. Consigo me ver trabalhando por muitos e muitos anos mais, contudo, não quero trabalhar tanto como fiz por quase toda a minha vida, quero trabalhar menos. Quero ter tempo para as coisas prazerosas que tenho descoberto com o tempo livre que tenho tido. Quero bordar, quero pintar .... descobri que quero aprender a pintar móveis e a construi-los tb, quero fazer cursos de culinária, e receber amigos em casa. 

Tudo que quero, pra minha velhice, é extremamente possível, nada muito complicado, e penso que tenho caminhado nessa direção. Com certeza terei que me desfazer de muitas coisas que perderão a função de existir, e me conhecendo, sei que isso não será difícil. Espero viver bastante para curti-la e o suficiente para apenas curti-la. Nossos filhos já cresceram, é possível que nos deem netos, e que eles venham nos visitar, e que nós possamos ser avós acolhedores. Mas por enquanto, o que tenho sou eu e ele. 

Nós dois juntos, isso já é por si só, o suficiente. 



sexta-feira, 25 de abril de 2014

CONTAGEM REGRESSIVA, ou MAIS UMA DESPEDIDA...


Mais uma vez estou de mudança. Para os que me acompanham por este blog, estou bem atrasada nas informações. Deixei a Korea, onde vivi por dois anos e estou no Brasil há 5 meses, esperando meu visto para encontrar o meu amor que agora está na Arábia Saudita. Isso mesmo, meu marido já está lá, e eu estou indo morar uma parte do ano nesse país, ao lado dele.   


 Quando as pessoas sabem que irei pra lá, perguntam logo se terei que usar burca. Bom, terei que usar uma abaya, que é uma roupa preta que cobre todo o corpo, mas não cobre o rosto, nem cabelos. Perguntam também se estou incomodada com isso, respondo que não. As diferenças culturais não me incomodam. Vestir uma roupa diferente do que estou acostumada, não me incomodará. Assim como, comidas diferentes, sons diferentes, cheiros diferentes e idiomas diferentes não me incomodam. Na verdade, gosto muito de experimentar essas diferenças. Morar em outros países com culturas tão diferentes, me diverte.

Ficar longe de Judson por muito tempo só não tem sido um esforço imenso, porque estou em minha casa e com meu trabalho. Voltar a atender no consultório, dar aulas de yoga e estar no Espaço Mahatma Gandhi, alimentam uma parte importante do meu ser. Sou psicóloga e amo ser. Amo meu trabalho e isso me alimenta na minha essência. 

Então, tenho me dado conta de que minha vida, assim será por algum tempo ( não sei quanto ). Terei que buscar uma sensação de completude, mesmo na falta. Quando estiver com meu amor, não terei meu trabalho, e vice-versa. Tenho experimentado esse contentamento mesmo na falta de algo, e tenho conseguido, e com grande satisfação. Posso estar completa, na falta (essa não é a única forma de completude possível?). 

Nesse momento a única coisa que quero, é estar ao lado dele. Isso é uma certeza. Quero estar com ele o mais rápido que for possível. Nunca ficamos tanto tempo afastados um do outro, e a saudade é imensa. Em uma semana estarei deixando Salvador em direção aos EUA, onde verei meu filho e minha nora, para em seguida voar para a Turquia onde passarei uns dias com ele, antes de entrar na Arábia. 


Tenho poucas certezas na vida. Felizmente com a idade, fui desconstruindo a maioria das certezas que a arrogância da juventude construiu, mas entre as que restaram, uma é : Não posso ficar longe do meu amor por muito tempo.

Ele é meu amor, meu amigo e a pessoa com quem quero envelhecer. Nos alimentamos fisicamente, emocionalmente e espiritualmente, um do outro. Interagimos com amor, desejo, paixão e companheirismo. Ficar sem ele, é ficar sem uma parte de mim mesma…. então, estou de partida….me aguardem, volto em breve! 

sábado, 6 de julho de 2013

GRANDE DILEMA


Vivo um grande dilema. 

Em alguns meses o trabalho do meu marido o levará para a Arábia Saudita. Ele ficará envolvido com esse projeto, por alguns anos. Ou melhor dizendo, foi esse mesmo projeto que nos levou por dois anos a Houston e, também pelo mesmo motivo estamos há quase dois anos na Coréia do Sul.   


Morar no Texas foi uma experiência maravilhosa. Foi nossa primeira experiência de morar fora do nosso país. Descobrimos que temos curiosidade suficiente para nos encantarmos com o que é novo, e sabemos viver longe do conhecido e usual. Somos uma família desapegada e curiosa. Foi excelente descobrir isso na prática. 

Podemos viver sem nenhum sofrimento sem as coisas que sempre tivemos. Percebo pessoas sofrerem por falta de algum tipo de comida, por exemplo, nós não sofremos. Adorei descobrir cada restaurante novo, adorei viajar pelas maravilhosas estradas americanas, adorei poder voltar ao Brasil e matar saudades das pessoas, mas adorei cada volta para casa.

Os EUA foram nossa casa por dois anos, e quando mudamos para a Coréia, mudamos sem sofrimento, muito excitados pelo que conheceríamos e sem nenhuma tristeza. Sabia que voltaria incontáveis vezes, já que um filho estaria ficando, então não sentia que estava deixando os EUA, estava apenas me afastando temporariamente. Será diferente sair da Coréia. Não sei quando voltarei lá... isso aperta meu coração.

Sempre disse sobre a saudade do meu trabalho, e é verdadeira, mas descobrir que estudar e ir a museus, e fazer cursos, me preenchem muito bem. A saudade de trabalho, de estar no lugar de psicóloga, é uma constante, mas não me esmaga, por que sempre estive bem ocupada. Tenho aproveitado para resignificar a importancia do meu trabalho na minha vida, (uma capricorniana viciada em trabalho, tem dificuldades com isso).


A saudade dos filhos, essa sim é esmagadora. Choro sempre que penso no tempo que não vejo cada um deles. Pensar em Caio, que ficou no Brasil, é a minha grande dor, (por que o vejo muito menos que Lucas, que mora nos EUA), mas não acredito que exista vida sem dor, e sei que eles estão bem, e que não existe nada de errado em que os filhos cuidem de suas vidas e sigam seus caminhos. Não criei dois homens para viverem ao meu lado, e sim para caminharem com suas pernas e serem hábeis em resolverem seus problemas, e sei que eles são. 

Nada de errado em sentir saudade dos filhos e em momento nenhum penso que eles deveriam resolver esse problema que é meu. Adoro saber que eles precisam cada vez menos de nós, e que podemos nos relacionar não por necessidades e sim por amor. 


Morar na Coréia tem sido uma experiência inesquecível e impagável. Amo! Amo as suas comidas, adoro admirar o quanto os coreanos são lindos, elegantes e esbeltos. Adoro não entender nada do que eles falam e não sentir que tenho obrigação alguma de entender. Me divirto com o fato de não conseguir ler um cardápio em restaurante ou as placas nas lojas. Adoro pensar que terei para o resto da minha vida, histórias exóticas para contar, sobre esse país e sobre as viagens que fizemos pela Ásia. Conhecer países como Singapore, China, Hong Kong e Indonésia com certeza me fizeram uma outra pessoa. 

Mas agora, o marido vai para a Arábia Saudita. Não existe nada naquele país que me agrade, muito pelo contrário. O lugar da mulher nos países árabes me ofende, as questões dos direitos e liberdades, me deixam furiosa. Não consigo nem brincar com esse assunto. Não consigo pensar que terei que comprar aquelas roupas pretas. Não consigo falar, nem brincando, sobre o fato de que mulheres precisam de autorização do marido para saírem nas ruas. Mas, Judson vai estar lá....Não consigo ficar muito tempo longe dele. 

Esse é o dilema. 
O que fazer quando seu amor tem que estar num lugar em que você não consegue se imaginar? 

Bom...questões do amor.. 
Nessa hora é bom pensar que não tenho mais filhos pequenos que me prenderiam em um lugar que não quisesse ficar, e posso com liberdade me mover para onde meu coração mandar.

Sei que ficar longe de Judson é muito ruim. Sei que ele também sofrerá por estar longe de mim, mas sei que ele não fará nenhuma objeção se eu não quiser ir, isso é claro entre nós dois. Pensamos em alternativas... viagens regulares...mas sabemos que não será fácil pra nenhum dos dois.

Acho que só saberei como ficaremos a medida que as situações acontecerem...um dia de cada vez.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

DIVIDINDO TETO E CONSTRUINDO INTIMIDADE *


Acredito no casamento. Estou casada há 25 anos e não me arrependo um só dia disso. Nesse tempo construí uma relação que envolve amor, amizade, respeito a  individualidade do outro, sexo de qualidade e admiração. Entretanto como psicóloga tenho visto no consultório muita gente infeliz e culpando seus casamentos por isso. Homens e mulheres vivendo uma vida de infelicidade e traições aos próprios desejos e sentimentos por conta de casamentos falidos. Essas pessoas normalmente relatam um início de vida a dois, cheio de paixão, excitação e sonhos. A grande pergunta que elas se fazem é porque chegaram a esse ponto? O que aconteceu no meio do caminho?

Muitas revistas femininas e livros de auto-ajuda falam sobre como ter um casamento feliz e tentam nos ensinar um caminho seguro para que sejamos bem sucedidos nesse intento. Não tentarei isso aqui porque não acredito em fórmulas, muito menos em manual de instrução que orientem pessoas como serem felizes, também porque penso que o casamento é um terreno complexo demais para fórmulas simplistas. Por isso, resolvi refletir sobre alguns ingredientes que tenho encontrado e que são comuns a todos os casamentos bem-sucedidos e que talvez seja o grande (ou simples) segredo deles.

É frase comum dizer que precisamos cuidar do nosso amor ou que o amor é como uma flor delicada que precisa ser cuidada diariamente. Penso que o amor é um encontro de almas, diferente da paixão que vem de um encontro de corpos, de química e de excitação. Entretanto, tanto um quanto o outro, acontecem sem que pensemos neles. É natural, sem esforços. Somos tomados pela paixão sem que a razão esteja presente. Nos descobrimos amando da mesma forma, naturalmente. Podemos nos apaixonar e amar pessoas que nunca imaginamos ser possível, ou mesmo aquelas bem diferentes de nós. É assim. Simplesmente acontece para os que se disponibilizam e abrem o coração para essas energias e não as temem. Isso é suficiente para namorar e se envolver com alguém e viver momentos quentes, excitantes e felizes.

No entanto, quando falamos de casamento, penso que amar é pouco. Precisamos construir algo muito mais que patrimônio para que ele dê certo. Precisamos ter muito mais que filhos, para que tenhamos chances de sermos felizes. Precisaremos construir intimidade. A intimidade que pressupõe amizade e respeito. Intimidade que se alimenta de admiração e orgulho e que gera desejo e excitação. Intimidade que possibilita que um esteja diante do outro sem disfarces, sem máscaras e se respeitem. Intimidade que sustenta a relação apesar das diferenças e que sustenta a convivência apesar das descobertas das zonas de desencontro (que certamente surgirão).

Estar diante do outro com quem sou “íntima”, pressupõe a possibilidade de me desarmar, de me mostrar inteira e também poder ver o outro com suas fragilidades e “defeitos”. Desenvolver “intimidade” é poder lidar com o que descobriremos do outro quando a paixão serenar. A “intimidade” torna possível a expressão pura do desejo e a mostra simples dos sentimentos. Quando somos íntimos podemos mostrar nossa vulnerabilidade e confiar que ela não será usada contra nós. Podemos nos despir. Podemos expressar nossa excitação com a mesma liberdade que expressamos o medo, a raiva, a insatisfação e o amor. Podemos ser quem somos e respeitar o outro na sua verdade, e para isso, precisaremos nos conhecer e estar abertos para conhecer o outro que se revelará a cada dia.

Ludmila Rohr


* texto publicado pela Revista YACHT Noivas & Festas


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Bodas de Prata

 Hoje completo 25 anos de casada com meu amor de verdade.
Sempre achei que celebrar Bodas de Prata fosse coisa de gente velha, mas cá estamos nós, jovens, inteiros e completando 25 anos de relação.


Desde menina sonhava com meu amor...ele era assim, como é hoje.
Sonhava com aquele que estaria ao meu lado a vida toda.
Sonhava com aquele que seria pai dos meus 6 (!?) filhos... (coisa de menina)
Não tinha muitas ansiedades pra namorados..pois eu sabia que o meu amor estava em algum lugar e que era certo que eu o encontraria.
Era um amor de outras vidas...com muitas histórias...
Encontrei Judson no dia e no lugar que eu achava que o encontraria.
Quando o vi passar diante de mim, disse: Vou casar com esse cara.
Namoramos...muita paixão...muito tesão...muito amor...
Não conseguia ficar longe dele...nem ele de mim..
Estávamos apaixonados..
Casamos em dois anos..eu ainda estudava..ele no primeiro emprego..ganhava mal..
mas o amor tinha pressa..
Moramos num pequeno apartamento..lá nasceu Caio...nosso bebezão lindo...
Como foi desejado..como foi amado...
Éramos tão jovens....mas estávamos tão felizes..
Todas as dificuldades que passamos, nem consigo lembrar, mas sei que existiram.
Chegou Lucas...o bebê mais lindo do mundo..enorme...tão querido..
Nossa família estava completa..
Vivemos tantas histórias nesses anos...
As histórias não são sempre lindas..são de dificuldade, de brigas, de desencontros, de dúvidas também..
mas...quando paro pra pensar...acho que em momento nenhum desses anos..tive alguma dúvida de que éramos um do outro..que nossa relação era para sempre..
Veio o câncer....veio a possibilidade da morte..e a dor...
atravessamos isso..choramos...lutamos juntos.. Amei muito mais ainda o meu amor...Vi nele um guerreiro convicto, calmo, pragmático..assertivo...
Veio a metástase...ele chorava comigo...chorávamos juntos...nossos filhos assistiam a isso!
Vencemos mais essa...
A mudança para os EUA...e estamos aqui...
Ele me apóia..ele sabe do que abri mão para estar aqui, mas fizemos essa escolha juntos..
Filhos separados...família ganhando um novo formato..filhos adultos...
Bom...25 anos de história daria um livro..quem sabe um dia o escreva..mas por hoje, quero apenas brindar!
Brindar ao meu amor..brindar ao meu casamento!
..e desejar que todos possam viver algo assim um dia!

Meu amor é um bom filho, é um bom genro, é um bom amigo, é um bom pai, é apaixonado pelo Flamengo (ninguém é perfeito!), adora ser engenheiro, é fiel, amigo, amante, companheiro...eu realmente amo meu amor!

Te amo Judson, te amo até quando voce fica horas vendo futebol na TV!
Obrigado pelos filhos lindos que voce me deu..obrigado pelo suporte incondicional que voce dá para que eu realize meus sonhos. Obrigado por sempre apostar em mim! Obrigado por sempre apostar em nós dois!

Ludmila Rohr

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Aquilo que se foi...aquilo que ficou...


Estou me dando conta de uma coleção de perdas repetitivas na minha vida. Não sei como elas me afetam diretamente, mas sei que são importantes.


Quando eu era uma criança, um carro de meu pai, pegou fogo, nele estavam álbuns de fotos de todos os filhos, muitas foram queimadas, algumas poucas foram reaproveitadas. Não sei o que os álbuns estavam fazendo lá, mas isso aconteceu.


Quando Salvador viveu a pior chuva da sua história, o rio que passa perto da minha casa transbordou, a enchente inundou muitas casas, inclusive a minha, perdemos muitas coisas, que foram repostas com o tempo, mas perdemos fotos, fotos do meu casamento, fotos das crianças ainda bebês...muitas fotos simplesmente desapareceram...nem sei o que perdi de fato.


Agora meu notebook deu um xilique...algo aconteceu com ele...e eu tive que gastar dinheiro para tê-lo de volta. Ele voltou, mas sem as fotos que eu armazenava lá. Inclusive todas as fotos da nossa viagem a Europa no ano passado. Algumas estão no orkut, mas perdi muitas fotos e assim como na inundação, nem sei de fato o que perdi.


Quando lembro do meu casamento fico triste em não ter fotos, eu casei em 1985, tinha 21 anos e casei numa cerimonia diferente. Eu estava vestida de Sari (traje típico das mulheres na Índia), descalça....acho que eu estava linda...., mas de fato essa fotos não me fazem falta, lembro de cada instante daquele dia.


As fotos dos meus filhos pequenos que foram perdidas doem, mas eu vivi tanto cada momento deles, vi cada dentinho nascer, vivi cada passo que foi dado e poderia contar em detalhes, poderia escrever um livro sobre isso...


A viagem para a Europa em 2008! Uau! Não existe nem ao menos um segundo dessa viagem que eu tenha esquecido...posso relembrar de tudo. Estávamos celebrando a vitória com o 1º câncer de Judson. Nos divertimos, nos amamos, choramos, brindamos, brigamos, fizemos as pazes...tudo está registrado no meu corpo e alma.


Quando era adolescente li um livro autobiográfio de Neruda "Cofesso que vivi". Confesso que não lembro de nada mais que li nesse livro, mas não consigo esquecer o título. Confesso que vivi.


Hoje, nesse exato instante meu marido está com drogas sendo injetadas no seu corpo pra tentar aniquilar célular cancerosas que ainda podem estar lá. Não tenho fotos de tudo que estamos passando desde abril do ano passado por causa desse câncer, mas não existe nada mais nítido na minha mente que isso.


Confesso que casei vestida como uma indiana.

Confesso que meus filhos fizeram muitas coisas lindas nas suas infancias.

Confesso que experiementei prazeres inesquecíveis na Europa em 2008.

Confesso que tenho vivido minha vida com muita intensidade que nenhum fogo ou água, ou problemas tecnológicos podem apagar.

Confesso que vivi, e viverei muitas experiencias intensas nessa vida e as contarei, contarei muitas vezes...contarei aos meus amigos, a quem quiser ouvir ou ler.

Confesso que muitas coisa se foram e eu tive que apreder a aceitar isso..., mas não há nada que realmente eu tenha, que algo ou alguém possa tirar de mim, pois elas me compõem, elas estão presentes na pessoa que sou, elas me construiram...


Confesso que vivi e viverei muito mais ainda...


Namastê


Ludmila Rohr
P.S. foto sobrevivente do meu casamento

sábado, 21 de março de 2009

Ação na Inação


Estamos no fim de semana "Não". Judson fez quimioterapia e agora vive os efeitos colaterais dela. Os efeitos curadores não podemos ver, nem sentir, temos que imaginar que essa coisa tão desagradável o está curando. Temos que metalizar isso, para não cair nas queixas, nem se sentir vítima de nada. Prostração, inapetência, náuseas, fraqueza, mudanças de humor, muito sono....tudo isso acontece nesses dias, mas o que é incrível é que de alguma forma vamos encontrando maneiras de atravessar isso da melhor forma possível.

O fim de semana passado que chamei de "Sim", e que fomos pra Praia do Forte, namoramos, comemos, nos divertimos, nos amamos, faz oposição é esse fim de semana que é do "Não". Não podemos fazer nada, não saimos de casa, não rimos...ele descansa....come muito pouco, dorme...e eu faço companhia...fico ao lado, escutando e tentando atender as demandas.

Percebo o quanto essas denominações (Sim e Não) não revelam a verdade. Como todo rótulo, acaba por limitar e se distanciar da verdade. Me dou conta de que no fim de semana "Não", vivo intensamente questões internas, invisíveis, tenho ações de expressão minimalista do meu amor. Não mergulhamos no mar e nos beijamos, mas posso levar uma maçã já cortadinha em cubinhos pra ele no quarto. Posso ficar atenta ao que ele precisa e tentar atender. Compreendo que são dias muito ativos, silenciosamente ativos. Faço muitas coisas pequenas, silenciosas...e o meu mundo interno está em constante movimento.... reflito, medito, estou atenta a tudo, minha mente fica expandida e concentrada ao mesmo tempo... é a ação na inação!

Bom, esses dias passarão, como tudo. E nós, com todas as vivencias com as quais fomos contemplados, estaremos aqui para contar histórias e para nos olharmos sem arrependimentos, e com a paz no coração própria daqueles que sabem que fizeram tudo que podiam e da melhor forma possível.

Namastê!

Ludmila
P.S. Em Paris....

sábado, 7 de março de 2009

Eu e ele


Esses dias pós quimio são difíceis....Judson fica muito prostrado, sem energia....dorme muito, come muito pouco. O remédio pra aliviar o enjôo dá muito sono...enfim...parece que assim serão os próximos 6 mêses, alternando um fim de semana super bem disposto, com outro que vem depois da quimio em que ele fica muito abatido. Hoje ele ficou na cama deitado o dia inteiro. Parece que o corpo precisa se recuperar da bomba de drogas que recebeu. Não sobra energia pra nada, mas ele diz que se for pra paasar por isso, que está tudo bem. Ele não é queixoso nem demandante. Ele fica quieto, e isso às vêzes parte meu coração.

Descubro com isso que sou paciente e que tenho muito cuidado amoroso com ele. Não me sinto ansiosa. Não tenho desejos de sair, de ver pessoas ou de fazer coisas, muito pelo contrário. Estou bem ali do lado dele. Ele de vêz em quando me olha e diz que podiamos dar uma voltinha, mas sei que ele está dizendo isso por que fica preocupado comigo. Ele se preocupa que eu fique entediada ou cansada. Digo pra ele que não tenho essa necessidade, que estou bem, que estou tranquila ali, exatamente onde deveria estar, ao lado dele. Não tenho ansiedades porque me parece que não existe outro lugar pra mim. Nesse momento, é esse o meu lugar.

Quando casei aos 21 anos, achei (como a maioria das pessoas que casam apaixonadas) que havia encontrado a pessoa com quem queria viver o resto da minha vida. Recebia de Judson amor, respeito a minha individualidade, amizade, sexo de qualidade, cuidados atenciosos, proteção e muito mais. Desenvolvemos nesses 25 anos que nos conhecemos uma amizade muito preciosa. Gostamos da companhia um do outro. Somos muito diferentes um do outro, muito mesmo!! Eu falo pra caramba e ele, escuta. Às vêzes, acho que ele nem escuta, reclamo, ele jura que tava escutando...rimos, e eu continuo falando pra caramba e ele escutando...

Ele é a pessoa que escolhi pra viver junto. Foi uma escolha da paixão e depois do amor. Claro que tivemos nossos problemas ao longo desses anos, temos muitas diferenças, mas temos algo que é muito especial...gostamos da companhia um do outro. Nossos filhos cresceram, e são muito independentes, namoram e tem suas próprias vidas, o que achamos ótimo! Por isso, ficamos muito tempo sozinhos, um com o outro, viajamos sozinhos, almoçamos e jantamos sozinhos, e gostamos disso. Gosto de ficar com ele. Gosto de saber que é ele quem está vendo o meu corpo envelhecer e minhas rugas surgirem, e que quando a casa estiver vazia, seremos nós dois.

Sei que ele achava, e ainda acha que é muito pesado pra mim cuidar dele. Sei que ele acha que não é natural pra mim fazer isso. Ele tenta me poupar, porque sabe o quanto sou individualista, talvez egoísta. Entretanto, nunca gostei tanto de mim como agora. Descubro que sou muito melhor do que imaginava. A doença dele está servindo pra que eu conheça outros aspectos de mim mesma que nem eu sabia que existiam, nem ele! Infelizmente foi dessa forma que descobri isso. Preferia não descobrir. Preferia continuar mimada e mal acostumada por ele, que me mantinha no meu egoísmo infantil, a vê-lo sofrendo e abatido como tenho visto, mas, assim é a vida e tenho descoberto que somos muito mais ligados um ao outro do que podia imaginar!

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher e quero desejar muito amor, muita coragem, muita serenidade e força a todas as minhas amigas, irmãs, clientes, alunas, colegas; mulheres que fazem parte da minha vida e que moram no meu coração!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. foto clássica em Veneza