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sábado, 13 de fevereiro de 2016

ENCARAR O ESPELHO PARA SER FELIZ


Temos várias escolhas a fazer durante a nossa vida, e todas trarão consequências que teremos que encarar, querendo ou não. Podemos passar anos da nossa vida escolhendo tentar agradar os outros em detrimento de nós mesmos. Podemos também com esforço exaustivo, tentar fugir de nós mesmos, dos nossos anseios, das nossas necessidades, frustrações, medos, raivas, inseguranças .... podemos criar personagens que sob um olhar superficial, pareçam críveis, podemos até enganar a muitos, mas não a nós mesmos. Toda vez que estivermos a sós, diante do "espelho", teremos que encarar a verdade, pois ninguém pode sentir a sua dor, ninguém vai sentir o seu vazio, nem resolver os seus problemas, ninguém vai encarar os medos ou frustrações por você, nem vai ter que lidar com os seus fantasmas, cedo ou tarde você mesmo vai ter que fazer isso. Como psicóloga e como pessoa que acredita que tomar posse de si mesmo, por mais dolorosos que seja, sempre será a melhor escolha, torço para isso se dê o quanto antes, a tempo de vivermos uma vida de verdade.

Estar misturado e disfarçados em meio a multidão, ou fazendo coisas o tempo todo, pode até nos manter na ilusória distancia de nós mesmos. Podemos nos enganar por algum tempo, nos dizendo que as coisas vão bem, que temos lidado bem com as dificuldades porque vemos os dias passarem e nada de mais grave aconteceu, que temos sobrevivido apesar de tudo!

As mentiras dos personagens que criamos podem convencer muita gente, pessoas que talvez não tenham interesse sincero em saber quem nós realmente somos e o que temos passado de verdade, até mesmo porque também vivem suas mentiras, mas não conseguiremos mentir para nós mesmos por muito tempo, ou por todo o tempo ....

As máscaras perdem a eficiência principalmente naqueles dias que a alma nos pega de jeito, nos dias que as nossas verdades não aceitam tapeações e deixam nossas feridas expostas ... nesses dias, não há como fugir ...ou sucumbimos ou nos superamos, mas mentir, atuar ou fingir não é mais opção.

Olhar com honestidade para o espelho, em busca de livrar-nos das imposições externas, de expectativas externas....desfazer das máscaras, desmontar os personagens, reconhecer a diferença que existe entre a minha defesa e o aquilo que sou de verdade, é o primeiro passo para o "tomar posse de si mesmo". Apropriar-se da paz e da força que vem a partir do momento em que você descobre que não precisa fingir, que não precisa atender as expectativas externas violentando a si mesmo, é o grande ganho nisso! 

O processo terapêutico tem essa função. Servir de espelho. O terapeuta tem a função de nos ajudar a olhar esse espelho, descobrir que não há nada mais empoderador, e libertador que a verdade, ou o autoconhecimento. Não há nada mais incrível que descobrir que existe alguém de verdade, escondido atrás de personagens exaustivos, um alguém que pode amar e ser amado, que pode caminhar com as próprias pernas e ser produtivo, um alguém que pode ser feliz, feliz de verdade. 

Felicidade não é colocar, a todo custo, um sorriso eterno no rosto. Felicidade é sinônimo de libertação e de verdade.

É possível ser feliz apesar das dores e das faltas. 

É possível viver sem trair a si mesmo. 

domingo, 1 de novembro de 2015

MERGULHO






O meu mergulho é pra cima, é pra dentro, e é bem fundo.
Vou até onde minha alma me permitir, vou até onde eu existir, vou.
Quando volto, volto nua, volto plena, volto leve, volto sem nada que me prenda.
Assim é o meu mergulho.

sábado, 17 de outubro de 2015

MENOPAUSA, UMA MONTANHA-RUSSA DESGOVERNADA


Estou entrando na menopausa, e pode ser estranho escrever sobre isso, e é, pelo menos para mim, mas o fato é que esse é o novo momento da minha vida, e como cada mudança vem com seus  custos e aprendizados, nessa eu ainda estou tateando para descobrir quais são os custos e quais as mudanças, mas eu já a apelidei de MONTANHA-RUSSA.

Olhando para trás, vejo que as mudanças não foram fáceis para mim, entrar na adolesciência foi o mesmo que entrar num túnel escuro e sem fim. Não lembro de nada muito alegre nessa passagem. Não foi fácil adolescer. Mudança corporal complicada, e uma sensação sem fim de que não existia um lugar que me coubesse nesse planeta. As coisas pareciam mais densas e muitas vezes pesadas demais. Não foi fácil. Muito tempo depois e com muita terapia, olho para trás e acho até que fui uma adolescente meio deprimida, pois absolutamente nada do mundo me atraia, acho que por isso mergulhei tão profundamente na meditação e no yoga. O mundo imaterial era muito mais acolhedor. A sensação de não-pertencimento desaparecia, e ali eu me sentia em paz.

Percorri minha vida adulta com desenvoltura e certo sucesso. Casei com meu amor, tive dois filhos que deram outro significado a minha existência, fiz duas faculdades, trabalhei, ganhei dinheiro com prazer e muita dedicação. Digo sempre que a vida adulta tem sido uma delícia, fui feita para ser adulta, e para tudo que diz respeito a essa fase da vida. Encontrei estabilidade material, emocional e espiritual fazendo tudo que fiz. Criei meus filhos e trabalhei, sempre me reconheci nisso,  era feliz e sabia. Sempre achei que a vida ficava melhor a cada ano que vivia, e que a idade trazia mais benefícios que o contrário. Dizia sem nenhuma dúvida que eu não trocaria a pessoa que sou hoje, por  quem fui 30 anos atrás. 

Mas eis que surge um novo momento e que leva não ao túnel escuro, mas a uma montanha-russa que me tira novamente do conhecido, que me tira do que sei de mim. Estou menopausando, e isso parece uma coisa doida. Primeiro vieram os calores, que aparentemente não mexiam muito comigo, a não ser pelas inúmeras vezes que me cubro e me descubro durante a noite, alternando calor e frio. Mas agora me pego sendo o que não sei que sou. Alterno vontade de chorar com uma raiva furiosa. Alterno uma impaciência com uma desmotivação. Alterno aspectos da minha alma que antes eu sabia controlar, mas que agora parecem carrinhos da montanha-russa descontrolados. 

Nunca havia parado pra ler sobre menopausa, a não ser pequenos artigos e reportagens. Achava que quando o meu momento chegasse, eu iria ter tempo de pesquisar sobre. Doce ilusão! Outro dia li a atriz Fernando Torres reclamando de como esse tema é tabu, que as pessoas evitam falar sobre ele, e que parece que até mesmo as mulheres evitam falar sobre menopausa. Ela reclamava dos calores e dos humores, mas foi numa conversa com uma amiga, quando ela me disse que estava "quadripolar", que me dei conta de que eu estou também! 

Por isso aqui vai um aviso e um pedido antecipado de desculpa aos que trombarem comigo por aí, "Cuidado com o carrinho desgorvernado da montanha-russa", estamos trabalhando com afinco para que o ritmo normal se reestabeleça.





quarta-feira, 10 de junho de 2015

FUI ASSEDIADA E NÃO FIZ NADA


As mulheres nos países árabes tem um lugar sabidamente inferior aos homens. Essa é uma sociedade machista e patriarcal. As mulheres estão sempre sobre a tutela de algum homem. Elas pertencem aos pais enquanto crianças, e depois, quando casam, pertencem aos maridos. Essas mulheres torcem para ter filhos homens, porque assim, continuarão sendo tuteladas, protegidas por alguém por toda a vida.  No meu visto e na minha identidade árabe, consta que tenho um "sponsor", meu marido é responsável por mim aqui. 

Um dia, em um vôo,  vi um casal de irmãos brincando, o menino tomou o brinquedo da menina e bateu nela. Ela chorando olhou para a mãe que os acompanhava, que a pegou no colo consolando-a, o menino continuou satisfeito em posse do brinquedo que ele tomara. Essa é a metáfora correta para esse país. As mulheres podem até chorar quando violadas, mas só isso. Elas não tem muitos direitos, e correm o risco de virarem culpadas, quando são vítimas. O melhor é aprender a engolir o choro. 

Li sobre uma mulher que foi condenada a morte, por ter conseguido se defender de um estupro, matando o agressor. Ela foi pra forca. Vi uma mulher apanhar no meio na rua, em frente a um banco, onde o vigilante do banco olhava tudo, sem nenhuma reação. Vejo mulheres cobertas de preto todos os dias, e a justificativa para essa roupa é que serve para protegê-las!!! Protegê-las dos homens! Os mesmos homens que legislam e julgam. As mulheres são culpadas por "default". Elas são culpadas por serem mulheres. A corda sempre partirá no lado mais fraco, e aqui, o lado feminino é de longe o mais fraco.

Ontem eu fui assediada. Estava com umas amigas em uma loja de departamentos bem grande, e fui sozinha para o andar superior, que é proibido para homens desacompanhados, é o que eles chamam de "family only", homens podem entrar, desde que estejam acompanhados de sua família. A criação desses espaços visa proteger as mulheres. Subi sozinha, minhas amigas viriam em seguida, nem pensei na possibilidade de que estaria correndo algo risco. Eu estava vestida de preto como deve ser e em uma área que é destinada as mulheres e famílias. Entretanto me deparei com um homem árabe, vestido com aquelas roupas brancas, ele veio na minha direção, não me senti ameaçada com a aproximação, por isso não tive uma atitude defensiva. Ele segurou as minhas mãos, e por segundos eu fiquei paralisada e nada fiz. Ele segurou com firmeza e falou coisas em inglês e árabe, não entendia direito, mas entendi que estava sendo assediada. Tudo aconteceu em alguns segundos...tudo é muito rápido...consegui me desvencilhar e corri ao encontro das minhas amigas no andar inferior, ele me seguiu na maior tranquilidade, com a tranquilidade comum aos que sabem que nada vai acontecer a eles.

Saimos da loja. Chegamos até a brincar com o que aconteceu, mas a ficha foi caindo aos poucos. Sinto no meu corpo e na minha alma, uma dor que não é só minha, sinto uma profunda conexão com as mulheres que são vítimas de violência todos os dias no mundo. Meninas que tem seus clitóres extirpados, mulheres que sofrem violência domésticas pelo mundo afora, mulheres vítimas de estupro que são acusadas de terem buscado isso ao se vestirem de forma inapropriada.... mulheres que são desqualificadas, desrespeitadas, violadas, estupradas e que nada podem fazer. 

Eu não consegui fazer nada. Aquele homem sabia que eu não iria fazer nada. Meu corpo dói, e minha alma, mais ainda. "

"Woman is the nigger of the world", já diagnosticou John Lennon muito tempo atrás.





terça-feira, 2 de junho de 2015

ELA SEGUIU O DESEJO



Hoje quero usar o espaço do meu blog para homenagear uma amiga que faz aniversário. Primeiro preciso dizer que apesar de termos uma imensa conexão e carinho uma pela outra, nunca a encontrei pessoalmente.

Nós duas vivíamos momentos de muita dor quando nos conhecemos em um grupo virtual de pessoas que tinham parentes com câncer. Nosso encontro foi inundado em dor e  em esperança. Era um grupo  em que nossas dores, medos, inseguranças eram acolhidos e entendidos por pessoas que passavam ou já haviam passado por situação semelhante.

Fiz amigos queridos nessa época. Nós nos chamávamos de "amigas de infância", embora nunca tenhamos nos encontrado. Eu morava na Bahia, ela no RJ.  Chamávamos o câncer de "meleca de doença", e ríamos em meio a dor das perdas, e em meio as lágrimas da esperança. Ficamos amigas....amigas de infância.

Certa vez fui ao Rio para um congresso de psicologia, e ela tentou me achar no aeroporto, nos desencontramos em meio a engarrafamentos, e celulares descarregados. Não era pra ser.

Sempre a imaginei como alguém de extrema maturidade e responsabilidade. Ela é filha única e perdeu os pais para a "meleca da doença". É uma pessoa que cuidava de si mesma, e assumia suas responsabilidades sozinha, assim como as consequências das suas ações. Ela sempre alto-astral, não reclamava de nada, a não ser do latido do cachorro do vizinho que a acordava cedo nos fins de semana. Cris se bancava e era dona da vida e " do nariz" dela.

Um dia ela me disse que precisava conversar comigo, queria tomar algumas decisões, e eu não imaginava do que se tratava, mas ela adiantou que estava num dilema entre seguir o sonhos que seus pais haviam tido para a vida dela, ou seguir seus sonhos e desejos. Ela queria ouvir minha opinião.

Não entrarei em detalhes sobre seus projetos ou sobre as mudanças que ela pretendia naquela época, mas posso dizer que ela as fez!! Ela mudou! Ela foi atrás do seu desejo, da vida que ela sonhava, dos desejos que ela tinha pra si mesma. Ela fez o que a maioria das pessoas passam a vida desejando fazer. Ela fez aquilo que os outros podem achar que foi loucura, ela trouxe os desejos para o nível real e os vive agora.

Nada na vida é de graça, e não sabemos quanto tempo teremos para viver essa vida, mas o fato é que minha querida amiga de infância seguiu seu coração e arca com todas as dores e delicias de ser quem ela é.
Mas não é pra isso que estamos aqui?

Parabéns minha amiga!
Parabéns por você se responsabilizar por si mesma e seguir seu coração!
Feliz aniversário! 
da sua amiga de infância que nunca te viu, mas que sempre te amou. 


domingo, 7 de setembro de 2014

A ESTÉTICA DA OPRESSÃO

primeira abaya

As mulheres árabes devem usar Abayas e Hijabs. As abayas são as túnicas pretas, e os hijabs são os véus. Na região em que moro, a imensa maioria das mulheres, sequer mostram seus rostos, deixando "livres" apenas seus olhos, em muitos casos cobrem até mesmo os olhos.

Para onde olhamos, podemos ver mulheres de preto. Não sabemos se são jovens ou velhas, magras ou gordas. Não temos idéia de como elas se parecem. Apesar das explicações, não consigo entender como gerações e gerações de mulheres, podem viver assim, sob esse manto negro, mas nem quero discutir isso. Sempre digo que esse é um problema que não é meu, se é que isso é um problema. 

As mulheres estrangeiras tem a permissão de não usarem os véus, entretanto não podemos sair as ruas, sem nossas "queridas" abayas. O meu primeiro impacto foi de estranheza, não me reconhecia naquilo, mas não me senti ofendida ou oprimida pela roupa, entendi que aquilo não me pertencia, e que eu estava apenas obedecendo, como convidada,  as regras da casa. Entretanto me peguei sendo irônica com aquilo que chamei de "a coisa preta".  Achei que brincar com esse tema, seria uma forma de manter a individualidade, diante da tentativa clara de extirpar da mulher qualquer direito de individuação, transformando-as em algo sem identidade ou expressividade. 

a monotonia do preto

Adoro observar pessoas, e observando as mulheres árabes pude perceber, que mesmo aquelas que tem os olhos "livres", não os usam livremente. Tentei imaginar o quanto eu olharia se os meus olhos fossem minha única conexão com o mundo externo. Pude até imaginar um personagem de um livro de Ziraldo que olharia tudo e que nada escaparia a sua observação. Imaginei que assim eu seria, se só tivesse olhos, com eles eu falaria. Mas não é isso que acontece. Elas não olham, a sensação que tenho é que os olhos também foram adestrados e perderam a espontaneidade. Parece que perderam a vivacidade e a curiosidade.  

os detalhes

Depois de algum tempo usando abayas, voce descobre que elas tem um lado bem prático. Quando você vai sair, não precisa se preocupar com a roupa, apenas com brincos, bolsa e sapatos. A vida fica mais simples. Depois de algum tempo, você descobre que não precisa colocar nada embaixo por que isso não fará diferença alguma, e por incrível que pareça, isso fica até engraçado.

Mas um dia me deparei com a MUTAWA. Para imensa maioria das pessoas que lerão esse texto e que nunca ouviram falar disso, mutawa é a polícia religiosa. Ela existe para reprimir manifestações que podem ferir o Alcorão. Um desses policiais passou por mim, que estava com algumas amigas, e nos ordenou que cobríssemos a cabeça. Parecia uma cena de filme, mas eu não senti nada. Não senti medo, nem respeito, não senti nada.
Eu não tinha lenço, não havia levado, embora as recomendações sejam de levarmos o lenço para caso eles apareçam. Na verdade, acho que levei lenço na bolsa, nas primeira vezes que sai aqui, depois esqueci disso completamente. 
a primeira manifestação 


É claro que se um policial me parasse e exigisse o lenço, eu não teria nenhuma reação contrária, eu compraria um e o colocaria. Mas não foi o caso. Ele andava, nos viu, não mudou o ritmo acelerado dos seus passos, ordenou e continuou andando. Não obedeci. Não achei que ele realmente quisesse isso, já que não ficou pra ver. Percebi que aquilo não era comigo. A opressão só funciona de verdade, com os que já são acostumados a serem oprimidos. Eu demorei a reconheca-la, ela não faz parte de mim. O medo e a opressão não fazem parte da minha história. 

modelitos diferenciados






Não estou aqui querendo dizer que desobedecerei regras. Tenho maior facilidade em obedece-las. Isso é tranquilo pra mim. Desde que a minha integridade e individualidade não sejam feridas, e não sinto que estão sendo. Estou nesse país por que quis. Poderia não ter vindo. Essa é uma regra da casa, e eu a obedecerei sem problemas. Mas sinto que posso me divertir com isso. Resolvi bordar flores na minha primeira abaya que era totalmente preta, e agora tenho experimentado ousar nos modelos, com brilhos, decotes estampados, mangas com transparências, cores nos detalhes...e por aí vai. Se a polícia mandar (de verdade), vou colocar o lenço e obedece-la, mas enquanto isso... vamos brincar um pouco! 
Eu



O " Eu" pode e deve existir, apesar de tudo. Não é mesmo?




segunda-feira, 7 de março de 2011

O Melhor presente eu me dou!

 - "O Melhor presente eu me dou!"

Essa foi a lição que essa minha amiga me deu essa semana. Achei tão incrível e simples, e como amanhã é o Dia Internacional da Mulher resolvi escrever sobre isso!

Era véspera no aniversário dela e ela me contou que todo ano compra algo bem legal pra ela mesma, embala pra presente e guarda até a época do seu aniversário. Ela se dá esse presente nessa data. Estava com ela no dia que ela se deu um lindo presente e me contou dessa "tradição". Amei.

Vivemos dizendo coisas absolutamente comuns e que todo livro de auto-ajuda diz, como: Devemos nos amar se queremos ser amadas! ou que devemos reconhecer primeiro o nosso próprio valor se queremos que o outro também o faça!..ou, Se valorize! Frases simples que parecem tão clichê que nem levamos muito a sério.

Essa amiga é muito querida. Tem uma família linda, um ótimo marido, filhos lindos e queridos. Ela é amada por muitos amigos. Ela é respeitada e muito querida. Ela provavelmente ganhou muitos presentes no dia do seu aniversário, ganhou até uma festa surpresa, mas o MELHOR PRESENTE ela quis se dar! Não é lindo isso?

Ela reconhece que merece o melhor dela mesma. Ela cultiva alegria, mas sabe ser profunda. Tenho a nítida sensação que poderia conversar sobre qualquer assunto com ela, sem ser julgada e sem causar espanto algum. Ela é madura, mas é absolutamente jovem. Ela não se esconde. Mostra sua força, mas também também tem habilidade de falar sobre tristezas e dores. Ela cultiva amigos assim como cuida da sua família, com carinho e dedicação. A casa dela é acolhedora e parece que está sempre aberta. Ela naturalmente se torna o centro em qualquer lugar ou reunião. Ela é "Solar"! 

Ela tem uma qualidade que vale ouro e que reflete seu elevado auto-conhecimento: Ela sabe rir de si mesma! Ela se leva tão a sério que consegue fugir das atuações egóicas e vaidosas que nos impede de rir das nossas bobagens. Ela sabe rir sinceramente de si mesma, mas nunca a vi rindo de fraquezas alheias ou brincando de forma desrespeitosa com alguém.

Ela é uma pessoa do bem. Ela certamente é uma pessoa que acredita na Vida e na ARTE DE VIVER BEM! Ela realmente decidiu ser feliz. Acho que ela tem sido bem sucedida, embora a vida não tenho sido só de flores. Ela como poucas pessoas, conseguem falar das faltas, sem perder a beleza e sem se vitimizar.  Não a vejo moralizando nada. As coisas não são feias ou bonitas. Morais ou imorais. Ela consegue contextualizar e  ver o valor das pessoas e situações. Consegue mostrar fragilidade sem perder a força. Gosto dela.

Não a conhecia antes de vir morar em Houston. Seus filhos cresceram aqui, e ela tem uma filha que adoraria que fosse minha! Sempre brinco com ela que roubarei a filha dela, mas ela sabe que essa é uma forma indireta de elogiá-la. Sua filha é uma mulher linda !! 

Muitos anos se passaram desde que ela veio do Brasil com seu marido e dois filhos pequenos (um terceiro nasceu aqui depois)...., mas tenho a nítida sensação de que sentirei muita falta dela quando me for. Uma coisa tenho certeza...no meu próximo aniversário, eu me darei o meu melhor presente e lembrarei dela em todos os anos que vierem!!!

Obrigada amiga querida por partilhar comigo sua energia contagiante!

Ludmila Rohr

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sensualidade a flor da pele...

O tema "Sexualidade Feminina" é o meu tema favorito. Estou nesse momento criando um site em Inglês para abordar exclusivamente esse tema. Também, escrevi um livro sobre "Como se tornar uma mulher Sexualmente adulta". Realmente gosto de pensar nesse tema e escrever sobre ele. Penso que muitas mulheres adoecem (somatizando) e vivem de forma extremamente ansiosa por negarem ou reprimirem a própria sexualidade. 

No meu entender a sexualidade é muito mais que genitalidade, ou o ato sexual em si (já escrevi sobre isso em outros posts). A Sexualidade está na vida, está no corpo que pulsa e vibra em harmonia e com confiança. A sexualidade está no amor que sentimos por nós mesmas e pelo prazer que temos em morar nesse corpo.

Posso falar de Sensualidade sob diversos aspectos, mas impossível seria falar de "Sensualidade" sem falar de "Corporalidade". Ser sensual, é sinônimo de estar em contato com as sensações corporais. As pessoas fazem uma confusão importante com isso. Associam "SER Sensual" com alguma imagem corporal específica ou a padrões específicos de beleza, à magreza e as outras condições e requisitos relativos à aparência física, normalmente impostos por revistas de moda.

Dentro desse conceito equivocado, uma mulher sensual teria que ser magra, loura/morena e linda, com peitos e bundas que se destacassem, curvas na medida..etc..Lábios grossos (última moda) e cílios longos em olhares lânguidos. Por mais que saibamos que essas mulheres lindas que vemos em revistas possuem uma boa dose de photoshop e um excesso de produção, ainda continuamos nos cobrando ser como elas. Mulheres normais, continuam se submetendo a dietas de sacrifício, a cirurgias dolorosas na tentativa de que mudarem suas aparências físicas se tornarão mais sensuais e felizes.

Conheci pelo facebook uma miss plus-size do Brasil. Ela se chama Tatiana Gaião. Ela é plus-size, ou seja, é gordinha. Ela tem carnes e curvas, seu manequim está longe dos 36-38 das modelos. Ela perto das esquálidas modelos que desfilam as fashion-weeks da vida, com certeza será julgada como obesa. Entretanto ela se parece com muitas mulheres que conheço. Ela parece com nossas amigas, vizinhas, irmãs. Ela é gordinha. Tatiana foge da "regra" de que pra ser sensual e sexualizada tem que ser magra, ela  É definitivamente SEXY. Ela é linda, auto-confiante e extremamente sensual.

Esse não é um post para falar sobre Tatiana, esse é um post para falar sobre como Tatiana lida com o próprio corpo. Como ela descobriu a sua própria beleza. Como ela se descobriu sexy e sensual, a despeito do seu peso estar acima do que os estilistas dizem que é belo. Ela é linda. E o mais importante, ela se sente linda. Impossível não perceber isso ao ver suas fotos e sua autoconfiança. 

Mas..o que Tatiana tem que as outras mulheres gordinhas abriram mão, ou acham que não tem?
A resposta é simples. Tatiana se aceita. Ela busca a boa sensação de morar no corpo que ela tem. Ela se cuida. Ela é vaidosa e não se compara a ninguém mais. Ela é única, e sabe disso. Ela descobriu que sensualidade tem a ver com sentidos internos. Que sensualidade tem a ver com a sensação que ela tem de si mesma, e não com o que o outro pensa a respeito dela. Ela descobriu que existem vários tipos de beleza, assim como diversas são as formas de prazer e de viver! Tatiana é uma mulher, que resolveu ser feliz. Ela resolveu entender que se ela não se amar, ninguém irá amá-la também. Ela resolveu colocar esse ensinamento comum a todo livro de auto-ajuda, em prática, e foi viver. Ela exala essa energia. 

Nesse momento acho que o leitor deve estar pensando que a conheço bem. Devo esclarecer que não. Nosso único contato tem sido o facebook, a vejo em fotos e trocamos mensagens pequenas. Nem lembro mais como nos tornamos amigas nessa rede social, mas ela me inspira como mulher e como psicóloga e foi extremamente generosa e corajosa de permitir que escrevesse sobre ela e ao ceder suas fotos para ilustrar esse post. Digo corajosa, porque imagino que críticas possam surgir..., mas tenho certeza que muitas mulheres se verão refletidas e Tatiana e se sentirão estimuladas a se aceitarem, a se cuidarem e despertarem seus sentidos e trazerem mais sensualidade para seus corpos e vidas.

Mulheres, não precisamos ser miss plus-size, nem modelos..., mas voces precisam concordar comigo, precisamos ser sensuais!!! Precisamos sentir que o nosso corpo é um bom lugar de se viver!!!!

Obrigada Tati...seja feliz e ..(não volte...)

Ludmila Rohr








quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mais uma vez agradecendo ao Universo feminino !

Nunca tomei conta diretamente de uma casa. Sempre fui uma administradora da minha casa, mas diretamente nunca fazia nada. Nunca cozinhei..nunca havia limpado, arrumado uma cozinha..uma geladeira...e por mais que pareça estranho pra muitas mulheres, nunca havia feito um arroz, um feijão na vida! 

Talvez vocês pensem que nasci rica...muito pelo contrário. Nasci em uma família simples. Minha mãe era professora e trabalhava em 3 empregos, os três turnos! Quase nunca estava em casa. Lembro dela chegando e saindo. Meu pai trabalhou a vida toda no Polo Petroquímico e era sindicalista, vivia em greves, movimentos sindicais...passava muito tempo fora de casa. 

Na minha casa tínhamos Candinha. Acho que nesses dois anos de blog não falei dela. Candinha era a mãe preta. Quando eu nasci, ela já estava lá. Quando eu casei....ela ainda estava lá. Ela era a sósia da minha mãe..só que preta. Ela criou a gente. Ela brigava com a gente...colocava todo mundo pra fora da cozinha o tempo todo. Minha irmã que vem depois de mim, a chamava de mãe, "mãe preta". Quando ela chamava "mãe" e nossa mãe respondia, ela dizia, "Não é voce não, é minha mãe preta!".

A "Mãe Preta" era um  personagem comum nas famílias nordestinas e nas regiões que tinham um passado em que a prática da escravidão havia sido forte. As "Mães Pretas" criavam, amamentavam, davam carinho aos filhos das brancas...e muitas vezes nem podia criar os seus próprios filhos.

Não quero aqui fazer uma crítica social, muito menos cultural...longe disso. Quero apenas render uma homenagem a Candinha. Ela foi e ainda é, muito importante para a minha família. Hoje com o olhar da Sociologia e da Psicologia Social, posso entender o que Candinha representava. Ela era pobre, preta e empregada. Morou com a gente a vida inteira. Candinha não nos deixava entrar na cozinha. Ela dizia: "Vá estudar, se voce estudar, voce paga alguém pra cozinhar pra voce!". Não era minha mãe branca quem dizia isso, era a mãe preta. Acho inclusive que minha mãe branca, tinha uma vida mais dura, que a de Candinha. Vivia trabalhando, como professora...vida dura e pessimamente remunerada, a diferença era de "status", mas nenhuma na dureza do trabalho.

Na verdade...penso que esses foram os meus dois modelos femininos na infância. As duas trabalhando muito. Cresci assim. Achando que preciso trabalhar muito e o tempo inteiro. Fiz isso. Passei a infância e adolescência dos meus filhos trabalhando o dia todo e até tarde da noite. Assim como eu tive Candinha, meus filhos tiveram as minhas queridas Deda e depois Nil, por quem terei gratidão eterna e que moram no meu coração! 

Quando vim morar nos EUA, passei por uma mudança radical. Trabalho em casa, escrevo, organizo meu livro, planejo sites e estudo o tempo inteiro. Tenho alguns grupos de Mulheres e de Respiração (que amo!!) mas nada comparado ao volume de trabalho que tinha no Brasil com o consultório e com a clínica. Resultado..tenho descoberto um novo prazer: Cuidar da minha casa..cozinhar...arrumá-la....receber pessoas...fazer almoço pra Lucas, atender as necessidades da minha família nesse nível. Sinto muita falta de Caio não morar aqui nesse meu momento, queria poder fazer uns denguinhos pra ele também. 

Acho que integrei  uma nova face do feminino em mim. Sem esquecer do meu trabalho, da minha paixão pela psicologia e pelo Yoga, mas podemos dedicar mais tempo a minha casa e a minha família, como nunca havia feito antes. Estou gostando disso, embora tenha me deparado com minha imensa ignorância e despreparo. Não sabia fazer nada. Entenda "nada" no sentido literal. Nunca havia ligado uma máquina de lavar roupas, embora sempre tivesse em minha casa. Nunca havia colocado as mãos sobre um pedaço de frango ou peixe cru. Podem rir, mas é verdade. 

...e aí que entra mais uma vez o meu sentimento de gratidão por todas as mulheres que apareceram na minha vida aqui nos EUA e que estão me ensinando sobre esse universo pra mim, desconhecido e assustador. Agradeço imensamente e principalmente a Fátima Pontes, Nanci Nascimento, Fátima Carvalho e Valéria Silveira. Mulheres poderosas que me ensinam sobre algo que parecia um terreno que jamais conseguiria atravessar.

Acho que no final de um ano posso dizer que sinto que fui aprovada nessa graduação.
Yes, I did it!!!

Meninas...quero dizer a voces: Muito Obrigado! Sou grata!
Sou grata a todas as mulheres que entram na minha vida e me ajudam a crescer!

Beijos

Ludmila Rohr

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um lugar bom de morar!


Sou uma observadora de corpos..adoro ver as pessoas em movimento. Adoro as expressões corporais. Simplesmente amo observar os corpos se moverem nos esportes, nas danças, mas também na vida, nas ações rotineiras da vida. Adoro descobrir as imensas e incomensuráveis possibilidades que o nosso corpo tem de se mover e de se expressar.

Sou corporalmente expressiva. Sempre falo usando os braços, as expressões faciais, quando não, todo o corpo! Minha professora de inglês aqui nos EUA, evita me olhar quando eu não sei uma palavra, porque na dificuldade de expressão verbal, eu escapo do desafio linguístico usando o meu corpo. Digo que falo a linguagem universal da mímica e por isso, nunca tenho medo de viajar para lugares em que não conheço o idioma. Sei que me farei ser compreendida sem muita dificuldade.

Adoro ler corpos..adoro tentar entender o que eles estão falando...o que o corpo revela das pessoas, que nem elas mesmas as vezes estão conscientes. O corpo fala o que a nossa boca ou a nossa consciência nem sempre conseguem falar. Adoro ver os corpos sexualizados, cheios de energia, vitalizados e tenho muita dó de ver corpos esquecidos, desqualificados ou negados!

Sou professora de yoga...acho que todos sabem disso. O yoga entrou na minha vida quando eu tinha 16 anos..lá se vão quase 31 anos de prática. O yoga sempre foi a minha forma mais eficiente de meditar e de me conectar com o sagrado, com a divindade. O movimento corporal consciente sempre me ajudou a organizar idéias, a ter insights, a compreender melhor o que eu estava sentindo...

Como psicóloga gosto também da linguagem do corpo. Sou Analista Bioenergética. O corpo além de falar, oferece acessos rápidos a sentimentos e  lembranças. Gosto muito de incluir o corpo e a sua expressão no meu trabalho psicoterapêutico.

De uns anos pra cá, tenho me dedicado a observar corpos femininos, pois meu interesse profissional específico é a Sexualidade Feminina. Meu livro é sobre esse tema, e tenho alguns projetos profissionais dentro dessa temática.

O nosso corpo nos oferece uma possibilidade incrível de acessarmos a nossa existência interna, assim como pode nos manter no mundo exterior como numa prisão, porque ele nos oferece a chance de através das nossas sensações conhecermos um pouco mais de nós mesmos, mas também pode nos manter presos a aparência dele. Como uma via de duas mãos, o nosso corpo nos leva para dentro e para fora de nós mesmos.

Quando falo em beleza corporal nunca tenho como padrão as nossas indefectíveis modelos e manequins. As vejo como manequins (algo que serve para pendurar roupas) e não como mulheres. Sem querer desqualificá-las como trabalhadoras, porque penso que deve ser duro ser uma modelo ou manequim, mas elas não podem ser vistas como modelo de corpo saudável e feliz!! Elas para mim são padrão de doença e desvitalização. Elas (ou a grande maioria delas) não me parecem em paz com seus corpos...elas não ao menos parecem mulheres adultas...parecem algo como uma menina com medo de ser mulher. Muitas tem ombros caídos para frente, numa atitude de cansaço ou desânimo..e acho que nem sabem mais qual a sensação de morar no corpo delas...o corpo me parece um campo de atuação.

Bom...tenho conversado muito com mulheres que estão o tempo todo preocupadas com seus corpos ou melhor, com a aparência deles, e tenho dito a cada uma delas aquilo que realmente acredito. Digo para que elas busquem gostar verdadeiramente de morar nos seus corpos, pois se existe alguma forma deles transmitirem beleza e luz, independente do tempo e da idade, é sentindo-os como um lugar seguro e prazeroso de morar!

Ludmila Rohr




quarta-feira, 7 de julho de 2010

MORREMOS UM POUCO NESSA HORA....

Uma mulher foi assassinada. Ela foi assassinada por alguém famoso. Ela só ficou famosa, por causa disso. 10 mulheres são assassinadas todos os dias no Brasil. No dia que Eliza foi assassinada, outras 9 também foram. Quem as matou, ninguém sabe. Quem são elas, ninguém saberá também. Eliza terá sua morte investigada, porque seu provável algoz é famoso, e não porque uma mulher foi assassinada.

Eliza era filha de alguém, ela era mãe de uma criança, ela era amiga, vizinha e colega de alguém. Ela agora é uma vadia. Tem sua vida sexual devassada. Tem sua sombra revirada. Procuram algo que justifique seu assassinato. Tudo isso porque, se Eliza foi assassinada é porque ela fez algo para merecer isso. Dizem: "Quem procura, acha."

A nossa sociedade é tão machista que acolhe bem esses crimes. As mulheres que são assassinadas são sempre vadias. Elas buscaram de alguma forma esse destino. Eram as amantes, ou prostitutas, garotas de programa e afins... Os homens usam essas mulheres e descartam. Eles podem fazer isso. Eles não serão julgados por sua vida sexual, aliás serão até bem vistos. Coisas de macho.Os homens podem ter a vida sexual que desejarem,  não serão mortos por isso, mas as mulheres, se assim fizerem, merece o castigo maior...

Quando uma mulher é assassinada, estuprada, humilhada....todas nós somos também. É o feminino que é mais uma vez ferido. É o feminino que é mais uma vez julgado e condenado. O feminino que é destituído do seu poder. Todas nós perdemos e somos feridas.

Tenho estado muito indignada com essa história. Ela não é uma história inédita. Nem precisamos pesquisar muito para encontrar vários casos mulheres mortas dessa mesma forma. Entretanto é preciso ficar indignado sempre. Não podemos nos acostumar com isso nunca. 

Na China e índia, fetos de meninas são abortados. Em países africanos mulheres tem seus clitóris extirpados. Mulheres são espancadas por seus pais e maridos em todas as culturas e países. As mulheres são as primeiras a serem demitidas em tempos de crise. Os salários das mulheres é menor que o dos homens em funções semelhantes. Até pouco tempo, no Brasil, legalmente era aceitável um homem matar sua esposa, se sua honra tivesse sido ferida. Mulheres estupradas são acusadas de terem provocado seus estupros ao usarem roupas que atiçaram os machos.....

Adoro ser mulher e adoraria ser mãe de uma. Entretanto, não tive filhas, só filhos. Amo saber que meus filhos cuidam bem de suas namoradas. Amo saber que meus filhos respeitam suas amigas, assim como me respeitam. Nunca ouvi meus filhos falando de forma desrespeitosa de nenhuma mulher. Acho que eu e meu marido conseguimos criar dois homens dignos que respeitam as mulheres, assim como respeitam a vida. Acho muito improvável que um dia um filho meu seja violento com alguma mulher, assim como penso que não seriam violentos com ninguém. Fico feliz por isso.

Estou triste. Uma parte de mim é Eliza agora. Uma parte de mim é a mãe dela também.
Algo em mim está chorando por todas nós que morremos um pouco nessa hora.

Ludmila Rohr





domingo, 4 de outubro de 2009

Desejando............sem culpa?

Tenho uma amiga virtual linda. Torço pra que um dia possa abraçá-la de verdade. Ela é uma guerreira na luta contra o câncer. Ele me chama de Diva! Acho que temos uma afinidade intelectual..de almas..e de desejos...guardando as devidas proproções da idade..ela é uma jovem e linda mulher e eu sou uma linda mulher! Já vivi muito mais que ela...mas a admiro muito.


Bom...um dia após muita conversa, filosofando sobre a vida.e principalmente sobre o Amor e Desejo...questionando o quanto vale a pena adiar a vivencia desses amores e desejos...falamos sobre ousadia, liberdade...sobre Ser Mulher...sobre se apropriar do nosso corpo e dos nossos desejos... sobre o quanto tememos os nossos próprios desejos...e sobre muitas outras variações do mesmo tema...



Devo dizer que posso passar horas conversando sobre esses temas femininos com mulheres interessantes e questionadoras. Adoro mulheres que ousam questionar o poder patriarcal e não aceitam os comportamentos misóginos.. adoro conversar com mulheres que reconhecem o seu poder, ou o buscam!! Poderia fazer workshops e palestras infindáveis sobre isso! A "mulher" é o meu tema preferido!! Sempre me apaixono e tenho energia quando o tema é esse! Não sou feminista...não acho que os homens são inferiores, nem nada parecido...mas acho que os homens são mais monótonos, monocromáticos...tem menos apelo pra minha alma de terapeuta e de escritora...


Sou casada e tenho dois filhos homens...adoro eles..acho os homens lindos e não quero fazer nenhum manifesto pró-mulheres..só quero falar da minha paixão pelo tema feminino! Até nesse blog, tenho escrito muito sobre esse tema.



Bom..minha amiga me perguntou se é possível viver assumindo os desejos e sem culpa? Pergunta difícil né? Acho que nem vou conseguir responder só nessa postagem...voces terão que me acompanhar alguns dias até que eu possa organizar isso no meu corpo e mente.



O que me vem em primeiro lugar é uma pergunta: por que colocamos essa condição para viver o desejo? Porque ele precisa vir sem um preço? não podemos pagar esse preço? e se a culpa for nossa companheira, não podemos lidar com ela? Será que se o desejo for bom mesmo, não valeria a pena pagar um preço por ele, seja ele qual for?



Depois eu começo a pensar se existe vida sem culpa. Não sei...acho que não. A culpa é uma nuance da nossa alma, em algum nível, penso que a sentiremos sim.


Em seguida me pergunto: mas porque culpa associada a desejo? Estaríamos traindo que ordem? Estariamos quebrando algum paradigma? Estariamos provocando alguma ruptura profunda na humanidade ou mesmo nas famílias, se assumimos os nossos desejos? Por que os nossos desejos assustam tanto os homens, as famílias...e até as própria mulheres?


Outra coisa: Precisamos realizar todos os desejos? ou precisamos pelo menos assumir todos eles? Tomar consciencia dos meus desejos já não seria uma grande conquista? Por que algumas mulheres não querem nem pensar nos próprios desejos? não querem nem saber! Temem que apenas por os tornarem conscientes, a vida fique insustentável após isso.


Culpa está associado a erro. O desejo feminino na cultura cristã está associado a um grande erro. A primeira mulher que desejou, foi culpada e punida. Nascemos com essa imagem atávica impregnada nas nossas mentes e corpos...


Não concluirei nada nessa postagem..e talvez em nenhuma outra..mas prometo que voltarei a esse tema, logo...hoje só quero levantar essa questão..


Quem puder e quiser..comente essa postagem...seguirei com esse tema outras vezes...repassem pra outras mulheres...vamos tentar enriquecer esse debate!


Mulheres, desejem!!!


Beijos


Ludmila Rohr

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Despedida do Coração do Ventre!



Meu útero tá indo embora...vou operar hoje e o retirarei de mim...


Fiquei pensando que isso poderia vir com um grande pesar..mas não tá sendo assim...


Conheço o significado simbólico do útero de uma mulher....ele é o "coração do ventre"! Assim sempre o senti. O meu útero sempre foi uma espécie de coração...um coração que estava nas minhas entranhas...no meu âmago. Sentia uma espécie de poder emanando dele.


Conheço as energias que são mobilizadas no meu ventre..conheço os chakras e o corpo de luz que tenho..
Por isso...por saber tanto de outros aspectos do meu útero, até pensei que ía ficar triste ou com uma sensação de perda..sei lá...mas não estou.
Consigo me despedir com muita gratidão dele. Sem apegos.

Ele abrigou meus dois grandes amores. Meu útero foi tão generoso comigo que além de acolher tão bem Caio e Lucas, de forma tão protetora e sem intercorrencias...ele se abriu completamente para que eles saissem sem me causar sofrimento. Meus partos foram partos de um útero generoso e poderoso. Ele se dilatava completamente sem que eu me esforçasse...sem que eu precisasse passar por qualquer tipo de dor...abria caminho pra que meus filhos simplesmente viessem à vida.
A sensação de estar grávida..indescritível...me sentia como o centro do Universo..Meu útero era o centro do universo! Era lindo, mágico, poderoso...sentia como uma Deusa que gera a vida!
Lembro muito bem da imensa sensação de poder que tive quando senti meu útero contraindo para me ajudar a parir. Eu fiquei fascinada com aquela força animal que meu útero tinha, e que acontecia independente da minha vontade..eu só tinha que obedecê-la...seguir esse poder...assumir como meu! Era meu poder. Tive certeza disso. E quando meu primeiro filho nasceu desse útero poderoso..me senti muito poderosa...gostei muito de mim, pois percebi que eu não tive medo da minha natureza selvagem...não tive medo desse poder e que me entreguei a ele!


Disse pra mim mesma depois do parto: "Se posso isso, posso qualquer coisa!"

Sou grata ao meu útero por isso. Uma grande parte do meu poder, é um poder uterino, é visceral!!!

E mais ainda...

Adorava minhas mentruações...adorava menstruar...eu sempre tive um pré-mentrual tão doloroso, que a menstruação parecia um prêmio...era como se meu útero liberasse numa explosão, todas as tensões de um mês inteiro...era um alívio. Foi assim desde a 1ª vez que menstruei. Menstruar significava liberação...alívio..relaxamento...Me sentia profundamente conectada com a Deusa Ártemis que me revelava todo o poder animal/instintivo que existia em mim. Era um contato com uma fera poderosa que habitava meu corpo.


Não sinto abrindo mão de meu poder, nem o perdendo porque meu útero vai embora...sinto que sou grata e feliz por ter vivido toda essa conexão.

Como posso nesse momento me apegar a ele. Sinto gratidão..sinto muita gratidão.


Vou operar..ele será retirado de mim, mas as histórias e a energia que esse coração das entranhas mobilizou e ainda mobiliza na minha vida continuarão...
Me interno hoje e volto domingo...sem ele..mas muito grata por ele ter existido na minha vida quando eu precisei.



Namastê





Ludmila Rohr

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Mulheres unidas!!!!


Escrevi aqui algumas vezes sobre os meus amigos e amigas virtuais das duas comunidades de câncer que participo. Fiz um homenagem especial aos homens de uma dessas comunidades quando escrevi "Espaço dos Cuecas", esse é o nome de um fórum criado por eles. Hoje quero falar das mulheres, apenas delas!

Elas são mães, filhas, tias, sobrinhas, netas, amigas, amantes , esposa, ex-esposas, vizinhas de alguém. Elas lutam contra um câncer, ou ajudam alguém que está nessa luta, e tem aquelas que perderam alguém nessa luta. São muitas mulheres corajosas, determinadas, amorosas....mulheres que tem altos e baixos, e que como toda mulher têm que lidar além de tudo que já lidam por causa dessa doença maluca, algumas delas, infelizmente têm que lidar com TPM, menopausa, crises no casamento, ver filhos crescendo, ex-maridos aprontando...maridos indiferentes...distantes e assustados..., filhos pequenos, filhos adolescentes, trabalho...algumas descobriram o câncer na gravidez, ou amamentando!!!

Converso com algumas delas em tempo real....falamos de comida, de homens, de chocolates, de homens, de receitas novas, de homens, de vaidade, de homens., de novelas, de viagens, e da Índia...rsrsrsr....nos divertimos, mas falamos muito de coisas sérias também. Nos preocupamos com alguém que anda sumido, falamos amorosamente uma das outras, nos incentivamos...dizemos que somos lindas e poderosas e reforçamos nossa auto-estima.....fazemos o que toda amiga faz. Jogamos conversa fora, nos apoiamos, nos escutamos e não julgamos umas as outras...

Não sinto que somos coniventes ou lenientes com nossos defeitos e fraquezas, pois discordamos também, falamos o que não gostamos, tentamos acalmar uma que é mais esquentada...tentamos alertar outra sobre sua responsabilidade pessoal com sua vida...dizemos sempre coisas boas...mas nem sempre são agradáveis..ou fáceis...Tudo é delicado pra quem tá vivendo um momento assim, mas por outro lado, quem tá vivendo um momento assim, não quer perder muito tempo com bobagens....

Minhas amigas são lindas. Umas estão carecas, outras estão vendo seus cabelos crescerem, outras já os tem de volta. Umas estão vendo seus pais sofrerem, ou irmãos e maridos, mas outras passam pelo sofrimento absurdo e inimaginável para mim, de verem seus filhos lutarem contra um cancer, outras perderam seus filhos para o câncer!

Marcinha me disse que não é guerreira, mas que é corajosa. Que ela nunca quis essa guerra, mas já que teve que entrar, lutou com coragem...Ninguém quis essa guerra! Ninguém desejou pelo menos conscientemente passar por isso, mas vejo mulheres corajosas, com um coração enorme lutando ou acompanhado seus queridos.

Algumas estão em luto. Perderam alguém. Choramos junto. Elas rezam uma pela outra, eu mentalizo. Não sei rezar. Elas trocam mensagens de amor e orações, eu escrevo no blog, não tenho essas mensagens. Nos entendemos com nossas diferenças e com nossos momentos diferentes, mas somos unidas por algo em comum...o câncer.

Elas me dão uma nova dimensão do meu poder, elas me ajudam também a redimensionar meus problemas, minha dores, minha vida. São mulheres comuns, como outra qualquer, mas que experimentaram ou ainda experiementam o contato com o que essa doença provoca em nós. Não temos tempo a perder com lamentações, não temos tempo a perder com coisas que não tem importancia...Elas me ensinam e eu ensino algo pra elas. Nós trocamos e assim nos fortalecemos . Cuidamos das feridas e dos momentos tristes, mas nos alegramos com os momentos felizes, celebramos, parabenizamos uma a outra!

Sou muito grata por voces terem entrado na minha vida minhas amigas virtuais e de caminhada!

Patsy, Pati, Cris, Katy, Dani (s) , Gab, Ângela (s), Marcinha, Jaque, Myrloca, Mary, Regininha, Rejane, Cristine, Criss, Iolanda, Ione, Élida, Rai, Bertilha, Luana, Valérias (s), Mazé, Suu, Ceiça, Malu, Marcela, Cláudia, Fefa, Elaine, Gilca, Vera, Dayane, Caroline, Alexandra, Virginia, Marcela, Marli, Ana Cristina, Liliane, Ione, Simone, Márcia....ai...todas, todas, pois com certeza esquecerei algum nome....mas não de voces!

Beijos enormes

Ludmila

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Celebração das Deusas


Acho que já devo ter dito aqui, algo sobre o quanto eu adoro meu trabalho e todas as possibilidades que tenho de realizar mil coisas com ele. Já fui empregada da empresa privada e não aguentei, já fui funcionária pública concursada e também tive que sair senão ía morrer. Como psicoterapeuta e professora de yoga posso fazer tantas coisas diferentes....tenho tantos interesses e descubro sempre que posso produzir coisas com esses interesses se eu usar além do meu conhecimento, minha criatividade. Por isso, não posso ter um emprego, tenho que ser "dona" de mim mesma e ter a liberdade que vem daí.

Ontem encerrei mais um grupo que chamo de "Círculo das Deusas". É um trabalho com um grupo de mulheres, que procuram através da compreensão dos Arquétipos das Deusas Gregas e de como elas estão presentes nas nossas vidas (ou não) nos apropriarmos mais dos nossos poderes femininos.

Voces não tem idéia de como eu amo esse trabalho! Eu realmente amo muito esses encontros! Eu normalmente nem me preparo (tecnicamente) para eles. Eu sinto que apenas preciso abrir meu coração para as mulheres que lá estão e deixar que cada uma delas revele seus poderes. Sinto que a única coisa que faço nesse trabalho é autorizar cada uma delas a ser cada vez mais quem elas são em essência, e liberar seus desejos, saberes e poderes.

Passamos dois meses descobrindo a nossa porção Afrodite e como a nossa sexualidade teve que ser freiada e envolvida em culpas e sentimentos de inadequação; fazendo as pazes com a nossa Hera que não tem pruridos com relação ao poder; encontrando a nossa Ártemis e descobrindo o nosso amor pela natureza e pela liberdade; reconhecendo a Athena que mora em nós e que nascida da cabeça do pai luta contra as injustiças e ama o seu trabalho; acolhendo nossa Demeter que é mãe amorosa e que pode ser mãe de nós mesmas, e finalmente, descobrindo que podemos mergulhar fundo nas nossas dores como Perséfone e resgatar a nossa integração nos recônditos mais profundos da nossa alma.

Ontem encerramos essa jornada de resgate, reverenciando a nós mesmas.... brindando às Marilyns, às Fridas, às Anas Carolinas, às Priscilas, às Elianas, às Dôras, às Julianas, às Ângelas, às Ludmilas e a todas as Marias, brindamos aos batons, esmaltes, strasses, brilhos, livros; celebramos as delicadezas das fábulas, à coragem das guerreiras, ao prazer das cortezãs....rimos regadas a um bom vinho, uvas e claro, que não podia faltar, com chocolates.
Brindamos por cada orgasmo que teremos, por cada amiga que ainda faremos, pelos livros que publicaremos, pelos beijos que daremos, pelos homens que ainda abrirão portas de carro e trocarão nossos pneus e que nos amarão... e terão coragem de dar suporte aos nossos desejos e embarcarem neles... brindamos pelos filhos, pelas mães, irmãs e amigas que temos...brindamos por todas as mulheres das nossas vidas conhecidas ou não, mas que nos compõem....e nos ajudam a ser tudo que podemos ser.

Obrigada minhas lindas amigas, alunas, clientes...obrigada mulheres que me proporcionam uma experiencia como essa, que me dá uma noção muito linda de mim mesma. Acho que já disse que gosto muito de ser mulher, que gosto muito de mim mesma e da minha vida, mas quero mais uma vez agradecer, dizer o quanto sou grata por voces me darem esse prazer de rirmos e chorarmos juntas, de abrirmos a nossa alma uma para a outra e descobrir que podemos confiar. Confiar em nós mesmas, nos nossos desejos, intuições e sentimentos.



Namastê!


Ludmila
P.S. Escultura que mais amei no Museu D'Orsay em Paris

terça-feira, 10 de março de 2009

Mulheres!!!!!


Sou uma mulher de 45 anos. Não tenho problemas com minha idade, pelo menos até então. Gosto da idade que tenho. Gosto do meu corpo maduro e da pessoa que sou. Até agora gosto de tudo que veio com a idade. Sei que poderia não ter vindo...por que as coisas não chegam simplesmente, mas nesses anos, vivi muito e acho que fui muito intensa na forma que vivi, por isso, gosto do resultado. Nesses anos, procurei ser honesta acima de tudo com o meu coração e aceitei muitos desafios que a vida me proporcionou. Normalmente não fujo deles, embora muitas vezes desejasse isso. Cresci muito, me transformei e agreguei em mim muitas experiências femininas.

Lacan famoso psicanalista francês afirmava - "a Mulher não existe" para explicar a ausencia de resposta para a grande pergunta feminina que é : "O que é ser mulher?". Parece que essa pergunta não tem mesmo resposta, ainda não sei porque. Passamos muito tempo nos perguntando isso - O que é ser mulher? e nos respodemos em forma de poema, verso, prosa e em músicas lindas! .. até utilizamos a mitologia para tentar explicar, mas acho que não conseguimos!

Acho que realmente não tem uma resposta para o que é ser mulher...acho que teremos que nos render a isso, mas de qualquer forma quando me vi, em um círculo de mulheres, ontem lá no Espaço Mahatma Gandhi em uma vivencia em homenagem ao Dia da Mulher, me senti muito querida, muito especial...e entendi com o meu coração aquilo que já sabia...adoro ser mulher!

Lá estavam mulheres tão diferentes, de todas as idades, em momentos diferentes de suas vidas...mas no fundo éramos todas iguais, nos sentiamos assim.... vivendo um momento sagrado, de encontro, de carinho, de acolhimento, de alegria, de tristeza, de grande e profundo vínculo, e o que nos vinculava de forma tão íntima naquele momento, era que sabiamos que somos Mulheres. Isso era o bastante!

Beijos a todas as mulheres!

Ludmila Rohr
P.S Na foto, eu e as mulheres mais importantes da minha vida! Minha mãe e minhas irmãs!


sábado, 7 de março de 2009

Eu e ele


Esses dias pós quimio são difíceis....Judson fica muito prostrado, sem energia....dorme muito, come muito pouco. O remédio pra aliviar o enjôo dá muito sono...enfim...parece que assim serão os próximos 6 mêses, alternando um fim de semana super bem disposto, com outro que vem depois da quimio em que ele fica muito abatido. Hoje ele ficou na cama deitado o dia inteiro. Parece que o corpo precisa se recuperar da bomba de drogas que recebeu. Não sobra energia pra nada, mas ele diz que se for pra paasar por isso, que está tudo bem. Ele não é queixoso nem demandante. Ele fica quieto, e isso às vêzes parte meu coração.

Descubro com isso que sou paciente e que tenho muito cuidado amoroso com ele. Não me sinto ansiosa. Não tenho desejos de sair, de ver pessoas ou de fazer coisas, muito pelo contrário. Estou bem ali do lado dele. Ele de vêz em quando me olha e diz que podiamos dar uma voltinha, mas sei que ele está dizendo isso por que fica preocupado comigo. Ele se preocupa que eu fique entediada ou cansada. Digo pra ele que não tenho essa necessidade, que estou bem, que estou tranquila ali, exatamente onde deveria estar, ao lado dele. Não tenho ansiedades porque me parece que não existe outro lugar pra mim. Nesse momento, é esse o meu lugar.

Quando casei aos 21 anos, achei (como a maioria das pessoas que casam apaixonadas) que havia encontrado a pessoa com quem queria viver o resto da minha vida. Recebia de Judson amor, respeito a minha individualidade, amizade, sexo de qualidade, cuidados atenciosos, proteção e muito mais. Desenvolvemos nesses 25 anos que nos conhecemos uma amizade muito preciosa. Gostamos da companhia um do outro. Somos muito diferentes um do outro, muito mesmo!! Eu falo pra caramba e ele, escuta. Às vêzes, acho que ele nem escuta, reclamo, ele jura que tava escutando...rimos, e eu continuo falando pra caramba e ele escutando...

Ele é a pessoa que escolhi pra viver junto. Foi uma escolha da paixão e depois do amor. Claro que tivemos nossos problemas ao longo desses anos, temos muitas diferenças, mas temos algo que é muito especial...gostamos da companhia um do outro. Nossos filhos cresceram, e são muito independentes, namoram e tem suas próprias vidas, o que achamos ótimo! Por isso, ficamos muito tempo sozinhos, um com o outro, viajamos sozinhos, almoçamos e jantamos sozinhos, e gostamos disso. Gosto de ficar com ele. Gosto de saber que é ele quem está vendo o meu corpo envelhecer e minhas rugas surgirem, e que quando a casa estiver vazia, seremos nós dois.

Sei que ele achava, e ainda acha que é muito pesado pra mim cuidar dele. Sei que ele acha que não é natural pra mim fazer isso. Ele tenta me poupar, porque sabe o quanto sou individualista, talvez egoísta. Entretanto, nunca gostei tanto de mim como agora. Descubro que sou muito melhor do que imaginava. A doença dele está servindo pra que eu conheça outros aspectos de mim mesma que nem eu sabia que existiam, nem ele! Infelizmente foi dessa forma que descobri isso. Preferia não descobrir. Preferia continuar mimada e mal acostumada por ele, que me mantinha no meu egoísmo infantil, a vê-lo sofrendo e abatido como tenho visto, mas, assim é a vida e tenho descoberto que somos muito mais ligados um ao outro do que podia imaginar!

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher e quero desejar muito amor, muita coragem, muita serenidade e força a todas as minhas amigas, irmãs, clientes, alunas, colegas; mulheres que fazem parte da minha vida e que moram no meu coração!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. foto clássica em Veneza


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mulheres poderosas....muita alma....muitos sentimentos...


Duas pessoas muito queridas para mim, estão vivendo momentos bem fortes em suas vidas e embora desejem, têm muita dificuldades de me procurar, dizem que é por causa do meu momento. Uma delas está muito feliz, apaixonada, vivendo um amor; ela está leve, bonita, animada e cheia de energia. Me confessou que é complicado para ela dividir comigo sua felicidade, pois sente-se egoísta, sente que meu momento é mais importante. A outra está se separando, está oscilando entre a raiva por estar sendo sacaneada pelo ex-marido e o mêdo de tantas mudanças. Sente-se mal e sozinha pra enfrentar tudo, e também acha que não devia me incomodar, pois os meus problemas são maiores.

Bom....se não consigo olhar para fora de mim, esse meu quadro daqui a pouco iria me enlouquecer. Como já disse antes aqui no blog, não me sinto especial, porque estou vivendo um momento especial. Não preciso ser poupada da vida, porque estou inundada, imersa nela; se eu não conseguir me comover com a vida, se eu não conseguir me afetar com as histórias das pessoas, que pessoa egocentrada eu seria.

Às vêzes, como já disse aqui também, tenho a sensação de que estou fora da vida, como se estivesse em outro ritmo ou outra dimensão, mas isso passa. Cada vêz que me aproximo de alguém e ouço uma história, isso me tráz de volta à realidade. Eu sempre soube que "olhar pro outro, me ajuda a reconhecer os meus limites", o outro é o meu limite, a dor do outro dá limite a minha, a alegria do outro também! e isso é fantástico, porque se não houvesse esse limite....como nos sentiriamos? sem bordo...num vazio que não ajuda a estabelecer forma, ou possibilidade.

Ouvir uma mulher apaixonada, me coloca em contato com essa porção que existe em mim...posso sentir essa energia vibrando no meu coração e por todo o meu corpo. Pedi pra ela, para não ser excluida desse seu momento, que eu estou achando lindo...e que fico muito feliz por ela. Sou uma pessoa intrínsecamente feliz, e a felicidade do outro não me assusta, nem me causa desconforto. Gosto de ver alguém feliz, e vibro por isso. Ela está irradiando luz, brilho, sexualidade, alegria, excitação....pode existir um momento tão lindo quanto esse?

Minha outra amiga, está com raiva....muita raiva, às vêzes muito medo e quase sempre, muita solidão. Ela é linda. É realmente uma mulher linda. Ela é inteligente, sensível, confiavel e boa amiga. Adoro a beleza dela. Acho que muitas mulheres podem ter problemas com ela, por ser tão linda e inteligente, e num momento como esse, ela esquece de quem ela é. Ela se vê sempre frágil, sozinha, sem recursos internos, com medo...ela vive um momento meio negro...sem conseguir olhar pra frente, se acha sem saída, sem possibilidades, com medo de ser uma fracasso....Digo pra ela que isso é impossível. Ela não será uma fracassada, só por que algumas coisas estão fracassando....., ela conversa comigo, mas também se sente mal em me incomodar.

Adoro essas duas pessoas e sinto que jamais estaria fechada para elas...aliás sinto que sempre que me coloco diante da dimensão humana, me sinto tão mais inteira, sem mais, nem menos; do meu tamanho. O sentimento do outro faz com que a minha dor, ganhe um tamanho e uma forma, não fique difusa, espalhada pela minha vida. Tem um lugar na minha vida, mas não é minha vida. Elas são poderosas, apesar de viverem momentos opostos, são mulheres poderosas, por poderem se entregar aos seus sentimentos, por não temerem suas próprias almas. Adoro isso!

Quanto mais mergulho nos meus sentimentos, mais próxima de todos que sentem eu conseguirei estar. Certamente seria difícil ouvir qualquer pessoa com suas histórias de alma, se eu estivesse tentando fugir da minha. Se eu tivesse tentando negar a minha alma, eu não suportaria alguém na minha vida que me levasse ao encontro dela.

Deméter é uma Deusa grega cujo nome significa, "porta de entrada para o feminino Misterioso". Ela sempre ilumina os nossos caminhos pelos labirintos das emoções e dos sentimentos. É uma linda Deusa que certamente vai nos ajudar a entrar nesses labirintos e honestamente olhar para os nossos sentimentos...sem negá-los e vivenciando cada um deles.

Então, obrigada minhas queridas, por me incluirem e me deixarem participar das suas vidas e dos seus corações.

Namastê!
Ludmila Rohr
P.S. na ilustração...Deméter...linda, poderosa e com o peito (alma) exposta!


sábado, 17 de janeiro de 2009

UMA DESCOBERTA


Sempre pedi aos Deuses para ser uma pessoa forte. Sempre pedi aos Deuses para não ser uma pessoa bege. Chamo "pessoa bege", aquela que não deixa marcas, que não interfere, que se adequa a tudo. Queria ser alguém que interferisse, que fosse lembrada, que afetasse as pessoas e os ambientes por onde passasse. Queria ter a sensação de que gosto de mim mesma, aquela sensação que me garantiria a sensação de que eu não gostaria de ser outro alguém, mas que eu estou feliz com quem eu sou!

Nasci assim....meu pai me chamou de Ludmila, e dizia que esse nome significava "Amada por todos", nasci em meio ao golpe militar no Brasil e meu pai era um líder comunista, então já cresci meio "vermelha", bem longe do bege.

Nasci em Salvador-BA, mas filhas de uma amazonense com um paraense, que são primos. Bom me sentia diferente das minhas colegas de escola, mas adorava isso. As pessoas na época se chocavam quando sabiam que meus pais eram primos, e eu reforçava dizendo "são primos carnais!", como se chama primo de 1º grau aqui na Bahia. Eu gostava do impacto que isso causava, gostava de já ter nascido com uma história diferente.

Bom...meus pais eram pobres, não tinhamos nada sobrando, não tinhamos espaço sobrando, moravamos em um apartamento bem pequeno e que foi ficando menor a medida que a família se completou com 4 filhos. Minha mãe era uma professora e trabalhava em 3 empregos, e meu pai trabalhava no Pólo petroquímico, quase não os víamos, exceto nos fins de semana.

Voltarei sempre a fazer referências à minha infância e adolescência, mas quero falar dessa mulher que sou hoje, e das experiências que tenho vivido hoje aos 45 anos de idade.

Acabei de descobrir que meu marido está com uma metástase no fígado de um câncer que ele tratou no ano passado. Uma descoberta como essa mobiliza tudo que tenho em mim, tudo que vivi, as minhas crenças, os meus mêdos e a minha relação com a vida.

Quando descobrimos o primeiro câncer, sofri, tive mêdo, chorei muito, imaginei muitos quadros possíveis, mas no fundo, em um lugar muito profundo de mim mesma, encontrava um lago de águas serenas, um lugar que me dava muita paz e serenidade.

Nessas situações é comum vc ouvir muitas coisas das pessoas, e um dia eu ouvi: "A gente nunca está preparado pra isso, né?". Aquilo me afetou profundamente, porque se eu dissesse que não estava preparada, estaria jogando fora anos e anos de uma vida vivida com tanta intensidade e verdade. Lembrei que pratico meditação e yoga há 29 anos, lembrei de tantas coisas que acredito e que sempre me fizeram ser a pessoa forte que sou. Como agora poderia dizer que não estou preparada pra lidar com isso? O câncer nada mais é que estar diante da vida e morte, e não é assim que acredito que estamos diariamente?

Outra coisa que me causava muito desconforto eram as demonstrações de fé do tipo: "Tudo vai dar certo!", "Tenha fé que tudo dará certo!". Bom, eu pensava...por que é assim que acredito: Tudo sempre dá certo! mesmo que não aconteça como gostariamos, não significa que deu errado. O Dharma se faz, e o que tiver de ser, será! e o que acontecer, está certo!

Na época do 1º câncer o tratamento foi muito doloroso, pude experimentar o que é ver alguém sofrendo juntinho de mim, sem que eu pudesse fazer muita coisa....ele venceu...atravessou essa primeira etapa, foi dado como curado....brindamos, celebramos....viajamos pra Europa para comemorar...brindamos à vida em Veneza, em Paris....merecíamos.....e nos permitimos!

Mas agora, 3 mêses depois descobrimos que escondidinho no fígado, crescia uma célula desgarrada...e teremos que enfrentar esse desafio outra vez! e assim será! Trabalharei com minha fé, que é uma fé que me diz que tudo está certo, que devemos estar abertos ao todo, que ao desejarmos a vida, não podemos excluir a morte, que ao desejarmos o prazer, não conseguiremos excluir a dor.

Sempre pedi aos Deuses para ter uma vida inteira, que os meus véus da ignorância fossem tirados um a um; continuo querendo isso e continuo querendo aprender o máximo com todas as histórias da minha vida. Vamos ver o que essa agora, quer me ensinar!

Namastê

Ludmila Rohr

P.S. foto em Templo Budista no Nepa - Roda de Orações