Mostrando postagens com marcador crescimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crescimento. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre Coragem


Já tive nesses 20 anos em que ensino yoga, muitos alunos, uma quantidade tão grande que nem posso imaginar. Algumas pessoas vem fazer yoga esperando uma mágica, que o yoga dê um jeito nelas e em suas vidas, como se fosse um remédio, essas podem até descobrir em algum momento da prática que não é bem assim e assumirem as suas responsabilidades no processo; outras buscam uma atividade física inteligente e até descobrem que o yoga é muito mais que isso; e outras veem buscando um caminho..se reconhecem como um ser integral e buscam no yoga algo que possa ajudá-las nesse caminhar em direção ao auto conhecimento.

Tento gravar o nome de todos os alunos, as vêzes não consigo, mas me esforço muito pra isso, quero ver cada um como uma pessoa diferente, com seus corpos que revelam suas histórias, suas emoções....quero ver cada um individualmente. Infelizmente nem sempre consigo.

Preciso dizer que sinto um carinho muito grande por todos eles, pois eles me fazem uma pessoa muito melhor. Não suporto o lugar de "Mestre" e sempre dou um jeito de escapulir dessas projeções. Aprendo tanto em cada aula que dou, aprendo tanto com cada aluno que vem conversar comigo, como posso ser um mestre? Nesse lugar (de mestre) me sentiria uma charlatã, gosto do meu lugar de alguém que ensina yoga, mas que reconhece que sabe muito pouco ainda.

Alguns alunos chegam mais junto, se fazem presentes, participam da atividades extra-aula, opinam, fazem perguntas, se mostram, se implicam no caminho e uma forma mais explícita, não que os mais calados e silenciosos não estejam implicados também, mas é mais fácil pra mim reconhecer aqueles que se mostram mais, que buscam uma relação mais íntima, que se tornam amigos. esses ultrapassam a fronteira professor/aluno e se tornam pessoas tão queridas, tão amigas. Compartilham suas vidas, suas dúvidas...eles trocam de forma mais clara, dão e querem receber.

Rita é uma antiga e querida aluna de yoga e me mandou por email essa frase de Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." Adorei!

Falei outro dia sobre coragem. Me sinto uma pessoa muito corajosa, não me lembro de situações em que eu tenha ficado paralisada por causa do medo. Sinto medo é claro, mas a minha coragem é sempre maior que os meus medos. Em vários momentos da vida senti muito medo, mas a minha coragem estava lá ao meu lado, me conduzindo, movendo as minhas pernas, me dizendo que eu precisava fazer algo, ou que seria mais corajoso não fazer nada. De fato sou uma pessoa corajosa e não tenho nenhum problema em falar isso. Acho que todos que me conhecem diriam o mesmo de mim.

As vêzes sou até contra-fóbica, ou seja, uma situação de medo, eu me meto logo, faço o que tem que ser feito, pra nem dar tempo de deixar o medo crescer e tomar conta de mim. Já cuidei disso em terapia. às vêzes o medo me faz ter comportamentos meio insanos, como nos assaltos que sofri e que enfrentei os ladrões, como se eles não pudessem fazer nada comigo. Bom...devo dizer que a cada episódio desses eu passei depois algum tempo chorando na terapia, ou com amigos....

Tenho medo de altura, e só pude reconhecer isso há poucos anos atrás...eu sofria horrores, mas não sabia que tinha medo, um dia eu estava no alto de um trapézio de um circo, quando me dei conta de que tinha medo de altura e que não precisava me expor a esse medo se não quisesse. Afinal de contas eu não sou trapezista!!!Voces não podem imaginar o quanto isso foi transformador na minha vida. Desse dia em diante pude tranquilamente recusar todos os convites pra descer montanhas amarradas numa corda e coisas semelhantes..ufa....

Mas quero voltar à frase de Guimarães Rosa que Rita me mandou...ele fala sobre a vida, o vai e vem da vida, os altos e baixos, as mudanças de estação que a vida tem.....pra isso sou muito corajosa, sinto medo em alguns momentos, mas posso me considerar uma pessoa corajosa diante da vida. Acho que já andei bastante e vivi muitas coisas, e quero viver muitas ainda. Nunca achei que a vida devesse ser mansa, a vida é o que deve ser, e preciso ser corajosa pra não paralisar nos momentos que preciso me mover, mas preciso ser corajosa pra não deixar meu ego e vaidade se apossarem de mim naqueles momentos em que tudo sossega, pois nesses momentos temos muito o que fazer, mesmo que seja contemplar!

Obrigada meus alunos queridos, por achar que posso ensinar algo a voces e sem saber estão me ensinando tanto...Obrigada Rita, por Guimarães Rosa.

Om...Shanti....

Ludmila Rohr
P.S. Essa foto foi tirada em Delhi (Índia) no maior templo muçulmano de New Delhi. É lindo...voltaremos lá em 2010. Preparem -se!!!!

sábado, 17 de janeiro de 2009

UMA DESCOBERTA


Sempre pedi aos Deuses para ser uma pessoa forte. Sempre pedi aos Deuses para não ser uma pessoa bege. Chamo "pessoa bege", aquela que não deixa marcas, que não interfere, que se adequa a tudo. Queria ser alguém que interferisse, que fosse lembrada, que afetasse as pessoas e os ambientes por onde passasse. Queria ter a sensação de que gosto de mim mesma, aquela sensação que me garantiria a sensação de que eu não gostaria de ser outro alguém, mas que eu estou feliz com quem eu sou!

Nasci assim....meu pai me chamou de Ludmila, e dizia que esse nome significava "Amada por todos", nasci em meio ao golpe militar no Brasil e meu pai era um líder comunista, então já cresci meio "vermelha", bem longe do bege.

Nasci em Salvador-BA, mas filhas de uma amazonense com um paraense, que são primos. Bom me sentia diferente das minhas colegas de escola, mas adorava isso. As pessoas na época se chocavam quando sabiam que meus pais eram primos, e eu reforçava dizendo "são primos carnais!", como se chama primo de 1º grau aqui na Bahia. Eu gostava do impacto que isso causava, gostava de já ter nascido com uma história diferente.

Bom...meus pais eram pobres, não tinhamos nada sobrando, não tinhamos espaço sobrando, moravamos em um apartamento bem pequeno e que foi ficando menor a medida que a família se completou com 4 filhos. Minha mãe era uma professora e trabalhava em 3 empregos, e meu pai trabalhava no Pólo petroquímico, quase não os víamos, exceto nos fins de semana.

Voltarei sempre a fazer referências à minha infância e adolescência, mas quero falar dessa mulher que sou hoje, e das experiências que tenho vivido hoje aos 45 anos de idade.

Acabei de descobrir que meu marido está com uma metástase no fígado de um câncer que ele tratou no ano passado. Uma descoberta como essa mobiliza tudo que tenho em mim, tudo que vivi, as minhas crenças, os meus mêdos e a minha relação com a vida.

Quando descobrimos o primeiro câncer, sofri, tive mêdo, chorei muito, imaginei muitos quadros possíveis, mas no fundo, em um lugar muito profundo de mim mesma, encontrava um lago de águas serenas, um lugar que me dava muita paz e serenidade.

Nessas situações é comum vc ouvir muitas coisas das pessoas, e um dia eu ouvi: "A gente nunca está preparado pra isso, né?". Aquilo me afetou profundamente, porque se eu dissesse que não estava preparada, estaria jogando fora anos e anos de uma vida vivida com tanta intensidade e verdade. Lembrei que pratico meditação e yoga há 29 anos, lembrei de tantas coisas que acredito e que sempre me fizeram ser a pessoa forte que sou. Como agora poderia dizer que não estou preparada pra lidar com isso? O câncer nada mais é que estar diante da vida e morte, e não é assim que acredito que estamos diariamente?

Outra coisa que me causava muito desconforto eram as demonstrações de fé do tipo: "Tudo vai dar certo!", "Tenha fé que tudo dará certo!". Bom, eu pensava...por que é assim que acredito: Tudo sempre dá certo! mesmo que não aconteça como gostariamos, não significa que deu errado. O Dharma se faz, e o que tiver de ser, será! e o que acontecer, está certo!

Na época do 1º câncer o tratamento foi muito doloroso, pude experimentar o que é ver alguém sofrendo juntinho de mim, sem que eu pudesse fazer muita coisa....ele venceu...atravessou essa primeira etapa, foi dado como curado....brindamos, celebramos....viajamos pra Europa para comemorar...brindamos à vida em Veneza, em Paris....merecíamos.....e nos permitimos!

Mas agora, 3 mêses depois descobrimos que escondidinho no fígado, crescia uma célula desgarrada...e teremos que enfrentar esse desafio outra vez! e assim será! Trabalharei com minha fé, que é uma fé que me diz que tudo está certo, que devemos estar abertos ao todo, que ao desejarmos a vida, não podemos excluir a morte, que ao desejarmos o prazer, não conseguiremos excluir a dor.

Sempre pedi aos Deuses para ter uma vida inteira, que os meus véus da ignorância fossem tirados um a um; continuo querendo isso e continuo querendo aprender o máximo com todas as histórias da minha vida. Vamos ver o que essa agora, quer me ensinar!

Namastê

Ludmila Rohr

P.S. foto em Templo Budista no Nepa - Roda de Orações