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sábado, 6 de julho de 2013

GRANDE DILEMA


Vivo um grande dilema. 

Em alguns meses o trabalho do meu marido o levará para a Arábia Saudita. Ele ficará envolvido com esse projeto, por alguns anos. Ou melhor dizendo, foi esse mesmo projeto que nos levou por dois anos a Houston e, também pelo mesmo motivo estamos há quase dois anos na Coréia do Sul.   


Morar no Texas foi uma experiência maravilhosa. Foi nossa primeira experiência de morar fora do nosso país. Descobrimos que temos curiosidade suficiente para nos encantarmos com o que é novo, e sabemos viver longe do conhecido e usual. Somos uma família desapegada e curiosa. Foi excelente descobrir isso na prática. 

Podemos viver sem nenhum sofrimento sem as coisas que sempre tivemos. Percebo pessoas sofrerem por falta de algum tipo de comida, por exemplo, nós não sofremos. Adorei descobrir cada restaurante novo, adorei viajar pelas maravilhosas estradas americanas, adorei poder voltar ao Brasil e matar saudades das pessoas, mas adorei cada volta para casa.

Os EUA foram nossa casa por dois anos, e quando mudamos para a Coréia, mudamos sem sofrimento, muito excitados pelo que conheceríamos e sem nenhuma tristeza. Sabia que voltaria incontáveis vezes, já que um filho estaria ficando, então não sentia que estava deixando os EUA, estava apenas me afastando temporariamente. Será diferente sair da Coréia. Não sei quando voltarei lá... isso aperta meu coração.

Sempre disse sobre a saudade do meu trabalho, e é verdadeira, mas descobrir que estudar e ir a museus, e fazer cursos, me preenchem muito bem. A saudade de trabalho, de estar no lugar de psicóloga, é uma constante, mas não me esmaga, por que sempre estive bem ocupada. Tenho aproveitado para resignificar a importancia do meu trabalho na minha vida, (uma capricorniana viciada em trabalho, tem dificuldades com isso).


A saudade dos filhos, essa sim é esmagadora. Choro sempre que penso no tempo que não vejo cada um deles. Pensar em Caio, que ficou no Brasil, é a minha grande dor, (por que o vejo muito menos que Lucas, que mora nos EUA), mas não acredito que exista vida sem dor, e sei que eles estão bem, e que não existe nada de errado em que os filhos cuidem de suas vidas e sigam seus caminhos. Não criei dois homens para viverem ao meu lado, e sim para caminharem com suas pernas e serem hábeis em resolverem seus problemas, e sei que eles são. 

Nada de errado em sentir saudade dos filhos e em momento nenhum penso que eles deveriam resolver esse problema que é meu. Adoro saber que eles precisam cada vez menos de nós, e que podemos nos relacionar não por necessidades e sim por amor. 


Morar na Coréia tem sido uma experiência inesquecível e impagável. Amo! Amo as suas comidas, adoro admirar o quanto os coreanos são lindos, elegantes e esbeltos. Adoro não entender nada do que eles falam e não sentir que tenho obrigação alguma de entender. Me divirto com o fato de não conseguir ler um cardápio em restaurante ou as placas nas lojas. Adoro pensar que terei para o resto da minha vida, histórias exóticas para contar, sobre esse país e sobre as viagens que fizemos pela Ásia. Conhecer países como Singapore, China, Hong Kong e Indonésia com certeza me fizeram uma outra pessoa. 

Mas agora, o marido vai para a Arábia Saudita. Não existe nada naquele país que me agrade, muito pelo contrário. O lugar da mulher nos países árabes me ofende, as questões dos direitos e liberdades, me deixam furiosa. Não consigo nem brincar com esse assunto. Não consigo pensar que terei que comprar aquelas roupas pretas. Não consigo falar, nem brincando, sobre o fato de que mulheres precisam de autorização do marido para saírem nas ruas. Mas, Judson vai estar lá....Não consigo ficar muito tempo longe dele. 

Esse é o dilema. 
O que fazer quando seu amor tem que estar num lugar em que você não consegue se imaginar? 

Bom...questões do amor.. 
Nessa hora é bom pensar que não tenho mais filhos pequenos que me prenderiam em um lugar que não quisesse ficar, e posso com liberdade me mover para onde meu coração mandar.

Sei que ficar longe de Judson é muito ruim. Sei que ele também sofrerá por estar longe de mim, mas sei que ele não fará nenhuma objeção se eu não quiser ir, isso é claro entre nós dois. Pensamos em alternativas... viagens regulares...mas sabemos que não será fácil pra nenhum dos dois.

Acho que só saberei como ficaremos a medida que as situações acontecerem...um dia de cada vez.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O MUNDO NO MEU CAFÉ DA MANHÃ


Moro desde do início de dezembro de 2011 em um hotel em Seoul, capital da Korea. Essa tem sido uma experiência fantástica, e me refiro a os dois aspectos da minha declaração inicial. Morar na Korea e morar em um hotel.  
criança coreana

Tenho falado nesse blog sobre várias experiências impagáveis e inesquecíveis que tenho tido por viver nesse país que cresce absurdamente, que tem uma comida exótica, que tem o melhor sistema de metrô do mundo, que tem um povo que acredita na educação como o grande agente transformador de uma nação. Amo e sou grata à vida por ter me dado essa chance, nunca imaginada de morar na Ásia. 

Moro em um hotel. Moro em um hotel na Ásia. Nunca imaginei que um dia fosse morar em um hotel, e muito menos que esse hotel fosse desse lado de cá do planeta. Fizemos a escolha de morar em um hotel porque pensamos ser mais prático e excitante. Poderíamos morar em um apartamento, como muitos amigos escolheram morar quando mudaram pra cá, mas preferimos um hotel e não nos arrependemos em um só segundo da nossa escolha. Nosso hotel fica em uma área turística de Seoul, um bairro famoso, por suas ruas movimentadas, pelos bares e vida noturna, pela enorme opção de restaurantes e lojas. Adoro esse lugar e sentirei muita falta daqui quando for embora.

no lobby com meu filho quando nos visitou

Todos os dias, desço para o café da manhã e me deparo com o mundo diante de mim. Além das inúmeras famílias que moram aqui, temos a população flutuante de turistas e homens de negócio. Adoro observar a todos. Passo o tempo de meu café observando os tipos que ali circulam ou moram. Tentarei descrever alguns deles aqui.

Temos uma família australiana cuja filhinha nasceu aqui. Vi sua mãe grávida e vi quando a bebê começou a andar. Vejo todos os dias os funcionários do hotel babarem diante dessa menininha lourinha, extremamente simpática e com olhos azuis sedutores. Eles a pegam no colo e levam pra cozinha, ela passa de colo em colo, deixando cada funcionário mais bobo que o outro. No dia que ela andou pela primeira vez no café, quase que não temos o que comer, todos pararam de trabalhar para admira-la com suspiros e exclamações em coreano. Nesse dia, faltou ovo, o suco acabou...mas ninguém reclamou. 

Temos uma família inglesa com 3 crianças lindas. Preciso dizer que só vejo os pais nos fins de semanas, quando eles não trabalham, durante a semana, só vejo apenas as mães e as crianças. Recentemente chegou uma família nova, a mãe é francesa, o pai holandês e eles tem uma coisinha gorda e loura que simplesmente para o hotel. A menina é linda e a mãe está grávida. Não sei se ainda estarei aqui quando o novo bebê chegar.  

Temos ainda as crianças mais velhas, que só vejo nos fins de semana, porque estudam e tomam café muito cedo, entre elas está Sofia, meu grande amor. Sofia é filha de brasileiros e seu pai é colega do meu marido. Ela roubou meu coração e sou completamente apaixonada por ela, nossa relação é mais que de vizinhas, ela me chama de Tia Lu, e eu babo apaixonada. 
Sofia na piscina do hotel com crianças coreanas

Turistas japoneses, chineses, filipinos, indianos, e vindos de toda parte da Ásia, circulam aos montes, principalmente na alta estação. Sou capaz de reconhecer quem é japonês ou chinês, o que era impossível quando aqui cheguei.

Homens de negócios são europeus, americanos, árabes e indianos. As famílias indianas são simpáticas, sorridentes e amistosas. Puxam conversa e se relacionam com todos, assim são as crianças. Entretanto as famílias árabes e muçulmanas são aversas a contatos. As mulheres usam burcas ou véus, sentam de costas para todo o restaurante para poderem comer (não sei como conseguem), com seus véus. Eles (na sua imensa maioria) não sorriem, não nos cumprimentam e se relacionam entre eles. Eu os  estranho, e confesso que tomo sustos quando entro no elevador e vejo aquelas mulheres de preto. Não os entendo, eles tem uma cultura fechada, o que dificulta essa compreensão, mas tenho uma ligeira sensação de que eles não estão nem aí para isso. 

Vejo pessoas, vejo personagens, vejo caricaturas, vejo arquétipos, vejo estereótipos. 
Moro em um hotel e vejo muita gente todo dia no meu café da manhã. 
Vejo o mundo enquanto tomo minhas canecas de um forte café preto. 



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

QUANTO VALE A LIBERDADE?


Seoul moderna
 Para mim, as questões relativas à liberdade sempre pertenceram ao campo subjetivo. Achava realmente que a liberdade dizia respeito a minha mente, e ao auto-controle. O yoga me ensinou que ser livre, significava ser dona de mim mesma, ser um "swami", não ser dominada pelos meus pensamentos, emoções e sensações. Buscar essa liberdade sempre foi uma meta para mim, e o caminho para isso sempre foi a meditação.

Seoul rica


Entretanto, acabei de assistir a um documentário português chamado "LIBERDADE OU MORTE"  , que retrata a fuga de um grupo de pessoas da Coréia do Norte em direção a sua irmã, Coréia do Sul. Apesar dos dois países serem fronteiriços, eles precisam atravessar a China, a selva do Laos, pra alcançar a Tailândia e lá, conseguirem abrigo como refugiados na Embaixada Sul-Coreana e poderem partir para a Coréia do Sul.

A fronteira entre as duas Coréias é a região mais vigiada do planeta. Não existe a menor possibilidade de atravessa-la sem ser visto. A política chinesa é extremamente cruel com fugitivos da Coréia do Norte, se eles são descobertos, são devolvidos para o país, e lá são presos e torturados, quando não são mortos. 

Esse tipo de história é comum aqui na Coréia, onde moro desde dezembro de 2011. Estava aqui quando Kim Jong Il, ditador norte-coreano morreu. Soube que existe um Ministério da Reunificação aqui na Coréia do Sul, preparado para uma possível queda da vizinha do norte. Descobri também que a maior base militar americana fora dos EUA, está aqui na Coréia do Sul. Embora a vida aqui seja muito tranquila, essa é uma região tensa do planeta. 

Seoul tradicional
Andar pelas ruas ricas de Seoul e pensar que ao lado, na Coréia do Norte, as pessoas passam fome, é assustador. É difícil pensar que esses dois países, com realidades tão opostas, eram um só. Pensar que essas pessoas que foram divididas pela política e pela estupidez da guerra, eram um só povo. Pensar que a União Soviética acabou, as Alemanhas se reunificaram, mas as Coréias continuam separadas, é desolador. 

Bom...depois de assistir a esse documentário, continuo pensando que a Liberdade é uma questão mental para nós que crescemos com a liberdade de ir e vir,  podendo expressar opiniões sem medo de sermos presos. Minha liberdade de ser o que sou, custa muito pouco diante do que custa para essas pessoas (que vi no vídeo).

Nossa liberdade pode nos custar no máximo inimizades e desagrados, e mesmo assim muita gente prefere não pagar. Muita gente prefere se esconder atrás dos medos, pra não ter que encarar o preço da liberdade, e olhe que nossa liberdade pode até parecer cara, mas nunca custará a nossa vida. 

Depois de ver no documentários, pessoas dizerem que preferem a morte a continuarem prisioneiros da ditadura; pessoas que atravessam selva a pé e com fome; pessoas que enfrentam situações concretas de privação de liberdade que nunca jamais pensamos em viver, a pergunta que não quer calar é: Quanto estou disposta a pagar pela minha liberdade? 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

ACREDITANDO


Depois de quase dois meses fora da Korea, voltei.

no Espaço Mahatma Gandhi
Nesse tempo tantas coisas aconteceram que parece até que passei mais tempo fora. Sai daqui no calor, volto no frio, 5 graus me esperavam ... início de um inverno que promete. As malas precisam ser desarrumadas, e percebo que a maioria das roupas que ali estão, lá ficarão. Não as usarei por uns 3 meses. Outra coisa impactante é o horário, em dois meses vivi 3 fusos diferentes e a adaptação à mudança total que o fuso daqui me obriga não é fácil. 

Estava tentando lembrar das experiências externas que vivi nesse tempo que fiquei fora, vamos lá

  • Depois de um mês de extrema felicidade com meu filho Caio que veio de férias para a Korea viajei com ele de volta para os EUA.
  • nos EUA revi amigos, filho e nora. Reencontrei prima e sobrinhos.
  • vi meus dois filhos juntos.
  • ainda lá, veio a revisão dos exames do meu marido que acusaram, depois do terceiro ano após o fim da quimioterapia, que nenhuma reincidência do câncer apareceu no corpo dele. Momento de felicidade e alívio.
  • acompanhei no hospital uma amiga querida cuja filha luta contra o câncer. Essa é uma luta que conheço bem. Ver uma adolescente lutar não é fácil. Ver uma mãe cuja filha está nessa luta, é pior ainda. Tenho atualmente duas amigas nessa condição. 
  • Participei e vi emocionada a campanha Força Clara, criada por uma amiga dela para encoraja-la a ser ainda mais forte nessa luta.
  • Vi em Houston uma apresentação do Grupo de Dança de Déborah Colker (sempre quis ver). 
  • Fui para o Brasil. Reencontrei filho, nora, mãe, irmãs, cunhados, sobrinho e muito amigos queridos. 
  • Meu sobrinho casou numa cerimônia linda que me fez chorar muito.
  • Trabalhei. Dei aulas de yoga (estava morrendo de saudade) e conduzi uma vivência de Respiração. Estar no Espaço Mahatma Gandhi é sempre maravilhoso. Esse lugar me oferece um alimento especial para minha alma.
  • Fiz mais uma tatuagem.
  • Voltei para os EUA e estive lá quando Obama se reelegeu. Vi os gritos dos que comemoravam sua vitória. Gritei junto. Achei muito legal estar lá nesse momento.
  • Gravei mais vídeos para o site que estou montando sobre Sexualidade Feminina. Adoro esse projeto. Ainda falarei sobre ele aqui.
no casamento de Rafa & Priscila

com irmãs no casamento do meu sobrinho
com amigas que fiz em Houston

campanha "Força Clara"
meus filhos e sobrinhos reunidos nos EUA


As experiências que tive sob uma ótica subjetiva são incontáveis e tentarei resumir.

Senti nesse tempo alegria e tristeza, saudades, decepção e esperança, sensação de morte e renovação, sensação de perda e de ganhos, me senti forte e recebi um alerta para estar atenta aos invejosos (não sei se levo isso a sério); senti que a vida se renova o tempo inteiro e que não sei de muitas coisas, e que quando mais medito e observo, mais percebo que nada sei. Senti o quanto quero me ver livre dos apegos e da ignorância. 

Senti que "acreditar" é a grande força que nos motiva a caminhar. 
Acreditar na força das minhas pernas. Acreditar nos sonhos.
Acreditar que a vida tem um significado maior, me faz querer ser uma pessoa melhor. 
Acreditar que as experiências de dor e alegria podem me levar ao crescimento, me abre mais ainda para a vida. Acreditar mais uma vez que devo na minha intuição. 
Acreditar que a minha coragem pode conviver com o meu medo, mas que eu não posso conviver com a covardia. 
Acreditar que sou livre e preciso me justificar apenas para pouquíssimas pessoas, não mais que isso. Acreditar que a vida é justa, apesar das dores que parecem injustas. 
Acreditar que é melhor sofrer conscientemente, do que ser alegre na ignorância.  


minha mais nova tatuagem

Por tudo que eu acredito, essa é a minha nova tatuagem.  


sábado, 22 de setembro de 2012

PENSE NUMA PESSOA FELIZ: EU!!!!


Desculpem a falta de postagens, mas tenho vivido dias tão intensos e excitantes que não tenho muito tempo de vir aqui. Vocês não sabem, mas meu filho mais velho está de férias aqui conosco (já falei dele algumas vezes aqui e talvez voces tenham lido a homenagem que fiz a ele dois anos atrás no seu   aniversário ). Isso tem me deixado extremamente feliz e ocupada.


Não há nada nesse mundo que eu ame mais e mais intensamente do que meus filhos. Assim como não há nada que eu tenho feito na vida que eu tenho gostado mais, do que de ser mãe deles. 

Sou uma mãe exagerada e apaixonada. Sou orgulhosa dos meus filhos e obviamente de mim mesma por ser mãe deles. Viver longe deles é a parte mais difícil desse momento da minha vida.  

Tenho compartilhado aqui sobre o quanto tenho gostado de morar aqui na Korea, por isso, receber um filho aqui, e poder mostrar esse país pra ele, tem me proporcionado um prazer imenso.

Andar pelas ruas e museus, mostrar o que esse país tem de incrível tem sido extremamente excitante. Aproveitamos que ele estava aqui e fomos passar uns dias em Hong-Kong e Macau (China), cidades incríveis que mais tarde contarei sobre elas pra vocês! 
Tão excitante que nem consigo encontrar palavras, mas tenho muitas imagens!!!

Pense em uma pessoa feliz: EU! 


Pense numa pessoa coruja: Eu.


Rindo por todos os poros em Hong-Kong!


Um dos inúmeros brindes que fizemos!


Esse é o meu filho palhaço!


Bom....essa sou eu feliz, babando e orgulhosa do meu filho!



Pense em alguém que não cabe em si de felicidade!

foto rara, de blusa sem ser preta !

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

BELEZA, MEDITAÇÃO E PRAZER


Já contei dois posts atrás que estou fazendo aulas de Hanji. 
Essa é uma linda arte coreana com papéis. 
Contei que estou apaixonada, mas não contei o quanto estou apaixonada e que dessa paixão já nasceu meu primeiro filho. Vocês o conhecerão agora!  

O primeiro passo foi escolher o projeto. Defini cheia de ansiedade que queria fazer um pequeno móvel com gavetinhas para guardar coisinhas pequenas, tipo anéis, colares..etc...

Cheia de paixão por esse projeto me comprometi com aulas no estúdio da professora. Essas aulas, são quase que privadas e posso passar o dia inteiro no estúdio trabalhando com a supervisão dela.  Assim aconteceu. Dois dias inteiros de 10 as 19h .., colando, retocando, pincelando..respirando...



O incrível para mim foi perceber passo a passo as coisas acontecendo... de um amontoado de papelão, uma forma começando a surgir. 

Cada momento foi vivido com concentração e prazer. Me pegava feliz ... uma felicidade ingênua e despretenciosa. Respirando e com vontade de rir.

De vez em quando suspirava profundo e ria .... assim, ... do nada.




A carinha do filho começa a aparecer... o projeto começa a se estruturar... apaixonada e rindo começo a ver as folhas de papel ganharem a forma que planejei... 

A minha alegria, mesclada com muita excitação me toma por completo... 

Começo a ver que estou rendida a esse prazer.







Detalhes feitos com cuidado.

Passo a passo que deve ser respeitado.

Não dá para acelerar o tempo ... muito pelo contrário, preciso estar inteira a cada instante, sob pena de fazer algo errado. Erros que acontecem, e que sempre vem acompanhados de um  suspiro grande ... mas nada que não possa consertar.






A primeira gavetinha.... cortando...colando....
Muitas e muitas piceladas de cola....
Dentro e fora feitas com carinho. Cada cantinho bem cortado, bem colado.


A face dela... 
Digam se não é pra se apaixonar mesmo?

Digam se é possível fazer algo assim sem estar concentrada, encantada e apaixonada? 








Minhas quadrigêmeas!

Lindas...idênticas...

4 gavetinhas mágicas!


  

Forrada dentro e fora...

Cada canto, cada quina..

Cada detalhe feito enquanto respiro...

Meditações, reflexões acontecem o tempo todo. 

Acho que estou encontrando dentro de mim uma Deusa diferente ... uma qualidade quase que maternal que confere paciência para cuidar dos detalhes sem pressa. Sem querer apressar nada... só curtindo cada momento. Bem diferente da deusa Athena de quem sou muito íntima. 

Só rindo... sorrindo... colando...



Apresento-vos meu primeiro projeto concluído de Hanji.

Esse é fruto de mais de 17h de trabalho, meditação e respiração. 

O mais encantador foi trazê-lo para casa. Como moro em hotel, fui chegando e apresentando-o para as meninas lindas que trabalham no desk. Eu dizia: I made It!!! Elas encantadas exclamavam: "you made It???? 

Ele ainda está em cima da mesa da sala. Não consegui coloca-lo num lugar funcional...ele ainda não é apenas um móvel de guardar bijouterias, ele ainda é uma arte, um filho especial.

Hoje a senhora que arruma meu apartamento o viu em cima da mesa, ela o tocou , olhando e admirando... deixei que ela o olhasse antes de dizer que eu o havia feito... nem sei por que, mas acho que queria ver o espanto dela... e vi. Ela sorria e falava misturando coreano com inglês... acho que tentou dizer com um sorriso alegre: "Parabéns!!! Ele é lindo!!!" .

Estou de parabéns ... essa qualidade feminina que traz beleza e delicadeza está viva em mim!
Estou feliz. 




segunda-feira, 20 de agosto de 2012

VENDENDO SONHOS!



Hoje soube de uma tradição linda da infância aqui da Coréia e tenho que contar para vocês.
Me contaram que as crianças vendem os sonhos ...  e que os adultos os compram.

Vou explicar.
Algo bem simples... coisa de criança, mas eu me apaixonei por essa história.

Quando uma criança tem um sonho bom e conta para os pais, tios ou mesmo avós, eles pagam algum dinheiro, coisa pouca, o dinheiro na verdade não tem a menor importância. A tradição apenas manda que eles paguem pelo sonho. 

Ao compra-lo, o adulto carrega aquela sorte, aquela energia. É como se a criança tivesse trazido de algum nível superior uma energia de boa sorte! Quando algo de bom acontece à pessoa que o comprou, eles acreditam que a energia do sonho foi responsável. 

A mesma coisa acontece com os sonhos maus. 
Uma criança que acorda assustada por conta de um pesadelo e o conta para seus pais, ou adultos próximos, esses adultos costumam comprar esses maus sonhos. Com isso, eles pretendem livrar a criança daquele medo, daquela sensação com que ela acordou. Pagam em dinheiro pelo pesadelo... a criança feliz guarda seu dinheiro e livra-se daquele mau sonho.

Minhas colegas coreanas me contaram isso. Todas tinham alguma história de infância com seus sonhos. Todas lembravam de uma situação em que venderam seus bons ou maus sonhos.  Elas ficaram encantadas e surpresas pelo meu encantamento. Não imaginavam que isso seria uma novidade para mim. Elas tentavam me explicar que o dinheiro não tinha importância, temiam que eu pensasse o contrário. Entendi perfeitamente que isso não era importante. 



Acho que entendi a magia da coisa. 
Acho que entendi o encanto dessa tradição. 

Sonhava muito quando era criança. Tinha muitos pesadelos também. Tive sonhos tão marcantes na minha infância, que lembro de muitos deles até hoje com detalhes. 

Também lembro de várias vezes acordar chorando por conta de algum pesadelo. Passava algum tempo tentado imaginar o que era aquilo e por que sonhava aquelas coisas....

Sonhos bons e sonhos maus. 
Adoraria te-los trocado por magia.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

RESPIRO, ... E SOU LIVRE


Comecei aulas de Hanji aqui na Coréia. Pra quem não sabe o que é isso (provavelmente a maioria), Hanji é uma arte que usa papeis e é tradicional aqui na Coréia. As pessoas constroem de simples bandejas, até móveis e gaveteiros, usando papel e cola. Os papéis são lindos e coloridos. É uma arte apaixonante. Essas aulas são gratuitas e oferecidas pelo governo coreano para estrangeiros que aqui moram. Eles oferecem aulas de coreano, culinária típica e outras coisas também. Entrei nessas aulas aceitando o convite de Cristina Oshiro, uma brasileira/japonesa que conheci aqui, depois de muita insistência dela. Confesso que fui para a primeira aula, com uma sensação total de incompetência e sem muita convicção de que seria possível vence-la. 

Bom...quando eu era criança fiz aulas de pintura. Pintei muitos quadros. Adorava isso. Quando parei de pintar, nunca mais fiz nada artístico ou artesanal na minha vida. Nem sei porque, mas provavelmente por falta de tempo e por ter um foco muito voltado para o trabalho. Não tinha tempo para isso ou não tive chance...ou mesmo vontade. Na verdade nada nunca me atraiu. 

Aqui na Coréia tenho tempo. O Hanji apareceu diante de mim e me colocou diante dessa minha dificuldade de fazer arte, de fazer algo com as mãos. Resolvi aceitar esse desafio e me abrir para a beleza e a delicadeza dessa arte. 

Descobri logo de cara (com os erros que me fizeram rasgar os papéis) que preciso ser muito mais delicada e ter movimentos muito mais leves. É necessário fazer conexão com uma energia muito feminina para conseguir trabalhar como Hanji. Mãos leves, movimentos pacientes e muita concentração. Adorei. 

Tenho estado muito meditativa nesses tempos. Tenho estado cada vez mais quieta e reflexiva; num lugar dentro de mim de silencio e quietude em que posso observar meus pensamentos, e refletir conscientemente sobre questões relativas a projetos, e ao sentido da minha vida. O Hanji apareceu como mais uma ferramenta que me leva a concentração e que abre uma porta de meditação. Ficar pincelando suavemente cola sobre o papel, numa ação silenciosa e repetitiva, imediatamente me coloca nesse estado. Percebo que minha respiração desacelera a tal ponto que de vez em quando dou um suspiro grande, como se deixara de respirar por um tempo. Percebo minhas ansiedades e percebo o quanto elas são inúteis. Percebo meus medos e reflito o quanto eles são desnecessários. Percebo a respiração e me dou conta de que tudo é uma grande respiração. 


Respiro o sorriso acolhedor da minha professora que sem comunicação verbal alguma, entende que estou enfrentando a mim mesma para estar ali.

Não serei uma artesã. Estar na aula de Hanji para mim é como uma meditação, por isso respiro e me deixo levar!

Respiro e percebo meus medos. 
Respiro e percebo minhas ansiedades. 
Respiro e me liberto delas. 
Respiro e sou arte. 
Respiro e sou beleza. 
Respiro e sou livre. 

sábado, 5 de maio de 2012

CHERRY BLOSSOM


Desculpem a demora por um novo post, estive bem ocupada vivendo momento bem legais da minha vida, e os compartilharei assim que possível. Hoje quero contar sobre uma experiência linda que vivi em Seul, onde moro, que se chama CHERRY BLOSSOM, o desabrochar das cerejeiras. 

Esse é um evento esperando com ansiedade pelo povo da Coréia, país que moro e que aprendi sem esforço a amar. Eles tem um inverno gelado e poderoso, que produz um comportamento na natureza, assim como nas pessoas, típico do frio. Entretanto, basta que esse inverno ceda aos poucos para o calor do sol, para a cidade se transformar em um lugar lindo, e mágico. Milhares de árvores que antes eram galhos secos, desabrocham ao mesmo tempo, produzindo um espetáculo de deixar qualquer um encantado. 

Imaginem que pegamos frio de -20C, por várias e várias semanas, temperaturas que oscilam entre -10 e -20 C, ventos gelados que descem dos desertos da Mongólia... Frio que congela tudo pela frente, e que deixa a natureza recolhida, com aparência de morta, mas apenas hibernando, a espera de um sopro de calor.


Quando o inverno começa a ceder e o calor que chega, a natureza revela de forma impressionante a vida que esperava quieta, mas poderosa. As árvores começam a verdejar e de um dia para o outro, todos os galhos que pareciam mortos explodem em vida verde e colorida. As pessoas se vestem de forma mais alegre, as crianças saem nas ruas, as famílias inteiras se põem a passear pelos parques, a alegria que hibernava, explode poderosa. 

Nunca vi nada igual na minha vida!

A expressão comum de que a vida sempre florescerá, é vivida de forma literal nessa cidade marcada pela luta em centenas de anos de guerras, e por esse povo que aprendeu a nunca desistir e a acreditar sempre em si mesmo e na sua capacidade de regenerar e se recuperar!

Uma benção! O Cherry Blossom é um símbolo perfeito desse país que teve que se recolher por tanto tempo, mas que floresceu para o mundo de forma surpreendente.



O impressionante é que as cerejeiras que existem na Coréia foram plantadas pelos japonêses, e por isso mesmo eram um símbolo da dominação, humilhação, da dor e das violências que os coreanos sofreram por parte deles durante anos e anos de invasão e domínio.

Os coreanos quando se viram livres do julgo japonês, queriam arrancar todas as cerejeiras que os lembravam desse período triste da sua história, mas não conseguiram. As cerejeiras lindas e mágicas com sua beleza generosa, que se derrama para todos que quiserem ver, os seduziram. Eles não conseguiram odiar tanta beleza. Os coreanos foram seduzidos pelo Cherry Blossom e se renderam a elas. A beleza foi mais poderosa que o rancor ou qualquer sentimento de vingança.




Bom...eu não vivi guerras na Coréia, pelo menos que me lembre. Eu vivi o Cherry Blossom. Eu vivi e senti na pele (e na alma), o poder incontrolável da natureza. 

Eu confesso também que me renderia facilmente a essa beleza mesmo que tivesse vivido essa guerra. Eu confesso que nenhum sentimento negativo que houvesse na minha alma, conseguiria resistir a tanta luz e brilho. 




Tenho certeza de que a beleza é curadora. Sei que a vida se renova mesmo quando não temos mais fé nisso. 

Penso que assim como as cerejeiras da Coréia, a nossa beleza interna precisa apenas se expor ao sol para ser revelada! 
Vamos brilhar! Vamos revelar nossa beleza! Vamos nos render à vida!

Deixemos de lado qualquer sentimento negativo que ofusca a luz nos nossos olhos!

Obrigada Coréia por me presentear com esse espetáculo poderoso e delicado ao mesmo tempo, e certamente, inesquecível!

Com amor,

Ludmila Rohr

terça-feira, 27 de março de 2012

ELES CHEGARAM LÁ, MAS A LUTA CONTINUA!

 Vivi um momento interessante essa semana aqui em Seul e compartilharei com voces.

Era domingo, resolvemos almoçar na "Seoul Station", que é uma estação de trens bem grande no centro de Seul e que tem bastante movimento, lojas, restaurantes. Chegando lá nos deparamos com uma imensa manifestação popular, muita gente aglomerava-se em frente a estação, havia um palco e as pessoas que iam chegando, sentavam ao chão, portavam cartazes e repetiam palavras de ordem.

Essa cena me animou. Não precisava entender o que estava escrito nos cartazes, muito menos as palavras de ordem que eram repetidas com energia. Meu corpo vibrava apaixonadamente. Sabia, mesmo sem entender nada, de que lado eu estaria nessa manifestação. 

As pessoas continuavam a chegar, até que chegaram a alguns milhares. Mulheres, jovens, crianças, idosos....pessoas de todas as idades estavam ali. Palavras de ordem era repetidas por todos.

Eu estava ali por acaso, mas não queria sair. Sentia muita força em tudo aquilo que via. Aquela força me alimentava. Pensei no meu pai que foi sindicalista e de quantas lutas e movimentos de greve ele havia feito parte. Meus olhos marejaram. Achei que ele iria gostar de ouvir essa história. Lembrei de uma das minhas idas ao Nepal, quando me vi inesperadamente no meio de um confronto da polícia e populares (na queda da  monarquia nepalêsa) e que um pneu em chamas bateu nas minhas pernas. Lembrei que não senti medo nesse episódio, muito pelo contrário, fiquei extremamente excitada e tomada por uma coragem que me levaria a participar do movimento junto ao povo nepalês, se eu assim pudesse. Lembrei de todas as histórias do Mahatma Gandhi contra o império Inglês e que sempre me tocaram na alma e despertavam em mim algo que pareciam lembranças de outras vidas. Lembranças de lutas populares que nunca nessa vida participei, mas que de alguma forma fazem parte da minha alma. 

O evento em Seul foi incrível. As pessoas de um lado aos milhares e ao lado centenas de policiais que acompanhavam o movimento sem nada fazer. Consegui entender que ali estavam acontecendo vários protestos ao mesmo tempo.

A Coréia encontra-se na mídia internacional essa semana, porque recebe dezenas de Presidentes e Primeiros Ministros  de países do mundo (Obama inclusive) para um encontro sobre Energia Nuclear, e o seu povo aproveitando essa exposição resolveu se organizar em protesto contra o uso da Energia Nuclear, a pesca predatória do salmão, um tratado de comércio assinado entre a Coréia e os EUA, contra o ex-presidente coreano que está sendo julgado por corrupção e outros tantos protestos dentro desse grande protesto que nem consegui identificar. O fato é que o povo aqui protesta.  O povo exige seus direitos e não aceitam que os políticos traiam o povo.


apoio dos religiosos
Seul é uma das maiores cidades do mundo e tem 100% de cobertura por metrô de excelente qualidade, 100% das crianças e jovens na escola, taxa altíssima de jovens em idade universitária que estão na universidade (quase que o dobro da taxa estadosunidense), saúde pública de excelente qualidade e emprego. O povo que viveu uma história infindável de guerras e mais guerras, vive uma prosperidade e crescimentos  desenfreados, e no entanto, protesta. 

Impossível não comparar com o Brasil. Impossível não pensar na nossa acomodação e leniência com políticos corruptos e com desmandos em geral. Impossível não pensar no quanto Salvador (minha cidade) foi abandonada e roubado por governo após governo. Um projeto de metrô que já consumiu milhões e que nunca se concretiza. Impossível não pensar em todos os motivos que temos para protestar.



Impossível não pensar em tudo que acontece no nosso país e o quanto que temos a protestar e que não fazemos. Acho até que nos sentimos superiores aos coreanos. Chegamos até a dizer e (o que é pior), a acreditar que D-us é brasileiro, que somos um povo especial. 

Acho que o povo coreano não se sente especial e talvez até por não se sentirem especiais, pensam que precisam estudar e trabalhar muito. Chego até a concluir que eles acreditam que devem lutar e que o esforço será  recompensado (coisa de babaca no padrão brasileiro). 
Entendi que os coreanos não se acham espertos e muito menos que D-us é coreano. 
Eles acreditam na luta e no esforço.
Eles chegaram lá, mas a luta continua!

Invejo.

Ludmila Rohr