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domingo, 13 de setembro de 2009

A última!


Estamos vivendo um momento de uma enorme contradição. A alma dividida entre a alegria e alívio e o medo...uma desconfiança.
Judson fez o último ciclo de quimioterapia. A sensação que tenho é que esse ciclo foi o pior de todos. Muita prostração, enjôos, fraqueza, muitas dores...inapetencia..simplesmente horrível..
É tão ruim que não conseguimos ainda nos dar conta de que é o ultimo ciclo!!
ou talvez seja tão ruim exatamente por que é o último ciclo!

Bom..Já vivemos esse momento no ano passado. Fizemos a última quimio e celebramos muito. Jantamos, brindamos, viajamos..., mas o câncer apareceu outra vez e nos assustou muito. Talvêz estejamos com medo de celebrar...

Essa é uma doença que não machuca só o corpo, e não machuca só aquele que ela acomete...ela machuca a alma, e a todos que estão por perto. O câncer modifica a nossa relação inteira com a vida. As nossas prioridades se transformam..os apegos precisam ser trabalhados...muitas coisas ficam pra trás..outras ganham importancia...

Não farei ainda uma avaliação do que o câncer me tirou, nem do que ele me trouxe...ainda é cedo pra isso..., mas quero hoje apenas sentir que vencemos uma etapa importante. Quero abrir meu coração e agradecer à vida por estarmos aqui, juntos nessa luta que não escolhemos lutar, mas que estamos conseguindo lutar...batalhas duras, dolorosas...muito dolorosas..

Quero poder sentir alegria, mas não é uma alegria muito simples de ser sentida, pois Judson está muito mal, enquanto eu escrevo sobre esse momento...ele está há 5 dias sem praticamente comer nada, com muitas dores que o impossibilitam de sair da cama, com perda de sensibilidade nas pernas e mãos, enjôos, prostração...mas, ele conseguiu!

Não sei se sinto alegria ainda, mas sinto um orgulho enorme! Ele é o meu marido..o meu amor..o pai dos meus filhos..e é um guerreiro...que nunca se queixou de nada esse tempo todo...NUNCA e NADA! Nunca se queixou de nada!!! é verdade! Ele foi sempre corajoso, quieto nas suas dores e nos seus medos..mas sempre corajoso e focado. Estamos nessa luta há 17 mêses...e ele é um vencedor.

Ainda não consigo ficar alegre..mas consigo sentir um orgulho muito grande. Uma sensação de missão cumprida...de que a maratona está no fim...ainda não dá pra celebrar, por que estamos exaustos, mas dá pra sentir que conseguimos...e isso é tudo nesse momento.

Namastê

Ludmila Rohr

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sou todas as emoções...


É noite agora. Estou bebendo uma taça de vinho. Sinto cansaço. Me dou conta de que vivi em um só dia muito mais emoção do que normalmente levaria muito tempo para experimentar.

Hoje foi dia de quimioterapia. A quarta sessão de 12. Estávamos tensos com a possibilidade dela não acontecer, por causa dos leucócitos que havia sinalizado, dois dias antes, estar abaixo do nível mínimo possível para fazer o procedimento. Começamos a vivenciar o conflito de emoções desde esse momento, pois como desejar algo que seu corpo sabe que te causará sofrimento. Uma parte sua quer muito, pois sabe que é a possibilidade de cura, outra parte, que é visceral, animal repugna algo que sabe que lhe causará desconforto e sofrimento, deseja até se ver livre daquilo.

Experimentei controlar o choro várias vezes nesse dia. Senti raiva, medo, coragem, serenidade, ansiedade, quietude, alegria...em sequencias que se alternavam...eu via os sentimentos virem e irem....eu via os sentimentos que se apossavam do meu corpo como água que inunda e saiam, evaporavam...eu via isso acontecer!

Somos emocionais...não tem como fugir disso. Sentimos tudo que nos acontece (dentro e fora de nós) em forma de emoções, sentimentos... Acho incrível perceber cada emoção e poder não me identificar com nenhuma delas. Não sou medo, mas sinto medo. Não sou raiva, mas a sinto. Não sou coragem, mas tenho. Não sou alegria, mas posso gozar essa alegria quando ela me toma.

Se me percebo como sendo susceptivel às emoções, com poder de reconhecê-las e não fujo delas, posso também perceber o meu poder sobre elas...percebo então que ...nenhuma delas sou eu, mas eu, sou todas elas!

Namastê!

Ludmila Rohr

P.S. No Farol da Barra (Salvador) lugar mais lindo do mundo e que guarda preciosas lembranças da minha infância e adolescência.


domingo, 22 de março de 2009

Compartilhando...


Menos um fim-de semana de efeitos da quimio. Judson começa a sair da prostração e até quer comer alguma coisa. Apesar de não sair de casa, e de ficar ao lado dele esperando que ele precisasse de mim pra alguma coisa, muitas coisa aconteceram nesse fim-de-semana; aliás, nunca mais tinha vivido dias com tantas emoções, com tantas experiencias e trocas. Saio desse fim-de-semana muito diferente de quando entrei e sou muito grata à vida por ter me proporcionado isso.

Entrando em comunidades do orkut dedicadas a pessoas com câncer ou parentes de pessoas com câncer, conheci muitas histórias de pessoas que lutam contra essa doença. Pessoas de verdade que sentem medo, esperança, raiva, coragem, fraqueza, certeza, ansiedade, dor, dúvida...e que confessam seus sentimentos numa tentaiva de sentirem-se melhor, mais acompanhadas e de fazerem outras pessoas se sentirem melhor.

Li muitas histórias de pessoas de todas as idades, de muitos credos, de muitas partes do país, pessoas que se desnudam e generosamente oferecem seus testemunhos e confissões para todos que quiserem compartilhar suas dores e esperanças.

Pequenas alegrias, grandes esperanças, tensões, medos e ansiedades comuns a todos. O resultado de um exame que veio bom e permitiu a quimio, é motivo de uma grande celebração; a contagem regressiva das quimios, os kg ganhos ou perdidos, a fome exagerada ou a falta de apetite, os cabelos que caem e os cabelos que voltam a crescer, o intestino que solta ou que prende, a relação com os pais, os filhos, os maridos, as esposas, os amigos... a notícia da morte de alguém e a notícia da cura de alguém....

As pessoas são diferentes, mas os fantasmas são os mesmos, os medos também... as esperanças também...

Um grande obrigada a todos os meus amigos virtuais que me acompanharam esse fim-de semana e que certamente estarão ao meu lado nessa jornada de cura que farei ao lado do meu marido.

Namastê

Ludmila Rohr


sábado, 21 de março de 2009

Ação na Inação


Estamos no fim de semana "Não". Judson fez quimioterapia e agora vive os efeitos colaterais dela. Os efeitos curadores não podemos ver, nem sentir, temos que imaginar que essa coisa tão desagradável o está curando. Temos que metalizar isso, para não cair nas queixas, nem se sentir vítima de nada. Prostração, inapetência, náuseas, fraqueza, mudanças de humor, muito sono....tudo isso acontece nesses dias, mas o que é incrível é que de alguma forma vamos encontrando maneiras de atravessar isso da melhor forma possível.

O fim de semana passado que chamei de "Sim", e que fomos pra Praia do Forte, namoramos, comemos, nos divertimos, nos amamos, faz oposição é esse fim de semana que é do "Não". Não podemos fazer nada, não saimos de casa, não rimos...ele descansa....come muito pouco, dorme...e eu faço companhia...fico ao lado, escutando e tentando atender as demandas.

Percebo o quanto essas denominações (Sim e Não) não revelam a verdade. Como todo rótulo, acaba por limitar e se distanciar da verdade. Me dou conta de que no fim de semana "Não", vivo intensamente questões internas, invisíveis, tenho ações de expressão minimalista do meu amor. Não mergulhamos no mar e nos beijamos, mas posso levar uma maçã já cortadinha em cubinhos pra ele no quarto. Posso ficar atenta ao que ele precisa e tentar atender. Compreendo que são dias muito ativos, silenciosamente ativos. Faço muitas coisas pequenas, silenciosas...e o meu mundo interno está em constante movimento.... reflito, medito, estou atenta a tudo, minha mente fica expandida e concentrada ao mesmo tempo... é a ação na inação!

Bom, esses dias passarão, como tudo. E nós, com todas as vivencias com as quais fomos contemplados, estaremos aqui para contar histórias e para nos olharmos sem arrependimentos, e com a paz no coração própria daqueles que sabem que fizeram tudo que podiam e da melhor forma possível.

Namastê!

Ludmila
P.S. Em Paris....

quarta-feira, 18 de março de 2009

EU POSSO TAMBÉM!


Começou outra semana de quimio...nesse exato momento Judson está recebendo drogas na veia e ficará assim até sexta-feira. É impressionante como o tratamento que pode salvá-lo, causa imediatamente tanto desconforto e mal estar, e exatamente por isso temos que imediatamente iniciar um trabalho mental para receber o "desagradavel" com tranquilidade! Esse é um super trabalho! Penso que, se ele desenvolve resistencias ao tratamento, o mesmo será mais dificil ainda. Ao mesmo tempo, não desenvolver resistencia àquilo que nos causa desconforto é muito difícil...


Tenho uma fala que comumente repito para os meus alunos de yoga quando diante de uma postura um pouco mais complicada, eles reclamam dizendo: Poxa, mais é tão difícil! Eu digo: Viver é difícil! Não existe nada fácil! ....Nessa minha fala não existe nenhum tipo de pessimismo ou algo parecido, muito pelo contrário, essa minha forma de ver a vida sempre me colocou diante dos desafios de uma forma natural e com pouca resistencias e sem queixas e lamentações, porque acho muito natural a dificuldade da vida e de seus desafios...não acho que vai ser diferente nunca...temos momentos de descanso, mas pra quem caminha, não existe acomodação, e onde existe movimento, existe desafios...


Recebi de uma aluna querida, ela já fez isso antes, uma frase linda de Ariano Suassuna, ele diz: "...pois na dor também se vive, e pode-se viver com Alegria!". Obrigada Rita! Acredito nisso. Tenho vivido e experimentado isso. As alegrias estão presente, sinto-me uma pessoa feliz, grata, acolhida, acompanhada...


Tem outra coisam que sinto e percebo que por conta disso, faço parte de uma grupo seleto de pessoas. ADORO MEU TRABALHO! Adoro tudo que faço! Meu trabalho é um alimento precioso. Ele está diretamente relacionado com o meu prazer!! Acho muito especial ter um trabalho em que produzo minhas condições materiais de vida, mas que ao mesmo tempo me alimenta em outros níveis. Sair para trabalhar é um prazer, e vivo um momento profissional excelente, adoro trabalhar...simplesmente adoro! Adoro cada atendimento que faço, cada aula que dou. Sinto uma felicidade enorme e percebo como sou feliz por isso.


Quando comecei esse blog, algumas pessoas me perguntaram como seria me expor diante dos clientes. Como seria pra mim ou para os meus clientes saberem que eu sofro, ou que eu choro? Como seria para eles participarem desse momento tão doloroso e íntimo? Essa era a pergunta que me faziam. Eu pensava: Será que algum cliente ou aluno imaginou em algum momento que eu não sofresse ou não chorasse? Que tipo de pessoa eu seria se não chorasse ou não sofresse? Que tipo de terapeuta eu seria se não fosse uma pessoa que chora e sofre?


De fato isso nunca foi uma preocupação pra mim. Sou assim. Não consigo me imaginar presa a nenhum tipo de imagem, por conta do meu trabalho. Não sou alguém "Zen" por que sou professora de yoga, não sou alguém que não sofre...O yoga e a psicologia, mas sobretudo o Yoga, me deram a possibilidade de SER, livre de qualquer prisão...de ser quem eu sou...de viver minha dores e ser feliz ao mesmo tempo...porque aprendemos com o yoga a relaxar no esforço...isso o yoga me ensinou!


Aprendi também que os únicos demônios que existem são aqueles que moram dentro do meu coração, então não consigo vê-los fora de mim. Não consigo ver o câncer como um "demônio"...mas a forma como eu o vejo pode ser demoníaca...assustadora. Aprendi também que tudo que preciso, está dentro de mim...isso é libertador. Significa que nada me falta! e aprendi ainda que, se alguém conseguiu fazer uma coisa, isso significa que potencialmente todos poderiam conseguir fazer o mesmo. Se alguém escalou o Everest, eu poderia também. Se alguém enfrentou um determinadao desafio...eu posso também. Se alguém atravessou uma dor, eu posso também!


O que não nos falta na vida são os exemplos de pessoas que conseguiram, que venceram, que atravessaram sua dificuldades...e ainda temos exemplos daquelas que fizeram isso com alegria, com paz no coração, sem queixas... com amorosidade e com dignidade...Eu posso também!

Namastê!

Ludmila Rohr

sábado, 7 de março de 2009

Eu e ele


Esses dias pós quimio são difíceis....Judson fica muito prostrado, sem energia....dorme muito, come muito pouco. O remédio pra aliviar o enjôo dá muito sono...enfim...parece que assim serão os próximos 6 mêses, alternando um fim de semana super bem disposto, com outro que vem depois da quimio em que ele fica muito abatido. Hoje ele ficou na cama deitado o dia inteiro. Parece que o corpo precisa se recuperar da bomba de drogas que recebeu. Não sobra energia pra nada, mas ele diz que se for pra paasar por isso, que está tudo bem. Ele não é queixoso nem demandante. Ele fica quieto, e isso às vêzes parte meu coração.

Descubro com isso que sou paciente e que tenho muito cuidado amoroso com ele. Não me sinto ansiosa. Não tenho desejos de sair, de ver pessoas ou de fazer coisas, muito pelo contrário. Estou bem ali do lado dele. Ele de vêz em quando me olha e diz que podiamos dar uma voltinha, mas sei que ele está dizendo isso por que fica preocupado comigo. Ele se preocupa que eu fique entediada ou cansada. Digo pra ele que não tenho essa necessidade, que estou bem, que estou tranquila ali, exatamente onde deveria estar, ao lado dele. Não tenho ansiedades porque me parece que não existe outro lugar pra mim. Nesse momento, é esse o meu lugar.

Quando casei aos 21 anos, achei (como a maioria das pessoas que casam apaixonadas) que havia encontrado a pessoa com quem queria viver o resto da minha vida. Recebia de Judson amor, respeito a minha individualidade, amizade, sexo de qualidade, cuidados atenciosos, proteção e muito mais. Desenvolvemos nesses 25 anos que nos conhecemos uma amizade muito preciosa. Gostamos da companhia um do outro. Somos muito diferentes um do outro, muito mesmo!! Eu falo pra caramba e ele, escuta. Às vêzes, acho que ele nem escuta, reclamo, ele jura que tava escutando...rimos, e eu continuo falando pra caramba e ele escutando...

Ele é a pessoa que escolhi pra viver junto. Foi uma escolha da paixão e depois do amor. Claro que tivemos nossos problemas ao longo desses anos, temos muitas diferenças, mas temos algo que é muito especial...gostamos da companhia um do outro. Nossos filhos cresceram, e são muito independentes, namoram e tem suas próprias vidas, o que achamos ótimo! Por isso, ficamos muito tempo sozinhos, um com o outro, viajamos sozinhos, almoçamos e jantamos sozinhos, e gostamos disso. Gosto de ficar com ele. Gosto de saber que é ele quem está vendo o meu corpo envelhecer e minhas rugas surgirem, e que quando a casa estiver vazia, seremos nós dois.

Sei que ele achava, e ainda acha que é muito pesado pra mim cuidar dele. Sei que ele acha que não é natural pra mim fazer isso. Ele tenta me poupar, porque sabe o quanto sou individualista, talvez egoísta. Entretanto, nunca gostei tanto de mim como agora. Descubro que sou muito melhor do que imaginava. A doença dele está servindo pra que eu conheça outros aspectos de mim mesma que nem eu sabia que existiam, nem ele! Infelizmente foi dessa forma que descobri isso. Preferia não descobrir. Preferia continuar mimada e mal acostumada por ele, que me mantinha no meu egoísmo infantil, a vê-lo sofrendo e abatido como tenho visto, mas, assim é a vida e tenho descoberto que somos muito mais ligados um ao outro do que podia imaginar!

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher e quero desejar muito amor, muita coragem, muita serenidade e força a todas as minhas amigas, irmãs, clientes, alunas, colegas; mulheres que fazem parte da minha vida e que moram no meu coração!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. foto clássica em Veneza


quarta-feira, 4 de março de 2009

Um passo...isso é o caminho!


Mais uma ou menos uma?
Fiz essa pergunta pra Judson hoje quando nos dirigiamos para a clínica para a sessão de quimioterapia.

O dia amanheceu lindo, claro, ensolarado, e como moramos em frente a praia no bairro de Piatã, e vamos até Ondina, atravessamos uma boa parte da orla da cidade de Salvador. Praias lindas! Dia tranquilo. Fomos mais ou menos em silêncio durante o trajeto....eu fico pensando.... Aliás, eu e Judson temos formas interessantes do nos organizarmos internamente. Somos tranquilos pra fazer o que deve ser feito. Temos baixíssima resistência a esse processo. Simplesmente fazemos tudo que deve ser feito e sem muitas queixas.

Ontem à noite fiquei olhando pra ele tão bem disposto e pensando que ele iria a partir de hoje passar mal outra vêz, que iria começar os vômitos, inapetência e náuseas. Lembrei da outra vêz e pensei que estávamos apenas no começo, que seriam 12 sessões, que essa será apenas a segunda! Lembrei de um dito popular: A ignorância é corajosa! Entendo porque muitas pessoas preferem a ignorancia, ela tem um certo conforto. Mas, devo discordar dessa fala, porque quando não sabemos do que vamos enfrentar, simplesmente atravessamos, não precisamos de coragem...a ignorancia é cega, mas não é corajosa! Quando sabemos o que nos aguarda, aí sim precisamos de coragem. Precisamos de tranquilidade e de uma mente atenta ao momento presente!

Então imediatamente organizo minha mente....essa sessão não é "ainda" e "tão somente" a segunda, como pensariam os pessimistas vislumbrando uma longa e dura jornada pela frente...., muito menos, essa sessão "já" é a segunda, que seria um pensamento dos "otimistas" que tentam criar uma fantasia de leveza, tentando negar as dores. Esta é A SESSÃO, essa é a única que importa, é a única que existe, não é nem mais uma, nem menos uma, é a sessão. Precisamos apenas dar um passo de cada vêz! Construir um caminho que, segundo Buda, não existe. Um caminho que só existe a medida que cada único passo é dado! Então nesse momento apenas um passo! Um de cada vêz! Por enquanto, só esse.

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Foto de um amor sob sol da Toscana (Itália)


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O TEMPO QUE NÃO VEMOS!!


Existe tempo pra tudo. Tempo pra pensar, tempo pra fazer, tempo pra parar.....tempo pra nada fazer. Quando "me dou" um tempo, posso perceber claramente qual é esse momento. Se reconheço isso, se entendo e aceito o que o momento pede, me entrego....respeito a sabedoria que existe na vida e, me entrego. Assim não existe sofrimento, e me parece que não existe luta.

Esse momento que vivo, é definitivamente um momento para muitas ações invisíveis e poucas, muito poucas ações visíveis. Preciso manter a minha mente lúcida, calma e tranquila, e isso é um grande trabalho, mas preciso me render, me entregar, me entregar à sabedoria do tempo.

Na manhã de hoje a quimioterapia do meu marido começou. Ele ficará até sexta de carnaval com um recipiente com drogas sendo bombeadas para sua corrente sanguínea. O recipiente é muito menor do que eu imaginava, e o bombeamento é muito mais lento do que eu esperava. Imagino que deva entrar uma gota de remédio a cada 10 mintos ou mais, porque nem percebemos ao olharmos. Confesso que fiquei ansiosa ao perceber isso. Na minha fantasia seria como um soro que rapidamente é gotejado e conseguimos ver o recipiente esvaziando.

Isso me fêz lembrar de uma escola de monges que conheci em Kathmandu, no Nepal. Os monges nessa escola aprendem a fazer pinturas de mandalas, tankas....algo de uma beleza que impressiona pelos detalhes. Comprei uma tanka linda quando lá estive pela primeira vêz. Essa tanka fica na parede atrás do tablado que uso para dar aula de yoga. Acho que a maioria dos alunos nunca parou pra olhar os detalhes que existem nessa pintura. Eu olho todos os dias, e por incrível que pareça não consigo percebê-la integralmente nos seus infinitos detalhes.

Uma vêz, lá no Nepal, fiquei parada olhando um monge pintar uma dessas tankas. Ele usava um pincel muito fino! Cada vêz que ele passava o pincel na tinta, ele o limpava antes de levá-lo à pintura. A quantidade de tinta que ía pra pintura era ínfima....Fiquei por uns 15 minutos olhando-o pintar e pra mim, no meu olhar grosseiro nada estava acontecendo! Nada estava sendo pintado...eu não conseguia ver resultados. Na minha mente ansiosa, resultados só existem por que são vistos...assim eu pensava!

Bom, os resultados eram vistos.... só que depois de muito tempo....cada pincelada que, sozinhas, me pareciam insignificantes, resultavam em pinturas impressionantes! Porém o que mais me impressionou, foi a paciencia daqueles monges....eles simplesmente ficavam ali...pincelando.....tranquilamente, sem nada ansiar, sabendo que só se fizessem desse jeito conseguiriam aquele resultado! Eles sabem e exercitam a verdade que esse tempo, esse exato segundo, é o único que existe e que somente a cada pincelada, com um pincel de apenas alguns poucos fios, eles conseguiriam produzir aquela preciosidade.

Bom.....existe tempo pra esperar, e esse pode parecer o pior de todos se, não entendermos que na verdade, não estamos esperando por nada, tudo já está acontecendo, por que esse é o único momento que existe!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Foto tirada na referida escola no Nepal.