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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Meu trem sairá às 05:53h


Hoje é meu 7º dia na Alemanha. Amanhã vou embora...ficaria muito mais...simplesmente amei esse lugar. Amei a sensação de ordem, a sensação de que as coisas funcionam por que cada um faz sua parte. Uma autonomia adulta no comportamento das pessoas que não são nem de longe subservientes, muito menos infantilizadas por um governo assistencialista como o que o nosso governo produz. Uma cidade adulta, culta, rica e educada.


As pessoas sabem o que devem fazer, e fazem. Elas esperam, na rua, o sinal de pedreste abrir, mesmo que não venha carro algum. Os ciclistas também. Os carros param quando em faixa de pedestre mesmo sem sinal. As calçadas tem espaço para idosos, deficientes...(aliás, eles estão todos na rua, andando e fazendo programa comum a todos), crianças, carrinhos de bebê, andador de idosos....bom, esse é um país onde os direitos são respeitados, mas os deveres são cumpridos. O cidadão tem consciencia dos seus direitos, mas sabe dos seus deveres e os cumpre. O lixo é jogado na lixeira, existem lixeiras. A água pode ser bebida da torneira, é limpa. As pessoas fazem bem, o que deve ser feito.


Nossa...tô apaixonada. Não tenho ilusões de perefeição a respeito de nada. Não acho que a perfeição exclua a falhas. Perfeição é um estado de inteireza...a Alemanha, com certeza tem seu lado social obscuro...mas eu não vi. Fiquei com muita raiva de meu país em vários momentos...raiva e vergonha. Hoje me vi indo ao banheiro de um Jardim Zoológico...banheiro público...limpo...cheiroso!! Onde acharia isso no Brasil?


Conversei com muitos imigrantes...aqui tem muitos turcos, paquistaneses e indianos....eles não voltariam para seus países...eles trabalham pra caramba...mas acham que a vida aqui é civilizada. Acham uma pena isso, mas entendem que dificilmente algum país chegará a esse nível de organização, civilidade e respeito humano que a Alemanha chegou.


Amanhã pegarei um trem para Frankfurt que sairá da estação às 05:53h. Não sairá 05:54, nem 05:55h...ele sairá 05:53h!!! está no painel e assim será. Fácil viver assim né? Se eu perder esse trem, não posso me queixar de nada, nem de ninguém...seria minha total responsabilidade...esse é o preço da vida adulta...assumir sua parte pra que o "todo" funcione.
Ludmila Rohr
P.S. foto na escada da estação de trem.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu e minha mãe na Alemanha!!!!


Estou na Alemanha há 4 dias. ESTOU NA ALEMANHAAAA!!!


Tudo é absolutamente incrível. Tudo funciona. As pessoas são extremamente profissionais e educadas. Somos tratados com extrema civilidade e educação.

Trouxe minha mãe. Ela está encantada...ela fala dos velhos nas ruas..da educação dos cachorros, da sobriedade das pessoas...da limpeza e organização do supermercado, da infinidade de produtos lindos...ela está gostando muito...acho até que ela está animada a fazer outras dessa.


Eu gosto muito do meu país, mas de fato não sei se gosto dele porque ele merece ou simplesmente porque nasci lá. Tento deixar de lado qualquer sentimento bairrista, porque não os quero. Gosto do Brasil, gosto de Salvador...mas acho que gosto, porque lá estão os meus afetos...a minha história. Nem sei se Salvador merece que eu goste tanto dela. Ela me trata mal....o Brasil me trata mal...me desrespeita, me ignora nos meus direitos básicos...Acho que o Brasil não gosta dos brasileiros...


Minha mãe tem um problema com viagens. Para ela viajar significa ir ver a família. Eu nunca tive família pra ir ver. Minha mãe quando pensa em viajar, pensa em ir a Manaus(onde ela nasceu) reencontrar a infinidade de parentes que ela tem lá. Pra mim viajar significa ver novos lugares, novas culturas, diferentes estilos de vida, comidas...arte...Não tenho parentes, pelo menos que possuam significados afetivos pra reencontrar, então, viajar significa ver lugares e me sentir dentro deles.


Eu e minha mãe nunca fizemos uma viagem como essa. É a primeira vez. Viajamos quando eu era uma criança. Viagem de família. Desde lá é dificil convencê-la a ir a qualquer lugar que não seja Manaus ver a família dela! Essa é nossa 1ª viagem. Essa é sua 1ª viagem à Europa, entretanto de vez em quando eu a pego imaginando se morasse ali...ela diz: "seu pai ía gostar desse lugar", "seu pai ía gostar de ouvir música nesse parque"..."já viu como as senhoras se vestem?"..coisas assim...


Ela tem medo...ela é muito apegada...Sei que qaunto maior o apego, maior o medo. Talvez por isso, ela só faça viagens de volta pra "casa". Eu não tenho muitos apegos...gosto de saber que ninguém me conhece. Gosto de saber que estou em um lugar onde ninguém sabe quem eu sou. Ela preferia estar "em casa" com todos os irmãos e sobrinhos. Ela sente-se segura entre conhecidos. Eu me sinto segura sabendo que não serei assaltada na rua, e não serei atropelada ao atravessar uma rua.


Tenho refletido nessa viagem sobre como somos diferentes. Não quero o mesmo de sempre. Escolho comidas no cardápio em alemão, sem ao menos saber o que estou pedindo. Penso...se eles comem, eu como também. Aliás adoro provar coisas novas. Fico triste quando descubro que aquilo que eu achava que seria algo muito exótico é simplesmente uma sopa de alguma coisa....enquanto isso minha mãe queria comer o bife com arroz, ou o café com leite e bolo que ela tem em casa.


Ela não reclama...muito pelo contrário. Acho que ela está adorando, mas percebo que o que eu penso de viagem, não é o que ela pensa. Viajar pra ela é encontrar aqueles que a reconhecem..é voltar pra casa. Acho que talvez seja isso que sentem os que tiveram que morar longe do lugar onde nasceram. Ainda não sei o que é isso.


Falo mal do Brasil..não consigo ser ufanista. Não consigo nem achar que o Brasil é o melhor lugar pra se viver. Por enquanto é, porque meus filhos estão lá, porque meu trabalho, meu cachorro, meu gato...meus amigos, meus afetos...estão todos lá...


Conversei muito com o nosso motorista paquistanês...o pai dele veio pra cá quando ele era uma criança...ele é cidadão alemão...o filho dele nasceu aqui...ele estudou, ele é poliglota...o filho dele é trilingue...eles tem educação e saúde...ele conseguiu construir uma vida aqui...nem pensa em voltar para o país dele...disse que lá ninguém vive, apenas sobrevive...


Essa não é a minha realidade no Brasil, mas é a de muitos brasileiros...as pessoas simples sobrevivem. Eu sei que nem posso reclamar, e não reclamo. Tenho uma vida boa. Mas sei que o "meu" Brasil, não é o Brasil de todos. Nem ao menos da maioria. Sou parte de uma minoria, sei disso.


Mas o filho do motorista paquistanês tem uma educação melhor do que a de muitos barsileiros com boa condição. Ele chegará à vida adulta sendo um estrangeiro, isso é verdade, mas estará instrumentalizado a conquistar um lugar em qualquer lugar do mundo, assim como o avô dele fez anos atrás e sem instrumento algum além da coragem.


Bom...a viagem está uma delícia...amo cada esquina que vejo...amo cada experiencia que vivo...amo o frio com sol. Nem penso em voltar...queria que meus filhos estivessem aqui...Ao contrário de minha mãe que a cada instante relembra de Manaus (onde nasceu e viveu até os 25 anos, ou seja, quase 50 anos atrás)....eu não lembro de nada...eu só contemplo o novo...sinto que estou livre...sinto uma leveza grande....estou aqui, e isso é o que me interessa!


Ludmila Rohr
P.S. Foto de um brinde em Bad Homburg...é de noite, mas o sol só se põe às 21h!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Himalaya sob os meus pés...


Uma vez o Dalai Lama disse que o Himalaya estava debaixo dos nossos pés. Ele quis nos alertar, que não adianta grandes aventuras externas, sem que antes tenhamos encontrado o significado do "himalaya" dentro de nós. Já estive no Himalaya três vezes. Sobrevoei aquela imensidão branca quase sem respirar de tão linda e inacreditável. Estive diante do Everest três vezes, e o impacto foi avassalador para minha alma. Tive que levar meus filhos lá, senão eu teria a sensação mais ou menos como na loucura, em que voce fala algo e não é compreendido.
Precisava que minha família me entendesse. Precisava que eles soubessem do que eu estava falando....


Acredito no Dalai Lama. Vi pessoas que estavam lá comigo e não viam o que eu via. Aliás na 3ª viagem teve até uma pessoa que conseguiu provocar sentimentos negativos e competitivos em meio aquela visão sagrada. Lembro até que chorei. Chorei como se tivesse sido atingida por uma lança no meu coração, em um momento de total desproteção. Definitivamente aquela pessoa não estava no mesmo Himalaya que eu.


Porque falar do Himalaya agora?

-Estou saindo de férias. Serão apenas 15 dias. Irei na Alemanha e em Portugal. Levarei minha mãe para sua 1ª viagem à Europa, e levarei meu pai só pra Portugal. Ele nos encontrará lá.


Tenho vivido um ano muito difícil desde que descobrimos o câncer de Judson em abril de 2008. Tenho buscado força na minha prática do yoga e em amigos reais e virtuais. Sou tão grata a esses amigos. Eles me acolheram com todos os meus altos e baixos. Não me senti julgada, nem cobrada em momento algum, nem pra ser forte. Só recebo elogios, incentivos e carinhos.


Esse ano difícil se prolongou por mais tempo de que imaginávamos, já estamos em um segundo ano ano muito difícil. Tem horas que me sinto muito forte, corajosa, serena...tem horas que me sinto cansada, exausta. Polarizo entre esses dois lugares...e tanto em um, quanto no outro, lá estão meus amigos. Lá está o yoga. Encontro sempre a mim mesma nesses lugares e a mim mesma entre esses dois lugares. Não me desconheço...tenho uma sensação de mim mesma o tempo todo. Isso me dá um lugar sereno e consistente dentro de mim....acho que é o meu Himalaya!


Não tenho grandes ilusões a respeito de férias...elas nos tiram de uma paisagem externa, mas não podemos esquecer que não é só a mala que levamos juntos...nós vamos juntos! Nossos medos, tensões, preocupações...ansiedades...


Estou tranquila...sem grandes ansiedades...acho que me acostumei (por causa do tratamento de Judson) a não criar grandes expectativas. Apenas uma mudança de paisagem...e me dou conta de que isso é uma delícia...simples assim.... Quero, mais do que tudo, proporcionar isso aos meus pais. Quero ver minha mãe andando por ruas da Europa...quero ver meu pai falando com os portuguêses...(acreditem em mim. Isso vai ser uma pândega!)


Bom...estou indo hoje...levo um pouquinho do Himalaya que conquistei dentro de mim....ele sempre está lá...e depois volto....minha vida está aqui...com meus filhos, clientes, alunos, amigos, com meu gato, cachorro....minha vida estará sempre onde meu coração estiver!


Mas....agora....eu mereço férias.....


Beijos a Todos


Namastê


Ludmila