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segunda-feira, 2 de maio de 2011

SOMBRA PODEROSA

Broadway- NY


Esse último fim de semana, tive o imenso prazer de assistir pela segunda vez "O Fantasma da Ópera, na Broadway, em NY. Pensava que algo do encanto que tive na primeira vez que vi, pudesse se perder, mas tive uma agradável surpresa ao me dar conta de que estava completamente enganada.

A história contada nessa ópera é  uma história de amor. Uma história de rendição à sombra. Uma história de conexão com o poder que emerge a partir dessa rendição.

Quem nunca se sentiu atraído pelos aspectos sombrios da vida? Quem nunca se sentiu excitado por aquilo que é proibido ou que faz parte do lado sombrio da vida ou das pessoas? Triste daqueles que não mergulham em suas próprias sombras e se contentam apenas com o que o seu ego revela de si mesmo. Segundo Jung, pessoas assim,  abrem mão de conteúdos preciosos, segundo ele, "ouro puro".

 Penso que essas pessoas provavelmente tem vidas pobres e rasas. Penso que as pessoas que constroem uma parede rígida entre o bem e o mal, entre o frio e o quente, entre o negativo e o positivo, entre o que é de "Deus" e o que é do "Diabo", devem ter uma vida muito pobre e sem complexidades.

Penso que pessoas assim, são as que mais julgam o outro e também, são as que mais são duras e inflexíveis em seus julgamentos. Pessoas assim provavelmente tem problemas com o prazer e com o desejo. Pessoas assim, provavelmente estão distantes da compaixão e da bondade. Pessoas assim provavelmente jogariam pedras em Maria Madalena por amor a Maria. Pessoas assim, provavelmente acreditam em pecados.

A "sombra", sob o olhar da psicologia desenvolvida por Jung, é um aspecto do nosso inconsciente que guarda os conteúdos negados ou reprimidos. Conteúdos que nossa "persona" não consegue, por muitas razões, lidar conscientemente. Aquilo que a persona julga não sermos nós mesmos, é a nossa sombra. Seria algo como o "negativo" de nós mesmos, aquilo que é capturado pelo filtro do ego, da cultura e da educação e não podem vir a tona. 

Comumente vemos nossa "sombra" nos outros. É bem conveniente assim. Vemos, julgamos e acusamos as outras pessoas por revelarem aspectos da nossa sombra. Não queremos que ela seja revelada, por isso, qualquer pessoa que tenha comportamento ou características que negamos em nós mesmos, nos irrita profundamente, e quanto mais inconsciente formos da nossa "sombra" mais irritados e até mesmo irados, ficaremos. Muitas vezes buscamos ajuda na terapia para conhecer mais da nossa sombra. Um bom processo terapêutico nos ajuda a encontrar coragem e mergulhar na nossa alma e reconhecer em nós mesmos, e não nos outros, o que negamos e reprimimos.

A sombra deixa de ser sombra quando a conhecemos. Essas energias se transformam em poder. Quanto mais conscientes estivermos de nós mesmos, menos conteúdos teremos na sombra, mais expandida será a nossa consciência, mais inteiros estaremos. Quanto mais distantes nossa "persona" estiver do nosso "self", mais fracos e frágeis seremos. A força vem da nossa inteireza. A nossa força e nossa poder vem de nos aceitarmos e entendermos como um ser inteiro, com aspectos que gostamos e outros nem tanto. 

O "fantasma" da ópera é sedutor, apaixonado, intenso. Nenhuma pessoa consegue assistir a essa ópera sem se apaixonar por ele. Impossível não ficar excitado ao assistir Christine, como uma linda "Perséfone" ocidental, sendo levada aos porões nebulosos do inconsciente pelo fantasma apaixonado.

O mocinho da história, não tem a metade do charme e poder que o fantasma tem. Apesar de "Christine" escolher o mocinho, o seu poder vem da sombra. Quando ela se rende, se entrega ao poder que a sombra lhe oferece, ela se transforma na cantora que é, na mulher que é. Antes disso, ela é apenas uma figurante na vida. Assim como na mitologia grega, "Coré" se transforma na deusa "Perséfone" ao se render ao amor de "Hades", o Deus do mundo Avernal.

O fim da peça nos mostra que a sombra nunca morre. Não conseguiremos capturá-la. Não temos o poder de negá-la ou aprisioná-la. A única atitude funcional em relação a sombra, é abraçá-la. Quando "Christine" a abraça, quando a mocinha reconhece o poder da sombra, ela se desfaz. Ela não desaparece, ela simplesmente perde a forma e o poder sobre Christine e ela pode seguir o caminho que escolheu. 

Somos prisioneiros da sombra enquanto a negamos, somos prisioneiros do nosso inconsciente e dos conteúdos reprimidos, enquanto fugimos dele. No momento que nos dedicamos a olhar de forma amorosa para nossa "sombra" nos libertamos e assimilamos poder e energia que lá estava represada.

No fim da Ópera, vemos que é impossível capturar e submeter a "sombra". Não existe poder nenhum que consiga isso. A única coisa construtiva que podemos fazer com nossa sombra é lançar um olhar amoroso sobre ela e  transformar seu conteúdo inconsciente em consciente.

As perguntas que lanço são: Quais os conteúdos da sua sombra? Como ela se parece? Que partes suas estão encerradas em um porão escuro? Que partes negadas podem e devem ser abraçadas para que voce se sinta cada vez mais inteiro?

Bom...o mocinho é lindo, mas o Fantasma é quente. O mocinho é bom, mas o fantasma é intenso. Que tal unirmos esses aspectos em uma só pessoa?

e.....que tal se essa pessoa formos nós mesmos?

Ludmila Rohr

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Celebração das Deusas


Acho que já devo ter dito aqui, algo sobre o quanto eu adoro meu trabalho e todas as possibilidades que tenho de realizar mil coisas com ele. Já fui empregada da empresa privada e não aguentei, já fui funcionária pública concursada e também tive que sair senão ía morrer. Como psicoterapeuta e professora de yoga posso fazer tantas coisas diferentes....tenho tantos interesses e descubro sempre que posso produzir coisas com esses interesses se eu usar além do meu conhecimento, minha criatividade. Por isso, não posso ter um emprego, tenho que ser "dona" de mim mesma e ter a liberdade que vem daí.

Ontem encerrei mais um grupo que chamo de "Círculo das Deusas". É um trabalho com um grupo de mulheres, que procuram através da compreensão dos Arquétipos das Deusas Gregas e de como elas estão presentes nas nossas vidas (ou não) nos apropriarmos mais dos nossos poderes femininos.

Voces não tem idéia de como eu amo esse trabalho! Eu realmente amo muito esses encontros! Eu normalmente nem me preparo (tecnicamente) para eles. Eu sinto que apenas preciso abrir meu coração para as mulheres que lá estão e deixar que cada uma delas revele seus poderes. Sinto que a única coisa que faço nesse trabalho é autorizar cada uma delas a ser cada vez mais quem elas são em essência, e liberar seus desejos, saberes e poderes.

Passamos dois meses descobrindo a nossa porção Afrodite e como a nossa sexualidade teve que ser freiada e envolvida em culpas e sentimentos de inadequação; fazendo as pazes com a nossa Hera que não tem pruridos com relação ao poder; encontrando a nossa Ártemis e descobrindo o nosso amor pela natureza e pela liberdade; reconhecendo a Athena que mora em nós e que nascida da cabeça do pai luta contra as injustiças e ama o seu trabalho; acolhendo nossa Demeter que é mãe amorosa e que pode ser mãe de nós mesmas, e finalmente, descobrindo que podemos mergulhar fundo nas nossas dores como Perséfone e resgatar a nossa integração nos recônditos mais profundos da nossa alma.

Ontem encerramos essa jornada de resgate, reverenciando a nós mesmas.... brindando às Marilyns, às Fridas, às Anas Carolinas, às Priscilas, às Elianas, às Dôras, às Julianas, às Ângelas, às Ludmilas e a todas as Marias, brindamos aos batons, esmaltes, strasses, brilhos, livros; celebramos as delicadezas das fábulas, à coragem das guerreiras, ao prazer das cortezãs....rimos regadas a um bom vinho, uvas e claro, que não podia faltar, com chocolates.
Brindamos por cada orgasmo que teremos, por cada amiga que ainda faremos, pelos livros que publicaremos, pelos beijos que daremos, pelos homens que ainda abrirão portas de carro e trocarão nossos pneus e que nos amarão... e terão coragem de dar suporte aos nossos desejos e embarcarem neles... brindamos pelos filhos, pelas mães, irmãs e amigas que temos...brindamos por todas as mulheres das nossas vidas conhecidas ou não, mas que nos compõem....e nos ajudam a ser tudo que podemos ser.

Obrigada minhas lindas amigas, alunas, clientes...obrigada mulheres que me proporcionam uma experiencia como essa, que me dá uma noção muito linda de mim mesma. Acho que já disse que gosto muito de ser mulher, que gosto muito de mim mesma e da minha vida, mas quero mais uma vez agradecer, dizer o quanto sou grata por voces me darem esse prazer de rirmos e chorarmos juntas, de abrirmos a nossa alma uma para a outra e descobrir que podemos confiar. Confiar em nós mesmas, nos nossos desejos, intuições e sentimentos.



Namastê!


Ludmila
P.S. Escultura que mais amei no Museu D'Orsay em Paris