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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Estive viajando. Passei 10 dias entre a Alemanha e Rep. Tcheca. Amei essa viagem. Lugares lindos ... alguns revisitados, mas pela primeira vez fui a Praga. Amei Praga. Amei suas ruas e sua história. Andava pelas ruas de Praga e relembrava do incrível  "A Insustentável Leveza do Ser" de Kundera,....esse livro e a "Primavera de Praga" marcaram minha adolescência... fui pega pela mesma sensação que ele despertou na época....ainda estou assim...

Prestes a me mudar dos EUA, onde vivo agora, para a Coréia, onde provavelmente viverei por algum tempo, sinto que fui inundada por uma vibração forte vinda da minha alma. Todo o meu corpo reverbera essa vibração, e o nome dela é SAUDADE.

Estou com saudade ... estou com muita saudade, e não pensem que sinto saudades dos EUA...não, não é desse país que sinto saudade embora tenha passado tempos muito bons aqui, mas a minha saudade é muito antes disso. Conheci pessoas lindas aqui e delas sentirei muita falta, isso é verdade, mas a saudade que me toma agora é muito maior do que a que uma mudança geográfica pode produzir... Tenho saudade de mim. Tenho saudade de algo em mim. Tenho saudade de uma sensação que existia em mim e que parece que não existe mais. 

Tenho saudade da minha vida no Brasil... Tenho saudade da minha rotina lá. Saudade do meu trabalho, do consultório, dos alunos...Tenho saudade de acordar cedo, ir trabalhar...de ver meus filhos em casa... de voltar pra almoçar...de chegar em casa de noite, cansada de um dia de trabalho, mas muito satisfeita....de conversar com meu marido sobre o quanto eu estava feliz com a aula que havia dado...com os atendimentos que havia feito..

Me pego sentindo saudade de mim, da pessoa que eu me reconhecia ser. A insustentável Leveza do Ser... 

Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade do meu cachorro que morreu essa semana (lá no Brasil), tenho saudade de meu filho que está lá... já tenho saudade do filho que deixarei aqui... Tenho saudade da sensação de ter uma rotina conhecida (sou capricorniana, adoro minha rotina) ... Tenho saudade de um tempo que fazia planos e eles eram simples de serem realizados...sinto saudade de uma leveza... A insustentável Leveza do Ser...

Toda essa saudade convive com uma excitação pelo novo, pelas possibilidades de crescimento e aprendizado..., não sou cega a isso, muito menos fechada para isso. Quero muito que a Ásia entre na minha vida...quero muito conhecer novos lugares, novas comidas, novas pessoas...quero muito tudo que a vida tem a me oferecer e, no fundo sei que tudo isso foi, e é muito desejado..., mas não posso negar que nesse momento o que mais sinto, é saudade...

Sinto saudade do tempo em que eu acreditava que a leveza era sustentável ..
Sinto saudade de um tempo em que as consequências pareciam menos categóricas..., pareciam menos dramáticas...menos contundentes... Saudade de um tempo que os recomeços eram mais fáceis...

eu tirei essa foto...em Praga...
Sinto saudade de um mundo mais aconchegante e com mais bordas....agora tudo parece amplo demais...aberto demais...e com retornos de menos...  A consciência cada vez mais forte de que não existem retornos possíveis...de que o tempo não volta...de que o que está feito, está feito...

Estou bem. Não se preocupem...só estou com saudade, e entendi que o tempo não fará isso passar, apenas relativizará o que sinto...

O tempo me dará outras perspectivas de análise...e me fará ver o quão tudo é impermanente....

Tudo, menos a saudade...

Ludmila Rohr