Uma vez minha mãe nos colocou eu e meu irmão de castigo. Sabíamos que já estava perto da hora do meu pai voltar do trabalho...ficamos quietos no castigo pra que minha mãe nos esquecesse lá. Meu pai chegou, nos vendo lá com cara exageradamente tristes, perguntou -"O que voces estão fazendo aí? - Estamos de castigo. -Saiam do castigo agora! Onde já se viu um filho meu ficar de castigo? Sabíamos que ouviríamos isso. Gozo geral. Meu pai sempre nos tirava no castigo.
Outra vez minha mãe estava tentando nos dar uma chinelada, meu pai viu e perguntou: -Jacira, voce não acha que eu e voce já apanhamos por nossos filhos e netos? Eles tinham apanhado muito em suas vidas. Ele nunca nos bateu e nem deixava minha mãe fazer isso. Não acreditava em repressões ou castigos. Não punia, só incentivava e vivia como exemplo.
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| avô apaixonado |
Quando éramos pequenos, ele colocava todas as crianças da vizinhança no carro e levava para o clube, para tomar sorvete, para onde ele fosse com os filhos, sempre cabia mais crianças. Confesso que sentia até um certo ciúme, pois meu pai era de todos. Ele tinha tantos "sobrinhos" (nossos amigos) que parecia que ele não era meu, que era de todos. Ele era assim. Ele era de todos.
Ele foi preso em 64, porque era do PCB e líder sindical, isso era como uma marca na minha vida. Adorava saber que meu pai era diferente. Embora a nossa vida tenha ficado muito difícil e só tenha melhorado depois da anistia, eu tinha muito orgulho disso. Achava incrível ter um pai idealista.
Meus filhos vestem roupas pretas, gostam de rock pesado, e usavam cabelos longos, ele nunca estranhava nada, nem achava nada que os meninos fizessem, feio. No máximo perguntava o que era aquilo, o que eram aquelas roupas, mas tinha um respeito absoluto por suas escolhas. Quando alguém comentava sobre o cabelo longo dos netos, ele dizia como uma provocação: - "...é verdade, eles estão igual a Jesus." Com isso, calava a todos os preconceituosos. Certa vez Caio pintou o cabelo de azul. Minha mãe perguntou se ele já havia visto, com um tom meio assustado, ele respondeu: "Qual o problema? Voce pinta o cabelo de amarelo, porque o menino não pode pintar de azul?" Ele se divertia até com a tatuagem que o neto fez. Ele não entendia o que significava, mas se o neto estava feliz, ele também estava.
Esse era o meu pai. Se estávamos felizes, ele também estava. Sem nenhum questionamento e com apoio incondicional. Acreditem, NUNCA recebi um olhar que viesse dele na minha direção com algum tipo de desaprovação. Ele me aprovava. Ele reconhecia e enaltecia aquilo que via em mim e nos filhos e netos, incondicionalmente. Quando ele não gostava de algo, silenciava. Esse silencio era muito mais educativo que broncas que nunca existiram. Era complicado para mim decepcionar esse pai que me aprovava incondicionalmente.
Ele era uma pessoa que pensava no coletivo e nos ensinou isso com exemplos. No aniversário de 2 anos do primeiro neto, ele comprou um coelho (de verdade) e deu para Rafael de presente. A síndica do condomínio que eles moram, reclamou e ameaçou multá-lo por que era proibido coelhos. Rafael ficou triste com a possibilidade de perder seu coelho. No dia da festa de aniversário, ele comprou 40 coelhos e deu de presente para 40 crianças do condomínio, com um cartão: "Coelhos UNIDOS jamais serão vencidos". Ele podia ter ensinado Rafael a lidar com as frustrações e aceitar os limites impostos pelas regras, mas ele preferiu nos ensinar que UNIDOS temos uma causa coletiva. Unidos somos fortes. Ele sempre nos ensinou que as regras devem ser seguidas se são justas, se não são, que deveríamos lutar para mudá-las, e que a melhor forma de luta é a lutar ao lado de companheiros.
Nunca achei que tivesse que me "recolher" diante de alguma situação de repressão ou injustiça, tenho geneticamente um elemento paterno que diz que devo transformar minhas dores em Causas. Que devo brigar por elas, que devo aglutinar pessoas, que devo encontrar meus semelhantes. Meu pai tinha o poder de ver uma "causa a ser defendida" em muitas coisas que as pessoas simplesmente desistiriam ou "engoliriam como sapos".
Ele tinha uma ironia fina...uma inteligência aguçada, uma capacidade de sempre estar focado naquilo que importa, mesmo que fosse importante apenas para ele, ele conseguia mobilizar outras pessoas na sua luta. Lindo isso. Era um aglutinador, mas não tinha a menor preocupação em agradar, ou nenhum medo em desagradar, ele simplesmente vivia e dava conta dos desagrados sem se sentir vítima de nada. Sem que sua auto-confiança fosse abalada. Nunca conheci alguém mais confiante e destemido que ele.
Ele me ensinou a "sonhar". Ele acreditava que uma vida sem sonhos não tinha sabor nenhum. Mesmo sem dinheiro, na nossa infância, ele nos levava pra tomar sorvete, passear no Farol da Barra. Era pra isso que o dinheiro (pouco) servia. Não era para acumular. Ele e minha mãe são muito diferentes nisso. Minha mãe comprava algo e dizia que tínhamos que guardar pra usar no dia de festa, meu pai quando comprava, queria que já saíssemos da loja usando. Ele tinha urgência na vida. Tudo era pra hoje, nada era para amanhã. Pensava que a vida era pra ser vivida e não para ser guardada para um dia poder vivê-la. Foi assim que ele viveu. Foi assim que ele morreu. Não economizou energias para viver e por isso, morreu em paz.
Nunca vi ninguém mais generoso que ele. Desde pequena não entendia bem o porque que ele ajudava tantos amigos. As vezes, no meu egoísmo, aquilo era demais pra mim. Ele queria e amava ajudar. Dizia que não precisava de nada, ou que o que ele precisava era muito pouco, e que o resto que ele tinha era pra ajudar mesmo.
Ele morreu aos 77 anos...hoje tem uma semana da sua morte. Ele morreu deitado na rede de uma parada cárdio-respiratória, com meus filhos tentando ajudá-lo..e com o cachorro ao lado. Ele se foi dois dias antes da minha chegada ao Brasil. Quando meu telefone tocou lá nos EUA, eu sabia que meu pai tinha morrido. Eu simplesmente sabia. Consegui chegar para finalizar a cerimônia de cremação. Fiz o discurso de despedida. Falei para muitos amigos dele. Amigos de todas as épocas. Companheiros de luta do partidão e do sindicato.
Falei com todo o amor que sentia e sinto por ele. Com uma gratidão imensa por ter tido um pai que me ensinou a não querer ser comum. Tentei encontrar palavras para que as pessoas que lá estavam percebessem o quão especial era aquele homem que tinha partido para sempre. Um homem que realmente acreditava que podia mudar o rumo das coisas. Todos que lá estavam...se emocionaram...muitos vieram falar comigo e contar histórias dele que eu não conhecia. Vieram me dizer que eu havia conseguido representá-lo muito bem. Pessoas me diziam que nunca haviam estado em uma cerimônia fúnebre tão linda e emocionante. Alguns me disseram que foi uma aula sobre vida e morte. A vida do meu pai foi uma aula ... ele foi o meu mestre.
Na minha fala de despedida disse que não havia nada de errado no fato do meu pai ter morrido. Tenho muita paz com relação a isso. Ele viveu intensamente e como quis. Nada de errado em morrer tendo criado os filhos e tendo visto os netos adultos. Perfeito. Acho que ele foi feliz e em paz. Eu me sinto em paz também.
Tenho certeza de que no céu que meu pai foi recebido, os cachorros entram, e que ele foi recebido por "Nenêm"e "Bidu", seus cachorros amados que já se foram. Tenho certeza que na hora da sua morte, eles estavam "lá" latindo e lambendo sua mão. Ele amava seus cachorros e era tão amado...
Escolhemos para seu funeral 3 músicas que o representavam: A primeira foi "BRIGE OVER TROUBLED WATER" que ele sempre escutava com emoção profunda, a segunda foi "DISPARADA" com Geraldo Vandré, que eu cresci vendo-o cantar e chorar com essa música, que era um verdadeiro Hino para ele, e pra finalizar... "O HINO DA INTENTONA COMUNISTA" que foi tirado de um LP comprado na URSS por ele mesmo e que por ele teria sido tocado no meu casamento e nos nossos aniversários. Entretanto, para que o seu funeral tivesse sido absolutamente perfeito, Marx (seu beagle) deveria ter ido, ele detestava ir a lugares que o cachorro não pudesse estar...e deveríamos estar todos com um copo de cerveja na mão, brindando sua VIDA! E honrando sua morte!
Assim como eu, meu pai tinha um "Mantra", que ele falava para todas as pessoas quando se despedia, e que muitas pessoas gritavam sempre que o viam passar na rua ou em qualquer lugar:
"A LUTA CONTINUA COMPANHEIRO!!!"
Pai....obrigado....muito obrigado...meu amor e gratidão eternos...
Sou uma mãe feliz por saber que meus filhos tiveram o melhor avô do mundo. Um avô emocionado, apaixonado, engraçado, intenso, irreverente...sou feliz por isso.
Pra quem não conhece DISPARADA, prepare o seu coração... Essa música descreve meu pai!
Ludmila Rohr