quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CHEGADAS E PARTIDAS

Tenho vivido momento bem intensos em relação a esse tema.
Tenho a sensação de que de uns tempos para cá, minha vida tem sido uma sequência interminável de "Chegadas e Partidas".

Dois anos atrás me mudei de Salvador na Bahia, pra Houston no Texas. Grande mudança, principalmente porque deixei no Brasil um filho e uma vida que eu amava. Não fiz essa mudança porque estava insatisfeita com minha vida, muito pelo contrário. Adorava a vida que levava.

Nesse mesmo tempo perdi dois amigos queridos para o câncer. Gustavo e Verinha lutaram por suas vidas por longos e sofridos anos, mas nos deixaram e eu ainda sinto muito a falta deles. ( ELA SE FOI e RESPEITO É BOM E É CURADOR )

Três mêses atrás meu pai se foi, ainda é difícil falar sobre isso sem chorar. Ele foi uma pessoa muito especial e incomum. Falei sobre essa partida em A LUTA CONTINUA COMPANHEIRO

Meu primeiro mestre yogue, Swami Shurimahananda,  ( Ao mestre com carinho ) desencarnou logo em seguida e, hoje soube que meu grande mestre da psicologia, aquele que transformou minha vida, me conduziu a um mergulho profundo na minha alma e me ensinou o que é ser uma psicóloga, Roger Woolger, PhD., está partindo também. Eles foram minhas primeiras referências espirituais e da psicologia. Tanto Shurimahananda quanto Roger, marcaram minha vida de uma forma muito intensa, a ponto. Posso me compreender antes e depois de Shurimaha, assim como, antes e depois de Roger. 

No meio de tantas perdas, tenho que lidar com minha mudança para a Coréia do Sul. Estarei morando lá, a partir de dezembro e deixarei em Houston, meu outro filho e tantos amigos queridos que fiz aqui, que nem sei ainda como será isso, mas sei que será bem difícil.

Apesar de tantas perdas não me sinto frágil, e muito menos, desestruturada. Sinto minha força mais que nunca, talvez até mesmo porque precise lidar com tantas dores. Minhas forças estão aqui. Me sinto em paz e criativa. Me sinto estimulada e corajosa, mas sinto saudade...muita saudade de um tempo que tudo era mais simples. Sinto que perdi algo com todas essas "partidas", perdi uma certa ingenuidade. Estou em contato com uma Deusa com quem sempre flertei, estou mergulhada em Perséfone, mergulhei nos aspectos desse arquétipo. Estou mais sombria, mais intuitiva, mais mergulhada em mim, recolhida é a palavra. A minha face Perséfone tomou conta de mim nesse momento da minha vida. Gosto dela.

Bom, estou indo para Salvador, e dia 29 de setembro será o lançamento do meu "livrinho", "AS TRÊS CERTEZAS LIBERTADORAS", que nasceu a partir de muita meditação e depois de uma palestra com esse mesmo nome. Gostei de escrevê-lo. Não sou escritora, definitivamente, sou no máximo uma psicóloga  blogueira. Mas foi legal escrevê-lo, pois falei sobre algo que tenho refletido muito, que acredito e tenho experimentado na minha vida. A palestra foi feita no improviso e o livro saiu nasceu sem muito esforço também.  

Como disse muito bem Milton Nascimento,

"E assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem. 
O trem que chega é o mesmo trem da partida.
A hora do encontro é também despedida.."

assim estou....não sei mais onde é o começo e o fim de algo..
Não distinguo as chegadas das partidas.
Não tenho mais de forma clara qual o tipo de lágrimas que nascem dos meus olhos... choro de saudade...de alegria, de amor...

Estou chegando em Salvador, verei e me despedirei (mais uma vez) de tantas pessoas que amo...

Apareçam no Espaço Mahatma Gandhi pra me ver ... 
Minha agenda já está disponível na secretaria (71) 3248-7533 , serão apenas 15 dias no Brasil...chegarei e partirei..voltarei pra Houston e partirei para a Coréia... e assim continuará a ser.. 


Ludmila Rohr

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Estive viajando. Passei 10 dias entre a Alemanha e Rep. Tcheca. Amei essa viagem. Lugares lindos ... alguns revisitados, mas pela primeira vez fui a Praga. Amei Praga. Amei suas ruas e sua história. Andava pelas ruas de Praga e relembrava do incrível  "A Insustentável Leveza do Ser" de Kundera,....esse livro e a "Primavera de Praga" marcaram minha adolescência... fui pega pela mesma sensação que ele despertou na época....ainda estou assim...

Prestes a me mudar dos EUA, onde vivo agora, para a Coréia, onde provavelmente viverei por algum tempo, sinto que fui inundada por uma vibração forte vinda da minha alma. Todo o meu corpo reverbera essa vibração, e o nome dela é SAUDADE.

Estou com saudade ... estou com muita saudade, e não pensem que sinto saudades dos EUA...não, não é desse país que sinto saudade embora tenha passado tempos muito bons aqui, mas a minha saudade é muito antes disso. Conheci pessoas lindas aqui e delas sentirei muita falta, isso é verdade, mas a saudade que me toma agora é muito maior do que a que uma mudança geográfica pode produzir... Tenho saudade de mim. Tenho saudade de algo em mim. Tenho saudade de uma sensação que existia em mim e que parece que não existe mais. 

Tenho saudade da minha vida no Brasil... Tenho saudade da minha rotina lá. Saudade do meu trabalho, do consultório, dos alunos...Tenho saudade de acordar cedo, ir trabalhar...de ver meus filhos em casa... de voltar pra almoçar...de chegar em casa de noite, cansada de um dia de trabalho, mas muito satisfeita....de conversar com meu marido sobre o quanto eu estava feliz com a aula que havia dado...com os atendimentos que havia feito..

Me pego sentindo saudade de mim, da pessoa que eu me reconhecia ser. A insustentável Leveza do Ser... 

Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade do meu cachorro que morreu essa semana (lá no Brasil), tenho saudade de meu filho que está lá... já tenho saudade do filho que deixarei aqui... Tenho saudade da sensação de ter uma rotina conhecida (sou capricorniana, adoro minha rotina) ... Tenho saudade de um tempo que fazia planos e eles eram simples de serem realizados...sinto saudade de uma leveza... A insustentável Leveza do Ser...

Toda essa saudade convive com uma excitação pelo novo, pelas possibilidades de crescimento e aprendizado..., não sou cega a isso, muito menos fechada para isso. Quero muito que a Ásia entre na minha vida...quero muito conhecer novos lugares, novas comidas, novas pessoas...quero muito tudo que a vida tem a me oferecer e, no fundo sei que tudo isso foi, e é muito desejado..., mas não posso negar que nesse momento o que mais sinto, é saudade...

Sinto saudade do tempo em que eu acreditava que a leveza era sustentável ..
Sinto saudade de um tempo em que as consequências pareciam menos categóricas..., pareciam menos dramáticas...menos contundentes... Saudade de um tempo que os recomeços eram mais fáceis...

eu tirei essa foto...em Praga...
Sinto saudade de um mundo mais aconchegante e com mais bordas....agora tudo parece amplo demais...aberto demais...e com retornos de menos...  A consciência cada vez mais forte de que não existem retornos possíveis...de que o tempo não volta...de que o que está feito, está feito...

Estou bem. Não se preocupem...só estou com saudade, e entendi que o tempo não fará isso passar, apenas relativizará o que sinto...

O tempo me dará outras perspectivas de análise...e me fará ver o quão tudo é impermanente....

Tudo, menos a saudade...

Ludmila Rohr


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AO MESTRE COM CARINHO

Eu estava com 16 anos quando a conheci. Já se passaram 32 anos desde então. Buscava algo que fizesse sentido na minha vida. Eu era uma adolescente velha. Não tinha interesse algum em nada que as pessoas da minha idade tinham. A sensação era de ser uma E.T. Nada me atraía. Apesar de ser baiana, odiava carnaval e não era de festas, nem de multidão. Não suportava conversas que julgasse bobas e poucas coisas no meu mundo naquela época pareciam interessantes ou que valessem a pena para mim.

Havia lido algo sobre yoga e sobre a Índia. Entendi que queria muito conhecer aquilo. Queria para mim o mundo da meditação e do Yoga. Foi assim que a conheci. Ela era uma professora de yoga. Eu a amei desde o primeiro dia que a vi. Sua voz e sua energia me levaram a sentir algo que eu nunca havia sentido antes. Ela trouxe significado para minha vida e me levou a sentir que as coisas tinham um porquê. Eu senti que havia me reencontrado. Que eu havia encontrado minha alma e um caminho para minha espiritualidade se expressar.

Swami Shurimahananda não era uma pessoa comum. Ela era absurdamente forte e impactante. Tinha uma energia impressionante. Era impossível que ela passasse despercebida em qualquer lugar. As pessoas a amavam ou detestavam. Eu amei. Por muito tempo ela foi o meu mestre. Entendi que ela tinha muito a me ensinar e abri meu coração para aprender. Ela falava de Jesus apaixonadamente. Aprendi sobre Buda, Krishna, Babaji, Mahatma Gandhi, sobre os Mestres Yogues, sobre Kabala, Numerologia, Cristais, sobre os Chakras, percebo que aprendi tantas coisas que pude depois desenvolver e aplicar na minha vida que nem conseguiria listar. Entretanto consigo destacar que dentre tudo que vivenciei, o que aprendi de mais importante foi sem dúvida alguma sobre Karma Yoga, sobre o servir ao próximo, sobre voluntariado. Aprendi a amar o SERVIR. 

Por muitos anos fui voluntária no Plantão da Fraternidade, serviço fundado por ela. Atendíamos por telefone, 24 h por dia pessoas que buscavam carinho, conselhos e até mesmo aquelas que buscavam apenas serem ouvidas e sair da solidão. Amava isso. Amava ser plantonista. Amei muito. Servi e Amei muito. Como não ser grata a essa pessoa que me favoreceu isso? O Yoga e o Plantão da Fraternidade continuaram na minha vida até hoje, me tornei uma  Professora de Yoga e uma Psicóloga.

Ela tinha lindos e penetrantes olhos azuis que me acolheram tanto e por tantos anos. Ela celebrou meu casamento, viu meus filhos nascerem, foi testemunha da minha transformação de uma adolescente insatisfeita em uma adulta buscadora. 

Shurimaha não era uma pessoa fácil. Poderia fazer uma lista enorme de coisas que não gostava nela, mas não faria isso. Sou tão grata por tanto que recebi. Ela se foi desse mundo. Hoje só quero agradecer publicamente por tudo que ela me deu, e não foi pouco. Um mestre é aquele que ensina algo, e ela me ensinou. Tenho um histórico pessoal muito positivo e inesquecível com ela.

Um dia ela me deu um nome espiritual, me chamou Halina. As pessoas que me conhecem dessa época lembram disso. Amei esse nome. Ela me disse que Halina significava: "Aquela que dá sabor". Amei. Adorava ser Ludmila, que meu pai me deu ao nascer,  que significa "Amada pelo Povo" e amei ser chamada espiritualmente de Halina. Triste pensar que os dois se foram desse mundo quase que na mesma época. 

Ao saber do seu desencarne senti uma gratidão enorme no meu coração. Sou grata à vida por ter te encontrado e ter tido uma adolescência tão atípica que me fez a pessoa que sou hoje. Sou grata por ter vivido experiências tão fortes ao seu lado. Sou grata por por tantas coisas... que só posso dizer: 

Muito Obrigada Swami Shurimahananda por ter me entendido, respeitado e me amado até no momento que não consegui mais estar ao seu lado e te deixei.

Shanti....!

Halina


terça-feira, 9 de agosto de 2011

O QUE ME SEPARA DE MIM MESMA?

 Os opostos sempre me atraíram.  Gosto muito do conceito de "Sombra" que Jung ofereceu para a psicologia. Assim como gosto muito da idéia do "Inconsciente" de Freud. Gosto de pensar que existem partes em mim que não conheço ou que são inconscientes. Sinto-me desafiada e estimulada e descobrir o que existe por trás das primeiras impressões.

Sempre que conheço alguém ou vivo uma situação diferente na minha vida, gosto de me perguntar sobre os aspectos daquilo que não estou vendo pelo simples fato de estar olhando para aquela face que se mostra. 

A imagem que vi e registrei na foto que publiquei no último post ( O que voce pensa/sente ao ver essa foto? ) foi mobilizadora de muitos conteúdos em mim. Era uma momento simples. Havia levado minha mãe para passear em um zoológico na Alemanha. Nada de muito complexo ou subjetivo naquela experiência, até que me deparei com aquela criança que admirava aquele bicho tão grande. Protegida por um vidro espesso, ela que era tão frágil e parecia tão vulnerável diante daquele animal que provavelmente a destruiria com o próprio peso, me pareceu uma imagem incrível. Fotografei.

Nem lembrava dessa foto até que por conta de um recurso automático e aleatório do facebook, ela apareceu diante de mim, na minha página. Parei pra admirá-la. Confesso que estava sem nenhuma inspiração para escrever para esse blog e tive a idéia de colocá-la aqui com um questionamento. Queria saber se outras pessoas seriam mobilizadas por ela como eu fui, ou de que forma seriam mobilizadas.

Recebi muitos comentários, além dos que ficaram registrados no blog. Pessoas me enviaram emails falando sobre impressões que tiveram. Umas  falaram sobre lembranças de quando eram crianças, diante de autoridades, mas a maioria descreveu impressões conceituais de energias e características opostas que sentiam que habitavam suas mentes e suas almas.

Três elementos chamam minha atenção nessa foto. A criança pequena, ingênua e frágil, o animal absurdamente forte, grande mas quieto e, o terceiro elemento, que Helena trás a tona em seu comentário, que é o vidro que separa os dois.

Se penso na criança como a minha mente consciente e o animal como símbolo de conteúdos poderosos e adormecidos, o que seria esse vidro? O que faria essa separação entre o que sabemos de nós, e desse poder absurdo? adormecido ... quieto ... mas vivo, ...ali ... parece que esperando ser despertado. Parecendo um poder que tanto pode ser destruidor como exatamente o oposto. Algo que poderia nos destruir e ao mesmo tempo nos salvar.

Se todos os elementos da foto podem ser vistos e entendidos como partes de mim mesma, o que é esse vidro? O que me mantém separada de uma porção tão poderosa que me pertence? Seria possível rompê-la? Seria possível incorporarmos essa energia? Seria possível trazermos essa porção poderosa para a consciência e nos apropriarmos dela?

Como se esse blog fosse um grande grupo de terapia, quero deixar uma segunda pergunta para vocês:

 "Se encararmos o animal como um poder, o que estaria nos separando dele?"

Ludmila Rohr

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O QUE VOCE PENSA/SENTE AO VER ESSA FOTO?

O que voce pensa e/ou sente ao olhar essa foto?
Que pensamentos ou lembranças são mobilizadas?
Que memórias são evocadas?
ou.... o que ela representa pra voce? Como voce a descreveria?
Consegue pensar em uma metáfora diante dela?

Visitando um álbum de uma viagem que fiz em 2008 a Alemanha encontrei essa foto que tirei no zoológico de Koln. Lembrei exatamente da sensação que tive ao ver essa cena e que me levou a tirar essa foto. O contraste entre a delicadeza e fragilidade da criança e a força do animal me chamaram atenção e me me fez refletir sobre a nossa alma, sobre as forças opostas que coexistem dentro de nós.

Vou escrever sobre isso a partir das respostas que chegarem... 


segunda-feira, 25 de julho de 2011

RELATIVIZANDO DORES E PERDAS (ALMA CHEGANDO)

Duas semanas ou três semanas sem postar...
Depois que cheguei do Brasil não tive tempo, nem energia ou inspiração pra isso. Sempre tenho a sensação, depois de uma viagem dessas, de que meu corpo chega, mas minha alma vem devagarinho...vai chegando aos poucos... Respeito isso.

Esses dias algumas pessoas começaram a me cobrar posts novos. De verdade não me sinto cobrada, nem tenho um impulso de escrever para atendê-las. Sei também que elas fazem isso com carinho, acho até bonitinho sentirem falta do meu blog. Agradeço e respondo que logo logo escreverei, mas espero meu tempo chegar... 

Hoje fiquei com uma pequenininha vontade de escrever...parece que por uma fresta pequena e ainda estreita minha alma começa a se instalar em mim outra vez. Aos pouquinhos estou ficando inteira de novo.

A alma que encontra meu corpo nessa volta do Brasil é uma alma com algumas marcas e mais sensível. A alma de quem perdeu o pai adorado ( me despedi dele três posts atrás). A alma de quem não sabe como é o  país que estará morando dentro de alguns mêses, a alma que sabe que em breve deixará para trás uma cidade que aprendeu a amar, amigos queridos que construiu ... A alma de quem se afastará geograficamente do segundo filho em breve, e terá que acostumar com os dois filhos longe...bem longe....

Tenho uma forma de lidar com as coisas que me parece interessante. Gosto de pensar no que vou aprender de novo. Gosto de pensar nos ganhos que terei ou tive me cada situação, mas não dá pra esquecer que tudo tem um preço. Não dá pra fazer de conta de que tudo são flores. Não sou assim, e nem conseguiria ser.

A próxima grande mudança na minha vida, que tudo indica que será para a Coréia do Sul, vai me colocar perto de vários países que tenho a maior curiosidade em conhecer, mas vai me deixar longe de muitas pessoas e coisas que amo. Estarei bem pertinho da China, Japão, Indonésia, Laos, Vietnan, Butão...enfim, tantos lugares que não conheço e sempre quis conhecer e estou excitada com isso.

Tenho a sensação clara de que vou porque tenho mais a ganhar do que a perder e, tentarei entender como afastamento e não como perda, aquilo que deixarei aqui quando for. Entendo que Houston e os amigos que fiz são uma expansão do meu território e das minhas conquistas e não como perdas que terei. Sinto que voltarei sempre que quiser e os verei de novo... bem diferente da perda do meu pai que não o verei mais quando voltar ao Brasil. Essa sim, uma perda de verdade.

Depois de lutar por dois anos ao lado do meu marido contra um câncer aprendi ainda mais a relativizar as dores e os problemas. Parece que muitas coisas perdem importância depois disso ou são redimensionadas. Depois da morte do meu pai, aprendi a relativizar as perdas. O que é realmente perda diante disso? Só as mães que perdem seus filhos continuam a me comover completamente sem que exista relativização possível na minha mente. As outras perdas que vejo amigos e pessoas queridas passarem, todas eles me deixam compassiva, mas não me provocam pena.

Bom...minha alma está fluindo....sem pressa vai chegando...

Obrigada a todos que me aguardaram e ainda aguardam...
.... estou chegando devagarinho....

Ludmila Rohr






sexta-feira, 8 de julho de 2011

EU ERA FELIZ E SABIA !!!!

Tenho muita pena da pessoa que com pesar, constata que "Era feliz e não sabia"

Pra mim essa frase diz respeito a um arrependimento de não ter curtido ou mesmo valorizado algo que tinha, e que só percebeu quando perdeu e não a  tem mais. 

Não lembro de ter sentido isso na minha vida. Não lembro de ter usado essa expressão, de forma séria, alguma vez. A minha necessidade de viver cada dia como se fosse o único me coloca em contato com uma noção do presente e com uma vivência intensa dele. Não sobra espaço para arrependimentos de algo que não vivi por que fui descuidada ou por não ter valorizado o suficiente. 

Ontem nessa minha quarta semana em Salvador, fui a um restaurante em Itapuã que fez parte da minha vida por muitos anos. Eu e meu marido o freqüentávamos quase todas as semanas nos últimos 15 anos que moramos em Salvador. Conhecíamos todos os garçons, e escolhíamos nossos pratos sem nenhuma necessidade de olharmos o cardápio, de tão familiar que ele nos era. Desde que mudamos para os EUA, não tínhamos voltado lá. 

Além do atendimento e comidas perfeitas, esse lugar nos evoca tantas boas lembranças.... Quando saí do restaurante pensei que se eu tivesse que voltar a morar no Brasil hoje, eu voltaria feliz. Me dei conta de uma sensação deliciosa de alegria. A única frase que vinha na minha mente era: "Eu era feliz e sabia!" Sempre soube...

Uma vez ouvi um ensinamento indiano em forma de parábola. Era assim: 

"No portão que dava acesso a uma pequena vila na Índia, morava um sábio e seu discípulo. Cada pessoa que entrava na vila conversava com o sábio, as perguntas mais comuns eram a respeito de como eram as pessoas que viviam naquela vila. A essa pergunta, o sábio sempre oferecia uma outra pergunta como resposta. Dizia: Como eram as pessoas do lugar onde voce vivia? Algumas pessoas respondiam, - eram más, egoístas, invejosas...por isso saí de lá. Outras diziam: - Eram muito boas, amigas, companheiras, solidárias...foi uma pena deixá-las. A ambas as respostas, o sábio dizia a mesma coisa: - As pessoas daqui, são como as de lá. Seus discípulo ouvindo isso questionou o porquê do sábio "enganar" aqueles viajantes, o que ele respondeu com um ensinamento belíssimo, não as estou enganando, só podemos ver do lado de fora, aquilo que temos dentro de nós. As pessoas sempre encontrarão a si mesmas, independente do lugar que forem."

Quando eu cheguei em Houston, me peguei olhando com encantamento para tudo que a cidade tem de muito bom! Adoro aquela cidade, por mais que veja seus defeitos, não existe a menor chance de sair de lá com algum tipo de sensação de que vivi algo que não gostei, ou de que perdi tempo da minha vida. Adoro aquele lugar e sentirei saudades dele, assim como de todas as pessoas que conheci lá. Tenho certeza de que terei tantas histórias pra contar, tantas boas lembranças... sou feliz em Houston. 

Existe uma chance grande de mudarmos em breve para Seul na Korea. Essa mudança não me assusta, muito pelo contrário, fico extremamente excitada em pensar que poderei passar um tempo conhecendo países asiáticos. Daquele continente apenas conheço a Índia e o Nepal. Morando lá, terei chances de conhecer Japão, China, Laos, Cambodja, Vietnan... só em pensar nisso fico animadíssima. Embora muitas pessoas achem estranho minha animação e tentem me deixar preocupada por ser um país de uma cultura tão diferente da nossa, não consigo deixar de achar que terei experiências incríveis lá. 

Vivi toda minha vida em Salvador na Bahia, nasci e cresci nessa cidade que amo. Conheço seus defeitos. Acreditem, não sou bairrista a ponto de ficar cega para eles, assim como não sou deslumbrada com os EUA para não perceber que assim como aqui, eles também têm seus problemas. Diferentes dos nossos, mas eles também os têm. 

Realmente acredito no ensinamento da parábola do sábio indiano. Acho que o lugar é apenas um lugar, e que não adianta mudar de lugar tentando fugir de algo, pois seus conteúdos e seus olhos irão junto com voce. A simples mudança geográfica não muda a sua forma de lidar com as coisas que estão do lado de fora. É preciso uma reflexão profunda e um reconhecimento da sua responsabilidade pessoal nisso para que algo realmente mude. Conheço pessoas que fugiram do estresse das cidades grandes, em busca de uma vida bucólica no campo, e que vivem muito estressadas com os ruídos dos sapos e das corujas. Mudanças externas precisam vir acompanhadas de mudanças internas para que de fato funcionem. 

Me dou conta de que amo Salvador e que poderei voltar a morar aqui e serei feliz. Amo Houston, ficarei com saudades de lá...amarei Seul...tenho certeza disso, porque um dos meus mantras pessoais e que me definem é: "O que existe aqui, existe lá. Se não existe aqui, não existe em lugar algum."

Eu era feliz em Salvador, sempre soube e disso. Sou feliz em Houston, (apesar dos dias de saudade imensa) não podia ser diferente. Serei feliz em Seul ou em qualquer lugar que eu for.

Ludmila Rohr

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O ÓDIO CONTRA UM SER HUMANO, É CONTRA TODOS!

Recentemente, por defender a causa dos homossexuais, fui violentamente ofendida e ameaçada no Twitter.  Embora acredite que as injustiças cometidas contra qualquer criatura são problemas meus também, entendo que normalmente as pessoas pensem que se um problema não as afeta diretamente, signifique que aquele problema não é delas. Esse é, normalmente, o raciocínio das pessoas. Convivo mais com isso do que gostaria. Sei que é dessa forma pequena e egocentrada que normalmente as pessoas vivem.

Esse comportamento egoísta é o que sustenta o Bullying. A grande maioria das pessoas não são nem vítimas, nem agressores em uma situação de bullying. A maioria faz parte do grupo que se cala porque entende equivocadamente  que nada tem a ver com aquilo. Para mim é claro que a maioria silenciosa e por isso mesmo conivente, é que sustenta o comportamento de agressores cada vez mais violentos e confiantes de que não terão seus atos reprimidos. Assim como, essa mesma maioria é que teria o poder de mudar essa realidade.

Tenho acompanhado com interesse especial o trabalho do querido Jean Wyllys, escritor baiano e que no último pleito, foi eleito Deputado Federal. A forma corajosa com que ele luta pelo direitos dos homossexuais me comove. Adoro ler seus tweets e o acompanho com atenção. Normalmente replico seus tweets e reflito sobre preconceito e discriminação. Coloco minha opinião sobre o quão inútil (ao meu ver) é a luta contra o PRECONCEITO, já que o preconceito é interno, é um pensamento, vem de crenças e da ignorância sobre a vastidão do que é ser humano e só teria fim com muita informação e não pela força da lei. Reforço a importância da luta contra a DISCRIMINAÇÃO, que é a ação do preconceito. Acredito piamente que a discriminação deve ser combatida, reprimida e punida pela força da Lei, mas não acredito que possamos acabar com o preconceito usando das mesmas armas.

Normalmente quando estou discutindo esse tema, recebo tweets de pessoas que me perguntam porque me envolvo com isso? Recebo também tweets de pessoas que perguntam se sou lésbica. Minha resposta sempre é a mesma. Digo que isso é um problema de todos nós, que quando alguém é injustiçado, todos nós somos injustiçados também. Esclareço que as causas não existem para atender a necessidades individuais, que as minorias injustiçadas são responsabilidade de todas as pessoas conscientes. Discuto o papel da conivência gerada pelo silencio. Quando me irritam, perco a paciência e respondo que não sou lésbica e também não sou estúpida.

Achar que a causa dos homossexuais que têm seus direitos negados é um problema dos homossexuais é um pensamento extremamente egoísta. Esse é meu pensamento com relação a toda minoria ofendida e violada nos seus direitos. Se podem negar direitos a um grupo de pessoas, quem garante que não negarão a outros grupos e mais outros e um dia teremos perdido nossos direitos e a nossa voz?

Tenho empatia por lutas de qualquer grupo que sinta que seus direitos estão sendo negados, sinceramente, dói em mim. Não preciso ser lésbica ou ter um filho gay, para ter empatia com a causa gay. Quem conhece meu blog já leu em vários posts sobre o quanto isso me incomoda. Odeio a filosofia do "cada um por si", ou do "farinha pouca meu pirão primeiro". Acho a falta de sentimento de coletividade uma doença grave da humanidade.

Essa semana em mais um dia de tweets sobre comportamentos homofóbicos, fui atacada. Recebi ameaças de morte. Me chamaram de "vadia", "rameira", "sapatão" e "puta", disseram que eu "merecia a morte por empalamento", disseram que "Deus não teria tempo de me punir", porque "eles" que se auto-intitulavam "defensores do bem", o fariam. Um dos tweets que foi assinado por um tal de "anjo branco", dizia que "nem para ser estuprada eu servia", que "com minha cara de sapatão" eu deveria ser morta.  Essas são algumas das pérolas produzidas pelo ódio contra os homossexuais que respingaram em mim.

Repliquei muitos dos tweets, e imediatamente pessoas muito carinhosas me defenderam, e diziam que eu não merecia isso, ou que eu não ligasse para eles. Recebi o carinho, mas fiquei muito preocupada com essa reação. Expliquei que nenhum dos tweets violentos haviam "me" ofendido. Que ninguém estava ofendendo Ludmila Rohr, eles estavam ofendendo a todos nós. Não era um ódio contra a minha pessoa, era ÓDIO, simplesmente ÓDIO, e esse sentimento é contra todos. Que eles não deveriam ter pena de mim, e sim de todos nós e de si mesmo também.

O que quero dizer é que o ÓDIO não vê cara. Quem odeia e alimenta ódio, simplesmente exalará esse ódio e mesmo que ele não seja canalizado na minha direção, ele me afetará. O ódio contra um ser humano é contra todos os seres humanos. Cada vez que respiro aliviada por que não fui eu a vítima dessas pessoas, mais eu as alimento. Somos todos vítimas do ódio e precisamos todos combatê-lo independente da direção que ele assuma.

Moro nos EUA, e por conta do meu tipo físico, não sou vítima de nenhum tipo de preconceito contra imigrantes, mas não posso me esquecer que sou uma imigrante quando minha faxineira El Salvadorenha é ofendida. Quando um negro é ofendido por sua cor, eu sou ofendida. Quando um homossexual é ofendido por sua orientação sexual, eu também sou. Quando me perguntam porque me ofendo, respondo: Por que meu mundo seria muito melhor sem os homofóbicos, racistas, xenofóbicos.... o meu, o seu, o nosso mundo seria muito melhor sem o ódio gratuito que essas pessoas disseminam acobertadas por aqueles que calam.

Quero encerrar esse post com esse poema que eu amo e que talvez nos ajude a refletir.

"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, 
e conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta, e já não podemos dizer nada."
Eduardo A. da Costa. (O poema que Maiakovski nunca escreveu)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

DIVIDINDO TETO E CONSTRUINDO INTIMIDADE *


Acredito no casamento. Estou casada há 25 anos e não me arrependo um só dia disso. Nesse tempo construí uma relação que envolve amor, amizade, respeito a  individualidade do outro, sexo de qualidade e admiração. Entretanto como psicóloga tenho visto no consultório muita gente infeliz e culpando seus casamentos por isso. Homens e mulheres vivendo uma vida de infelicidade e traições aos próprios desejos e sentimentos por conta de casamentos falidos. Essas pessoas normalmente relatam um início de vida a dois, cheio de paixão, excitação e sonhos. A grande pergunta que elas se fazem é porque chegaram a esse ponto? O que aconteceu no meio do caminho?

Muitas revistas femininas e livros de auto-ajuda falam sobre como ter um casamento feliz e tentam nos ensinar um caminho seguro para que sejamos bem sucedidos nesse intento. Não tentarei isso aqui porque não acredito em fórmulas, muito menos em manual de instrução que orientem pessoas como serem felizes, também porque penso que o casamento é um terreno complexo demais para fórmulas simplistas. Por isso, resolvi refletir sobre alguns ingredientes que tenho encontrado e que são comuns a todos os casamentos bem-sucedidos e que talvez seja o grande (ou simples) segredo deles.

É frase comum dizer que precisamos cuidar do nosso amor ou que o amor é como uma flor delicada que precisa ser cuidada diariamente. Penso que o amor é um encontro de almas, diferente da paixão que vem de um encontro de corpos, de química e de excitação. Entretanto, tanto um quanto o outro, acontecem sem que pensemos neles. É natural, sem esforços. Somos tomados pela paixão sem que a razão esteja presente. Nos descobrimos amando da mesma forma, naturalmente. Podemos nos apaixonar e amar pessoas que nunca imaginamos ser possível, ou mesmo aquelas bem diferentes de nós. É assim. Simplesmente acontece para os que se disponibilizam e abrem o coração para essas energias e não as temem. Isso é suficiente para namorar e se envolver com alguém e viver momentos quentes, excitantes e felizes.

No entanto, quando falamos de casamento, penso que amar é pouco. Precisamos construir algo muito mais que patrimônio para que ele dê certo. Precisamos ter muito mais que filhos, para que tenhamos chances de sermos felizes. Precisaremos construir intimidade. A intimidade que pressupõe amizade e respeito. Intimidade que se alimenta de admiração e orgulho e que gera desejo e excitação. Intimidade que possibilita que um esteja diante do outro sem disfarces, sem máscaras e se respeitem. Intimidade que sustenta a relação apesar das diferenças e que sustenta a convivência apesar das descobertas das zonas de desencontro (que certamente surgirão).

Estar diante do outro com quem sou “íntima”, pressupõe a possibilidade de me desarmar, de me mostrar inteira e também poder ver o outro com suas fragilidades e “defeitos”. Desenvolver “intimidade” é poder lidar com o que descobriremos do outro quando a paixão serenar. A “intimidade” torna possível a expressão pura do desejo e a mostra simples dos sentimentos. Quando somos íntimos podemos mostrar nossa vulnerabilidade e confiar que ela não será usada contra nós. Podemos nos despir. Podemos expressar nossa excitação com a mesma liberdade que expressamos o medo, a raiva, a insatisfação e o amor. Podemos ser quem somos e respeitar o outro na sua verdade, e para isso, precisaremos nos conhecer e estar abertos para conhecer o outro que se revelará a cada dia.

Ludmila Rohr


* texto publicado pela Revista YACHT Noivas & Festas


sexta-feira, 10 de junho de 2011

"A LUTA CONTINUA COMPANHEIRO!"

Uma vez minha mãe nos colocou eu e meu irmão de castigo. Sabíamos que já estava perto da hora do meu pai voltar do trabalho...ficamos quietos no castigo pra que minha mãe nos esquecesse lá. Meu pai chegou, nos vendo lá com cara exageradamente tristes, perguntou -"O que voces estão fazendo aí? - Estamos de castigo. -Saiam do castigo agora! Onde já se viu um filho meu ficar de castigo? Sabíamos que ouviríamos isso. Gozo geral. Meu pai sempre nos tirava no castigo.

Outra vez minha mãe estava tentando nos dar uma chinelada, meu pai viu e perguntou: -Jacira, voce não acha que eu e voce já apanhamos por nossos filhos e netos? Eles tinham apanhado muito em suas vidas. Ele nunca nos bateu e nem deixava minha mãe fazer isso. Não acreditava em repressões ou castigos. Não punia, só incentivava e vivia como exemplo.

avô apaixonado

Quando éramos pequenos, ele colocava todas as crianças da vizinhança no carro e levava para o clube, para tomar sorvete, para onde ele fosse com os filhos, sempre cabia mais crianças. Confesso que sentia até um certo ciúme, pois meu pai era de todos. Ele tinha tantos "sobrinhos" (nossos amigos) que parecia que ele não era meu, que era de todos. Ele era assim. Ele era de todos.

Ele foi preso em 64, porque era do PCB e líder sindical, isso era como uma marca na minha vida. Adorava saber que meu pai era diferente. Embora a nossa vida tenha ficado muito difícil e só tenha melhorado depois da anistia, eu tinha muito orgulho disso. Achava incrível ter um pai idealista.

Meus filhos vestem roupas pretas, gostam de rock pesado, e usavam cabelos longos, ele nunca estranhava  nada, nem achava nada que os meninos fizessem, feio. No máximo perguntava o que era aquilo, o que eram aquelas roupas, mas tinha um respeito absoluto por suas escolhas. Quando alguém comentava sobre o cabelo longo dos netos, ele dizia como uma provocação: - "...é verdade, eles estão igual a Jesus." Com isso, calava a todos os preconceituosos. Certa vez Caio pintou o cabelo de azul. Minha mãe perguntou se ele já havia visto, com um tom meio assustado, ele respondeu: "Qual o problema? Voce pinta o cabelo de amarelo, porque o menino não pode pintar de azul?" Ele se divertia até com a tatuagem que o neto fez. Ele não entendia o que significava, mas se o neto estava feliz, ele também estava.

Esse era o meu pai. Se estávamos felizes, ele também estava. Sem nenhum questionamento e com apoio incondicional.  Acreditem, NUNCA recebi um olhar que viesse dele na minha direção com algum tipo de desaprovação. Ele me aprovava. Ele reconhecia e enaltecia aquilo que via em mim e nos filhos e netos, incondicionalmente. Quando ele não gostava de algo, silenciava. Esse silencio era muito mais educativo que broncas que nunca existiram. Era complicado para mim decepcionar esse pai que me aprovava incondicionalmente.

Ele era uma pessoa que pensava no coletivo e nos ensinou isso com exemplos. No aniversário de 2 anos do primeiro neto, ele comprou um coelho (de verdade) e deu para Rafael de presente. A síndica do condomínio que eles moram, reclamou e ameaçou multá-lo por que era proibido coelhos. Rafael ficou triste com a possibilidade de perder seu coelho. No dia da festa de aniversário, ele comprou 40 coelhos e deu de presente para 40 crianças do condomínio, com um cartão: "Coelhos UNIDOS jamais serão vencidos". Ele podia ter ensinado Rafael a lidar com as frustrações e aceitar os limites impostos pelas regras, mas ele preferiu nos ensinar que UNIDOS temos uma causa coletiva. Unidos somos fortes. Ele sempre nos ensinou que as regras devem ser seguidas se são justas, se não são, que deveríamos lutar para mudá-las, e que a melhor forma de luta é a lutar ao lado de companheiros.

Nunca achei que tivesse que me "recolher" diante de alguma situação de repressão ou injustiça, tenho geneticamente um elemento paterno que diz que devo transformar minhas dores em Causas. Que devo brigar por elas, que devo aglutinar pessoas, que devo encontrar meus semelhantes. Meu pai tinha o poder de ver uma "causa a ser defendida" em muitas coisas que as pessoas simplesmente desistiriam ou "engoliriam como sapos".

Ele tinha uma ironia fina...uma inteligência aguçada, uma capacidade de sempre estar focado naquilo que importa, mesmo que fosse importante apenas para ele, ele conseguia mobilizar outras pessoas na sua luta. Lindo isso. Era um aglutinador, mas não tinha a menor preocupação em agradar, ou nenhum medo em desagradar, ele simplesmente vivia e dava conta dos desagrados sem se sentir vítima de nada. Sem que sua auto-confiança fosse abalada. Nunca conheci alguém mais confiante e destemido que ele. 

Ele me ensinou a "sonhar". Ele acreditava que uma vida sem sonhos não tinha sabor nenhum. Mesmo sem dinheiro, na nossa infância, ele nos levava pra tomar sorvete, passear no Farol da Barra. Era pra isso que o dinheiro (pouco) servia. Não era para acumular. Ele e minha mãe são muito diferentes nisso. Minha mãe comprava algo e dizia que tínhamos que guardar pra usar no dia de festa, meu pai quando comprava, queria que já saíssemos da loja usando. Ele tinha urgência na vida. Tudo era pra hoje, nada era para amanhã. Pensava que a vida era pra ser vivida e não para ser guardada para um dia poder vivê-la. Foi assim que ele viveu. Foi assim que ele morreu. Não economizou energias para viver e por isso, morreu em paz.

Nunca vi ninguém mais generoso que ele. Desde pequena não entendia bem o porque que ele ajudava tantos amigos. As vezes, no meu egoísmo, aquilo era demais pra mim. Ele queria e amava ajudar. Dizia que não precisava de nada, ou que o que ele precisava era muito pouco, e que o resto que ele tinha era pra ajudar mesmo.

Ele morreu aos 77 anos...hoje tem uma semana da sua morte. Ele morreu deitado na rede de uma parada cárdio-respiratória, com meus filhos tentando ajudá-lo..e com o cachorro ao lado. Ele se foi dois dias antes da minha chegada ao Brasil. Quando meu telefone tocou lá nos EUA, eu sabia que meu pai tinha morrido. Eu simplesmente sabia. Consegui chegar para finalizar a cerimônia de cremação. Fiz o discurso de despedida. Falei para muitos amigos dele. Amigos de todas as épocas. Companheiros de luta do partidão e do sindicato.
Falei com todo o amor que sentia e sinto por ele. Com uma gratidão imensa por ter tido um pai que me ensinou a não querer ser comum. Tentei encontrar palavras para que as pessoas que lá estavam percebessem o quão especial era aquele homem que tinha partido para sempre. Um homem que realmente acreditava que podia mudar o rumo das coisas. Todos que lá estavam...se emocionaram...muitos vieram falar comigo e contar histórias dele que eu não conhecia. Vieram me dizer que eu havia conseguido representá-lo muito bem.  Pessoas me diziam que nunca haviam estado em uma cerimônia fúnebre tão linda e emocionante. Alguns me disseram que foi uma aula sobre vida e morte. A vida do meu pai foi uma aula ... ele foi o meu mestre.

Na minha fala de despedida disse que não havia nada de errado no fato do meu pai ter morrido. Tenho muita paz com relação a isso. Ele viveu intensamente e como quis. Nada de errado em morrer tendo criado os filhos e tendo visto os netos adultos. Perfeito. Acho que ele foi feliz e em paz. Eu me sinto em paz também.

Tenho certeza de que no céu que meu pai foi recebido, os cachorros entram, e que ele foi recebido por "Nenêm"e "Bidu", seus cachorros amados que já se foram. Tenho certeza que na hora da sua morte, eles estavam "lá" latindo e lambendo sua mão. Ele amava seus cachorros e era tão amado...

Escolhemos para seu funeral 3 músicas que o representavam: A primeira foi "BRIGE OVER TROUBLED WATER" que ele sempre escutava com emoção profunda, a segunda foi "DISPARADA" com Geraldo Vandré, que eu cresci vendo-o cantar e chorar com essa música, que era um verdadeiro Hino para ele, e pra finalizar... "O HINO DA INTENTONA COMUNISTA" que foi tirado de um LP comprado na URSS por ele mesmo e que por ele teria sido tocado no meu casamento e nos nossos aniversários. Entretanto, para que o seu funeral tivesse  sido absolutamente perfeito, Marx (seu beagle) deveria ter ido, ele detestava ir a lugares que o cachorro não pudesse estar...e deveríamos estar todos com um copo de cerveja na mão, brindando sua VIDA! E honrando sua morte!

Assim como eu, meu pai tinha um "Mantra", que ele falava para todas as pessoas quando se despedia, e que muitas pessoas gritavam sempre que o viam passar na rua ou em qualquer lugar:

"A LUTA CONTINUA COMPANHEIRO!!!"  

Pai....obrigado....muito obrigado...meu amor e gratidão eternos...
Sou uma mãe feliz por saber que meus filhos tiveram o melhor avô do mundo. Um avô emocionado, apaixonado, engraçado, intenso, irreverente...sou feliz por isso.

Pra quem não conhece DISPARADA, prepare o seu coração... Essa música descreve meu pai!


Ludmila Rohr








terça-feira, 31 de maio de 2011

SOU DOCE?

Antes da picada número 3 - SOU DOCE?
 Ontem fui picada por uma abelha.
Acho que elas me amam. Não é a primeira vez que passo por isso.
A primeira vez que isso aconteceu, descobri que sou alérgica a elas, fui inchando...meu corpo enlouqueceu com coceiras em questão de segundos...comecei a ter dificuldade de respirar e graças a um amigo que era estudante de medicina, não fiz um quadro mais grave.

Na segunda vez meu marido estava comigo, estávamos em Paria do Forte, lugar que mais amo estar na Bahia. Meu rosto começou a inchar, ele percebeu e fomos saindo rápido em busca de uma farmácia.
A picada número 3, foi a mais interessante de todas, eu estava na Índia, com meu marido e filhos, havíamos acordado cedo na cidade de Agra para ver o Taj Mahal ao amanhecer. Fui picada lá. Eu estava como responsável por um grupo. Fiquei tensa imaginando ter que ir para um hospital na Índia. Respirei tanto....nunca coloquei minha mente tão focada em um trabalho de cura...o braço foi inchando...fiz marcas ao redor da picada para visualizar a expansão da reação e mentalizava respirando...e comecei a caminhar saindo do Taj Mahal, voltando para o ônibus. A marca cresceu, cresceu...e parou...Relaxei e continuei na Taj como se nada houvesse acontecido!!! Poucas pessoas do grupo souberam.

A picada número 4 foi a mais dolorosa de todas. Estava na piscina da casa de amigos aqui no Texas. Muita gente conversando e rindo na piscina. Uma abelha e muita gente. Eu sou a escolhida mais uma vez. A picada doeu na hora, mas doeu infinitamente mais depois quando cheguei em casa. Fui parar numa emergência. Não aguentei a dor, e costumo dizer que não sou fresca em relação a dor. Pari meu dois filhos por via natural e sem anestesia, e achei tranquilo fazer isso, mas aquela picada doeu de verdade...e diferente do parto, que era um momento de felicidade, me perguntava qual a felicidade em ser picada por uma abelha mais uma vez? Nenhuma.

Em quatro dias embarco para o Brasil e tenho mil coisas pra fazer antes disso. Três capítulos de um livro novo sobre a última  palestra que dei em Salvador (As Três Certezas Libertadoras) para serem escritos, três vídeos para gravar para meu novo site sobre Sexualidade Feminina que será em Inglês. Além de todas as providências que temos que tomar antes de ir passar cinco semanas no Brasil.

Bom....um amigo lindo me disse que as Abelhas têm Bom Gosto. Tive que rir. Outras pessoas disseram que sou doce ou docinha, que é por isso que elas me escolhem. Também ri. Uma outra disse que as abelhas queriam um pouco do meu astral  "zen". Fofos. Amo meus amigos. O que seria de mim sem eles.

Ok...Sou doce (também) e estou indo em alguns dias mais uma vez para o Brasil...para a Bahia... Pode alguém querer algo mais doce que isso?

Estou feliz...e quero convidar a quem lá estiver para assistir minhas palestras. Darei 4 palestras no Espaço Mahatma Gandhi *, atenderei no consultório e farei alguns "Círculo das Deusas". Minha agenda já está com as secretárias, todos podem ter acesso. O Mahatma Gandhi lá em Salvador é o lugar mais doce que conheço, é o lugar mais doce para mim...Aprendi lá muitas coisas que me ajudam a viver bem e de forma amorosa e compassiva, tenho tentado passar isso adiante. 

A dor que senti com a picada da abelha perde toda a dimensão de sofrimento, por que ela é apenas dor. As "dores" não necessariamente significam sofrimentos, a maioria delas são simplesmente dores e ficam longe da minha alma. 

Vou acreditar nos meus amigos lindos...que me disseram que sou doce.
Sou doce como mel (também) ...e estou indo para Salvador ...
(mais um detalhe, toda minha família estará em Salvador. Inclusive Judson.)

Que mais posso esperar da vida?

Beijos...espero voces no Mahatma Gandhi.

Ludmila Rohr

* Espaço Mahatma Gandhi, Rua Rio de Janeiro, 694, Pituba, Salvador -BA, 41.830-400
(71) 3248-7533 www.mahatmagandhi.com.br 


quarta-feira, 25 de maio de 2011

ELA SE FOI......


Minha amiga era sábia. Se chamava Soufia...não era por acaso esse nome.
De fato ela era uma deusa... alguém que emanava uma energia muito especial.
Ela sabia brincar na dor.
Ela sabia amar com simplicidade.
Ela sorria com delicadeza. Sua voz era doce e querida.
Minha amiga foi muito amada e amou muito.
Teve três filhos lindos..e se dedicou à sua família.
Ele teve um só amor..e o amou muito por toda a vida.
Acho realmente que ela viveu pouco. Pessoas como ela deviam viver muito, muito mais.
O mundo perdeu Vera Soufia. O mundo nem sabia dela..., mas a perdeu.
Conheci essa amiga em momento de dor, mas rimos juntas...
Falávamos besteira e ríamos. Falávamos coisas sérias e chorávamos.
Minha amiga sabia que estava partindo...ela lutou bravamente contra o câncer por muitos anos...,
mas ela sabia que essa luta estava chegando ao fim e que ela ia descansar.
Na nossa última conversa falamos sobre a morte. Filosofamos.
Nunca tive muito medo de morrer...sempre tive medo de viver pouco ou de sofrer em vão.
Ela sentia que seu sofrimento estava acabando..e que já havia entendido o significado da sua vida.
Ela me disse que sua missão era ser esposa e mãe. Ela foi. Certamente muito especial.
Uma pessoa que cumpriu sua missão com beleza e com brilho.
Tenho certeza que Sagi, seu amor, e seus três filhos lindos, sentirão muito a falta dela.
...e essa falta não vai acabar...essa saudade não vai passar nunca..
Tenho certeza que seus pais não mereciam passar por isso pela segunda vez...perder a segunda filha para essa doença louca é impensável para qualquer ser humano.
Mas também tenho certeza de que minha amiga, onde estiver, está em paz.
Ela era sábia.
Ela já era luz.
Agora é pura luz e nos ilumina.
Obrigada Verinha por sua amizade....
chorando me despeço...mas não a esquecerei....

Ludmila Rohr

P.S. Desculpe Sagi, mas ela teve dois amores. Voce, claro, mas ela também amava Bono Vox do U2. Essa é pra voce amiga querida! 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"SER FELIZ É UMA RESPONSABILIDADE MUITO GRANDE..."

 Essa é uma frase da incrível Clarice Lispector. Na verdade ela ainda completa e diz que : "Poucos tem coragem". 

Concordo. Parece uma ironia, já que o que mais se fala, e se busca é a felicidade. As pessoas gastam dinheiro com livros e mais livros de auto-ajuda em busca da felicidade. Fazem cursos de meditação, fazem psicoterapia e muitas outras coisas, em busca da felicidade. 

Cientistas pesquisam os hormônios relacionados a felicidade. Tentam criar medicamentos que ofereçam algum prazer as pessoas. Palestrantes ganham dinheiro ensinando as fórmulas da tão sonhada felicidade. 

É comum a associação de felicidade com beleza, riqueza, saúde, magreza, sucesso, casamento, filhos...etc.. Mas existem pessoas ricas e bem sucedidas, lindas, magras, saudáveis, casadas, com filhos e ainda assim, infelizes. Elas nos ajudam a desconstruir  essa crença.

As pessoas costumam reagir com estranhamento diante da notícia de que um famoso, ou um lindo que comete o suicídio, ou está deprimido, ou com Síndrome do pânico. Dizem: mas como pode? ele é tão lindo! ou , como pode uma pessoa rica e linda ser infeliz

Por outro lado também é comum nas falas prontas que afirmam que felicidade é incondicional. Que ser feliz é uma condição interna. Que as pessoas felizes são as desapegadas, ou as que não guardam mágoas, ou aquelas que tem uma capacidade de se renovar, a famosa resiliência. Que pra ser feliz nada é preciso, basta amar. 

Bom...acho que tudo isso deve ser verdade. Acho também que é muito complicado falar sobre Felicidade devido a simplicidade que isso exige.

Invariavelmente, no consultório, as pessoas me procuravam por que não estavam felizes. Reclamavam dos casamentos, dos empregos, das profissões, do país, da condição financeira...e por aí vai. Queixas de infelicidade justificada de várias formas. Percebia também que as pessoas que mais rapidamente começavam a fazer contato com a tal felicidade, eram aquelas que mais coragem e disposição tinham para mudar.

Aquelas que se apegavam às queixas ou que culpavam o outro por sua infelicidade, eram as que mais dificuldade tinham. Parecia que tinham um "gozo" na queixa. Sempre que eu oferecia alguma alternativa por via de perguntas, que pudessem levá-las a algum lugar diferente, elas respondiam que já haviam tentado, ou que eu não havia compreendido a dimensão do problema delas, ou que aquilo não ia funcionar. Facilmente a culpa era minha, como terapeuta de não haver entendido bem a questão, e escorregavam da terapia.

As pessoas que encaravam algumas mudanças, errando ou/e acertando, relatavam que se sentiam melhor, que sentiam-se mais fortes, mais animadas, mais encorajadas. Elas, pelo simples fato de fazerem algum movimento em suas vidas, sentiam-se mais felizes. Parece que o ato de "tomar as rédeas" da própria vida e serem agentes transformadores, trazia essa sensação.

Por isso tenho que concordar com Clarice, quando ela diz que nem todos tem coragem, por que é realmente preciso de coragem para ser feliz. É preciso coragem para assumir a responsabilidade pelas mudanças necessárias. É preciso coragem para deixar as queixas de lado e fazer o que deve ser feito. É preciso coragem para abrir mão das fantasias de completude, e ser feliz com o que se é. Deixar o "leite derramado" pra trás e ser feliz apesar das faltas, apesar das dores.

Quando perguntado sobre o que era Felicidade, o Dalai Lama responde: "Que morram os avós, os pais e os filhos. Nessa ordem". Isso é felicidade, que a vida corra seu percurso natural. Simples assim.


Ludmila Rohr

segunda-feira, 9 de maio de 2011

OTIMISMO x PESSIMISMO

Infelizmente não sou otimista.
Definitivamente não sou. Até gostaria de ser, mas não consigo. Tenho uma tendência desde que lembro de mim, a ser realista demais, para suportar a parcialidade dos otimistas e dos pessimistas. 

Era uma velha quando criança. Lembro de mim, preocupada com as coisas que a maioria das crianças nem se importavam. Na adolescência idem, acho que até fui meio "dark", não conseguia ser uma adolescente típica, era "profunda" demais pra minha idade. 

Acho que a maturidade até que me fez mais leve, e um pouco mais otimista que fui a vida toda. Quando criança, lembro de ter lido um livro chamado "Polyanna" e ter odiado. Odiava a "brincadeira do contente" da personagem principal que eu qualificava de toda sorte de descrições indelicadas. Achava que era a própria imbecilidade lidar com a vida como Polyanna, que eu julgava ser uma pessoa sem força e sem coragem para ver a realidade.

Preciso esclarecer que estou escrevendo sobre isso, porque uma pessoa que me segue no twitter e que é sempre tão educada e delicada, me perguntou sobre o que eu faço quando estou tomada pelo pessimismo.  Estava esperando a inspiração chegar para escrever o post dessa semana, quando essa pergunta chegou. Decidi na mesma hora que esse seria o tema dessa semana. Minha resposta para ela foi que eu escreveria aqui, já que no twitter, o limite de 140 caracteres me impediria de falar como eu gostaria sobre esse tema.

Antes que os apressados me julguem pelo começo do post, quero deixar claro que também não sou uma pessoa pessimista. Não lembro de mim sendo pessimista em nada na minha vida. Achando que as coisas vão dar errado ou com algum sentimento de desistência ou derrotismo. Muito pelo contrário. Sou muito construtiva e pró-ativa, e acho que se depender de mim, posso qualquer coisa.

Sempre me recusei a ter uma visão parcial das coisas, embora tenha a convicção de que estou muito longe de uma visão plena que os Budhas alcançam (confesso que essa é a minha meta). Mas, tentei por toda minha vida ampliar o máximo que pude a minha perspectiva das coisas, tentando incluir as mais variadas possibilidades e nuances de cores possíveis acho que até mesmo para ter menos chance de ser surpreendida (coisas de capricorniano), talvez até como uma defesa. 

Percebi isso claramente quando estava grávida do meu primeiro filho e por não saber o sexo do bebê as pessoas me diziam no maior amor: "Tudo bem ser menino ou menina, contanto que venha com saúde!". Eu ouvi essa frase algumas vezes até estourar num não muito educado: "E se não vier com saúde, devo jogar fora?" Para mim, estar gerando um bebê incluía qualquer possibilidade, inclusive aquela que as pessoas não querem nem pensar, como se evitando pensar nela, as fosse proteger de algo.

Quando meu marido teve câncer, a possibilidade da morte sempre existiu na minha mente. Por pior e mais sofrido que isso fosse, sabia que isso era uma possibilidade. Sempre dizia pra quem perguntasse por ele, que ele estava fazendo o melhor que podia, e era verdade, e que o resultado não nos pertencia. A nossa parte era fazer o melhor. E fizemos, porque em nenhum momento deixamos de pensar que a cura fosse uma possibilidade concreta também.

Ser OTIMISTA pra mim é aquele que só vê o lado bom das coisas, as boas possibilidades, sem pensar que aquilo que ele julga ser bom, de repente nem é bom de fato. A minha questão é: Como é possível ter certeza de que aquilo é realmente uma coisa boa? 

O inverso é verdadeiro também. Ser PESSIMISTA é pensar que só as coisas ruins podem acontecer. É sempre pensar no pior, ou que as coisas não darão certo. Assim como o otimista, o pessimista é tendencioso, vê apenas um lado. Julga as coisas pelas aparências ou pela sensação agradável ou desagradável que elas possuem. Um julgamento simplista. É agradável, então é bom; é desagradável, significa que é ruim. Sabemos que as coisas não são simples assim. Muitas coisas dolorosas e desagradáveis se revelam extremamente positivas e construtivas em nossas vidas, não é mesmo? Da mesma forma, muitas coisas deliciosas, se revelam entraves importantes no nosso crescimento.

Acho que as coisas são como são, e a grande diferença é o nosso olhar sobre elas. Normalmente não questiono as coisas, mas questiono a mim mesma. O que tenho feito com elas? Qual a minha parte nessa história? 

Mas....pensando bem....podemos fazer uma confusão entre PESSIMISMO e INTUIÇÃO. Todas as  vezes que me senti mal em relação a alguma coisa que estava prestes a fazer, ou mesmo algo que estava para acontecer, e me julguei sendo pessimista, depois descobri que havia tido uma intuição. Algo me avisando que não devia ir por aquele caminho. Algo dentro de mim sabia que aquilo não ia dar como eu desejava. Nem posso dizer que minha intuição me dizia que esse algo não ia dar certo, porque eu estaria me contradizendo. Acho que minha intuição apenas me dizia que eu estava a desejar algo que não aconteceria, ou que aquilo que não sairia como eu estava planejando. 

Acho que a nossa INTUIÇÃO é realmente nosso sexto sentido. Ela "vê", "sente" ou "prevê" aquilo que nossos olhos não querem ver, ou aquilo que nossos desejos impedem que nossa razão conclua. Toda vez que neguei minha intuição, percebi depois que errei. Devia ter dado atenção a ela. 

Sendo REALISTA, acho que para morrer basta estar vivo. Sendo realista, acho que existe chance de algo dar errado, isso pode acontecer. Sendo realista, não consigo deixar de pensar que tudo é possível. Inclusive aquilo que aparentemente é impossível. Sendo realista acho que as coisas mais improváveis são possíveis, e as mais deliciosas também. 

Sempre quis uma vida inteira e nada pela metade. Não posso querer ver uma parte das coisas. Não posso escolher apenas aquilo que satisfaz meu ego ou minha vaidade.

Sendo REALISTA acho que "NADA é impossível e TUDO é possível".
Gosto de viver assim.

Ludmila Rohr



segunda-feira, 2 de maio de 2011

SOMBRA PODEROSA

Broadway- NY


Esse último fim de semana, tive o imenso prazer de assistir pela segunda vez "O Fantasma da Ópera, na Broadway, em NY. Pensava que algo do encanto que tive na primeira vez que vi, pudesse se perder, mas tive uma agradável surpresa ao me dar conta de que estava completamente enganada.

A história contada nessa ópera é  uma história de amor. Uma história de rendição à sombra. Uma história de conexão com o poder que emerge a partir dessa rendição.

Quem nunca se sentiu atraído pelos aspectos sombrios da vida? Quem nunca se sentiu excitado por aquilo que é proibido ou que faz parte do lado sombrio da vida ou das pessoas? Triste daqueles que não mergulham em suas próprias sombras e se contentam apenas com o que o seu ego revela de si mesmo. Segundo Jung, pessoas assim,  abrem mão de conteúdos preciosos, segundo ele, "ouro puro".

 Penso que essas pessoas provavelmente tem vidas pobres e rasas. Penso que as pessoas que constroem uma parede rígida entre o bem e o mal, entre o frio e o quente, entre o negativo e o positivo, entre o que é de "Deus" e o que é do "Diabo", devem ter uma vida muito pobre e sem complexidades.

Penso que pessoas assim, são as que mais julgam o outro e também, são as que mais são duras e inflexíveis em seus julgamentos. Pessoas assim provavelmente tem problemas com o prazer e com o desejo. Pessoas assim, provavelmente estão distantes da compaixão e da bondade. Pessoas assim provavelmente jogariam pedras em Maria Madalena por amor a Maria. Pessoas assim, provavelmente acreditam em pecados.

A "sombra", sob o olhar da psicologia desenvolvida por Jung, é um aspecto do nosso inconsciente que guarda os conteúdos negados ou reprimidos. Conteúdos que nossa "persona" não consegue, por muitas razões, lidar conscientemente. Aquilo que a persona julga não sermos nós mesmos, é a nossa sombra. Seria algo como o "negativo" de nós mesmos, aquilo que é capturado pelo filtro do ego, da cultura e da educação e não podem vir a tona. 

Comumente vemos nossa "sombra" nos outros. É bem conveniente assim. Vemos, julgamos e acusamos as outras pessoas por revelarem aspectos da nossa sombra. Não queremos que ela seja revelada, por isso, qualquer pessoa que tenha comportamento ou características que negamos em nós mesmos, nos irrita profundamente, e quanto mais inconsciente formos da nossa "sombra" mais irritados e até mesmo irados, ficaremos. Muitas vezes buscamos ajuda na terapia para conhecer mais da nossa sombra. Um bom processo terapêutico nos ajuda a encontrar coragem e mergulhar na nossa alma e reconhecer em nós mesmos, e não nos outros, o que negamos e reprimimos.

A sombra deixa de ser sombra quando a conhecemos. Essas energias se transformam em poder. Quanto mais conscientes estivermos de nós mesmos, menos conteúdos teremos na sombra, mais expandida será a nossa consciência, mais inteiros estaremos. Quanto mais distantes nossa "persona" estiver do nosso "self", mais fracos e frágeis seremos. A força vem da nossa inteireza. A nossa força e nossa poder vem de nos aceitarmos e entendermos como um ser inteiro, com aspectos que gostamos e outros nem tanto. 

O "fantasma" da ópera é sedutor, apaixonado, intenso. Nenhuma pessoa consegue assistir a essa ópera sem se apaixonar por ele. Impossível não ficar excitado ao assistir Christine, como uma linda "Perséfone" ocidental, sendo levada aos porões nebulosos do inconsciente pelo fantasma apaixonado.

O mocinho da história, não tem a metade do charme e poder que o fantasma tem. Apesar de "Christine" escolher o mocinho, o seu poder vem da sombra. Quando ela se rende, se entrega ao poder que a sombra lhe oferece, ela se transforma na cantora que é, na mulher que é. Antes disso, ela é apenas uma figurante na vida. Assim como na mitologia grega, "Coré" se transforma na deusa "Perséfone" ao se render ao amor de "Hades", o Deus do mundo Avernal.

O fim da peça nos mostra que a sombra nunca morre. Não conseguiremos capturá-la. Não temos o poder de negá-la ou aprisioná-la. A única atitude funcional em relação a sombra, é abraçá-la. Quando "Christine" a abraça, quando a mocinha reconhece o poder da sombra, ela se desfaz. Ela não desaparece, ela simplesmente perde a forma e o poder sobre Christine e ela pode seguir o caminho que escolheu. 

Somos prisioneiros da sombra enquanto a negamos, somos prisioneiros do nosso inconsciente e dos conteúdos reprimidos, enquanto fugimos dele. No momento que nos dedicamos a olhar de forma amorosa para nossa "sombra" nos libertamos e assimilamos poder e energia que lá estava represada.

No fim da Ópera, vemos que é impossível capturar e submeter a "sombra". Não existe poder nenhum que consiga isso. A única coisa construtiva que podemos fazer com nossa sombra é lançar um olhar amoroso sobre ela e  transformar seu conteúdo inconsciente em consciente.

As perguntas que lanço são: Quais os conteúdos da sua sombra? Como ela se parece? Que partes suas estão encerradas em um porão escuro? Que partes negadas podem e devem ser abraçadas para que voce se sinta cada vez mais inteiro?

Bom...o mocinho é lindo, mas o Fantasma é quente. O mocinho é bom, mas o fantasma é intenso. Que tal unirmos esses aspectos em uma só pessoa?

e.....que tal se essa pessoa formos nós mesmos?

Ludmila Rohr

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A PALAVRA MÁGICA

 Tenho um problema com rótulos.

Percebo o quanto as pessoas adoram um diagnóstico, um parecer, uma definição. Querem uma palavra que diga tudo. Querem um adjetivo que sintetize. Buscam o tempo todo, conscientemente ou incosncientemente, uma definição que esclareça, que as ajude a compreender as pessoas, as situações e as coisas, mesmo que para isso, tenham que limitar suas percepções.

Talvez isso se deva ao medo da complexidade. Talvez.

Nessa tentativa de evitar a complexidade das pessoas e das situações, que possuem infinitas nuances, acabam por criar avaliações muito simplistas. Avaliações maniqueístas e infantis, e acreditam nelas.

No mundo infantil aprendemos a categorizar as coisas entre bem e mal, feio e bonito, bom e ruim. Simples assim. A criança tem esse pensamento linear e simplista. Entretanto continuar na vida adulta a ver a vida desse jeito me parece algo alienante. As coisas não são duais, as coisas e pessoas, são multifacetadas...elas possuem tantas nuances e tantas características que somos obrigados a desenvolver um raciocínio mais complexo.

O fato é: SOMOS PLURAIS, não caberíamos em rótulos. Somos COMPLEXOS, uma palavra não seria suficiente definir alguém.

O interessante é que os rótulos mais aprisionantes são os bonitinhos. Quando alguém te faz um elogio, te diz algo que alimenta o seu ego e vaidade, na mesma hora voce pode se deparar com a armadilha que caiu. Está presa, por que é difícil escapar de um rótulo que mexe com sua vaidade.

Percebia que toda vez que alguém me elogiava ou falava algo ao agradável a meu respeito, como uma definição do que eu era, me sentia aprisionada em um rótulo. Sentia que havia entrado e uma prisão. Dali pra frente teria que ser uma pessoa "sempre calma" diante daquelas pessoas que me definiram como alguém "tão calma". Teria que ser vegetariana, budista, cristã, ateísta, esquerdista, alegre, profunda, paciente...ou "whatever"...

Meu nome "Ludmila" significa "amada pelo povo", isso por si só, é um rótulo terrível. Adoro meu nome, mas quando procurei os nomes dos meus filhos, queria algo simples e que tivesse uma sonoridade gostosa, que não trouxesse em si um significado que já definisse as pessoas que eles seriam. Queria que eles pudessem se construir com mais liberdade.

Passei alguns anos da minha adolescência brigando com o significado do meu nome. Nem tentava ser simpática, quanto mais ser amada. Engraçado lembrar disso.

Brigar contra uma definição ou abraça-la dá no mesmo. Aceitar uma definição é me reconhecer nela. Não aceitá-la é buscar o seu oposto, não é mesmo? Resultado: Prisão do mesmo jeito.

Um dia, aprendi uma palavra que me libertou dessa briga que eu nem conseguia definir bem. Ainda bem que a aprendi cedo. Talvez até mesmo por causa de uma visão anárquica e tântrica diante da vida, que me ensinou a abrir, expandir e aceitar, mais do que fechar, concluir e rejeitar. Algo mais ou menos como "Caetanear" (expressão criada para definir a indefinível Caetano Veloso, cantor baiano)

Ensino essa palavra a todas as pessoas que conheço e aos meus clientes. A palavra que liberta e abre possibilidades para que voce seja quem voce quiser ser, sem se sentir preso a nada  é: TAMBÉM.

Quando alguém me diz: "Voce é calma", respondo: "Também". "Voce é tão profunda", também sou. Voce é budista? a resposta é : Também. Vocé é psicóloga? Além de outras coisas, também sou.

O TAMBÉM me libertou para ser TUDO, ou NADA, ou QUALQUER coisa.

Dentro de uma paleta infinita de nuances de cores, minha alma pode também ser rosa e verde ao mesmo tempo. Posso ser clássica e casual. Posso ser leve e profunda. Posso ser rasa e intensa. Posso ser branca ou preta, posso ser alegre ou triste. Posso ser devassa e pura; boba e esperta...braba e mansa....luz e sombra. Sou plural...sou complexa....cabe em mim muito mais que eu mesma conheço. Cabe em mim muito mais que qualquer um possa imaginar...

Acreditem... "TAMBÉM" é uma palavra mágica...

Ludmila Rohr

P.S. Leiam ao post "Por trás de mim" nesse blog.
http://mulheremcrescimento.blogspot.com/2009/05/por-tras-de-mim.html