Nascido no Rio de Janeiro em 1962, o baiano era carioca. E assim começa uma história cheia de brilho e sombra, do meu irmão. Assim começa a história de Vladimir, filho de Jacira e Jair , primos de primeiro grau, vindos de Manaus e Belém.
Primeiro filho, mais que desejado e amado. Não foi filho único por muito tempo, porque eu, sua irmã, nasci 1 ano depois em dezembro de 63, quando nossa família já morava em Salvador.
Nosso pai era membro de Partido Comunista Brasileiro, o extinto PCB, e fundador do maior sindicato dos petroquímicos da Bahia. Tempos difíceis para ser comunista. Em março de 64 acontece o golpe militar, nosso pai foi preso dentro de casa, deixando nossa mãe com um garoto de um pouco mais de um ano, e uma bebê de 3 mêses. Os nomes russos dos filhos (Vladimir e Ludmila) eram uma prova contra ele, além de livros, panfletos e sua história de sindicalista. Obviamente não tenho lembranças dessa época, mas ela reverberou em toda a nossa vida. Passamos por situação de muito aperto financeiro, minha mãe teve que contar com ajuda de vizinhos, já que nem família eles tinham na Bahia.
Dessa época, apenas sei histórias que nos contaram, mas as lembranças com Vlad são bem presentes. Sempre que penso em mim enquanto criança, lá está Vlad, ao meu lado. Não tenho nenhuma lembrança de um dia sequer da minha infância em que não o sentisse como meu protetor. Ele desde muito pequeno, assumiu o cuidado para comigo. Eu era sua irmã pequena, ele cuidava de mim, e me protegia. Ao contrário dele, sempre muito confiante e extrovertido, eu fui uma criança tímida, e medrosa, tê-lo perto de mim era a única forma de me sentir confiante.
Íamos a pé para a escola, de mãos dadas. Íamos para a praia sozinhos, de mãos dadas. Ele era meu protetor em tudo. Anos depois, após muita terapia, descubro que vivi com ele o arquétipo de "Joãozinho e Maria", éramos nós dois e a floresta escura. Eu assustada, e ele tentando não estar, porque tinha que me proteger.
Dormíamos em beliche, ele embaixo, eu em cima. Eu tinha medo de escuro, tinha insônia desde criança, eu chorava sozinha, e ele dizia: "Lu, você está chorando? Não chore, eu estou aqui." Eu passava a noite chamando por ele, e ele dizendo "vai dormir, Lu".
Na escola, ele era o meu protetor. Nada, nem ninguém iria me fazer algum mal, por que eu era a irmã de Vlad. Todos o conheciam e admiravam. Vlad era brilhante. Aquele estudante que todos queriam ser. Ele era suspenso por mal comportamento, e constantemente aprontava alguma arte, mas suas notas eram completamente monótonas, sempre 10. Ser o cara que apronta e ainda tirar 10, era o máximo.
Ele era popular, conhecido, famoso. Fazíamos natação no mesmo clube, e lá ele também conseguia ser alguém que se destacava. Nunca o achei competitivo, talvez por isso ele não fosse um atleta de ponta, mas era um nadador com estilo, um jogador de futebol e um surfista que sabia se divertir.
Na Bahia era comum na época, termos a famosa "mãe preta", resquícios da escravidão. Candinha a nossa mãe preta, tinha um filho que morava conosco que se chamava Roque, e que era da idade de Vlad, e os dois juntos aprontavam horrores. Quando os vizinhos vinham reclamar de algo, Candinha batia em Roque, a gente não apanhava, mas Roque sim. Lembro de que eu e Vlad ficávamos na porta do quarto dele, implorando pra que Candinha não batesse nele, Vlad assumia toda a culpa no apronte pra livrar a cara de Roque, chorávamos juntos ouvindo Roque apanhar.
Vlad sempre foi uma criança brilhante, diferente, forte, corajoso, meu protetor, e protetor de todos.
Na festa da Primavera da escola, eu era a flor, ele era o jardineiro que me regava. Não conseguia ser par de ninguém nas festas de São João, acho que pela minha timidez, deixavam que ele fosse meu par sempre, apesar dele ser de uma classe acima da minha.
Não tenho uma lembrança sequer ruim dessa época das nossas vidas. Nossas brigas começaram na adolescência, que contarei depois, mas nossa infância, ele é o que existiu de melhor pra mim. Eu realmente me sentia como Mariazinha perdida na floresta e sem chance alguma de sobreviver, sem o meu Joãozinho.
Pra encerrar esse primeiro post sobre minha vida com Vlad, quero contar a mesma história que contei no seu funeral pra que vocês entendam bem como ele era. "Morávamos em um apartamento bem humilde, no andar térreo, que era voltado pra rua. Não era incomum alguém bater na nossa porta pedindo comida ou esmola. Um dia, estávamos eu e ele na cozinha, eu estava esquentando uma sopa para mim, e ele batendo uma vitamina no liquidificador, quando bateram na porta; eu atendi; era um menino de rua pedindo comida; eu disse que não tínhamos nada e fui fechando a porta aborrecida; ele vendo aquilo, me interrompeu e disse: temos sim! e deu o liquidificador inteiro para o menino, que bebeu a vitamina com tanto desespero que escorreu pelo pescoço. Eu, fiquei envergonhada da minha pequenez, Vlad acalmava o menino para que ele conseguisse beber tudo, mas sem necessidade de pressa. Nunca me senti tão mal...a grandeza dele aparecia para os desconhecidos, e eu não conseguia ser nem sombra do que ele era.
continua....