segunda-feira, 30 de maio de 2016

O VLAD QUE EU CONHECI - A QUASE MORTE (parte três)


As novas gerações nunca saberão como eram tensos os dias que antecediam a divulgação do resultado do vestibular. Naquela época, passar na Federal era o que importava, não existiam tantas universidades como hoje existem. Passar no vestibular era um acontecimento importante, e o dia que o resultado ia sair, ninguém saía de casa, ninguém desgrudava do rádio, os locutores oficiais iriam ler em ordem alfabética os nomes dos futuros universitários, e começando pela área 1, até a área 5. Claro que depois dos resultados anunciados, o carnaval começava em Salvador, cidade em que morávamos. 

No ano de 1981, eu esperava pelo resultado do meu vestibular. Vlad já havia passado um ano antes, e cursava com sucesso, Economia. Eu havia passado o ano meditando e praticando yoga, confesso que não esperava nada e confiava na Lei do Karma, como uma bicho-grilo perfeita, achava que os caminhos já estavam traçados e os mestres sabiam o que era melhor para mim. Muito engraçado pensar nisso depois de 34 anos, mas era assim mesmo.

Passei no vestibular. Ouvimos meu nome no radio, assim como ouvimos um ano antes, o de Vlad. Os Deuses Brahmam, Vishnu e Shiva devem ter me ajudado. Fui para meu retiro espiritual fazer meditações e entoar mantras de agradecimento. Vlad foi para a Barra, bairro onde as festas e comemorações aconteciam.

Toda Salvador jovem estava lá. Como Vlad conhecia quase a cidade inteira, ele estava comemorando a vitória de centenas de amigos, e provavelmente minha também. Mas a alegria para ele, e para a maioria que estava ali naquele ano, acabou de repente. Dois carros que faziam "pega" (racha), percorreram a avenida em frente a Praia da Barra, de forma violenta, e um deles atropelou Vladimir, que foi atirado pra tão longe que os amigos tiveram dificuldade de encontra-lo.

Muita gente perseguiu o motorista criminoso, foi um momento de extrema tensão em Salvador. Muitos jovens tentavam salvar Vlad, que havia sumido com o impacto e que mais tarde foi achado debaixo de um carro há uns 20 metros de distância de onde havia sido atingido. 

Terror, revolta, consternação, sangue, sangue, muito sangue.....

Muito difícil para todos que ali estavam acreditar que aquilo estivesse acontecendo.

Vladimir foi levado para o Hospital Português, foi internado na UTI com traumatismo craniano, fratura nos braços e pernas, e com o rosto desfigurado.

Nunca imaginei ver meu irmão assim, mas ver meu pai urrando pelos corredores do hospital, foi pior ainda. Os médicos não conseguiam garantir que ele sairia vivo; se saísse vivo, não conseguiam nos dizer quais os prejuízos que ele teria. Falaria outra vez? Andaria? Quais as consequências do traumatismo craniano? Ninguém sabia. Ele acordaria do coma? Lembraria de algo? A medicina daquela época não tinha muitas respostas.

Salvador parou. Todos os jovens que andavam pela Barra, conheciam Vlad. A porta do hospital virou um verdadeiro ponto de encontro. As pessoas iam pra lá, e lá ficavam. Luto na cidade. Era muito triste tudo aquilo .....

..... mas assim como na morte, o tempo leva o glamour de tudo.....o choque e o horror dos amigos, dos colegas e dos conhecidos, transforma-se em um dia-a-dia penoso e sofrido... a vida continuava para todos, menos para ele que perdeu uma parte importante de sua vida, no auge da juventude, da beleza e do sucesso, lá estava ele numa cadeira de rodas, sem falar direito, e com toda a vida na tecla "pause".  Ele, apenas ele perdeu um ano de vida.... talvez o mais importante. Vlad tinha 19 anos e estava em recuperação de um acidente grave que o deixou em coma e com sequelas para toda a vida.

Vlad levou meses pra se recuperar, muletas foram suas companheiras na recuperação, muitas cirurgias nos joelhos (que nunca foram os mesmos), braço, rosto, aprender a falar e a andar de novo, voltar a vida......ele foi retirado por um ano inteiro do ápice de sua vida. Um sofrimento que nem podemos imaginar. Ele foi sequestrado pelo destino, mantido em um quarto, em uma cadeira de rodas.....perdeu um ano, perdeu a identidade, a faculdade, perdeu namorada, amigos, tempo.....

Mas ele voltou. Um ano depois lá estava ele....seguindo....mais leonino que nunca.

Um detalhe de toda essa tragédia ficou para mim, quando ele saiu do coma, ainda na UTI, os médicos diziam que ele estava em semi-coma, uma pessoa por dia podia vê-lo na UTI, naquele dia eu entrei para ..... ele completamente desfigurado (nunca esquecerei sua imagem), olhou pra mim e disse: 

- "Lu, eu vi Buda." Eu chorei.

Como irmã penso que, depois desse acidente que quase o matou, e o retirou da vida por um ano, ele nunca mais foi o mesmo.

Mas como uma Fênix, ele voltou.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O VLAD QUE EU CONHECI - O HERÓI E SUA SOMBRA (parte dois)


A adolescência começa a chegar para nós dois. Já temos mais duas irmãs. Nosso pai completamente envolvido com o sindicato, nossa mãe trabalhando em três turnos. Éramos uma família confusa. Não tínhamos dinheiro, vivíamos no mesmo pequeno apartamento, só que agora com mais duas irmãs, com idades tão distantes uma da outra, que adolescíamos, enquanto uma brincava e a outra era bebê. 

Tudo fica muito sombrio nessa época, nas nossas vidas. Meu pai absolutamente estressado com o sindicato, nossa mãe trabalhando em três empregos, nos virávamos não sei como. Foi então que a nossa relação fica muito, mas muito distante. Eu era aquela que tentava fazer tudo certo, que tentava não dar problemas, a chata. Vlad era individualista ao extremo. A socialização e a sexualização próprias da adolescência separou os dois irmãos. Eu o achava egocêntrico, egoísta, individualista... nos agredíamos mutuamente. Ele envolve-se com drogas, eu com yoga e meditação. Os dois buscam saídas.... fugas, sublimações....caminhos alternativos...a realidade era demais.




Eu tinha minhas amigas, ele tinha os amigos dele. Claro que ele tinha muito mais amigos, ele era popular, e carismático. Confesso que eu sentia ciúmes dele. Continuava a ser a "irmã de Vlad", e isso que antes me confortava, agora me enlouquecia. Brigávamos por tudo. Não tínhamos privacidade, não tínhamos espaços individuais, não tínhamos um bordo que nos amparasse nesse momento de conflito. Nossos pais não tinham olhos para o quão bélicos estávamos. Os conflitos foram sendo diários e desgastantes, mas vejo que não houve qualquer interferência para nos ajudar na época. Meu irmão da infância, já não existia. Sentia uma tristeza disfarçada pela raiva.


Mas desse fase das nossas vidas quero contar algumas histórias que não devem morrer comigo, e que quem o conheceu adulto, com certeza merece saber. Nesse post, contarei uma memorável.

Estudávamos no mesmo Colégio, ele um ano na minha frente. Quando ele terminou o terceiro ano, fez vestibular para Economia na Universidade Federal da Bahia, e passou. Para mim, restava ainda um ano de escola até que eu fizesse vestibular também. Bom, preciso contar que sou de Humanas, odiava com todas as minhas forças matérias como matemática e Física. Na verdade, eu não as odiava, mas adoraria que elas fossem ensinadas em português ao invés de russo. Vlad era bom em tudo, exceto em artes. Na quarta unidade do terceiro ano, eu precisava tirar 14 em física, isso significava que eu iria direto para a recuperação se não tirasse uma boa nota nessa prova. Eu não sabia nada, mas em minha defesa, preciso lembrar-lhes que o professor dava aula em russo, pelo menos para mim era assim que parecia. 

Então, vamos para a prova. Vlad, como ex-aluno do colégio, era fiscal de provas, mas não da minha sala obviamente. Eu estava na sala, com mais uns 60 outros alunos do colégio, e olhava a prova sem entender nada, costumo não perder tempo com o que não sei, não sou daquelas que acredita em milagres, e sempre tive total consciência do que sei e do que não sei, então em 10 minutos a prova já estava quase toda marcada, e eu estava prestes a passar os "chutes" para o gabarito, quando vejo Vladimir entrar na minha sala, ele pede licença para o fiscal e troca de lugar com ele, o fiscal sai, ele caminha na minha direção, eu imediatamente começo a tremer, e com a voz retumbante dele, coloca um papel na minha mesa e diz em alto e bom tom: "ISSO É PRA VOCÊ NUNCA DIZER QUE EU NÃO TE DEI NADA!!". Chama o fiscal da sala de volta, e sai.

Era o gabarito, ele havia respondido a prova pra mim. Tirei 10, mas a sala toda também tirou, porque eu passei o crime adiante, não queria testemunhas, queria cúmplices. 

Mas claro que o crime nunca é perfeito. Alguém que estudou nos denunciou. Babaca!!! Jurei de pé junto que não sabia de nada e que isso era invenção dos maledicentes, apesar do meu 10 destoar das notas do ano todo que não chegavam a 5. Toda a sala jurou que nada houvera naquele dia. Todos inocentes. Vlad perdeu o "emprego" , mas entrou definitivamente para a história do Colégio Alfred Nobel. 

No próximo post vou contar no acidente que quase o matou e o deixou em coma com traumatismo craniano, além de parar Salvador. 

continua....

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O VLAD QUE EU CONHECI (parte um)


Nascido no Rio de Janeiro em 1962, o baiano era carioca. E assim começa uma história cheia de brilho e sombra, do meu irmão. Assim começa a história de Vladimir, filho de Jacira e Jair , primos de primeiro grau, vindos de Manaus e Belém. 

Primeiro filho, mais que desejado e amado. Não foi filho único por muito tempo, porque eu, sua irmã, nasci 1 ano depois em dezembro de 63, quando nossa família já morava em Salvador. 

Nosso pai era membro de Partido Comunista Brasileiro, o extinto PCB, e fundador do maior sindicato dos petroquímicos da Bahia. Tempos difíceis para ser comunista. Em março de 64 acontece o golpe militar, nosso pai foi preso dentro de casa, deixando nossa mãe com um garoto de um pouco mais de um ano, e uma bebê de 3 mêses. Os nomes russos dos filhos  (Vladimir e Ludmila) eram uma prova contra ele, além de livros, panfletos e sua história de sindicalista. Obviamente não tenho lembranças dessa época, mas ela reverberou em toda a nossa vida. Passamos por situação de muito aperto financeiro, minha mãe teve que contar com ajuda de vizinhos, já que nem família eles tinham na Bahia.

Dessa época, apenas sei histórias que nos contaram, mas as lembranças com Vlad são bem presentes. Sempre que penso em mim enquanto criança, lá está Vlad, ao meu lado. Não tenho nenhuma lembrança de um dia sequer da minha infância em que não o sentisse como meu protetor. Ele desde muito pequeno, assumiu o cuidado para comigo. Eu era sua irmã pequena, ele cuidava de mim, e me protegia. Ao contrário dele, sempre muito confiante e extrovertido, eu fui uma criança tímida, e medrosa, tê-lo perto de mim era a única forma de me sentir confiante. 

Íamos a pé para a escola, de mãos dadas. Íamos para a praia sozinhos, de mãos dadas. Ele era meu protetor em tudo. Anos depois, após muita terapia, descubro que vivi com ele o arquétipo de "Joãozinho e Maria", éramos nós dois e a floresta escura. Eu assustada, e ele tentando não estar, porque tinha que me proteger. 

Dormíamos em beliche, ele embaixo, eu em cima. Eu tinha medo de escuro, tinha insônia desde criança, eu chorava sozinha, e ele dizia: "Lu, você está chorando? Não chore, eu estou aqui." Eu passava a noite chamando por ele, e ele dizendo "vai dormir, Lu".

Na escola, ele era o meu protetor. Nada, nem ninguém iria me fazer algum mal, por que eu era a irmã de Vlad. Todos o conheciam e admiravam. Vlad era brilhante. Aquele estudante que todos queriam ser. Ele era suspenso por mal comportamento, e constantemente aprontava alguma arte, mas suas notas eram completamente monótonas, sempre 10. Ser o cara que apronta e ainda tirar 10, era o máximo. 

Ele era popular, conhecido, famoso. Fazíamos natação no mesmo clube, e lá ele também conseguia ser alguém que se destacava. Nunca o achei competitivo, talvez por isso ele não fosse um atleta de ponta, mas era um nadador com estilo, um jogador de futebol e um surfista que sabia se divertir. 

Na Bahia era comum na época, termos a famosa "mãe preta", resquícios da escravidão. Candinha a nossa mãe preta, tinha um filho que morava conosco que se chamava Roque, e que era da idade de Vlad, e os dois juntos aprontavam horrores. Quando os vizinhos vinham reclamar de algo, Candinha batia em Roque, a gente não apanhava, mas Roque sim. Lembro de que eu e Vlad ficávamos na porta do quarto dele, implorando pra que Candinha não batesse nele, Vlad assumia toda a culpa no apronte pra livrar a cara de Roque, chorávamos juntos ouvindo Roque apanhar. 

Vlad sempre foi uma criança brilhante, diferente, forte, corajoso, meu protetor, e protetor de todos. 

Na festa da Primavera da escola, eu era a flor, ele era o jardineiro que me regava. Não conseguia ser par de ninguém nas festas de São João, acho que pela minha timidez, deixavam que ele fosse meu par sempre, apesar dele ser de uma classe acima da minha.

Não tenho uma lembrança sequer ruim dessa época das nossas vidas. Nossas brigas começaram na adolescência, que contarei depois, mas nossa infância, ele é o que existiu de melhor pra mim. Eu realmente me sentia como Mariazinha perdida na floresta e sem chance alguma de sobreviver, sem o meu Joãozinho.

Pra encerrar esse primeiro post sobre minha vida com Vlad, quero contar a mesma história que contei no seu funeral pra que vocês entendam bem como ele era. "Morávamos em um apartamento bem humilde, no andar térreo, que era voltado pra rua. Não era incomum alguém bater na nossa porta pedindo comida ou esmola. Um dia, estávamos eu e ele na cozinha, eu estava esquentando uma sopa para mim, e ele batendo uma vitamina no liquidificador, quando bateram na porta; eu atendi; era um menino de rua pedindo comida; eu disse que não tínhamos nada e fui fechando a porta aborrecida; ele vendo aquilo, me interrompeu e disse: temos sim! e deu o liquidificador inteiro para o menino, que bebeu a vitamina com tanto desespero que escorreu pelo pescoço. Eu, fiquei envergonhada da minha pequenez, Vlad acalmava o menino para que ele conseguisse beber tudo, mas sem necessidade de pressa. Nunca me senti tão mal...a grandeza dele aparecia para os desconhecidos, e eu não conseguia ser nem sombra do que ele era. 

continua....



terça-feira, 5 de abril de 2016

ESCOLHAS - uma breve reflexão


Se você não fizer suas escolhas, farão por você. Se você não sabe o que quer, alguém vai querer por você. Ser passivo na vida é uma escolha cômoda. Escolher muitas vezes significa ir contra a maré, desagradar, romper, mas é o único caminho da liberdade, individuação e autonomia. 


O conforto de não fazer escolhas, é poder culpar alguém quando elas dão errado, a vitimização tem suas glórias. O ganho em fazer suas escolhas e tomar suas decisões, é ser adulto e livre, o que significa apropriar-se de si mesmo. 

Muitas pessoas foram educadas para não desejarem, não quererem; então elas esperam que alguém queiram por elas, que alguém escolha por elas. Abrir mão do desejo, é abrir mão de uma força poderosa, força que move a vida. Sem ela, nossa vida é movida pelo desejo dos outros....do pai, do marido, da esposa, dos filhos, dos amigos, dos colegas.... 

Saber o que se quer, o que deseja, o que não quer, e o que não deseja, é um passo importante no processo de libertação. Ser adulto tem custo, teremos que assumir o preço disso, que é desagradar, e muitas vezes encarar solidão, mas não se esqueçam que desagradar é uma certeza na vida, e a solidão também. 

Precisamos apenas encontrar paz nisso.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

ENCARAR O ESPELHO PARA SER FELIZ


Temos várias escolhas a fazer durante a nossa vida, e todas trarão consequências que teremos que encarar, querendo ou não. Podemos passar anos da nossa vida escolhendo tentar agradar os outros em detrimento de nós mesmos. Podemos também com esforço exaustivo, tentar fugir de nós mesmos, dos nossos anseios, das nossas necessidades, frustrações, medos, raivas, inseguranças .... podemos criar personagens que sob um olhar superficial, pareçam críveis, podemos até enganar a muitos, mas não a nós mesmos. Toda vez que estivermos a sós, diante do "espelho", teremos que encarar a verdade, pois ninguém pode sentir a sua dor, ninguém vai sentir o seu vazio, nem resolver os seus problemas, ninguém vai encarar os medos ou frustrações por você, nem vai ter que lidar com os seus fantasmas, cedo ou tarde você mesmo vai ter que fazer isso. Como psicóloga e como pessoa que acredita que tomar posse de si mesmo, por mais dolorosos que seja, sempre será a melhor escolha, torço para isso se dê o quanto antes, a tempo de vivermos uma vida de verdade.

Estar misturado e disfarçados em meio a multidão, ou fazendo coisas o tempo todo, pode até nos manter na ilusória distancia de nós mesmos. Podemos nos enganar por algum tempo, nos dizendo que as coisas vão bem, que temos lidado bem com as dificuldades porque vemos os dias passarem e nada de mais grave aconteceu, que temos sobrevivido apesar de tudo!

As mentiras dos personagens que criamos podem convencer muita gente, pessoas que talvez não tenham interesse sincero em saber quem nós realmente somos e o que temos passado de verdade, até mesmo porque também vivem suas mentiras, mas não conseguiremos mentir para nós mesmos por muito tempo, ou por todo o tempo ....

As máscaras perdem a eficiência principalmente naqueles dias que a alma nos pega de jeito, nos dias que as nossas verdades não aceitam tapeações e deixam nossas feridas expostas ... nesses dias, não há como fugir ...ou sucumbimos ou nos superamos, mas mentir, atuar ou fingir não é mais opção.

Olhar com honestidade para o espelho, em busca de livrar-nos das imposições externas, de expectativas externas....desfazer das máscaras, desmontar os personagens, reconhecer a diferença que existe entre a minha defesa e o aquilo que sou de verdade, é o primeiro passo para o "tomar posse de si mesmo". Apropriar-se da paz e da força que vem a partir do momento em que você descobre que não precisa fingir, que não precisa atender as expectativas externas violentando a si mesmo, é o grande ganho nisso! 

O processo terapêutico tem essa função. Servir de espelho. O terapeuta tem a função de nos ajudar a olhar esse espelho, descobrir que não há nada mais empoderador, e libertador que a verdade, ou o autoconhecimento. Não há nada mais incrível que descobrir que existe alguém de verdade, escondido atrás de personagens exaustivos, um alguém que pode amar e ser amado, que pode caminhar com as próprias pernas e ser produtivo, um alguém que pode ser feliz, feliz de verdade. 

Felicidade não é colocar, a todo custo, um sorriso eterno no rosto. Felicidade é sinônimo de libertação e de verdade.

É possível ser feliz apesar das dores e das faltas. 

É possível viver sem trair a si mesmo. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

COMO ENVELHECER BEM - ABRINDO O LEQUE


Tenho refletido muito sobre qual a melhor forma de envelhecer, mentalmente falando. As questões de saúde, atividades físicas e alimentação não serão abordadas aqui, sem querer com isso desmerecê-las, muito pelo contrário, mas apenas quero refletir como psicóloga e como mulher que já passou dos 50, que pretende caminhar de forma lúcida em direção a velhice. 

Percebo o preconceito quando o tema é tratado, as pessoas chegam a me perguntar se estou deprimida, ou com medo de envelhecer. Não estou deprimida, nem tenho medo de envelhecer. A velhice sempre me pareceu confortável e libertadora; mas tenho pânico da decrepitude mental, de me tornar uma velha congelada no tempo, presa a personagens que ficaram para trás, com defesas que perderam a utilidade, cheia de medos, desatualizada e repetindo com orgulho a mórbida frase que sempre vem acompanhada por muitas teias de aranhas: " sou do tempo que ...".  

Esse texto será o primeiro de uma série que se chamará: "Como Envelhecer Bem". Se vocês gostarem, compartilhem com outras pessoas maduras, que pretendem viver muito, e que não pretendem parar no tempo porque acreditam que a vida deve ser bem vivida, e cada fase deve ser celebrada. 

Observando pessoas depois dos 50 e que caminham para a velhice, me dei conta que os "Leques" comumente estão fechados, ou estão timidamente abertos. Chamo de "leque" os interesses, as habilidades, os conhecimentos. Pessoas chegam a essa fase da vida, fazendo bem algumas coisas, ou comumente, as mesmas coisas. Repetem com orgulho: " sempre fui assim!" , "Sempre fiz isso!", sempre isso, sempre aquilo... Nunca fiz assim! Nunca fui lá! Nunca experimentei isso! Muitos "sempres" e muitos "nuncas". Congelamento! 

Minha proposta para é: Vamos abrir esse leque?? 

Se nunca fez desse jeito, que tal experimentar fazer algo diferente? Se nunca provou aquilo, que tal provar? Que tal aprender caminhos novos? Que tal aprender coisas novas?? Que tal romper com o óbvio e fazer algo, ou de um jeito novo? 

Há quanto tempo você não aprende uma coisa nova??? Isso mesmo, APRENDER! Não se contente com o que você já sabe, aprenda algo novo!!! Estou falando de um idioma novo, que tal estudar espanhol?? Italiano??? mas pode ser também um penteado novo! Que tal mudar o seu estilo? Há quanto tempo não vai ao cinema? Lê um livro?? Que tal entrar em aulas de Dança? Aprender a costurar? Marcenaria? Pintura em madeira, louça, construir móveis, tapeçaria, cuidar de animais de rua, fazer uma faculdade??? 

Não entre no mérito da coisa em sim. Estudar crochê pra mim, teria o mesmo grau de dificuldade de cursar uma faculdade para algumas pessoas. Não interessa o que você pode incluir na sua vida, interessa é que você inclua!!! Curso de Mergulho? Aprender a cortar cabelos? Curso de Redação? Culinária, artesanato, jardinagem, moda, maquiagem, construir roteiros de viagem.... ler jornais, ler sobre culturas diferentes, estudar sobre pássaros, descobrir como criar galinhas, ou codornas, criar rosas, plantar temperos, estudar budismo, yoga, aprender a meditar....

ABRA O LEQUE!
Não faça sempre tudo igual! Aprenda algo novo a cada ano! 
Mantenha-se atualizado do mundo. Pertença a esse tempo! 

Os filhos cresceram? Ótimo!!! Agora é tempo pra você! 
Trabalhou muito e nunca teve tempo pra aprender a bordar? Agora é a hora!
Sempre quis ter um hobby, mas acha que era coisa de quem não tinha o que fazer?? Mude isso! Descubra o seu hobby, descubra o jeito de curtir a sua vida, e não infernizar a dos outros, ou viver a vida dos outros, ou esperar o tempo passar e as doenças chegarem.

Mantenha a mente aberta, flexível, capaz de aprender, de se rever, de se repensar, de duvidar de si mesmo, de abrir mãos dos "sempres" e dos "nuncas". A Mente precisa continuar a aprender, essa é a única forma de continuar jovem.







terça-feira, 1 de dezembro de 2015

SEJA HOMEM, NÃO SEJA MACHO!


As redes sociais foram inundadas pela hashtag #meuamigosecreto , e creio que todos devem estar acompanhando de alguma forma. São pequenos relatos cotidianos de machismo explícito (alguns tão introjetados que nem são reconhecidos como tal), e tão rotineiros que causam um desconforto em qualquer um que dedicar alguns minutos para os lerem, porque provavelmente se você é mulher, já passou por isso, ou se é homem, já fez isso.  

Exatamente por serem tão rotineiros, são muito incômodos. Eles não falam sobre homens que estupraram mulheres, ou sobre monstros que espancaram ou assassinaram suas esposas e namoradas; eles falam sobre os machismos pequenos do dia a dia, cometidos muitas vezes em forma de piadinhas ridículas, que desqualificam o feminino e suas características, e julgam de feminazi (alusão a algo como fenimismo+nazismo, se é que isso é possível) as mulheres que não se submetem a isso, como sendo as chatas e mau humoradas, que levam tudo a sério e não sabem brincar.

É verdade, acho que não sei brincar mesmo. Não sei brincar quando os temas são Homofobia, Machismo e Racismo, e não me desculparei por ser "a chata" que não aceita brincadeiras rídiculas sobre esses temas. Não as aceito. Entretanto acho que todos tem o direito de serem racistas, machistas, homóbicos, imbecis, idiotas, ignorantes e o que mais quiserem ser. Assim como eu tenho o direito de ser intolerante com os que são. 

#meuamigosecreto diz que tem pena do meu marido, porque não deve ser fácil ser casado com uma  feminista. 

.... pois é, em homenagem ao meu marido, que não é macho, porque é um homem inteiro e que me ama também porque sou feminista e sei do meu valor como mulher e por isso crescemos juntos; em homenagem aos meus filhos que são homens lindos e tenho certeza absoluta que jamais desqualificariam uma mulher por ela ser mulher, e que não querem uma mulher submissa em suas vidas, porque também não são machos, são homens; em homenagem a Michael, filho de uma das minhas melhores amigas, que abre o coração publicamente e diz que ama, e que faria tudo pra ter seu amor ao seu lado; em homenagem a tantos alunos, clientes e amigos que tenho certeza que estão longe da pobreza afetiva dos machões, em homenagem a todos os HOMENS QUE NÃO PRECISAM SER MACHOS, porque decidiram que querem muito mais da vida, do que as misérias e migalhas afetivas que o machismo permite. Homens que querem amar e respeitar suas companheiras e companheiros, homens que disputam igualmente e de forma justa, com mulheres em ambientes de trabalho, sem usar golpes baixos, homens que educam suas filhas pra que elas se deem valor, homens que ensinam seus filhos a respeitarem as mulheres .... 

Em homenagem a todos eles, quero criar a hashtag #souhomemnãosoumacho .

Viva os Homens!!! Abaixo os machos!!! 


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SOFIA VIAJOU PARA O NEPAL, E O MUNDO GANHOU COM ISSO


Sofia é uma linda pre-adolescente que faz parte da minha vida desde que mudei para a Korea. Ela e sua família, moravam no mesmo hotel que a gente, fomos vizinhos por dois anos lá. Vi Sofia vencer desafios impressionantes. Ela saiu do Brasil, foi estudar em uma escola americana na Ásia aos 8 anos. Isso a colocou diante de situações-problemas que a fizeram lutar e chorar muitas vezes, mas que fizeram dela uma vencedora. 

Agora Sofia mora aqui na Arábia, mas não no mesmo compound que eu, não nos vemos todos os dias como nos víamos na Korea, mas a acompanho de pertinho, e sempre que a reencontro me supreendo como ela está crescendo! Sofia definitivamente entrou no meu coração pra nunca mais sair. Quero estar na sua formatura, e em datas importantes para ela, quero acompanhar seus momentos de dor e de alegria. 

A escola americana que ela estuda na Arábia, tem um programa de viagens com atividades, e esse ano ela entrou esse programa, foi sua primeira viagem, foi a primeira vez que ela viajou sem os pais, e para um lugar tão longe e desconhecido. Sua turma da escola embarcou com uma missão de ajudar um orfanato em Kathmandu. Eles recolheram muitas coisas para doar, inclusive computadores, brinquedos e roupas. 

Quem me conhece, sabe que eu já estive três vezes em Kathmandu,  e amo o Nepal, sofri muito com o terremoto que destruiu muitos lugares que amo tanto. Sabia que Sofia não encontraria um lugar lindinho e de fácil acesso. Sabia que essa viagem seria impactante para qualquer pessoa, ainda mais para uma menina ocidental.

Claro que não foi uma viagem fácil e simples. Muitas pessoas podem até achar que Sofia merecia ir a um lugar melhor, que ter escolhido ir pra Kathmandu foi um erro, ou que ela é muito nova pra ver essas coisas. Eu discordo. Acho sim que ela vai precisar de alguns anos para entender tudo que ela viveu, ela vai elaborar essa experiência aos poucos, mas acredito piamente que devemos mostrar o mundo de verdade aos nossos filhos. Criá-los em condomínios fechados protegidos de qualquer coisa que seja um pouco diferente da sua realidade, é uma forma de alienação.

Podemos criar nossos filhos alienados, despreparados, sem força para lidar com as dificuldades, com a dor, e que paralisam diante da falta; presos em uma bolha de proteção, que facilmente se rompe quando se depara com a realidade, mas podemos escolher criar nossos filhos conscientes de que o mundo não é cor-de-rosa, que a vida não vai acha-lo especial como nós pais os achamos, que ele é mais um nesse mundo que precisa de pessoas menos egoístas e mais solidárias, mundo que precisa de pessoas que não olhem apenas para os seus problemas pessoais e possam olhar mais para o outro. 

Ensinar isso aos nossos filhos, é fortalecê-los para lidar com o mundo. Acho que Sofia vai levar algum tempo para entender o quanto essa viagem vai fazer a diferença na vida dela enquanto adulta, mas ela vai entender, e ela só tem a ganhar com isso. Certamente essa experiencia fará com que ela seja um adulto mais consciente e forte. 

Sofia ganha com isso. O mundo ganha com isso.

Te amo, minha Sofi.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

ELE PODERIA SER MEU FILHO




meus filhos com adolescentes nepaleses, em uma praça em Kathmandu

Uma das coisas que mais amo é ouvir histórias, não é a toa que sou psicóloga. Amo realmente ouvir pessoas falarem de suas vidas, das suas dores e alegrias. 

Morar fora do Brasil, e em lugares tão diferentes do mundo, me colocou em contato com pessoas e histórias que jamais esquecerei, e por serem tão lindas, acho que merecem ficar registradas. Quem sabe alguém, em algum lugar, em algum tempo distante, possa lê-las e se emocionar assim como eu me emocionei.

Aqui na Arábia Saudita não podemos dirigir, então a compania que meu marido trabalha, coloca a disposição carros com motoristas para nos atender. Esses motoristas são na sua imensa maioria, indianos e uns poucos nepaleses. Nas poucas vezes que saio sozinha com eles, aproveito para ouvir suas histórias. Pergunto sobre suas famílias, pais e mães, esposas, filhos...como fazem pra mandar dinheiro para eles e como é difícil viver num país em que eles são absolutamente  invisíveis. Eles sofrem. Sofrem preconceito, saudade e solidão. Vida muito dura, por isso sempre damos boas gorjetas e sempre que posso, ofereço uma conversa que lhes mostrem o apreço e respeito que tenho por eles.

Hoje quero contar a história de Milan, um nepalês de 25 anos, hinduísta, educadíssimo e com toda aquela energia que o Nepal exala, e que me mata de saudade (claro que contei pra ele que existe uma cantora chamada Shakira, que é famosa do lado de lá do planeta e que tem um filho chamado Milan, ele não acreditou!). Ele na verdade nasceu na Índia em Darjeeling, em um campo militar. Ele tem duas nacionalidades. (claro que contei pra ele que Hollywood fez um filme lindo que se passa em Darjeeling e que tem esse nome!!! Ele não acreditou!!).

Ele é pai de um lindo menino de 5 mêses chamado Awee, e como todo pai orgulhoso, me mostrou várias fotos de um lindo bebzinho com aquelas bochechas rosadas e olhos puxados que nos encantam no Nepal. Sua esposa é linda também, e ele está há 3 meses longe deles e de coração partido. Não consigo imaginar a dor deles. Semana passada meu motorista era um indiano que acabara de ganhar trigêmeos, e estava contando os dias para voltar pra Índia em férias para conhecer os filhos.

Mostrei fotos da minha família de férias no Nepal, e lhe contei que meu filho caçula tem a mesma idade dele. Ele não acreditou que eu conhecia e amava o seu país, e que tinha muito orgulho de ter ido lá três vêzes, e que em uma delas eu havia levado os meus filhos, na época adolescentes. 

Levar meus filhos ao Nepal e a Índia, foi um dos maiores presentes que imaginei poder dar a eles em vida, e talvez realmente tenha sido o maior de todos. Torço muito que um dia eles percebam isso.

Antes de sair do carro, mostrei a minha tatuagem do Lord Ganesha. Ele exclamou: Ganesha! Lord Ganesha! 

Milan podia ser meu filho. Eu chorei, ele prendeu o choro.

domingo, 1 de novembro de 2015

MERGULHO






O meu mergulho é pra cima, é pra dentro, e é bem fundo.
Vou até onde minha alma me permitir, vou até onde eu existir, vou.
Quando volto, volto nua, volto plena, volto leve, volto sem nada que me prenda.
Assim é o meu mergulho.

sábado, 17 de outubro de 2015

MENOPAUSA, UMA MONTANHA-RUSSA DESGOVERNADA


Estou entrando na menopausa, e pode ser estranho escrever sobre isso, e é, pelo menos para mim, mas o fato é que esse é o novo momento da minha vida, e como cada mudança vem com seus  custos e aprendizados, nessa eu ainda estou tateando para descobrir quais são os custos e quais as mudanças, mas eu já a apelidei de MONTANHA-RUSSA.

Olhando para trás, vejo que as mudanças não foram fáceis para mim, entrar na adolesciência foi o mesmo que entrar num túnel escuro e sem fim. Não lembro de nada muito alegre nessa passagem. Não foi fácil adolescer. Mudança corporal complicada, e uma sensação sem fim de que não existia um lugar que me coubesse nesse planeta. As coisas pareciam mais densas e muitas vezes pesadas demais. Não foi fácil. Muito tempo depois e com muita terapia, olho para trás e acho até que fui uma adolescente meio deprimida, pois absolutamente nada do mundo me atraia, acho que por isso mergulhei tão profundamente na meditação e no yoga. O mundo imaterial era muito mais acolhedor. A sensação de não-pertencimento desaparecia, e ali eu me sentia em paz.

Percorri minha vida adulta com desenvoltura e certo sucesso. Casei com meu amor, tive dois filhos que deram outro significado a minha existência, fiz duas faculdades, trabalhei, ganhei dinheiro com prazer e muita dedicação. Digo sempre que a vida adulta tem sido uma delícia, fui feita para ser adulta, e para tudo que diz respeito a essa fase da vida. Encontrei estabilidade material, emocional e espiritual fazendo tudo que fiz. Criei meus filhos e trabalhei, sempre me reconheci nisso,  era feliz e sabia. Sempre achei que a vida ficava melhor a cada ano que vivia, e que a idade trazia mais benefícios que o contrário. Dizia sem nenhuma dúvida que eu não trocaria a pessoa que sou hoje, por  quem fui 30 anos atrás. 

Mas eis que surge um novo momento e que leva não ao túnel escuro, mas a uma montanha-russa que me tira novamente do conhecido, que me tira do que sei de mim. Estou menopausando, e isso parece uma coisa doida. Primeiro vieram os calores, que aparentemente não mexiam muito comigo, a não ser pelas inúmeras vezes que me cubro e me descubro durante a noite, alternando calor e frio. Mas agora me pego sendo o que não sei que sou. Alterno vontade de chorar com uma raiva furiosa. Alterno uma impaciência com uma desmotivação. Alterno aspectos da minha alma que antes eu sabia controlar, mas que agora parecem carrinhos da montanha-russa descontrolados. 

Nunca havia parado pra ler sobre menopausa, a não ser pequenos artigos e reportagens. Achava que quando o meu momento chegasse, eu iria ter tempo de pesquisar sobre. Doce ilusão! Outro dia li a atriz Fernando Torres reclamando de como esse tema é tabu, que as pessoas evitam falar sobre ele, e que parece que até mesmo as mulheres evitam falar sobre menopausa. Ela reclamava dos calores e dos humores, mas foi numa conversa com uma amiga, quando ela me disse que estava "quadripolar", que me dei conta de que eu estou também! 

Por isso aqui vai um aviso e um pedido antecipado de desculpa aos que trombarem comigo por aí, "Cuidado com o carrinho desgorvernado da montanha-russa", estamos trabalhando com afinco para que o ritmo normal se reestabeleça.





quinta-feira, 23 de julho de 2015

O FILHINHO DELA ESTÁ COM CÂNCER, VAMOS AJUDAR?

 Esse post pretende ser uma campanha, por isso peço que você que está lendo, compartilhe com o máximo de pessoas que puder. Vou contar uma história de muita luta, amor e fé. Conhecer essa história talvez te ajude a perceber que precisa ser mais grato a vida!


Conheci minha amiga Rosanne, quando meu marido lutava contra o câncer, em um grupo de pacientes de câncer. Ela tinha uma história de superação e luta, havia descoberto um câncer de mama quando estava grávida do seu filho, Miguel. Aquele momento que deveria ser de amor e plenitude, passou a ser tomado também pelo medo e a ansiedade. Ela venceu o câncer, ela tinha que vencer, ela tinha um bebê que precisava da mãe; ela era mãe e precisava lutar mais que qualquer um, ela tinha que viver. Uma mãe não deixa seu filho, sem antes lutar com todas as suas forças. Ela conseguiu. Todos que conhecem a luta contra o câncer, sabem que isso não é fácil, é um raio que cai nas nossas vidas sem aviso prévio.

Quando meu marido lutava contra o câncer, eu pedia ao universo que essa doença nunca alcançasse meus filhos, sentia que não suportaria vê-los sofrendo daquele jeito. Acho que qualquer mãe pensaria o mesmo. Não queremos ver nossos filhos sofrerem, não podemos pensar na possibilidade de perdê-los, e não conseguimos imaginar a dor de uma mãe que perde seu filho. Com certeza Rosanne, assim como todas as mães que conheci e que tiveram que viver com a luta dos seus filhos contra o câncer, preferiria ter a doença no lugar dos seus filhos. Rosanne com certeza preferiria ter câncer outra vez, a ver seu filhotinho passar por isso. Com certeza minhas amigas, Ana Maria Aguiar, Valéria Silveira, Maria José Semensato, Waleska Cavalcanti e tantas outras, concordariam com ela.

Pois é, mas aquilo que pedimos a Deus que não nos aconteça, aconteceu para a minha amiga, Miguel seu filhinho que agora tem 6 anos, foi diagnosticado com Leucemia Mieloide Aguda, e terá que enfrentar uma luta dolorosa, luta que nesse momento muitas crianças encaram no nosso país, e com as dificuldades já conhecidas por todos. Pois é, o raio caíu duas vezes no mesmo lugar. 

A primeira dificuldade é que eles moram em Belém do Pará, e lá não existe tratamento eficiente para ele. Os médicos recomendaram que tentassem tratamento no INCA no Rio de Janeiro. Eles foram. Largaram tudo pra traz e foram. Largaram pra traz, casa e emprego. Foram para o Rio, sem casa e sem emprego. Como viver assim? Como enfrentar 1 ano de tratamento sem fonte de renda? Como montar uma vida em uma cidade cara como o Rio, sem trabalho? Como oferecer alimentação adequada a uma criança cheia de necessidades especiais, sem ter dinheiro? 

Quero formalmente pedir ajuda para todos que puderem ajudar. Doem 10, 50, 100, 200 Reais, o que puderem!! Eles terão 1 ano de despesas pela frente!!! ....eles precisam pagar aluguel, luz, condomínio, água, comprar alimentos, pegar taxi, medicamentos e tudo mais....

Façam isso!!! 
Além de pedir dinheiro para minha amiga, quero pedir que vocês corram e se cadastrem como Doador de Medula, você poderá salvar alguém com essa atitude!

A Conta para doação em dinheiro é:

Rosanne Silva D'Oliveira
Bradesco ag 5757-6 CC 577-0
CNPJ15.088.981/0001-48

Se você está fora do Brasil e quiser participar dessa corrente, fale comigo, eu te ajudarei a participar. Peço que voce doe mais que Amor nesse momento! 


segunda-feira, 6 de julho de 2015

FAZENDO PLANOS PARA A VELHICE


Sou capricorniana, portanto penso no futuro, faço planos. Fazer planos e construir idéias é praticamente sinônimo de ser capricorniana. Pensar é um vício para mim, penso o tempo todo e faço planos. Alguns dão errado, não eram pra ser; outros dão certo, fico feliz. Outra coisa importante é que  sou pragmática, as coisas precisam ter uma função, precisam funcionar, se não funcionam, elas perdem a importância. Costumo me desfazer das coisas que não tem função, para mim, com muita facilidade. 

Estou escrevendo esse post no meu último dia de uma estada na França. Passei 10 dias no interior da França acompanhando meu marido que veio a trabalho. Ficamos numa cidade linda, chamada Grenoble. Passeamos muito em todo nosso tempo livre. Atravessamos várias cidades dos Alpes franceses, eu e ele.

Enquanto ele trabalhava, eu andava sem rumo ... mas sempre pensando... andava de lá pra cá, e daqui pra lá . Observava as pessoas, os detalhes das janelas das casas, as flores dos jardins, as crianças brincando nos parques, os ciclistas, as pessoas pegando sol nos gramados, os pássaros que vinham beber água nas inúmeras fontes da cidade e o sol que avançava as horas e teimava em não dar espaço para a noite, que só conseguia mostrar suas estrelas depois das 10 .... 

Amei cada minuto desses dez dias aqui na França, e me peguei pensando na velhice, em como eu quero vive-la. Pois é, a França me fez pensar na velhice. Fiz isso a minha vida inteira, como disse antes, faço planos. Posso olhar pra trás e ver o quanto que construi a partir de uma intenção clara, de desejos definidos e reconhecidos, de metas traçadas. É claro que muito da nossa vida, vem do imprevisto, do impensado, daquilo que não pudemos imaginar, mas acredito que até a forma e os instrumentos internos, necessários para lidar com os imprevistos, podem ser construidos. 

Descobri muito cedo que deveríamos saber o que queremos na vida, e que deveríamos buscar os instrumentos para alcançar isso. Acredito no esforço, acredito no poder da mente. Acredito na força da vontade quando ela é focada em objetivos claros, e acredito na resiliência para se reconstruir sempre que for preciso.

Não sei se viverei até a velhice, ninguém sabe, mas comecei a pensar nela e em como quero vivê-la. Meu trabalho não depende de juventude, muito pelo contrário, ser psicóloga tem ficado cada vez melhor na minha vida, com o passar dos anos. Consigo me ver trabalhando por muitos e muitos anos mais, contudo, não quero trabalhar tanto como fiz por quase toda a minha vida, quero trabalhar menos. Quero ter tempo para as coisas prazerosas que tenho descoberto com o tempo livre que tenho tido. Quero bordar, quero pintar .... descobri que quero aprender a pintar móveis e a construi-los tb, quero fazer cursos de culinária, e receber amigos em casa. 

Tudo que quero, pra minha velhice, é extremamente possível, nada muito complicado, e penso que tenho caminhado nessa direção. Com certeza terei que me desfazer de muitas coisas que perderão a função de existir, e me conhecendo, sei que isso não será difícil. Espero viver bastante para curti-la e o suficiente para apenas curti-la. Nossos filhos já cresceram, é possível que nos deem netos, e que eles venham nos visitar, e que nós possamos ser avós acolhedores. Mas por enquanto, o que tenho sou eu e ele. 

Nós dois juntos, isso já é por si só, o suficiente. 



quarta-feira, 10 de junho de 2015

FUI ASSEDIADA E NÃO FIZ NADA


As mulheres nos países árabes tem um lugar sabidamente inferior aos homens. Essa é uma sociedade machista e patriarcal. As mulheres estão sempre sobre a tutela de algum homem. Elas pertencem aos pais enquanto crianças, e depois, quando casam, pertencem aos maridos. Essas mulheres torcem para ter filhos homens, porque assim, continuarão sendo tuteladas, protegidas por alguém por toda a vida.  No meu visto e na minha identidade árabe, consta que tenho um "sponsor", meu marido é responsável por mim aqui. 

Um dia, em um vôo,  vi um casal de irmãos brincando, o menino tomou o brinquedo da menina e bateu nela. Ela chorando olhou para a mãe que os acompanhava, que a pegou no colo consolando-a, o menino continuou satisfeito em posse do brinquedo que ele tomara. Essa é a metáfora correta para esse país. As mulheres podem até chorar quando violadas, mas só isso. Elas não tem muitos direitos, e correm o risco de virarem culpadas, quando são vítimas. O melhor é aprender a engolir o choro. 

Li sobre uma mulher que foi condenada a morte, por ter conseguido se defender de um estupro, matando o agressor. Ela foi pra forca. Vi uma mulher apanhar no meio na rua, em frente a um banco, onde o vigilante do banco olhava tudo, sem nenhuma reação. Vejo mulheres cobertas de preto todos os dias, e a justificativa para essa roupa é que serve para protegê-las!!! Protegê-las dos homens! Os mesmos homens que legislam e julgam. As mulheres são culpadas por "default". Elas são culpadas por serem mulheres. A corda sempre partirá no lado mais fraco, e aqui, o lado feminino é de longe o mais fraco.

Ontem eu fui assediada. Estava com umas amigas em uma loja de departamentos bem grande, e fui sozinha para o andar superior, que é proibido para homens desacompanhados, é o que eles chamam de "family only", homens podem entrar, desde que estejam acompanhados de sua família. A criação desses espaços visa proteger as mulheres. Subi sozinha, minhas amigas viriam em seguida, nem pensei na possibilidade de que estaria correndo algo risco. Eu estava vestida de preto como deve ser e em uma área que é destinada as mulheres e famílias. Entretanto me deparei com um homem árabe, vestido com aquelas roupas brancas, ele veio na minha direção, não me senti ameaçada com a aproximação, por isso não tive uma atitude defensiva. Ele segurou as minhas mãos, e por segundos eu fiquei paralisada e nada fiz. Ele segurou com firmeza e falou coisas em inglês e árabe, não entendia direito, mas entendi que estava sendo assediada. Tudo aconteceu em alguns segundos...tudo é muito rápido...consegui me desvencilhar e corri ao encontro das minhas amigas no andar inferior, ele me seguiu na maior tranquilidade, com a tranquilidade comum aos que sabem que nada vai acontecer a eles.

Saimos da loja. Chegamos até a brincar com o que aconteceu, mas a ficha foi caindo aos poucos. Sinto no meu corpo e na minha alma, uma dor que não é só minha, sinto uma profunda conexão com as mulheres que são vítimas de violência todos os dias no mundo. Meninas que tem seus clitóres extirpados, mulheres que sofrem violência domésticas pelo mundo afora, mulheres vítimas de estupro que são acusadas de terem buscado isso ao se vestirem de forma inapropriada.... mulheres que são desqualificadas, desrespeitadas, violadas, estupradas e que nada podem fazer. 

Eu não consegui fazer nada. Aquele homem sabia que eu não iria fazer nada. Meu corpo dói, e minha alma, mais ainda. "

"Woman is the nigger of the world", já diagnosticou John Lennon muito tempo atrás.





terça-feira, 2 de junho de 2015

ELA SEGUIU O DESEJO



Hoje quero usar o espaço do meu blog para homenagear uma amiga que faz aniversário. Primeiro preciso dizer que apesar de termos uma imensa conexão e carinho uma pela outra, nunca a encontrei pessoalmente.

Nós duas vivíamos momentos de muita dor quando nos conhecemos em um grupo virtual de pessoas que tinham parentes com câncer. Nosso encontro foi inundado em dor e  em esperança. Era um grupo  em que nossas dores, medos, inseguranças eram acolhidos e entendidos por pessoas que passavam ou já haviam passado por situação semelhante.

Fiz amigos queridos nessa época. Nós nos chamávamos de "amigas de infância", embora nunca tenhamos nos encontrado. Eu morava na Bahia, ela no RJ.  Chamávamos o câncer de "meleca de doença", e ríamos em meio a dor das perdas, e em meio as lágrimas da esperança. Ficamos amigas....amigas de infância.

Certa vez fui ao Rio para um congresso de psicologia, e ela tentou me achar no aeroporto, nos desencontramos em meio a engarrafamentos, e celulares descarregados. Não era pra ser.

Sempre a imaginei como alguém de extrema maturidade e responsabilidade. Ela é filha única e perdeu os pais para a "meleca da doença". É uma pessoa que cuidava de si mesma, e assumia suas responsabilidades sozinha, assim como as consequências das suas ações. Ela sempre alto-astral, não reclamava de nada, a não ser do latido do cachorro do vizinho que a acordava cedo nos fins de semana. Cris se bancava e era dona da vida e " do nariz" dela.

Um dia ela me disse que precisava conversar comigo, queria tomar algumas decisões, e eu não imaginava do que se tratava, mas ela adiantou que estava num dilema entre seguir o sonhos que seus pais haviam tido para a vida dela, ou seguir seus sonhos e desejos. Ela queria ouvir minha opinião.

Não entrarei em detalhes sobre seus projetos ou sobre as mudanças que ela pretendia naquela época, mas posso dizer que ela as fez!! Ela mudou! Ela foi atrás do seu desejo, da vida que ela sonhava, dos desejos que ela tinha pra si mesma. Ela fez o que a maioria das pessoas passam a vida desejando fazer. Ela fez aquilo que os outros podem achar que foi loucura, ela trouxe os desejos para o nível real e os vive agora.

Nada na vida é de graça, e não sabemos quanto tempo teremos para viver essa vida, mas o fato é que minha querida amiga de infância seguiu seu coração e arca com todas as dores e delicias de ser quem ela é.
Mas não é pra isso que estamos aqui?

Parabéns minha amiga!
Parabéns por você se responsabilizar por si mesma e seguir seu coração!
Feliz aniversário! 
da sua amiga de infância que nunca te viu, mas que sempre te amou. 


segunda-feira, 11 de maio de 2015

PRECISO DIZER QUE OS AMO....


Sabe quando você se sente aprisionada por uma situação?
Sabe quando as coisas parecem sem sentido? Nada parece se encaixar?
As pessoas e as situações parecem estranhas ... 

Como se não pertencesse aquele lugar ... ou como se não houvesse lugar pra você.
Um aspecto sombrio típico de Perséfone, tomou conta de mim esses dias. 
Os ruidos são demasiadamente altos, as vozes parecem agressivas, a pele fica fina, o coração fica exposto, a alma fica nua.... Como se todo lugar fosse inseguro e as pessoas ameaçadoras. 

Nessas horas a única coisa que penso é que existe um caminho de quietude, tem algo a ser feito, um mergulho a ser dado....é hora de recolhimento, de quietude, de buscar segurança e sentido no único lugar em que isso realmente existe, dentro de mim mesma.

As pessoas sempre me perguntam se acredito em Deus. Minha resposta não é simples, por que definitivamente não acredito no mesmo Deus que elas descrevem, com caracteristicas humanas e vingativo, também não acredito na bondade divina. Mas sim, acredito num "estado de Deus", um "lugar de Deus", ou uma "sensação de Deus". Cada vez que me tenho a sensação desconfortável de "não-pertencimento" que descrevi acima, percebo que buscar esse "lugar" dentro de mim, é a única saída possível. Um lugar de preenchimento e de pertencimento. 

Estou com muita saudade dos meus filhos, e com isso tenho muita saudade de mim mesma. O aspecto mais forte da minha identidade, é ser mãe deles. Embora hoje eles precisem pouco de mim, (sou feliz por isso), saber que sou mãe deles me faz uma pessoa melhor e mais forte. 

Posso estar assim também porque acabo de saber que duas pessoas queridas estão passando por situação de muita dor. Uma delas acaba de descobrir que o filhinho está com câncer, sendo que ela mesma descobriu que estava com câncer quando engravidou dele. A outra que tem uma filhinha pequena, descobriu que está com câncer. Sinto que essas histórias são ameaçadoras demais para mim como mãe. Acho que não tenho condição de passar por isso, ou melhor dizendo, nenhuma mãe imagina passar por isso, mas elas e outras tantas mães viveram e viverão essa dor. Tenho certeza que a primeira preferia ter câncer novamente, a ter que ver seu filhote com essa doença. Nem posso imaginar o quanto elas terão que ser corajosas e determinadas nessa luta. 

Tenho uma lembrança de sensação que me persegue desde que lembro de mim, que descreve bem esse momento. A sensação é de estar na rua, então começa a escurecer e a chover, e eu penso com angústia, que preciso voltar pra casa, que meus filhos estão me esperando...e que ao escurecer as mães precisam voltar pra casa. 

Quando penso em preenchimento, penso em maternidade. Quando penso em Deus, penso em maternidade, talvez porque seja o estado que mais se aproxima do Deus que acredito.

Bom, é assim que me sinto agora. Preciso voltar pra casa  ... preciso ver meus filhos ... preciso dizer que os amo .... preciso sentir o cheiro desse amor ...




domingo, 7 de setembro de 2014

A ESTÉTICA DA OPRESSÃO

primeira abaya

As mulheres árabes devem usar Abayas e Hijabs. As abayas são as túnicas pretas, e os hijabs são os véus. Na região em que moro, a imensa maioria das mulheres, sequer mostram seus rostos, deixando "livres" apenas seus olhos, em muitos casos cobrem até mesmo os olhos.

Para onde olhamos, podemos ver mulheres de preto. Não sabemos se são jovens ou velhas, magras ou gordas. Não temos idéia de como elas se parecem. Apesar das explicações, não consigo entender como gerações e gerações de mulheres, podem viver assim, sob esse manto negro, mas nem quero discutir isso. Sempre digo que esse é um problema que não é meu, se é que isso é um problema. 

As mulheres estrangeiras tem a permissão de não usarem os véus, entretanto não podemos sair as ruas, sem nossas "queridas" abayas. O meu primeiro impacto foi de estranheza, não me reconhecia naquilo, mas não me senti ofendida ou oprimida pela roupa, entendi que aquilo não me pertencia, e que eu estava apenas obedecendo, como convidada,  as regras da casa. Entretanto me peguei sendo irônica com aquilo que chamei de "a coisa preta".  Achei que brincar com esse tema, seria uma forma de manter a individualidade, diante da tentativa clara de extirpar da mulher qualquer direito de individuação, transformando-as em algo sem identidade ou expressividade. 

a monotonia do preto

Adoro observar pessoas, e observando as mulheres árabes pude perceber, que mesmo aquelas que tem os olhos "livres", não os usam livremente. Tentei imaginar o quanto eu olharia se os meus olhos fossem minha única conexão com o mundo externo. Pude até imaginar um personagem de um livro de Ziraldo que olharia tudo e que nada escaparia a sua observação. Imaginei que assim eu seria, se só tivesse olhos, com eles eu falaria. Mas não é isso que acontece. Elas não olham, a sensação que tenho é que os olhos também foram adestrados e perderam a espontaneidade. Parece que perderam a vivacidade e a curiosidade.  

os detalhes

Depois de algum tempo usando abayas, voce descobre que elas tem um lado bem prático. Quando você vai sair, não precisa se preocupar com a roupa, apenas com brincos, bolsa e sapatos. A vida fica mais simples. Depois de algum tempo, você descobre que não precisa colocar nada embaixo por que isso não fará diferença alguma, e por incrível que pareça, isso fica até engraçado.

Mas um dia me deparei com a MUTAWA. Para imensa maioria das pessoas que lerão esse texto e que nunca ouviram falar disso, mutawa é a polícia religiosa. Ela existe para reprimir manifestações que podem ferir o Alcorão. Um desses policiais passou por mim, que estava com algumas amigas, e nos ordenou que cobríssemos a cabeça. Parecia uma cena de filme, mas eu não senti nada. Não senti medo, nem respeito, não senti nada.
Eu não tinha lenço, não havia levado, embora as recomendações sejam de levarmos o lenço para caso eles apareçam. Na verdade, acho que levei lenço na bolsa, nas primeira vezes que sai aqui, depois esqueci disso completamente. 
a primeira manifestação 


É claro que se um policial me parasse e exigisse o lenço, eu não teria nenhuma reação contrária, eu compraria um e o colocaria. Mas não foi o caso. Ele andava, nos viu, não mudou o ritmo acelerado dos seus passos, ordenou e continuou andando. Não obedeci. Não achei que ele realmente quisesse isso, já que não ficou pra ver. Percebi que aquilo não era comigo. A opressão só funciona de verdade, com os que já são acostumados a serem oprimidos. Eu demorei a reconheca-la, ela não faz parte de mim. O medo e a opressão não fazem parte da minha história. 

modelitos diferenciados






Não estou aqui querendo dizer que desobedecerei regras. Tenho maior facilidade em obedece-las. Isso é tranquilo pra mim. Desde que a minha integridade e individualidade não sejam feridas, e não sinto que estão sendo. Estou nesse país por que quis. Poderia não ter vindo. Essa é uma regra da casa, e eu a obedecerei sem problemas. Mas sinto que posso me divertir com isso. Resolvi bordar flores na minha primeira abaya que era totalmente preta, e agora tenho experimentado ousar nos modelos, com brilhos, decotes estampados, mangas com transparências, cores nos detalhes...e por aí vai. Se a polícia mandar (de verdade), vou colocar o lenço e obedece-la, mas enquanto isso... vamos brincar um pouco! 
Eu



O " Eu" pode e deve existir, apesar de tudo. Não é mesmo?