domingo, 18 de novembro de 2012

ESSE CARA É MEU!


Lendo os vários e constantes comentários irônicos no facebook, sobre "Esse cara sou eu", deduzi que era uma nova música do Roberto Carlos. Os comentários riam do fato de que "esse cara"só existir em sonhos e na cabeça do Rei. Invariavelmente eram mulheres que os faziam.  Não me lembro de ter lido um homem sequer rindo ou desqualificando "esse cara". Fiquei curiosa, fui ouvir a música no youtube.

"Esse cara" é meu! 
Não sou uma fã ardorosa do Rei. Não sou daquelas que amam tudo que ele faz, ou que compram seus discos e CDs. Lembro de ter tido apenas um disco (LP) dele. Aquele em que ele cantava "Debaixo dos caracóis", (música que amo). Nunca tinha ido a um show dele enquanto morava no Brasil. Meu primeiro e único show do Roberto Carlos foi em Houston, e era uma show para a comunidade hispana, ele só falava espanhol e cantava músicas que nunca havia ouvido antes. Mas gosto de muitas coisas dele. Acho realmente que ele não é "Rei" por acaso. Um cara que consegue manter-se longe dos paparazzis e das revistas de fofoca, com a carreira longa que ele tem, definitivamente não é Rei por acaso. 

Sou daquelas pessoas que não conseguem cantar uma música inteira. Não gravo letras. Entretanto as poucas músicas que consigo cantar a maior parte, são do Rei Roberto Carlos. Ele tem músicas inesquecíveis e marcantes. Realmente ele tem o meu respeito e admiração. Gosto muito do Rei.

"Esse cara" é meu! 
Mas, esse post não é pra falar dele, e sim sobre a reação comum que vi das mulheres com a letra dessa música. Fiquei pensando no porquê delas acharem que "esse cara" não existe. A música descreve "um cara" apaixonado. Um cara que ama e não tem medo de amar e de expressar esse amor. Quem não sonha com isso? Por que achar que isso é impossível? 

Lendo a letra da música encontrei algo que não concordo, mas que entendo como figura de linguagem. O Rei chama "esse cara" de Herói. Não o vejo assim. Não acho que esse cara que se conecta com o amor por uma mulher, e que a respeita e admira, e não tem medo de mostrar isso, seja um herói. Mas, pensando no mundo em que os homens estão cada vez mais aprendendo a ver as mulheres como algo a ser violado, usado e desrespeitado. Um mundo em que a misoginia é comum tanto na mente masculina quanto na feminina, não me espanta que mulheres achem essa música uma piada, nem que o Rei Roberto Carlos o veja como um herói. 

esse cara é meu!
Acredito em homens que amam. Tenho dois filhos homens e acredito piamente que os ensinei a amar e a respeitar as mulheres. Não consigo imaginar um filho meu com pensamentos ou atitudes misóginas. Sou amada e respeitada. Não espero nada menos que isso do meu marido e dos meus filhos em relação aos seus amores. 

Acho que no lugar de olharmos e rirmos "desse cara" achando que ele não existe, nós mulheres deveríamos pensar na mulher que "esse cara" ama. 

Não espero do amor nada menos que respeito, admiração, companheirismo, tesão, amizade e carinho. Essa mulher sou eu! (rsrsrs) 

Sejamos essa mulher que sabe amar e que realmente acredita que merece ser amada. Sejamos uma mulher que não aceita pouco, que quer tudo, que quer tudo que merece. 

Ensinemos aos nossos filhos o valor do amor. O quão importante é amar! Ensinemos para os nossos filhos que machismo e misoginia são degradantes. Ensinemos que o machismo e a misoginia são  indignos daqueles que tiveram uma mãe, têm uma esposa e que possivelmente terão filhas. Ensinemos aos nossos filhos, não só com palavras, mas com exemplos, sobre o valor que temos, sobre o valor do amor e sobre como AMAR é a coisa mais importante da vida. 

Ensinemos para os nossos filhos a serem "esse cara".
Ensinemos para as nossas filhas a não buscarem nada menos que "esse cara". 

Obrigada Roberto Carlos por sempre cantar sobre o amor ! 

eu e o meu "cara".



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

ACREDITANDO


Depois de quase dois meses fora da Korea, voltei.

no Espaço Mahatma Gandhi
Nesse tempo tantas coisas aconteceram que parece até que passei mais tempo fora. Sai daqui no calor, volto no frio, 5 graus me esperavam ... início de um inverno que promete. As malas precisam ser desarrumadas, e percebo que a maioria das roupas que ali estão, lá ficarão. Não as usarei por uns 3 meses. Outra coisa impactante é o horário, em dois meses vivi 3 fusos diferentes e a adaptação à mudança total que o fuso daqui me obriga não é fácil. 

Estava tentando lembrar das experiências externas que vivi nesse tempo que fiquei fora, vamos lá

  • Depois de um mês de extrema felicidade com meu filho Caio que veio de férias para a Korea viajei com ele de volta para os EUA.
  • nos EUA revi amigos, filho e nora. Reencontrei prima e sobrinhos.
  • vi meus dois filhos juntos.
  • ainda lá, veio a revisão dos exames do meu marido que acusaram, depois do terceiro ano após o fim da quimioterapia, que nenhuma reincidência do câncer apareceu no corpo dele. Momento de felicidade e alívio.
  • acompanhei no hospital uma amiga querida cuja filha luta contra o câncer. Essa é uma luta que conheço bem. Ver uma adolescente lutar não é fácil. Ver uma mãe cuja filha está nessa luta, é pior ainda. Tenho atualmente duas amigas nessa condição. 
  • Participei e vi emocionada a campanha Força Clara, criada por uma amiga dela para encoraja-la a ser ainda mais forte nessa luta.
  • Vi em Houston uma apresentação do Grupo de Dança de Déborah Colker (sempre quis ver). 
  • Fui para o Brasil. Reencontrei filho, nora, mãe, irmãs, cunhados, sobrinho e muito amigos queridos. 
  • Meu sobrinho casou numa cerimônia linda que me fez chorar muito.
  • Trabalhei. Dei aulas de yoga (estava morrendo de saudade) e conduzi uma vivência de Respiração. Estar no Espaço Mahatma Gandhi é sempre maravilhoso. Esse lugar me oferece um alimento especial para minha alma.
  • Fiz mais uma tatuagem.
  • Voltei para os EUA e estive lá quando Obama se reelegeu. Vi os gritos dos que comemoravam sua vitória. Gritei junto. Achei muito legal estar lá nesse momento.
  • Gravei mais vídeos para o site que estou montando sobre Sexualidade Feminina. Adoro esse projeto. Ainda falarei sobre ele aqui.
no casamento de Rafa & Priscila

com irmãs no casamento do meu sobrinho
com amigas que fiz em Houston

campanha "Força Clara"
meus filhos e sobrinhos reunidos nos EUA


As experiências que tive sob uma ótica subjetiva são incontáveis e tentarei resumir.

Senti nesse tempo alegria e tristeza, saudades, decepção e esperança, sensação de morte e renovação, sensação de perda e de ganhos, me senti forte e recebi um alerta para estar atenta aos invejosos (não sei se levo isso a sério); senti que a vida se renova o tempo inteiro e que não sei de muitas coisas, e que quando mais medito e observo, mais percebo que nada sei. Senti o quanto quero me ver livre dos apegos e da ignorância. 

Senti que "acreditar" é a grande força que nos motiva a caminhar. 
Acreditar na força das minhas pernas. Acreditar nos sonhos.
Acreditar que a vida tem um significado maior, me faz querer ser uma pessoa melhor. 
Acreditar que as experiências de dor e alegria podem me levar ao crescimento, me abre mais ainda para a vida. Acreditar mais uma vez que devo na minha intuição. 
Acreditar que a minha coragem pode conviver com o meu medo, mas que eu não posso conviver com a covardia. 
Acreditar que sou livre e preciso me justificar apenas para pouquíssimas pessoas, não mais que isso. Acreditar que a vida é justa, apesar das dores que parecem injustas. 
Acreditar que é melhor sofrer conscientemente, do que ser alegre na ignorância.  


minha mais nova tatuagem

Por tudo que eu acredito, essa é a minha nova tatuagem.  


sábado, 20 de outubro de 2012

FORÇA CLARA!!!!



Clara é uma garota de 17 anos.
Ela é corajosa e determinada.
Ela tem medos e sonhos como qualquer pessoa.
Ela se viu de repente numa guerra que ninguém quer lutar.
Ela descobriu que está com câncer.
Ela não "tem" câncer, ela está com câncer.
Ela tem lutado com todas as suas forças e energias.
Ela em breve estará livre dessa "meleca"de doença!
Vamos Clara!!!
Vamos!!!

Força minha querida!
A vida é cheia de mistérios e nunca sabemos quais guerras teremos que lutar, mas sabemos que temos que lutar as que aparecem.
Esse é o momento de superação, de ultrapassar os seus próprios limites, de ir além do que você jamais imaginou ser capaz. Esse é o momento de atravessar uma tempestade ... e sair do outro lado... voltando a sua vida normal...

Em breve você estará de volta a sua vida de adolescente!
Isso é uma verdade.

O seu caminho é o caminho de uma vencedora!

Um beijo grande!

Ludmila Rohr

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A VIDA É SIMPLES ASSIM



Estou nos EUA por uns dias. Vim ver meu filho que mora aqui e, daqui irei para o Brasil para o casamento de um sobrinho. 

Sair da Coréia onde moro, passar por esse país que vivi por dois anos, encontrar pessoas; e seguir para o Brasil é suficiente para mexer muito com minha cabeça.

Na Coréia está o meu amor, e é um país que amei de cara. Nos EUA está um filho, e no Brasil tem meu trabalho com o qual sou completamente identificada, estão minha mãe e irmãs, além de um filho amado. Sinto que fico dividida entre esses lugares. 

Adoraria ser uma pessoa menos reflexiva, mas não consigo. Penso o tempo inteiro. Estou o tempo todo me perguntando sobre o significado das coisas e da minha vida. Adoraria simplesmente vivê-la, mas não sou assim. Não acredito que a vida exista apenas para que possamos nascer, crescer, trabalhar, ter filhos e os criar, lutar para ganhar dinheiro e até mesmo para tentar guarda-lo, e em algum momento, que não sabemos qual é, morrermos. 

Talvez seja apenas isso mesmo, mas confesso que tem uma parte em mim que não me se conforma e insiste em fazer mil perguntas e fica inquieta o tempo todo. 

Quando essa parte inquieta fala, penso que podíamos descobrir algo que mudasse a vida das pessoas. Penso que poderíamos falar ou fazer algo que se torne importante significativo para alguém, mas percebo no fim, que tudo não é mais nada que um medo de desaparecer, ou um medo da morte do ego. 

Hoje Sonia Nemi, que é psicoterapeuta na Bahia e uma pessoa muito querida para mim, escreveu isso no facebook: 

"O que eu estou pensando? Em como de repente eu senti que estou entrando numa nova etapa da minha vida, vendo minha missão de vida com mais objetividade que antes e cada vez mais determinada a viver a vida de modo monótono; do jeitinho que a felicidade é, sem jogos!"


Fiquei encantada, nem ao certo sei o porquê, mas ela conseguiu falar de forma clara e precisa sobre um outro olhar sobre a vida. Um olhar que tenho experimentado e confesso que um pouco relutante em me render, mas que tem me proporcionado muito prazer. A minha vida é simples, gosto dela. Não quero os jogos competitivos que nos deixam na ansiedade para ganhar e no medo de perder. Não quero ganhar nada. Quero apenas a vida simples de quem é feliz. 

Quero fazer o que tem que ser feito. Acredito que temos que compartilhar aquilo que temos de melhor, com aqueles que precisam. Acredito que não podemos guardar nossos dons num baú, temos que revela-los e realiza-los. 

Obrigada Sonia, por hoje ter descrito com tanta simplicidade a minha sensação nesse momento. O que voce me disse, é que não preciso ter medo de sair do sânsara. O que voce me disse, é que posso me render a isso que me chama sem achar que estou desistindo de uma luta, mas sim que estou recebendo os louros dela, que é a possibilidade de simplesmente vive-la.

Se vivemos a nossa vida, cumpriremos a nossa missão. 
Se fazemos isso, temos paz. 
Temos a "monotonia" que a felicidade proporciona. 
Romper com a loucura da "Roda de Sânsara", que nos coloca o tempo inteiro na geração de Karma, é encontrar o sentido da vida.


Que isso seja possível para você, Sonia querida, para mim e para todos que entrarem nessa portal. 

Que as buscas cessem, e que reconheçamos que o encontro já existe.

Que possamos sentir que a vida já é. 
Não existem mistérios, ela é simples e assim.

Ludmila Rohr

sábado, 22 de setembro de 2012

PENSE NUMA PESSOA FELIZ: EU!!!!


Desculpem a falta de postagens, mas tenho vivido dias tão intensos e excitantes que não tenho muito tempo de vir aqui. Vocês não sabem, mas meu filho mais velho está de férias aqui conosco (já falei dele algumas vezes aqui e talvez voces tenham lido a homenagem que fiz a ele dois anos atrás no seu   aniversário ). Isso tem me deixado extremamente feliz e ocupada.


Não há nada nesse mundo que eu ame mais e mais intensamente do que meus filhos. Assim como não há nada que eu tenho feito na vida que eu tenho gostado mais, do que de ser mãe deles. 

Sou uma mãe exagerada e apaixonada. Sou orgulhosa dos meus filhos e obviamente de mim mesma por ser mãe deles. Viver longe deles é a parte mais difícil desse momento da minha vida.  

Tenho compartilhado aqui sobre o quanto tenho gostado de morar aqui na Korea, por isso, receber um filho aqui, e poder mostrar esse país pra ele, tem me proporcionado um prazer imenso.

Andar pelas ruas e museus, mostrar o que esse país tem de incrível tem sido extremamente excitante. Aproveitamos que ele estava aqui e fomos passar uns dias em Hong-Kong e Macau (China), cidades incríveis que mais tarde contarei sobre elas pra vocês! 
Tão excitante que nem consigo encontrar palavras, mas tenho muitas imagens!!!

Pense em uma pessoa feliz: EU! 


Pense numa pessoa coruja: Eu.


Rindo por todos os poros em Hong-Kong!


Um dos inúmeros brindes que fizemos!


Esse é o meu filho palhaço!


Bom....essa sou eu feliz, babando e orgulhosa do meu filho!



Pense em alguém que não cabe em si de felicidade!

foto rara, de blusa sem ser preta !

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

BELEZA, MEDITAÇÃO E PRAZER


Já contei dois posts atrás que estou fazendo aulas de Hanji. 
Essa é uma linda arte coreana com papéis. 
Contei que estou apaixonada, mas não contei o quanto estou apaixonada e que dessa paixão já nasceu meu primeiro filho. Vocês o conhecerão agora!  

O primeiro passo foi escolher o projeto. Defini cheia de ansiedade que queria fazer um pequeno móvel com gavetinhas para guardar coisinhas pequenas, tipo anéis, colares..etc...

Cheia de paixão por esse projeto me comprometi com aulas no estúdio da professora. Essas aulas, são quase que privadas e posso passar o dia inteiro no estúdio trabalhando com a supervisão dela.  Assim aconteceu. Dois dias inteiros de 10 as 19h .., colando, retocando, pincelando..respirando...



O incrível para mim foi perceber passo a passo as coisas acontecendo... de um amontoado de papelão, uma forma começando a surgir. 

Cada momento foi vivido com concentração e prazer. Me pegava feliz ... uma felicidade ingênua e despretenciosa. Respirando e com vontade de rir.

De vez em quando suspirava profundo e ria .... assim, ... do nada.




A carinha do filho começa a aparecer... o projeto começa a se estruturar... apaixonada e rindo começo a ver as folhas de papel ganharem a forma que planejei... 

A minha alegria, mesclada com muita excitação me toma por completo... 

Começo a ver que estou rendida a esse prazer.







Detalhes feitos com cuidado.

Passo a passo que deve ser respeitado.

Não dá para acelerar o tempo ... muito pelo contrário, preciso estar inteira a cada instante, sob pena de fazer algo errado. Erros que acontecem, e que sempre vem acompanhados de um  suspiro grande ... mas nada que não possa consertar.






A primeira gavetinha.... cortando...colando....
Muitas e muitas piceladas de cola....
Dentro e fora feitas com carinho. Cada cantinho bem cortado, bem colado.


A face dela... 
Digam se não é pra se apaixonar mesmo?

Digam se é possível fazer algo assim sem estar concentrada, encantada e apaixonada? 








Minhas quadrigêmeas!

Lindas...idênticas...

4 gavetinhas mágicas!


  

Forrada dentro e fora...

Cada canto, cada quina..

Cada detalhe feito enquanto respiro...

Meditações, reflexões acontecem o tempo todo. 

Acho que estou encontrando dentro de mim uma Deusa diferente ... uma qualidade quase que maternal que confere paciência para cuidar dos detalhes sem pressa. Sem querer apressar nada... só curtindo cada momento. Bem diferente da deusa Athena de quem sou muito íntima. 

Só rindo... sorrindo... colando...



Apresento-vos meu primeiro projeto concluído de Hanji.

Esse é fruto de mais de 17h de trabalho, meditação e respiração. 

O mais encantador foi trazê-lo para casa. Como moro em hotel, fui chegando e apresentando-o para as meninas lindas que trabalham no desk. Eu dizia: I made It!!! Elas encantadas exclamavam: "you made It???? 

Ele ainda está em cima da mesa da sala. Não consegui coloca-lo num lugar funcional...ele ainda não é apenas um móvel de guardar bijouterias, ele ainda é uma arte, um filho especial.

Hoje a senhora que arruma meu apartamento o viu em cima da mesa, ela o tocou , olhando e admirando... deixei que ela o olhasse antes de dizer que eu o havia feito... nem sei por que, mas acho que queria ver o espanto dela... e vi. Ela sorria e falava misturando coreano com inglês... acho que tentou dizer com um sorriso alegre: "Parabéns!!! Ele é lindo!!!" .

Estou de parabéns ... essa qualidade feminina que traz beleza e delicadeza está viva em mim!
Estou feliz. 




segunda-feira, 20 de agosto de 2012

VENDENDO SONHOS!



Hoje soube de uma tradição linda da infância aqui da Coréia e tenho que contar para vocês.
Me contaram que as crianças vendem os sonhos ...  e que os adultos os compram.

Vou explicar.
Algo bem simples... coisa de criança, mas eu me apaixonei por essa história.

Quando uma criança tem um sonho bom e conta para os pais, tios ou mesmo avós, eles pagam algum dinheiro, coisa pouca, o dinheiro na verdade não tem a menor importância. A tradição apenas manda que eles paguem pelo sonho. 

Ao compra-lo, o adulto carrega aquela sorte, aquela energia. É como se a criança tivesse trazido de algum nível superior uma energia de boa sorte! Quando algo de bom acontece à pessoa que o comprou, eles acreditam que a energia do sonho foi responsável. 

A mesma coisa acontece com os sonhos maus. 
Uma criança que acorda assustada por conta de um pesadelo e o conta para seus pais, ou adultos próximos, esses adultos costumam comprar esses maus sonhos. Com isso, eles pretendem livrar a criança daquele medo, daquela sensação com que ela acordou. Pagam em dinheiro pelo pesadelo... a criança feliz guarda seu dinheiro e livra-se daquele mau sonho.

Minhas colegas coreanas me contaram isso. Todas tinham alguma história de infância com seus sonhos. Todas lembravam de uma situação em que venderam seus bons ou maus sonhos.  Elas ficaram encantadas e surpresas pelo meu encantamento. Não imaginavam que isso seria uma novidade para mim. Elas tentavam me explicar que o dinheiro não tinha importância, temiam que eu pensasse o contrário. Entendi perfeitamente que isso não era importante. 



Acho que entendi a magia da coisa. 
Acho que entendi o encanto dessa tradição. 

Sonhava muito quando era criança. Tinha muitos pesadelos também. Tive sonhos tão marcantes na minha infância, que lembro de muitos deles até hoje com detalhes. 

Também lembro de várias vezes acordar chorando por conta de algum pesadelo. Passava algum tempo tentado imaginar o que era aquilo e por que sonhava aquelas coisas....

Sonhos bons e sonhos maus. 
Adoraria te-los trocado por magia.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

RESPIRO, ... E SOU LIVRE


Comecei aulas de Hanji aqui na Coréia. Pra quem não sabe o que é isso (provavelmente a maioria), Hanji é uma arte que usa papeis e é tradicional aqui na Coréia. As pessoas constroem de simples bandejas, até móveis e gaveteiros, usando papel e cola. Os papéis são lindos e coloridos. É uma arte apaixonante. Essas aulas são gratuitas e oferecidas pelo governo coreano para estrangeiros que aqui moram. Eles oferecem aulas de coreano, culinária típica e outras coisas também. Entrei nessas aulas aceitando o convite de Cristina Oshiro, uma brasileira/japonesa que conheci aqui, depois de muita insistência dela. Confesso que fui para a primeira aula, com uma sensação total de incompetência e sem muita convicção de que seria possível vence-la. 

Bom...quando eu era criança fiz aulas de pintura. Pintei muitos quadros. Adorava isso. Quando parei de pintar, nunca mais fiz nada artístico ou artesanal na minha vida. Nem sei porque, mas provavelmente por falta de tempo e por ter um foco muito voltado para o trabalho. Não tinha tempo para isso ou não tive chance...ou mesmo vontade. Na verdade nada nunca me atraiu. 

Aqui na Coréia tenho tempo. O Hanji apareceu diante de mim e me colocou diante dessa minha dificuldade de fazer arte, de fazer algo com as mãos. Resolvi aceitar esse desafio e me abrir para a beleza e a delicadeza dessa arte. 

Descobri logo de cara (com os erros que me fizeram rasgar os papéis) que preciso ser muito mais delicada e ter movimentos muito mais leves. É necessário fazer conexão com uma energia muito feminina para conseguir trabalhar como Hanji. Mãos leves, movimentos pacientes e muita concentração. Adorei. 

Tenho estado muito meditativa nesses tempos. Tenho estado cada vez mais quieta e reflexiva; num lugar dentro de mim de silencio e quietude em que posso observar meus pensamentos, e refletir conscientemente sobre questões relativas a projetos, e ao sentido da minha vida. O Hanji apareceu como mais uma ferramenta que me leva a concentração e que abre uma porta de meditação. Ficar pincelando suavemente cola sobre o papel, numa ação silenciosa e repetitiva, imediatamente me coloca nesse estado. Percebo que minha respiração desacelera a tal ponto que de vez em quando dou um suspiro grande, como se deixara de respirar por um tempo. Percebo minhas ansiedades e percebo o quanto elas são inúteis. Percebo meus medos e reflito o quanto eles são desnecessários. Percebo a respiração e me dou conta de que tudo é uma grande respiração. 


Respiro o sorriso acolhedor da minha professora que sem comunicação verbal alguma, entende que estou enfrentando a mim mesma para estar ali.

Não serei uma artesã. Estar na aula de Hanji para mim é como uma meditação, por isso respiro e me deixo levar!

Respiro e percebo meus medos. 
Respiro e percebo minhas ansiedades. 
Respiro e me liberto delas. 
Respiro e sou arte. 
Respiro e sou beleza. 
Respiro e sou livre. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

ME ENSINA A MEDITAR?

Recebi esse pedido esses dias. Não foi a primeira vez que alguém me pediu isso. Aliás, esse é um pedido constante que recebo de várias pessoas, e provavelmente já escrevi sobre isso aqui, não lembro bem. 

Desde que comecei minha prática do yoga, quando tinha 16 anos (já se passaram 32 desde então), descobri que as pessoas desejam muito meditar, mas percebi também que elas querem isso em cima de uma fantasia do que seja meditação. Não sei exatamente o que as motiva, mas percebo pelo nível de ansiedade que sempre acompanha o pedido, que elas não estão bem. 

A meditação aparece como uma possível salvação dentro de um momento de confusão, de cansaço ou mesmo quando as pessoas se vêem sozinhas com seus problemas. 

A minha resposta sempre é a mesma: "Não se ensina a meditar, no máximo podemos ensinar a concentrar".

Mas tenham calma, vou explicar melhor, antes de vocês percam as esperanças com relação à meditação. Meditar é um acontecimento natural para uma pessoa que pratica a concentração. Na verdade, a prática deve ser da concentração, e a partir dela, naturalmente a mente, um dia, entraria no estado meditativo.

Quando alguém diz que vai para aula de meditação, na verdade está indo para alguma prática de concentração. Ela vai provavelmente concentrar em alguma imagem, ou na respiração, ou até mesmo em algum mantra, ou questão. Ela está se propondo a pensar, ou focar em algo. Ela está se propondo a concentrar em alguma coisa. 

Aprender a concentrar é o caminho. Ter uma mente concentrada é libertador. Uma mente focada é uma mente poderosa. Imagine você poder concentrar em algo que precisa fazer, com a força da sua vontade, apesar das interferências internas (sono, tristeza, fome, dor, cansaço) e das interferências externas (ruídos, calor, tempo). Aprender a concentrar e desenvolver a capacidade de concentração deveria ser uma das nossas maiores metas dentro do yoga e na vida, pelos menos foi o que mais o Yoga me ensinou. Aprendi que uma pessoa que tem capacidade de concentração desenvolvida, certamente é uma pessoa que consegue com muito mais facilidades alcançar seus objetivos, sejam eles quais forem. 

Então o que vem a ser Meditar? 
Encontrar esse estado de mente, uma mente que medita, é o resultado natural da concentração. A meditação se daria ao encontrarmos a vacuidade mental. Um espaço de tempo em que os pensamentos desaparecem e se encontra o vácuo, um vazio que é de absoluta paz e silêncio, um vazio que imediatamente é preenchido pela luz, pela sabedoria, pelo mundo espiritual, que nos levaria o passo seguinte que é o Samadhi, a sensação absoluta de integração com o universo. Esse estado não acontece pelo esforço, ao contrário da concentração, ele acontece pela entrega, pela total ausência de ansiedades, de buscas e de metas. Nada a pensar...o encontro com o Nada...o encontro com o Tudo.

No próximo post escreverei melhor sobre concentração e começarei a ensinar alguns exercícios. 
Escrevam, contem suas experiências com os exercícios de concentração que vocês praticam.
Aguardo.

Namastê

Ludmila Rohr

sábado, 5 de maio de 2012

CHERRY BLOSSOM


Desculpem a demora por um novo post, estive bem ocupada vivendo momento bem legais da minha vida, e os compartilharei assim que possível. Hoje quero contar sobre uma experiência linda que vivi em Seul, onde moro, que se chama CHERRY BLOSSOM, o desabrochar das cerejeiras. 

Esse é um evento esperando com ansiedade pelo povo da Coréia, país que moro e que aprendi sem esforço a amar. Eles tem um inverno gelado e poderoso, que produz um comportamento na natureza, assim como nas pessoas, típico do frio. Entretanto, basta que esse inverno ceda aos poucos para o calor do sol, para a cidade se transformar em um lugar lindo, e mágico. Milhares de árvores que antes eram galhos secos, desabrocham ao mesmo tempo, produzindo um espetáculo de deixar qualquer um encantado. 

Imaginem que pegamos frio de -20C, por várias e várias semanas, temperaturas que oscilam entre -10 e -20 C, ventos gelados que descem dos desertos da Mongólia... Frio que congela tudo pela frente, e que deixa a natureza recolhida, com aparência de morta, mas apenas hibernando, a espera de um sopro de calor.


Quando o inverno começa a ceder e o calor que chega, a natureza revela de forma impressionante a vida que esperava quieta, mas poderosa. As árvores começam a verdejar e de um dia para o outro, todos os galhos que pareciam mortos explodem em vida verde e colorida. As pessoas se vestem de forma mais alegre, as crianças saem nas ruas, as famílias inteiras se põem a passear pelos parques, a alegria que hibernava, explode poderosa. 

Nunca vi nada igual na minha vida!

A expressão comum de que a vida sempre florescerá, é vivida de forma literal nessa cidade marcada pela luta em centenas de anos de guerras, e por esse povo que aprendeu a nunca desistir e a acreditar sempre em si mesmo e na sua capacidade de regenerar e se recuperar!

Uma benção! O Cherry Blossom é um símbolo perfeito desse país que teve que se recolher por tanto tempo, mas que floresceu para o mundo de forma surpreendente.



O impressionante é que as cerejeiras que existem na Coréia foram plantadas pelos japonêses, e por isso mesmo eram um símbolo da dominação, humilhação, da dor e das violências que os coreanos sofreram por parte deles durante anos e anos de invasão e domínio.

Os coreanos quando se viram livres do julgo japonês, queriam arrancar todas as cerejeiras que os lembravam desse período triste da sua história, mas não conseguiram. As cerejeiras lindas e mágicas com sua beleza generosa, que se derrama para todos que quiserem ver, os seduziram. Eles não conseguiram odiar tanta beleza. Os coreanos foram seduzidos pelo Cherry Blossom e se renderam a elas. A beleza foi mais poderosa que o rancor ou qualquer sentimento de vingança.




Bom...eu não vivi guerras na Coréia, pelo menos que me lembre. Eu vivi o Cherry Blossom. Eu vivi e senti na pele (e na alma), o poder incontrolável da natureza. 

Eu confesso também que me renderia facilmente a essa beleza mesmo que tivesse vivido essa guerra. Eu confesso que nenhum sentimento negativo que houvesse na minha alma, conseguiria resistir a tanta luz e brilho. 




Tenho certeza de que a beleza é curadora. Sei que a vida se renova mesmo quando não temos mais fé nisso. 

Penso que assim como as cerejeiras da Coréia, a nossa beleza interna precisa apenas se expor ao sol para ser revelada! 
Vamos brilhar! Vamos revelar nossa beleza! Vamos nos render à vida!

Deixemos de lado qualquer sentimento negativo que ofusca a luz nos nossos olhos!

Obrigada Coréia por me presentear com esse espetáculo poderoso e delicado ao mesmo tempo, e certamente, inesquecível!

Com amor,

Ludmila Rohr

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Para duas amigas....



Hoje é um dia daqueles que eu queria colocar meus filhos debaixo das minhas asas.
Mais do que nunca, 
hoje é um dia daqueles que queria poder protege-los de todo mal do mundo.
Hoje é um daqueles dias que queria ter super poderes e envolve-los em muita luz.
Hoje é um dia como outro qualquer...

Hoje todos os filhos são meus filhos ...
e meu coração dói...



terça-feira, 27 de março de 2012

ELES CHEGARAM LÁ, MAS A LUTA CONTINUA!

 Vivi um momento interessante essa semana aqui em Seul e compartilharei com voces.

Era domingo, resolvemos almoçar na "Seoul Station", que é uma estação de trens bem grande no centro de Seul e que tem bastante movimento, lojas, restaurantes. Chegando lá nos deparamos com uma imensa manifestação popular, muita gente aglomerava-se em frente a estação, havia um palco e as pessoas que iam chegando, sentavam ao chão, portavam cartazes e repetiam palavras de ordem.

Essa cena me animou. Não precisava entender o que estava escrito nos cartazes, muito menos as palavras de ordem que eram repetidas com energia. Meu corpo vibrava apaixonadamente. Sabia, mesmo sem entender nada, de que lado eu estaria nessa manifestação. 

As pessoas continuavam a chegar, até que chegaram a alguns milhares. Mulheres, jovens, crianças, idosos....pessoas de todas as idades estavam ali. Palavras de ordem era repetidas por todos.

Eu estava ali por acaso, mas não queria sair. Sentia muita força em tudo aquilo que via. Aquela força me alimentava. Pensei no meu pai que foi sindicalista e de quantas lutas e movimentos de greve ele havia feito parte. Meus olhos marejaram. Achei que ele iria gostar de ouvir essa história. Lembrei de uma das minhas idas ao Nepal, quando me vi inesperadamente no meio de um confronto da polícia e populares (na queda da  monarquia nepalêsa) e que um pneu em chamas bateu nas minhas pernas. Lembrei que não senti medo nesse episódio, muito pelo contrário, fiquei extremamente excitada e tomada por uma coragem que me levaria a participar do movimento junto ao povo nepalês, se eu assim pudesse. Lembrei de todas as histórias do Mahatma Gandhi contra o império Inglês e que sempre me tocaram na alma e despertavam em mim algo que pareciam lembranças de outras vidas. Lembranças de lutas populares que nunca nessa vida participei, mas que de alguma forma fazem parte da minha alma. 

O evento em Seul foi incrível. As pessoas de um lado aos milhares e ao lado centenas de policiais que acompanhavam o movimento sem nada fazer. Consegui entender que ali estavam acontecendo vários protestos ao mesmo tempo.

A Coréia encontra-se na mídia internacional essa semana, porque recebe dezenas de Presidentes e Primeiros Ministros  de países do mundo (Obama inclusive) para um encontro sobre Energia Nuclear, e o seu povo aproveitando essa exposição resolveu se organizar em protesto contra o uso da Energia Nuclear, a pesca predatória do salmão, um tratado de comércio assinado entre a Coréia e os EUA, contra o ex-presidente coreano que está sendo julgado por corrupção e outros tantos protestos dentro desse grande protesto que nem consegui identificar. O fato é que o povo aqui protesta.  O povo exige seus direitos e não aceitam que os políticos traiam o povo.


apoio dos religiosos
Seul é uma das maiores cidades do mundo e tem 100% de cobertura por metrô de excelente qualidade, 100% das crianças e jovens na escola, taxa altíssima de jovens em idade universitária que estão na universidade (quase que o dobro da taxa estadosunidense), saúde pública de excelente qualidade e emprego. O povo que viveu uma história infindável de guerras e mais guerras, vive uma prosperidade e crescimentos  desenfreados, e no entanto, protesta. 

Impossível não comparar com o Brasil. Impossível não pensar na nossa acomodação e leniência com políticos corruptos e com desmandos em geral. Impossível não pensar no quanto Salvador (minha cidade) foi abandonada e roubado por governo após governo. Um projeto de metrô que já consumiu milhões e que nunca se concretiza. Impossível não pensar em todos os motivos que temos para protestar.



Impossível não pensar em tudo que acontece no nosso país e o quanto que temos a protestar e que não fazemos. Acho até que nos sentimos superiores aos coreanos. Chegamos até a dizer e (o que é pior), a acreditar que D-us é brasileiro, que somos um povo especial. 

Acho que o povo coreano não se sente especial e talvez até por não se sentirem especiais, pensam que precisam estudar e trabalhar muito. Chego até a concluir que eles acreditam que devem lutar e que o esforço será  recompensado (coisa de babaca no padrão brasileiro). 
Entendi que os coreanos não se acham espertos e muito menos que D-us é coreano. 
Eles acreditam na luta e no esforço.
Eles chegaram lá, mas a luta continua!

Invejo.

Ludmila Rohr