sexta-feira, 6 de abril de 2012

Para duas amigas....



Hoje é um dia daqueles que eu queria colocar meus filhos debaixo das minhas asas.
Mais do que nunca, 
hoje é um dia daqueles que queria poder protege-los de todo mal do mundo.
Hoje é um daqueles dias que queria ter super poderes e envolve-los em muita luz.
Hoje é um dia como outro qualquer...

Hoje todos os filhos são meus filhos ...
e meu coração dói...



terça-feira, 27 de março de 2012

ELES CHEGARAM LÁ, MAS A LUTA CONTINUA!

 Vivi um momento interessante essa semana aqui em Seul e compartilharei com voces.

Era domingo, resolvemos almoçar na "Seoul Station", que é uma estação de trens bem grande no centro de Seul e que tem bastante movimento, lojas, restaurantes. Chegando lá nos deparamos com uma imensa manifestação popular, muita gente aglomerava-se em frente a estação, havia um palco e as pessoas que iam chegando, sentavam ao chão, portavam cartazes e repetiam palavras de ordem.

Essa cena me animou. Não precisava entender o que estava escrito nos cartazes, muito menos as palavras de ordem que eram repetidas com energia. Meu corpo vibrava apaixonadamente. Sabia, mesmo sem entender nada, de que lado eu estaria nessa manifestação. 

As pessoas continuavam a chegar, até que chegaram a alguns milhares. Mulheres, jovens, crianças, idosos....pessoas de todas as idades estavam ali. Palavras de ordem era repetidas por todos.

Eu estava ali por acaso, mas não queria sair. Sentia muita força em tudo aquilo que via. Aquela força me alimentava. Pensei no meu pai que foi sindicalista e de quantas lutas e movimentos de greve ele havia feito parte. Meus olhos marejaram. Achei que ele iria gostar de ouvir essa história. Lembrei de uma das minhas idas ao Nepal, quando me vi inesperadamente no meio de um confronto da polícia e populares (na queda da  monarquia nepalêsa) e que um pneu em chamas bateu nas minhas pernas. Lembrei que não senti medo nesse episódio, muito pelo contrário, fiquei extremamente excitada e tomada por uma coragem que me levaria a participar do movimento junto ao povo nepalês, se eu assim pudesse. Lembrei de todas as histórias do Mahatma Gandhi contra o império Inglês e que sempre me tocaram na alma e despertavam em mim algo que pareciam lembranças de outras vidas. Lembranças de lutas populares que nunca nessa vida participei, mas que de alguma forma fazem parte da minha alma. 

O evento em Seul foi incrível. As pessoas de um lado aos milhares e ao lado centenas de policiais que acompanhavam o movimento sem nada fazer. Consegui entender que ali estavam acontecendo vários protestos ao mesmo tempo.

A Coréia encontra-se na mídia internacional essa semana, porque recebe dezenas de Presidentes e Primeiros Ministros  de países do mundo (Obama inclusive) para um encontro sobre Energia Nuclear, e o seu povo aproveitando essa exposição resolveu se organizar em protesto contra o uso da Energia Nuclear, a pesca predatória do salmão, um tratado de comércio assinado entre a Coréia e os EUA, contra o ex-presidente coreano que está sendo julgado por corrupção e outros tantos protestos dentro desse grande protesto que nem consegui identificar. O fato é que o povo aqui protesta.  O povo exige seus direitos e não aceitam que os políticos traiam o povo.


apoio dos religiosos
Seul é uma das maiores cidades do mundo e tem 100% de cobertura por metrô de excelente qualidade, 100% das crianças e jovens na escola, taxa altíssima de jovens em idade universitária que estão na universidade (quase que o dobro da taxa estadosunidense), saúde pública de excelente qualidade e emprego. O povo que viveu uma história infindável de guerras e mais guerras, vive uma prosperidade e crescimentos  desenfreados, e no entanto, protesta. 

Impossível não comparar com o Brasil. Impossível não pensar na nossa acomodação e leniência com políticos corruptos e com desmandos em geral. Impossível não pensar no quanto Salvador (minha cidade) foi abandonada e roubado por governo após governo. Um projeto de metrô que já consumiu milhões e que nunca se concretiza. Impossível não pensar em todos os motivos que temos para protestar.



Impossível não pensar em tudo que acontece no nosso país e o quanto que temos a protestar e que não fazemos. Acho até que nos sentimos superiores aos coreanos. Chegamos até a dizer e (o que é pior), a acreditar que D-us é brasileiro, que somos um povo especial. 

Acho que o povo coreano não se sente especial e talvez até por não se sentirem especiais, pensam que precisam estudar e trabalhar muito. Chego até a concluir que eles acreditam que devem lutar e que o esforço será  recompensado (coisa de babaca no padrão brasileiro). 
Entendi que os coreanos não se acham espertos e muito menos que D-us é coreano. 
Eles acreditam na luta e no esforço.
Eles chegaram lá, mas a luta continua!

Invejo.

Ludmila Rohr

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ELAS TOMAM CONTA DE MIM

Esther
Moro em uma área bem central e num flat, aqui em Seul. Escolhemos morar em um apartamento menor, em troca de termos algumas facilidade que esse tipo de moradia proporciona. Temos café da manhã de hotel todos os dias, e uma camareira que arruma e limpa tudo, ela também troca lençóis e toalhas.  Escolhemos isso no lugar de um apartamento espaçoso em uma área residencial, por conta da praticidade e por estarmos perto de muito movimento, de restaurantes, bares, teatros. Os ganhos são extremamente compensadores, para alguém que leva um estilo de vida como o meu e do meu marido, e já que nossos filhos não estão mais conosco. 

Estamos aqui a pouco mais de 2 meses, e nesse tempo venho recebendo cuidados carinhosos da minha camareira. Ela é uma pessoa linda, fala algumas palavras em Inglês, mas fala muito com seus olhos, sorriso e com sua energia. Quero falar aqui sobre Esther, esse é o nome ocidental que ela escolheu para facilitar a nossa vida, já que os nomes coreanos nos são impossíveis.  Quero falar dessa mulher de quem não sei absolutamente nada, mas que já mora no meu coração, mas também quero falar sobre outras pessoas  que ela me lembra, pessoas que cuidam de mim.

Ter encontrado com essa mulher aqui me remete a tantas pessoas que tive na minha vida e que me ajudaram muito e por quem serei eternamente grata. Quando meus filhos eram bebês, tiveram uma babá que se chamava Selma, mas era a nossa Deda, forma como Caio ao começar a falar a chamou e que todos adotaram como sendo seu nome. Deda, cuidava dos meus filhos como uma leoa, era meio doidinha, mas era perfeita...amava meus filhos, brigava por eles e me ajudou tanto que não tenho como esquecer. Ela me deixou quando casou, meus filhos já não precisavam de uma babá, e eu mudara para uma casa distante para ela, mas nunca a esquecerei.
Nil sempre sorridente

Na minha casa tive como empregada doméstica duas pessoas queridas, Maria e depois Nil, essa segunda, terminou de criar meus filhos, enquanto eu trabalhava e fazia uma segunda faculdade. Nil cuidava da minha casa, de mim, dos meus filhos, cachorros e gato de forma tão especial que nem sabia como agradecer. Quando eu saia do meu quarto de manhã cedo para trabalhar, ela já me esperava com uma caneca de chá na mão e já encontrava meus filhos prontos para a escola. Ela fazia lista de supermercado e até ia fazer as compras pra mim. Nem sei como eu poderia ter me dedicado a tudo que fiz, se ela não existisse na minha vida. Sempre que volto ao Brasil, a vejo... choro de saudade de Nil e dos mimos que ela me fazia. Ela está casada agora e trabalha com amigos queridos.

Lu, Mari, Eloisio e Ane Rose
Na clínica (Espaço Mahatma Gandhi ) sempre tive Ane Rose e Marinalva que cuidavam de mim. Marinalva está comigo antes mesmo do meu segundo filho nascer e Ane surgiu quando eu mais precisava e não tinha ninguém para me ajudar, ela "vestiu a camisa" da minha clínica e abraçou com coragem e bravura minha causa... lutou comigo em períodos duros... não sei se teria feito o que fiz sem ela. Quando eu volto a Salvador, as duas estão lá me esperando... e me mimam. Juntaram-se a elas, mais duas pessoas queridas, Eloisio e Lucilene. Fico em paz sabendo que eles estão lá ajudando minha irmã a tocar a clínica enquanto eu ando pelo mundo.  


Sempre digo que acho que sou uma pessoa com muitos méritos por ter encontrado essas pessoas na minha vida. Nunca tive os problemas que a imensa maioria das pessoas, de perder funcionários, de estar sem babá, de ficar sem empregada. Sempre tive pessoas queridas, nas quais que eu podia confiar e me deixavam livre para cuidar do meu trabalho. Acho que tenho uma qualidade que ajuda essa relações, eu não me meto na forma como as pessoas fazem suas tarefas, nem quero saber; deixo todas as pessoas que trabalham comigo absolutamente livres para fazerem como quiserem seus trabalhos, não vigio, nem desconfio; sou grata e acho que eles podem errar, pelo simples fato de que são humanos. Sei que eles, assim como eu, temos nossos momentos de mau-humor e de estarmos "sem saco"pra fazer aquilo que temos que fazer.  

Gang Kang Suwollae
Quando mudei para os EUA vivi a experiência inédita de ter que cuidar de uma casa, tinha apenas uma faxineira que ia de 15 em 15 dias limpar a casa, e é claro que caí de amores por ela. Blanca, é de El Salvador, imigrante ilegal nos EUA. Uma mulher forte e determinada, que não falava uma palavra em Inglês. Nossa comunicação era formidável, pois eu não falo uma palavra em espanhol, mas mesmo assim chorei muito enquanto ela me contava sua história de imigração nos EUA e o quanto que ela sofreu na mão dos "coiotes" pra conseguir trazer os dois filhos, e soube também da imensa dor de perder uma filha nesse processo. Eu chorava e ela me consolava, dizia que ela tinha força para trabalhar, e que isso era o que importava. Ela me olhava com olhos amorosos, e eu sempre muito grata por tê-la ali comigo. 

Outro dia comprei um quadro aqui em Seul. Ele me encantou de cara, retratava doze mulheres dançando a luz de uma Lua Cheia. Como vocês sabem trabalho com Círculo de Mulheres, e adoro. Quando Esther viu meu quadro já na parede, tentou me explicar em Coreano, que se tratava de uma dança típica de mulheres que acontecia na primeira noite de Lua Cheia depois do Ano Novo Lunar. Ela explicou e até cantou algo que entendi que era uma cantiga de roda. Obviamente não entendi nada. Entretanto à noite, vi no jornal uma matéria sobre essa dança, porque coincidentemente aquela noite era a primeira Lua Cheia após o Ano Novo Lunar. Era a noite de dançar o "Gang Kang Suwollae", como se chama essa tradição. Entendi por que ela cantou a cantiga de roda para mim, entendi porque ela ficou tão alegre em ver o quadro...

Entendi, embora já soubesse...

... que ela é mais especial do que eu já sabia... 

... entendi que eu sou abençoada.

Esther também me disse que tenho "luck face", e que sempre terei na minha vida, pessoas para me ajudar. Ela me disse também que nunca estarei só.

Obrigada todas as pessoas lindas que entraram na minha vida e que tomam conta de mim, me mimam e não me deixam só.

Sou grata do fundo do meu coração.

Ludmila Rohr

domingo, 29 de janeiro de 2012

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO!

Nunca cansarei de dizer que cada dia que tenho vivido aqui na Coréia tem me deixado extremamente encantada! Alguém no twitter me perguntou se eu já conseguia ver coisas ruins nesse país, minha resposta foi que ainda estou muito apaixonada para vê-las. Sei que elas existem, não sou uma "Polyanna", longe disso, mas assim como quando morei nos EUA, meus olhos preferiam ver o que me encantava, aqui na Coréia, eles tem funcionado do mesmo jeito. Acho que sou uma pessoa apaixonada. Sofro da doença do encantamento. Espero que não tenha cura para esse "mal".

Seul é uma cidade imensa, e como já disse aqui, esse país renasceu das cinzas e muito rapidamente, por isso mesmo, quando contextualizo historicamente esse país, meu encantamento chega a níveis mais elevados ainda. Esse é realmente um mundo novo, dentro de um muito antigo.

Hoje quero mostrar pra voces mais alguns detalhes desse país incrível.

Robô recepcionista 

Tinha que fazer uma consulta médica. Dentre a lista de clínicas e hospitais que nos foi oferecido, escolhi um hospital Universitário porque eles diziam tinham médicos que atendiam em inglês. Pegamos o metrô (não tenho carro pela primeira vez na vida desde os meus 18 anos e não sinto falta), e chegamos facilmente ao local.
Chegando na recepção fomos surpreendidos por essa robô recepcionista. Gente, ela é linda!!!!! Olha nos olhos da gente enquanto fala, se mudarmos de posição os olhos dela nos acompanham! Ela oferece as primeiras informações sobre os serviços do hospital.

É claro que fiquei parecendo uma abestalhada tirando fotos da robô! Os coreanos passavam tranquilamente, mesmo os idosos, ninguém se espantava ou se surpreendia com ela, mas eu estava boba. Completamente boba. Mas me digam se vocês não ficariam também?  Admirável Mundo Novo!




Mas esse mesmo hospital conseguiu me encantar ainda mais, não só pela pontualidade do atendimento, nem pela qualidade dele, mas pelo que vi em seguida: Música clássica ao vivo para todos que ali estivessem. 

Pessoas que esperavam consultas ou faziam vistas, pacientes carregando seus soros e de roupas de internamento, todos sentados ouvindo música de qualidade e ao vivo!

As pessoas aplaudiam ao término de cada peça. Gente, me digam se isso não é lindo??? Me digam se isso não é absolutamente incrível? O mesmo hospital que lida com tecnologia avançada, lida com aspectos da alma que só a música acessaria de forma curadora. Não é pra se apaixonar? Admirável Mundo Novo!




cinema 4D
Uma informação que talvez vocês não tenham é de que a Coréia produz cinema de qualidade. Eles sempre estão exibindo em suas salas, as produções nacionais. Infelizmente pra mim, elas são inacessíveis devido ao idioma. Entretanto quando eu voava dos EUA para cá, pude assistir um filme coreano no avião já que tinha legenda em Inglês, e posso garantir, eles não são amadores, nem muito menos histriônicos como os indianos, eles fazem cinema que agradaria a qualquer público do ocidente.

Fomos ao cinema em um mega shopping center como em qualquer país ocidental, e lá soube que eles tem salas 4D. Devo ser a pessoa mais abestalhada desse mundo, mas eu nunca soube que essas salas existiam e nem fazia idéia do que era isso.

A sala 4D oferece sensações junto ao filme. Além dos efeitos tridimensionais que já estamos acostumados com os filmes 3D, a sala 4D tem cheiro, vento, muda a temperatura de acordo com o filme, as cadeiras balançam te levando a sentir o movimento que está nas telas ... ou seja, um loucura. Admirável Mundo Novo!



Os metrôs são para mim um grande motivo de inveja. Morro de inveja do Sistema Público de Transporte da Coréia. Metrôs que atendem 100% da cidade, com estações lindas, confortáveis e seguras me matam de inveja. Queria que Salvador tivesse 1/10 do que eles tem! 

Cada vez que pego uma linha de metrô diferente descubro estações que me impressionam. Vejam essa estação da foto. São lindas ... na maioria delas é possível encontrar cafés, Shoppings Undergrounds e mercados... elas são limpas, imensas e nos revelam uma Seoul underground. Seul existe em cima e embaixo, essa é uma constatação incrível. Temos duas cidades para conhecer, e as duas são lindas.

Admirável Mundo novo.

Estou apaixonada, é verdade. Sei que eles tem problemas importantes nesse país. Eles estão preocupados com os níveis crescentes de casos de "bullying"nas escolas, que é resultado de uma juventude extremamente competitiva. Eles precisam colocar os estudantes para fora das escolas porque os alunos simplesmente não querem parar de estudar. O nível de suicídio entre jovens aumenta, devido a dificuldade em lidar com o fracasso e as cobranças. Acho que existe um "gap"grande entre os velhos coreanos que viveram a pobreza e a miséria pós-guerra e a juventude que nasceu em um país rico e próspero. Isso provavelmente constitui um problema social aqui, mas para mim....uma estrangeira encantada...nada consegue diminuir meu encantamento e só aumentam as minhas questões com os caminhos sócio-econômicos do nosso Brasil.

Porque eles chegaram aqui e nós não? Alguém sabe responder?

Ludmila Rohr

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ALEGRIA, SEU NOME HOJE É CORAGEM!

Completei meu primeiro mês morando na Coréia e continuo muito apaixonada por esse país. 
Muitas coisas me encantam aqui, mas o imbatível e moderníssimo Sistema Público de Transporte que atende 100% da cidade com metrôs modernos, limpos e seguros continua me deixando morta de inveja. Consigo ir para todo lugar sozinha e até agora, não senti nenhuma necessidade de ter um carro. Desde os 18 anos tenho carro, é a primeira vez desde então que fico sem, e confesso que nenhuma falta tem me feito. 


Outra coisa que me deixa, como brasileira, me contorcendo de inveja é a imensa sensação de segurança que temos aqui. Podemos andar para qualquer lugar a qualquer hora sem nenhuma sensação de medo. Para onde vamos, vemos muita gente andando a pé nas ruas e também nos metrôs. Adolescentes e jovens estão em toda parte e andam em absoluta segurança. Crianças pegam metrôs sozinhas. Isso é perfeito, não? O mais interessante disso é que quase não vemos policiamento nas ruas, diferente dos EUA onde morava antes, em que me sentia muito segura porque em todo lugar via policiais (morria de inveja dos bem equipados policiais americanos), aqui nunca os vemos e mesmo assim a segurança é incrível. 

Adoro a beleza do encontro do Tradicional com o Moderno que vemos em Seul. Ao lado de uma linda Pagoda, pode estar um imenso e moderno arranha-céu. Adoro a elegância e beleza sofisticada dos coreanos. Homens e mulheres são estilosos e extremamente fashion, além de muito elegantes. Cabelos lindos e peles maravilhosas. Adoro a comida coreana, e adoro também andar por suas ruas parando pra tomar um café em uma das suas milhares de cafeterias. Adoro o estilo de vida de uma grande capital. 

Mas, como vocês já me conhecem, o que amo mesmo é conhecer pessoas. Adoro conhecer gente. Adoro observar pessoas. Adoro saber o que elas pensam e como se sentem. Simplesmente adoro. Por conta disso, assim que cheguei aqui me matriculei em uma Escola de Inglês em um grupo de conversação, onde todos os meus colegas são estudantes colegiais e universitários coreanos. Eles agora estão de férias e aproveitam o tempo para estudar (como no Brasil, não é?). Quando cheguei lá, todos pensaram que eu fosse uma professora, até hoje eles (os que não são meus colegas) pensam isso.

JOY (Alegria) 
Nesse curso conheci Joy Lee e quero apresentá-la a vocês. Ela tem 21 anos e estuda Turismo com Interpretação em Inglês. Ela é doce e alegre, e é claro que já a estou chamando de minha "filha coreana", ao que ela responde me chamando de "minha mãe brasileira". Aos meus olhos, ela parece ingênua e mais doce e atenciosa, comparada aos jovens da mesma idade no Brasil. Ela tem uma ternura fácil de reconhecer no tom da voz e na forma como segura na minha mão enquanto anda, mas tenho observado que eles são assim. 

Ela me contou que durante todo o seu segundo grau na escola, tinha aulas todos os dias, inclusive aos domingo, de 7:30 da manhã até a meia noite. Apenas aos sábados que as aulas eram de 10 da manhã às 10 da noite. Nunca tinham folgas. Estudar era a obrigação máxima. Eles realmente acreditam que os estudos são a única forma deles terem um bom futuro. Eles acreditam no esforço e na dedicação. Provavelmente seriam vistos como "os otários" no Brasil, país acostumado a acreditar na esperteza e na sorte, e a desmerecer e desqualificar os esforçados. Bom....eles estão no futuro, enquanto o Brasil continua sendo um país do futuro, podemos tirar nossas conclusões sobre quem acertou na forma de caminhar.

Minha amiga coreana me conta muitas coisas sobre seu povo e eu conto sobre o nosso. Ela se encanta com as fotos e filmes que mostro do Brasil e de Salvador. Ouvimos música brasileira juntas e ela me mostra os jovens cantores e artistas de cinema coreanos. Já ouvimos Carlinhos Brown, Gal Costa e Caetano, além claro de vermos juntas muitos vídeos de Ivete Sangalo. Mostrei cenas do carnaval na Bahia e das praias de Salvador. Ela acha tudo muito lindo...e posso entender...de longe e em fotos, somos beleza pura.



Combinamos de estudarmos após as aulas que acontecem pelas manhãs, mas sempre arranjo um jeitinho de apenas papearmos ou darmos uma volta pela cidade, no que ela consente e se diverte, mas ao se despedir de mim, sei que vai para a biblioteca estudar (todos os dias). Eles viveram muitos anos de guerras, invasões, fome e destruição; conseguiram em menos de 50 anos sair da miséria absoluta para a modernidade e excelência em educação, segurança e transporte público. Hoje eles tem empresas que estão no mundo todo, marcas como Hyundai, Kia, LG e Samsung são conhecidas em todo planeta, eles ganham concorrências internacionais e ficam cada vez mais ricos e prósperos. Eles não querem perder tempo, eles querem crescer mais ainda, por isso os jovens estudam muito. 

Hoje, minha amiga Joy teve uma experiência daquelas que nos marcam dolorosamente a fogo para o resto das nossas vidas e tenho certeza de que ela nunca mais na vida a esquecerá. Estávamos em espécie de Mall com várias lojinhas, eu, ela, uma amiga brasileira e mais outras duas meninas coreanas que são nossas colegas também. Éramos cinco mulheres juntas rindo e falando alto (cena fácil de imaginar em qualquer lugar do mundo), quando um homem de meia idade falou alguma coisa com minhas amigas (em coreano), que obviamente não pude entender, mas pude perceber pela mudança da energia delas, que ele as estava recriminando. Soube que ele havia sido rude, reclamando do nosso barulho e mandando-as sair dali. Como boa baiana ( e filha de Jair de Brito) disse pra elas que não iríamos sair, que não estávamos fazendo nada de errado e que tínhamos direito de estar ali. Só depois iria perceber que as tinha colocado em uma situação difícil e inusitada.

Minha amiga ouviu muitas coisas desse homem sem que eu entendesse nada e nem pudesse ajudá-la. Ela sem alterar a voz respondia as suas agressões, em seguida me pedia desculpa muito envergonhada como coreana, pelo ataque deste senhor. Até então eu estava levando a situação na "esculhambação" como é comum para nós brasileiros, mas em algum momento "caiu a ficha" de que a minha amiga estava pela primeira vez na vida enfrentando uma pessoa mais velha que ela. Comecei a entender que aquilo que para mim significava nada, para ela era uma quebra de paradigma. Pude vê-la "plantada"com pernas firmes, olhando nos olhos daquele senhor grosseiro e mal educado, e dizer firmemente que ele não tinha esse direito. Nunca saberei ao certo o que aconteceu entre eles dois, mas vi que minha amiga doce e alegre, de repente se transformou diante dos meus olhos em uma guerreira corajosa e forte.

É claro que minha amiga derramou lágrimas de indignação em seguida.
Me senti completamente solidária e com uma profunda conexão empática com ela, eu queria bater e xingar aquele homem que havia ofendido-a. Reforcei sua luta dando-lhe palavras de encorajamento e é claro, dando uma "descascada" no grosseirão (ensinei alguns palavrões em português também) mas daquele momento em diante, pude ver que JOY, cujo nome significa ALEGRIA (em inglês) e que tem carinha e voz de menina doce,  é na verdade uma linda, nobre e corajosa mulher.

Joy, minha filha coreana
Minha linda Alegria, hoje seu nome foi Coragem.

Obrigada por ter entrado na minha vida!
Você já mora no meu coração.


Ludmila (sua mãe brasileira e orgulhosa)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

UMA SEMANA EM BALI (INDONÉSIA)!

Meus queridos, 

Rompi o ano em Bali!!!
Isso não é mágico? 

Passei os últimos dias de 2011 e os primeiros de 2012 nessa ilha da Indonésia. 
Foram dias encantadores e quentes. É importante dizer que deixei a Coréia com 11 graus negativos e cheguei em Bali com 30. Deixei a neve para um sol tropical. Contarei um pouco dessa viagem com algumas fotos que tirei.

Ao chegarmos em Bali, além do calor, nos deparamos com a estética balinêsa. Muitas cores fortes nos seus tecidos que são famosos pelo mundo e suas esculturas inspiradas no hinduísmo ( a maioria da população de Bali é Hinduísta, embora a Indonésia tenha uma maioria Muçulmana ).


É impossível não ser tomada pelo impulso de sair comprando um monte de coisas que depois você não sabe onde colocar. 

As esculturas são lindas e impactantes. Pra mim que sou apaixonada pelas histórias do hinduísmo, fica difícil não se render a esse impulso. 

Confesso que tive que brigar comigo mesma e me lembrar que moro hoje em um flat e não tenho espaço nem pra minhas coisas, quanto mais pra comprar um monte de coisa em cada viagem que fizer. Fiz um acordo com meu impulso: Em cada viagem só posso comprar uma peça. Comprei uma escultura em madeira do Lord Ganesha, ela agora está na minha sala me olhando enquanto escrevo.


As manifestações religiosas não são tão tocantes como as que vi nas minhas viagens a Índia. Aqui a religiosidades existe, mas tive a impressão que ela não ocupa o mesmo lugar de importância que tem para os indianos, mas nem por isso elas não deixam de ser emocionantes. 

Nessa foto flagrei um momento em que uma família fazia um ritual de agradecimento. Nosso guia nos contou que isso é muito comum. Parecia uma pequena procissão. Eles cantavam mantras e caminharam na direção de um templo sagrado. 


Esses pequenos cestinhos com oferendas estão em todos os lugares. Mas em todos os lugares mesmo. Na porta dos estabelecimentos comerciais, bares, restaurantes, nas praias, nas esquinas, nos hotéis, nas ruas, em todo lugar que eu tenha andado.

As pessoas fazem oferendas o tempo inteiro e invocam aos Deuses, proteção e abundância. Em qualquer lugar por onde andei, vi essas cestinhas com flores, incensos, alimentos cereias e até mesmo cigarros.

Nos templos que estão em qualquer esquina, é possível ver mulheres que passam horas a fio fazendo essas oferendas. 



Esse é um dos prédios de um templo imenso...e lindo....
Saímos da praia e subimos as montanhas de Bali para conhecermos esse templo que mais parece uma cidade, com muitas construções milenares em forma de Pagoda. As maiores pagodas que já vi, estão no Nepal, embora muitos pensem que as Pagodas são um estilo de construção chinês, os nepaleses garantem que sua pagodas são anteriores às da China e que as mais altas estão lá. 

Essas de Bali impressionaram por comporem um complexo que é um templo. Cheias de escadas, que levam pra níveis mais elevados, as pagodas mostram também um aspecto social, que são as castas que dividem a sociedade. 

Esse templo era silencioso..no alto de uma montanha...lugar bom para meditar e vibrar...nos convidava à contemplação, e ao longe eu podia escutar as cantorias de pessoas que ali estavam a rezar.


O caminho da praia mais famosa de Bali passava por uma vegetação abundante. Muito legal sair de uma paisagem de neve, onde o verde se recolheu e as cores oscilam entre o branco e os tons de cinza, para uma floresta verde e vibrante.

Bali é cheia de vida tropical...

Percorremos um caminho tão lindo quanto mágico para chegarmos a Padang-Padang, que me lembrou demais as maravilhosas praias de Itacaré, na Bahia. Na verdade cheguei a pensar que quem conhece Itacaré, não precisa vir para as praias de Bali.



Essa é Padang-Padang.

Linda. Com areias brancas, água morna e transparente, verde para todo lado, e emoldurada por um céu azul perfeito.

Mergulhei nessa praia do Oceano Índico. Fiz meu mergulho de limpeza de final de ano nesse mar.

Ela é uma piscina, com rochas imensas... águas calminhas e quentinhas... Até a mim, que não sou chegada a uma praia (confissão íntima), apesar de amar o mar, essa praia conseguiu seduzir.  


Mais uma foto de Padang-Padang pra aumentar o encantamento e o resto da confissão:

Morei em Salvador na Bahia a maior parte da minha vida, morava em frente ao mar, e ia a praia no máximo uma vez por ano, (normalmente dia 1 de janeiro) ... acho que esse mergulho deve valer por uns dois anos ou mais.

Agora falando sério, sabe o que Padang-Padang ou as praias de Bali tem que as praias do Brasil não tem? Segurança.

Passamos horas nas praias de Bali sem sentir nenhuma espécie de medo ou sensação de insegurança. Deixávamos a bolsa na areia e íamos mergulhar tranquilamente. Nenhum medo, nenhuma ameaça. Isso sim é um paraíso de deixar a gente com inveja e com vergonha. 



É claro que onde existe mar, existe frutos do mar.
Aqui eles tem em abundância. Peixes, lulas, lagostas, camarões, ostras e tudo mais que venha do mar. Pratos maravilhosos são preparados com eles, e essa pessoa aqui que já não gosta de comer (mentirinha), se acabou nesse pratos, ganhando de volta uns poucos quilinhos que eliminei com a saída do Texas.

As preparações são apimentadas. Eles usam muito gengibre e pimenta, com pouquíssimo sal. Sabores que impressionam nosso paladar. 

Essa é uma lagosta assada na brasa, como um churrasco. Incrivelmente deliciosa. 




Já que o assunto agora é esse, vamos partir para a cerveja famosa da Indonésia.

Eu nunca havia ouvido falar dela, mas ao chegar em Bali é impossível não vê-la. Ela está em todos os bares, em camisetas que os turistas australianos vestem, em acessórios dos bares...  everywhere...  pra onde você olhe, tem a marca Bintang na sua cara. Eles são orgulhosos dela, e ficam felizes quando você a solicita, no lugar de qualquer marca de cerveja importada.

Quando for a Bali, não deixe de pedir uma Bintang. Se ela é gostosa? Acho que é.  Bebi algumas, mas no calor, qualquer cerveja gelada me serve, não sou muito exigente.



Saindo da farra das comidas e se tornando a própria comida.
Assim que nos sentimos quando decidimos experimentar virar comida de peixe. 

Em todo lugar de Bali você poderá encontrar esses "aquários" cheios desses peixinhos famintos que comem tudo aquilo que você não tirou com a pedra pomes, ou que por falta de manicures se acumularam nos seus pés (nos meus).  

Gente....vocês não podem imaginar a aflição que isso provoca. Depois de muitos gritos consegui relaxar e deixar os peixes se alimentarem à vontade.

Recomendo essa experiência exótica.


Apresento-vos o LUWAK.

Esse bichinho bonitinho é o famoso Luwak. Pra quem não o conhece, vou contar sua história.
Ele vive perto dos cafezais (aqui em Bali tem muito café), eles comem os grãos de café que caem dos pés. Eles não possuem enzimas capazes de digerir esses grãos. Eles os defecam. Esse cocô famoso, é catado, limpo (assim espero) e torrado, para se transformar no famoso e caríssimo café KOPI LUWAK.
Eu, uma cafeinômana assumidíssima, tomei esse café.
O danado é gostoso mesmo. 
Se forem a Bali, bebam o famoso café Kopi Luwak (que um dia foi defecado), nem que seja pra contar para os amigos, por que é tão caro que não dá pra manter o vício.




Os arrozais da Indonésia são outro ponto de beleza absurda.
Viajar pelos campos e montanhas de Bali é com certeza se deparar com imagens de uma beleza sem tamanho.
O verde é poderoso.... e essas plataformas de arroz que cobrem as montanhas nos colocam em uma cena de filme.

Bali não é uma ilha grande, então quando subimos uma montanha, em algum momento vamos ver o oceano de lá. 

Então tente imaginar montanha, muito verde, essas escadarias de arrozais e o oceano do outro lado... sonho.



Isso é Bali.

Respire bem profundamente e sinta o poder desse lugar.
Bali é linda.
Bali é alegre, animada, religiosa, mundana, colorida, saborosa, cheirosa....
Bali é um lugar lindo, mas em sua história recente, sofreu dois ataques terroristas com bombas.

Você consegue imaginar um lugar assim sendo vítima de um atentado terrorista? Eu não. Nem o povo que mora aqui. Nosso guia nos contando como foi em 2005 quando muitos turistas (principalmente australianos), morreram no atentado, em algum momento ele nos olha e fala incrédulo: "Why Bali? Why Bali?"

Sua indignação não tem resposta.

A única explicação que consigo ter pra mim, é que o ser humano tem uma capacidade absurda de produzir o bem, assim como o mal, e que muitas vezes confundimos um com o outro. 

Meu desejo para 2012 é que eu possa estar mais lúcida a respeito da diferença entre eles dois, e que minhas ações sejam cada vez mais construtivas e menos destrutivas.

Feliz 2012! 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

COMIDA: UMA AVENTURA NA KOREA

Comida preparada da mesa.
 Adoro comer.
Passei dois anos nos EUA fotografando e falando sobre tudo que eu comia, cada restaurante, cada coisa nova, cada fruta regional, cada sanduíche... enfim, adoro comer e acho que essa é uma boa forma de conhecer a cultura de um país que visito. Sempre sou muito curiosa em relação a comidas que não conheço, acho fascinante pensar na história da comida, como aquele povo desenvolveu determinados hábitos alimentares e paladares. Penso também se existe humanos comendo aquilo e tem a mesma fisiologia que eu, posso comer também. Tudo é uma questão de hábito. É claro que posso até comer apenas uma vez, ou posso rejeitar pelo cheiro, mas mesmo assim acho fascinante conhecer. Sou baiana e a minha comida  favorita é  "caruru". Não posso julgar quem se recuse a come-lo por sua aparência. Caruru é feio e delicioso. Parto do principio que se adoro caruru e tem baianos que gostam de sarapatel (feito com tripa de porco), quem sou eu pra julgar cultura dos outros. 

Comida saudável


Passarei um tempo aqui em Seul, capital da Coréia do Sul, e terei um universo imenso e desconhecido de pratos e comidas pra desbravar e compartilhar com vocês.

O curioso em Seoul é perceber que as pessoas são magras na sua imensa maioria. Muito difícil encontrar um Coreano acima do peso. Eles são esbeltos, esguios, muito elegantes mesmo (falarei sobre a questão estética em outro post). Isso é um bom sinal. Podemos supor que eles tem uma alimentação saudável. Eles comem muitos legumes, cogumelos de várias espécies e frutos do mar em abundância.
Coisas estranhas




Essas coisas estranhas sendo vendidas na rua me chocaram um pouco. Demorei alguns instantes para me dar conta de que eram frutos do mar seco. Polvo, lulas, algas, peixes..etc...tudo desidratado. Parece muito popular. Nos remete ao nosso camarão seco.

comida de rua




Existem uma infinidade de pequenos restaurantes nessa área que moro e muitos ambulantes que vendem comidas  em suas barraquinhas que são muito frequentadas apesar do frio. Passo olhando cada uma delas e fotografando, tentando imaginar o que é aquilo que está sendo vendido, uma coisa é certa, tem pimenta. O Coreano ama pimenta. Assim como na Índia que tive que me acostumar com a pimenta, aqui acho que vai ser a mesma coisa. 
O que será meu Deus?

SOJU
Eles bebem SOJU. É a "cachaça" deles. É mais fraca que a nossa cachaça, muito mais fraca que Tequila ou Vodka, ou mesmo que o Sakê. É fraquinha...ou pelo menos parece ser...eles costumam colocar um shot de Soju em um copo de cerveja. Mistura que me pareceu deliciosa e que, só depois entendi, disfarça o Soju, quando percebi já não tinha volta. Fiquei de pilequinho.
O povo adora, mas o que será?











Minha gente...isso é cheiroso!!!
Depois descobri que é lula frita!
Parece que fica crocante e sequinho.
Esse é certo que vou comer.





Duas dificuldades a serem dribladas:

Cardápio com Fotos
 1- Os cardápios são na sua imensa maioria em Coreano e graças a Nossa Senhora Protetora dos famintos, eles tem fotografias, na maioria das vezes escolhemos nossos pratos por elas e contamos com a sorte.



2- Não existem talheres ocidentais nos restaurantes. Eles comem com a maior desenvoltura usando seus chopsticks de metal e nós ficamos no esforço. Nunca tive dificuldade para comer de "pauzinhos" nos restaurantes japoneses que frequentava no Brasil, mas esqueçam, lá a gente usa pauzinhos de madeira, a comida não escorrega, tem atrito. Aqui os "pauzinhos"são de metal como os nossos talheres. A comida escorrega ... damos um show a parte para eles que não entendem a nossa falta de habilidade. Estamos superando. 


Pegando habilidade


Bom....o capítulo "Compra no Supermercado" será provavelmente o seguinte. Não percam. Supermercado é como a Disney. Mil coisinhas para nos divertirmos. Mil letrinhas que parecem desenhos e com instruções de preparo em Coreano também. Uma coisa fofa e divertida.

Até a próxima!

Ludmila

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PRIMEIRA IMPRESSÃO DE SEUL

O Frio
Estou morando em Seul, (ou Seoul - se diz como Soul em Inglês), na Korea e, a partir de hoje começo a compartilhar as minhas impressões com voces.

Pra entender a importancia de Seoul não podemos esquecer que ela renasceu de um pós-guerra que a devastou quase completamente. O país depois de 1950 estava destruído e faminto, depois de anos e anos de guerras que acabaram por dividir o país em dois. Moro na Coréia do Sul, que foi apoiada pelos EUA após a Guerra Fria. Um país pequeno, localizado entre a imensa China e o poderoso Japão. Pra quem nasceu no Brasil ouvindo dizer que nós éramos o país do futuro, começo a me dar conta de que o futuro, de fato chegou para os Coreanos, pra nós acabou sendo um promessa jogada ao vento.

Chegamos em uma noite gelada de começo de inverno. Logo as descer no aeroporto me deparo com a beleza do mesmo...lindo.. imenso e extremamente bem sinalizado e eficiente. Sei por um cartaz luminoso que esse aeroporto foi escolhido como o melhor do mundo entre 1700 aeroportos selecionados. Acreditem, é de impressionar mesmo... mas, ele não dá medo... de tão bem planejado, me deixou segura e com a certeza de que eu estava entrando num mundo "que funciona", que não preciso contar com a sorte. Fiquei tranquila.

Fofinhos
Os meus primeiros dias tem sido de descoberta, muitas descobertas. Começo a reconhecer alguns sons que se repetem nesse idioma impossível. Começo a descobrir as saudações do dia-a-dia. Muito incrível isso. Descubro que não me sinto pressionada a nada aqui. Ninguém pode me cobrar nada, nem mesmo meu ego, porque minha ignorância aqui é um fato, e não um problema, e isso é libertador.

Como um bebê, começo a descobrir como me relacionar com as pessoas e com as coisas nesse país tão diferente.  É uma sensação prazerosa, que me alforria de qualquer cobrança. Muito bom! Sinto que estou liberada pra andar de boca aberta de espanto enquanto olho as coisas..., liberada pra rir de mim mesma quando faço uma "besteira" ... a ignorância total me coloca em um patamar protegido que só as crianças tem direito. Decido fazer um bom uso disso e aventurar... olhar pra tudo com toda curiosidade que tenho direito...e fazer exclamações de espanto sem contenções....e me liberar da vaidade egóica que me cobraria saber o que não sei. Me divirto assim. 

Amanhecer da janela do meu quarto

As primeiras impressões são incríveis. A cidade é enorme, cheia de gente e, o inverno é frio, muito frio. Nosso primeiro dia foi brindado com a primeira neve desse inverno. Em qualquer direção que olho, vejo pessoas andando para lá e para cá. Preciso explicar que a pertinência desse comentário reside no fato de que antes de vir pra cá, estava morando em Houston, cidade grande do Texas, onde é quase impossível ver pessoas andando nas ruas. Elas estão dentro de seus carros. Aqui elas estão em todo lugar, nos carros, em um trânsito pesado, nos trens do metrô, que cobrem 100% da cidade de Seoul, andando nas calçadas e ruas. Adoro isso!!! Adoro ver gente! Posso passar um dia inteiro sentada em algum lugar apenas olhando pessoas passarem..olhando seu andar, suas roupas, seu gestual, suas expressões...realmente adoro, e percebi logo que isso eu terei em abundância aqui. 

Resolvo que sairei a andar livremente pela cidade conhecendo cada cantinho...sem pressa...e com curiosidade infantil. Com a curiosidade daqueles que sabem ver o extraordinário no ordinário. Resolvo que tudo aqui será extraordinário e não é difícil fazer isso. Acho que fiz isso em cada país que visitei...fiz isso nos EUA...farei isso aqui. Está decidido.

Casamento acontecendo em um shopping
O contato físico aqui não vem acompanhado de um "I'm sorry" como nos EUA. Cada pessoa que se esbarra sem querer com a gente não pede desculpa por isso. Percebi que esses dois anos que vivi no Texas já foram suficientes para incorporar esse comportamento, percebi que eu aqui me desculpava o tempo inteiro e que ninguém dava bola para minhas desculpas. Parei com isso. Relaxei. Que coisa boa. Os contatos físicos aqui são menos carregados de tensão. Começo a ver que os namorados se abraçam com carinho e trocam olhares apaixonados em todo lugar. O Coreano é um povo romântico!!! Que coisa linda de ver. Os rapazes carregam as bolsas das namoradas no metrô.

A estética coreana é um capítulo a parte. Cheguei cheia de idéias preconcebidas e de informações equivocadas que caíram por terra rapidinho. As mulheres são simplesmente lindas!! Elas são magras, esbeltas, elegantes e estão bem vestidas o tempo todo. Casacos lindos, botas lindas, cabelos e maquiagem bem feitas....elas são show. Muito difícil encontrar alguém com visual descuidado e relaxado. As pernas que são lindas, sempre estão expostas. Saias curtas o tempo todo. Os jeans e camiseta dos americanos dançaram aqui. Elas usam saias, vestidos com as pernas cobertas por meias pretas que valorizam ainda mais a beleza natural. Elas são realmente lindas e elegantes, e tenho a impressão que elas sabem que a estética oriental está na moda. Elas são sexualizadas e alegres, bem diferente das americana que oscilam entre os extremos da histeria e da assexualidade. Diferente também da erotização comum no Brasil, que beira a deselegância.

Esse país que ressurgiu das cinzas em um pouco mais que 50 anos, pobre e faminto, hoje tem o melhor e mais eficiente sistema de transporte público do mundo. Toda Seoul pode ser visitada de metrô. Eles são bem sinalizados, modernos, seguros e limpos. Andando neles (minha grande paixão no momento) vejo cenas fantásticas. Vejo que as pessoas entram, colocam seus pertences em uma prateleira que tem acima das cabeças e sentam. Passam o trajeto inteiro sem checar se a bolsa ainda está lá. Quando chegam ao destino, levantam, pegam seus pertences e saem. Eu, brasileira assustada, fico tensa, olhando, achando que alguém vai me roubar. Será que um dia me curo desse trauma?

Bonecas do artesanato coreano
 Em uma das minhas andadas fui parada por um grupo de estudantes coreanos para uma entrevista. Educadamente me pediram que perdesse um pouco do meu tempo com eles. Estudavam inglês e tinham como atividade de casa, entrevistar alguém em inglês. Expliquei que meu idioma era o português, mas eles me quiseram mesmo assim. Tive os 15 minutos de contato mais caloroso com estranhos desde que deixei de morar no Brasil. Eles eram doces e educados, perguntavam se eu conhecia alguma marca coreana. Ficaram encantados quando contei que meu último carro era coreano e que havia sido o melhor carro que já tive. Perguntaram se eu já havia andado de metrô e queriam saber como era o sistema de transporte do Brasil. Falamos sobre futebol, sobre a Copa do Mundo...eles só tinham 5 perguntas do homework pra fazer, mas ficamos papeando...e rindo.. eles riam muito de mim e eu deles. Achei isso tão próximo de nós brasileiros. Apaixonei. Despedimos com fotos, em que ficamos corporalmente coladinhos...pude sentir o calor do corpo de uma menina que estava pertinho de mim. Que saudade estava disso depois de dois anos morando nos EUA, onde o espaço físico do outro não deve ser invadido. Fiquei com saudade deles.
Meus entrevistadores

Gente... escrevendo agora, me dou conta que quando comecei esse blog estava percorrendo uma jornada dura, na luta contra o câncer do meu marido, esse blog nasceu como uma terapia para mim na época, todos os posts dessa época falam disso; em seguida a jornada morando nos EUA e tudo que aconteceu comigo lá..... e agora percebo que mais uma jornada começa aqui, em Seul na Coréia do Sul... Quero dizer que conto com a companhia de vocês e adoro quando vocês me escrevem e comentam o post. Ficarei contando e refletindo aqui nesse espaço sobre as minhas experiências nesse tempo meu que começa agora. No fim do ano estarei em Bali para o reveillon, e contarei pra vocês como é esse lugar mágico que jamais sonhei conhecer.... e já tenho outras viagens agendadas para logo mais aqui na Ásia.

Conto com a companhia fiel de voces.
Escrevam, comentem...me contem como estão sendo tocados pelo meu blog. Eu agradeço.

Beijos


Ludmila Rohr

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

CONFESSO QUE VIVI

Hoje foi meu último dia em Houston, estou mudando para Seul na Coréia.

Dois anos atrás eu chegava em Houston no Texas e me descobria apaixonada por aquela que seria minha casa por esse período. Houston é organizada, moderna, bela, limpa e fácil de se locomover. Adorei me perder e me achar nessa cidade imensa e cheia de viadutos e highways. É certo que nesses dois anos também fiz várias viagens ao Brasil, várias aqui dentro dos EUA e até a Europa. Foram 2 anos de muitas milhas de vôos, de descobertas de novos lugares, novas pessoas, novas paisagens e principalmente, foi um tempo de me descobrir capaz de viver em outras culturas e de sentir que posso estar e ser feliz independente do lugar.

Esse foi um tempo muito excitante para essa capricorniana que adorava uma rotina. Vivi na prática aquilo que sempre soube, que minha estabilidade, de verdade, é interna. Gostei imensamente disso. Me dou conta de uma sensação inebriante de liberdade no meu corpo e na minha alma quando penso nisso! Nunca me senti tão livre e tão expandida. A liberdade que vem do desapego e da meditação ( e como meditei nesses dois anos!!). A liberdade que nasce do aprendizado e da resignificação de muitas coisas. A liberdade que vem de uma nova ordem de prioridades e da certeza que tenho que não preciso manter na minha vida nada que me impeça de crescer e de ser feliz.

Meu trabalho que antes era focado no consultório, teve que ganhar asas, tive que ser criativa e inventar uma nova firma de trabalhar. Criei um site sobre Sexualidade Feminina e escrevi um livro, além dos grupos de Respiração e Círculo das Deusas que fiz aqui em Houston que me alimentaram profundamente. Descobri que a forma e o lugar é o que menos interessa, que independente de onde eu esteja sempre terei algo para dar e muito para receber. Estou em paz com isso. Posso trabalhar em qualquer lugar e tenho certeza de que posso criar novas formas de fazer isso.

Minha família sofreu muitas mudanças. Caio, meu filho mais velho, ficou no Brasil....isso é o motivo de muita saudade no meu coração, mas nunca achei que algo estivesse errado, ele está seguindo com a vida dele, e isso é perfeito. Tenho confiança absoluta na sua capacidade de encarar o mundo. Ele é lindo, maduro, emocionalmente estável e consistente. Lucas, meu caçula, que veio conosco, está tendo a chance de estudar em uma universidade americana, com nossa ida, vai ter a chance de morar só e de cuidar da vida dele. Isso não é incrível? Quem não gostaria de ter uma chance dessa? Eu gostaria. Apesar da saudade, fico feliz e em paz com esses arranjos que a vida fez. Meus filhos são pessoas muito interessantes e são pessoas melhores que eu. 

Quando sai do Brasil não só deixei minha cidade, minha família e meu trabalho, deixei também amigos queridos. Nunca achei que teria problemas em fazer amigos, principalmente porque sei que amizade consiste em troca, em dar e receber, e como sou disponível para dar e aberta para receber, sempre penso que farei amigos em qualquer lugar. Mas essa estadia em Houston me possibilitou não apenas fazer amigos, mas ter encontros de alma, conheci pessoas que entraram na minha alma e deixaram marcas profundas, daquelas que o tempo não apagará. Pessoas incríveis que só posso concluir que minha alma mereceu encontra-las. Falarei delas em outro post, mas tenho certeza de que elas sabem dessa conexão que me refiro. Obrigada amigas serei grata por toda a vida, e tenham certeza de que gratidão é um dos sentimentos que mais adoro sentir! 
O Mundo é o meu lugar

Não seria capaz em apenas um post de dizer tudo que vivi e aprendi sobre mim e sobre a vida nesses dois anos. Anos que foram intensos com seus ganhos e perdas, e como sempre desejei estar inteira nas minhas experiências, como sempre quis vivê-las com intensidade e nunca pela metade, posso desde já afirmar que meus desejos foram atendidos.

Plagiando Neruda posso dizer: Confesso que vivi.

...e que venha TUDO que a VIDA preparou pra mim!!!

Coréia estou chegando!!

Ludmila Rohr