segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Parabéns meu amor!



Gosto de contar a história de como conheci Judson. Acho linda a nossa história. Acreditem, mas desde pequena eu sonhava com ele.


Não sabia que era ele, mas eu sonhava com o cara que eu amaria e que me amaria muito.


Eu sonhava com a aparencia dele. Nos meus sonhos, o meu amor era um homem magro, usava óculos, era louro de olhos claros...eu via Judson. Eu sabia que o encontraria em algum momento.


Quando meu pai comprou o apartamento, onde ele mora até hoje, eu pensei que seria lá que eu o encontraria. Lembro de olhar a lista com o nome dos proprietários e tentar imaginar em que apartamento ele estaria morando.


Quando nos mudamos, logo no primeiro dia de mudança, lembro que eu e minha irmã arrumávamos nosso quarto e resolvemos descer pra piscina...era final de tarde...quando caminhávamos pra piscina....eu o vi....ele vinha caminhando....eu o reconheci!


Eu disse pra minha irmã: "Vou casar com esse cara!"...ela riu, nós rimos...


Um mês depois nós namorávamos...dois anos depois, nós estávamos casados...


Casamos no dia 14 de dezembro de 1985...eu tinha 21 anos...e nós nos amávamos muito!


Caio nasceu em 88, Lucas em 90...e completávamos nossa família.


Eu sou uma pessoa com muitas certezas...pelo menos era. Não as tenho mais. Muitas certezas se foram, mas o amor de Judson por mim sempre foi uma certeza imensa. Quando descobrimos em 2008 que ele estava com câncer, comecei a viver dentro de uma perspectiva nunca antes pensada...Nunca imaginei minha vida sem Judson. Nunca passou pela minha cabeça que eu não fosse envelhecer ao lado dele. Sempre achei que ele estaria me amando por toda a minha vida!


Ele cantava isso pra mim: Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida...eu vou te amar!
Eu acreditava nisso...mas nunca pensei que ele podia não estar por toda a minha vida.


Sou egoísta. Adoro ser amada por ele. Temos um casamento legal. Temos vidas independentes. Somos muito diferentes, mas nos amamos muito.


Judson é um pai preocupado, um filho atencioso, um genro muito querido.


A luta dele contra o câncer tem sido um grande exemplo...se eu o admirava antes, agora, o admiro infinitamente mais. Ele foi corajoso, ele enfrentou tratamentos dolorosos com tanta dignidade. Ele nunca reclamou de nada. Ele fazia o que devia ser feito. Ele foi focado, determinado...eu só o acompanhava. Ele não se identificou com a doença. Ele tentou ser durante todo o tempo, ele mesmo, e não um paciente de câncer. A descoberta da metástase trouxe medo e mais dores, cirurgia, tratamentos, mais químios...ele continuou forte...mas, ele chorou...O incrível, é que eu sempre reclamava dele nunca chorar. Nos anos todos que estivemos juntos, nunca o vi chorar! Achava isso um problema. Como alguém viver sem chorar? mas.. com a metástase no fígado, ele chorou...nós choramos juntos...abraçadinhos...nos sentimos tão ameaçados nos nossos sonhos...tudo parecia tão assutador...




Há um mês o tratamento acabou...ele fará controle por muito tempo. O fantasma dessa doença ainda nos perseguirá, mas ele não parou...mesmo em tratamento ele não se vitimizou, trabalhava quase normalmente e se transferiu para os EUA. Apostou em novos projetos...acreditou na vida!



Quero falar sobre Judson hoje. É o aniversário dele. Ele faz 50 anos!


Ele está longe de mim agora. Ele está em Houston, no Texas...onde estaremos morando a partir de dezembro. Ele está iniciando um novo período da sua carreira profissional, e está nos esperando lá.


Fico muito triste de não estarmos juntos nesse aniversário que por si só, já é muito especial, 5 décadas!! e ainda mais depois de tudo que passamos...vamos comemorar atrasados...dia 29 estarei chegando lá...vamos escolher juntos nossa nova casa...onde moraremos nesse novo momento das nossas vidas.




Parabéns meu amor!
Feliz aniversário!
Voce sabe que eu te amo muito!


Que voce tenha muitos anos de vida...e, ao meu lado!

Ludmila

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dançando....mudando...libertando....


Sou capricorniana. Sempre tive muitas metas, e nunca tive medo delas. Metas ambiciosas para alguns, mas não para mim, sempre achei que o que eu de verdade quisesse, eu poderia alcançar.

Fiz isso com muitas coisas que desejei. Não temia as experiencias, não temia o fracasso...nem o sucesso. Por incrível que pareça às vezes até temia o sucesso. Estranho mais é verdade!


Cheguei numa idade que eu amo! Farei 46 anos! Me sinto madura, adulta e cada dia mais livre. Cada dia mais livre de mim mesma! Isso é que é legal! Não tive pais repressores...e nem posso culpar ninguém por nada que eu não tenha feito...se houve algo que deixei pra trás, foi fruto de mim mesma...o freio estava em mim!


Estou para viver uma grande mudança da minha vida! Viverei a partir de dezembro por algum tempo nos EUA. Vamos a família toda! Judson já está lá. Tudo indica que em dezembro estarei também. Penso em estudar, penso em trabalhar...me pego com tantos desejos...Não sinto medo. Sinto uma excitação grande quando penso nessa mudança.


A medida que as pessoas que me conhecem vão sabendo disso, ficam espantadas. Como posso deixar o Espaço Mahatma Gandhi (http://www.mahatmagandhi.com.br/)? Como posso deixar pra trás as coisas que plantei aqui? Clientes, alunos..casa...amigos...?? Não sinto que deixo nada pra trás...mas sinto que a vida faz essas coisas...e nós temos que escutar e sentir esses movimentos..


Depois de ter enfrentado, ao lado do meu marido, um câncer durante esses dois anos, sinto que me liberei de muitas coisas...se já me sentia uma pessoa livre...agora me sinto mais ainda...; se já não tinha muitos medos, agora então...Essa doença, me ajudou a perder algumas ilusões...de segurança e estabilidade...se a impermanência já era um tema pra mim, agora virou uma verdade!!!


Em setembro viajei pra Europa, estava na Alemanha, quando me percebi estava apaixonada pela ordem de lá, tudo funcionava, tudo era tão perfeito...depois de alguns dias, aquela perfeição começou a me incomodar...não é possível pra mim que a vida esteja tão sob controle como eles tentam mostrar, ou até mesmo acreditar!! Procurava o caos naquela ordem e não achava.


Um dia, estava em Köln, cidade linda, em frente a famosa catedral, lugar muito lindo...muitos turistas...todos muito educados, nenhuma bagunça...tudo limpo...tudo em ordem...escuto um som jamaicano. Era um artista de rua, um homem negro, jamaicano, cantando Bob Marley..as pessoas escutavam..colocavam moedinhas..e continuavam a andar...ele tocava e cantava...


Nesse momento, eu vi o caos!

Onde estava a expressão? O que aquelas pessoas sentiam? Não é possível que aquilo não provocasse nenhuma reação. Elas estavam gostando..por que colocavam moedinhas...mas onde estava o corpo delas? porque elas não expressavam nada?


Aquilo me incomodou...eu não queria aquilo pra mim..foi tão simbólico...algo se descortinou diante dos meus olhos...então, comecei a dançar!!! Eu dançava sozinha no meio da rua!!!


Don't worry about the things...cause every little things is gonna be all right! ...e eu dançava!

No woman no cry....e eu dançava....dançava sozinha...no meio da rua!!!


O jamaicano adorou! acho que ele se deu conta da solidão dele naquele momento...

As pessoas na rua reagiam de forma diferente...algumas tiravam fotos....outras olhavam com espanto..e outras nem viam! Eu não estava nem aí...vi isso, depois nas fotos que minha mãe tirava...acho que ela se espantou também! acho que ela desejou fazer aquilo também!

Eu dancei no meio da rua em meio àquela "ordem" toda! Parecia que eu de alguma forma, quebrava aquela ordem aparente...balançava a estrutura...trazia vida àquele lugar!


Uma energia enorme tomou conta de mim! Senti em todo meu corpo a liberdade possível! Entendi no meu corpo porque muitos Deuses indianos são representados dançando!!

Senti que o que me aprisiona, é aquilo que eu quero e deixo que me aprisione...

Nenhum olhar pode me aprisionar.


Ninguém pode aprisionar minha alma, assim como ninguém pode libertá-la!


Ludmila Rohr



domingo, 11 de outubro de 2009

Símbolo de Poder e Liberdade!


Terei que dar uma pausa no tema da sexualidade que vinha desenvolvendo, mas ele voltárá logo. Não se preocupem. Mas, preciso fazer isso, porque nesse instante conversando com uma amiga no msn...nem me lembro como o assunto começou, mas de repente estávamos falando sobre o simbolismo dos cabelos, sobre nossa visão a respeito de "cabelo"!


Bom, meu filme preferido de toda a vida, chama-se "Hair", já o assisti umas mil vezes. Ele tem tudo a ver com uma época da minha vida, mas que não fica pra trás nunca..sempre me acompanha.


Semana passada, meu filho Lucas que tinha os cabelos muito longos (na cintura), resolveu raspá-los. Acho que ele começou a se sentir preso a uma imagem. Não interfiro nisso, mas me deu uma dor vê-lo raspando a cabeça. Ele tá lindo sem eles também, e acho que foi um momento de ruptura importante pra ele..sinto que é como se ele dissesse que não precisa dos cabelos pra se conectar com o poder dele. Que ele se basta.


Tenho lidado nesses últimos 2 anos, por conta do câncer do meu marido, com pessoas que perderam os cabelos por causa da químio...tenho visto como para a grande maioria é uma grande dor.


Meus cabelos são longos e cacheados....digo sempre que sou uma espécie em extinção...que em algum momento irão me fotografar pra provar que existiam mulheres que tinham cabelos cacheados. As mulheres hoje são todas iguais com seus cabelos lisos.


Sempre que vou ao salão alguém me pergunta se não quero defrizá-lo, ou fazer uma escova progressiva, japonesa...afe...nem sei mais os nomes. Sempre respondo com uma pergunta: Voce por acaso está com medo dos meus cabelos? Porque eu não tenho.


Em uma passagem de Hair, um personagem confronta a mãe indignada que o cabelo dele, com a seguinte pergunta: Maria aceitava os cabelos longos de Jesus, por que voce não aceita os meus?


Os cabelos estão ligados a muitas tradições espirituais. Os Sikhs na Índia não cortam o cabelo nunca durante toda a vida. Jesus, Budha, Khrisna, metres, gurus, rishis....todos tem cabelos longos... até quando alguém tenta transformar Deus em um homem, esse homem é personificado com cabelos e barbas longas. Todos conhecem a história de Sansão que perdeu a força quando cortou os cabelos. Raspar a cabeça em várias culturas, tem o significado de sacrifício, de abnegação, ou de ritos de passagem.


Mas, os meus cabelos cacheados mexem com as pessoas não porque são longos, mas porque os deixo naturais, como eles são. Domar, controlar, conter, reduzir, desbastar..são verbos usados quando querem me propor algo. Dai eu penso: Será que eles tão falando mesmo do meu cabelo? Qual a fantasia de ameaça que ele produz que precisa de tanta contenção?


Cabelos são incontroláveis. Eles tem vida própria, e humor também. Eles se rebelam e fazem não o que queremos, mas o que eles querem. Eles representam pra mim, um poder que vem de dentro de mim. Poder que só posso ter, quando me rendo a ele. Estar rendida à minha natureza, é assumir o meu poder. Não quero nada me controlando, nem me domando, muito menos me reduzindo...quero expansão, quero apropriação, quero todo poder que meu corpo tem pra me dar.


Assim como eu sempre achei que meus partos naturais, me levaram a uma conexão profunda com algo da minha natureza animal, meus cabelos também me levam a isso.


Não existem cabelos feios. Existem cabelos mal cuidados, ou mal entendidos.
As pessoas não são iguais, então porque querem cabelos iguais?
Chris Rock, comediante americano, e negro, fez um documentário sobre cabelos, e a grande pergunta dele, era por que as pessoas queria ficar iguais a todas as outras? Com uma imagem homogênea e pasteurizada?


Bom...nada contra a absolutamente nada que as pessoas façam ou queiram fazer pra se sentirem melhor, ou mais belas, mas...meus cabelos continuarão aqui, enquanto for do meu desejo...e serão (pra mim) um símbolo do meu poder e liberdade! E recomendo que assistam Hair, se ainda não o assistiram. É um lindo filme!
Ludmila
P.S. Na foto com Lucas, antes de abrir mão dos cabelos, vendo por-do-sol no Farol da Barra.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sexualizando....

Quero continuar a refletir sobre desejo.

Quero também deixar claro que quando falo de desejo, não faço nenhuma referencia direta, ao desejo sexual, embora toda energia que move os desejos, sejam energias de natureza sexual, mas não no sentido genital!
Quando pensamos em sexualidade, somos levados imediatamente a pensar em genitalidade, em ato sexual, ou mesmo em desejos sexuais, fantasias...e por aí vai..


Sexualidade é muito mais que isso! A nossa sexualidade ultrapassa os limites das nossas zonas erógenas e alcança todo o nosso corpo; ultrapassa os limites do corpo e avança na nossa alma, na nossa áura, e na nossa mente... a nossa sexualidade é a porta de acesso ao nosso espírito!


Essa energia é tão poderosa que tem o poder de nos conectar com o que existe de mais mundano, mas também com o que existe de mais sagrado! Os indianos chamam de Kundalini...a energia da vida..que nos leva em direção aos desejos e/ou à sabedoria e conhecimento. A tradição indiana milenar, conseguiu, ao contrário da nossa, unir o mundano ao sagrado...o sexo é visto como sagrado. A união de corpos e o orgasmo são visto como um momento que imita a criação do universo, como o momento em que mais estaríamos próximos de Deus.


Conheci na Índia inúmeros templos que são adornados por imagens de atos sexuais explícitos. Muitos Deuses e Deusas são representados com seus genitais expostos, com seios fartos. Conheci templos onde no centro estavam a figura do Linga (pênis), e Ione (vagina). Eles nos colocam em choque com as nossas imagens santas, com seus corpos cobertos e negados.


Digo com muita convicção que precisamos sexualizar a vida. Se queremos uma vida intensa e prazerosa, precisamos buscar as sensações das coisas, sair de um estado de anestesia que normalmente se vive e buscar SENTIR. Entretanto, devemos fazer isso desapegadamente. Precisamos estar abertos e inteiros no contato com nossas sensações e sentimentos, mas precisamos nos desapegar..deixar passar...não tentar retê-los por mais tempo que o necessário.. por que dái vem o sofrimento.


Tenho visto durante esses anos que lido com pessoas, que elas foram aos poucos e por conta da dores da vida, se anestesiando! Tentando fugir das dores, e por acreditarem que podiam selecionar o que não queriam sentir...foram aos poucos ficando cada vez mais distantes de suas almas..Não se pode dizer pra alma que não quer sentir mais dor. Quando se diz isso... a alma entende, que voce não quer mais SENTIR....e aos poucos...voce vai passando a não sentir nada! A alma vai adormecendo..e passa a ter medo de qualquer coisa que ameace essa falsa estabilidade, que mais se parece com a MORTE do que com a VIDA.


Tenho visto também, como a sexualidade e o desejo ficaram reduzidos à genitalidade, e como foram associados apenas aos prazeres momentâneos e carnais (que são deliciosos), mas é como se voce pudesse ter e viver algo muito especial e mágico, e escolhesse ficar apenas com a parte menor que aquilo pode oferecer.


Bom...esse é um assunto vasto e profundo..e não quero ser leviana...vamos andando..vamos caminhando com ele. Participem....escrevam seus pontos de vista, façam seus comentários..indiquem para outras pessoas...vamos movimentar essa energia!


Ludmila Rohr



domingo, 4 de outubro de 2009

Desejando............sem culpa?

Tenho uma amiga virtual linda. Torço pra que um dia possa abraçá-la de verdade. Ela é uma guerreira na luta contra o câncer. Ele me chama de Diva! Acho que temos uma afinidade intelectual..de almas..e de desejos...guardando as devidas proproções da idade..ela é uma jovem e linda mulher e eu sou uma linda mulher! Já vivi muito mais que ela...mas a admiro muito.


Bom...um dia após muita conversa, filosofando sobre a vida.e principalmente sobre o Amor e Desejo...questionando o quanto vale a pena adiar a vivencia desses amores e desejos...falamos sobre ousadia, liberdade...sobre Ser Mulher...sobre se apropriar do nosso corpo e dos nossos desejos... sobre o quanto tememos os nossos próprios desejos...e sobre muitas outras variações do mesmo tema...



Devo dizer que posso passar horas conversando sobre esses temas femininos com mulheres interessantes e questionadoras. Adoro mulheres que ousam questionar o poder patriarcal e não aceitam os comportamentos misóginos.. adoro conversar com mulheres que reconhecem o seu poder, ou o buscam!! Poderia fazer workshops e palestras infindáveis sobre isso! A "mulher" é o meu tema preferido!! Sempre me apaixono e tenho energia quando o tema é esse! Não sou feminista...não acho que os homens são inferiores, nem nada parecido...mas acho que os homens são mais monótonos, monocromáticos...tem menos apelo pra minha alma de terapeuta e de escritora...


Sou casada e tenho dois filhos homens...adoro eles..acho os homens lindos e não quero fazer nenhum manifesto pró-mulheres..só quero falar da minha paixão pelo tema feminino! Até nesse blog, tenho escrito muito sobre esse tema.



Bom..minha amiga me perguntou se é possível viver assumindo os desejos e sem culpa? Pergunta difícil né? Acho que nem vou conseguir responder só nessa postagem...voces terão que me acompanhar alguns dias até que eu possa organizar isso no meu corpo e mente.



O que me vem em primeiro lugar é uma pergunta: por que colocamos essa condição para viver o desejo? Porque ele precisa vir sem um preço? não podemos pagar esse preço? e se a culpa for nossa companheira, não podemos lidar com ela? Será que se o desejo for bom mesmo, não valeria a pena pagar um preço por ele, seja ele qual for?



Depois eu começo a pensar se existe vida sem culpa. Não sei...acho que não. A culpa é uma nuance da nossa alma, em algum nível, penso que a sentiremos sim.


Em seguida me pergunto: mas porque culpa associada a desejo? Estaríamos traindo que ordem? Estariamos quebrando algum paradigma? Estariamos provocando alguma ruptura profunda na humanidade ou mesmo nas famílias, se assumimos os nossos desejos? Por que os nossos desejos assustam tanto os homens, as famílias...e até as própria mulheres?


Outra coisa: Precisamos realizar todos os desejos? ou precisamos pelo menos assumir todos eles? Tomar consciencia dos meus desejos já não seria uma grande conquista? Por que algumas mulheres não querem nem pensar nos próprios desejos? não querem nem saber! Temem que apenas por os tornarem conscientes, a vida fique insustentável após isso.


Culpa está associado a erro. O desejo feminino na cultura cristã está associado a um grande erro. A primeira mulher que desejou, foi culpada e punida. Nascemos com essa imagem atávica impregnada nas nossas mentes e corpos...


Não concluirei nada nessa postagem..e talvez em nenhuma outra..mas prometo que voltarei a esse tema, logo...hoje só quero levantar essa questão..


Quem puder e quiser..comente essa postagem...seguirei com esse tema outras vezes...repassem pra outras mulheres...vamos tentar enriquecer esse debate!


Mulheres, desejem!!!


Beijos


Ludmila Rohr

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ME TRAINDO....



Desde que lembro de mim, questiono as coisas. Desde que lembro de mim, penso que as coisas são mais do que aparentam, e que elas significam algo mais do que a primeira vista revelam.


Acho que fui uma criança sem graça e uma adolescente chata...não lembro de mim sendo superficial nas coisas... até queria ser, mas não conseguia. Isso, aos 45 anos pode parecer algo cult, legal...mas aos 13 era uma tortura, aos 18 era um saco..Bom...fui assim. Fui velha antes de ser nova! Assim são os capricornianos. Eles ficam jovens com o passar do tempo.


Já tem tempo que me sinto jovem...muitos anos atrás comecei a ficar jovem.


Entendi que se quisesse ser fiel a mim mesma, teria que me trair!


Essa foi uma compreensão libertadora.


Compreendi que não precisava ser fiel à Ludmila de ontem, nem ao que a minha história havia escrito pra mim. Descobri que podia trair essas perspectivas e prognósticos, podia fazer tudo diferente. Podia trair pensamentos, crenças...podia trair até idéias, até mesmo minhas próprias opiniões.


Eu me liberei de uma imagem de Ludmila, e comecei a ser a Ludmila que posso ser hoje. A Ludmila que posso ser a cada dia.


Quando experiemnto posições novas diante da vida..me experiemento! Descubro que posso ser mais essa, além daquela!

Não quero conclusões mais. Eu conclui que não preciso concluir muito as coisas..nem ter grandes certezas a respeito de nada!


Alguém que me lê agora, já comprou um perfume achando delicioso e depois descobriu que não era tanto assim? Ou que havia afirmado alguma coisa, que não merecia tanta defesa assim? pois é.
Posso me contradizer, por que sou muitas. Não sou uma só.


E pra que eu seja fiel às muitas que sou, preciso me trair também.


Posso mudar, porque sou uma pessoa que busca a liberdade...e tenho uma impressão (hoje) que a liberdade não está nas certezas.
Namastê
Ludmila Rohr

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Despedida do Coração do Ventre!



Meu útero tá indo embora...vou operar hoje e o retirarei de mim...


Fiquei pensando que isso poderia vir com um grande pesar..mas não tá sendo assim...


Conheço o significado simbólico do útero de uma mulher....ele é o "coração do ventre"! Assim sempre o senti. O meu útero sempre foi uma espécie de coração...um coração que estava nas minhas entranhas...no meu âmago. Sentia uma espécie de poder emanando dele.


Conheço as energias que são mobilizadas no meu ventre..conheço os chakras e o corpo de luz que tenho..
Por isso...por saber tanto de outros aspectos do meu útero, até pensei que ía ficar triste ou com uma sensação de perda..sei lá...mas não estou.
Consigo me despedir com muita gratidão dele. Sem apegos.

Ele abrigou meus dois grandes amores. Meu útero foi tão generoso comigo que além de acolher tão bem Caio e Lucas, de forma tão protetora e sem intercorrencias...ele se abriu completamente para que eles saissem sem me causar sofrimento. Meus partos foram partos de um útero generoso e poderoso. Ele se dilatava completamente sem que eu me esforçasse...sem que eu precisasse passar por qualquer tipo de dor...abria caminho pra que meus filhos simplesmente viessem à vida.
A sensação de estar grávida..indescritível...me sentia como o centro do Universo..Meu útero era o centro do universo! Era lindo, mágico, poderoso...sentia como uma Deusa que gera a vida!
Lembro muito bem da imensa sensação de poder que tive quando senti meu útero contraindo para me ajudar a parir. Eu fiquei fascinada com aquela força animal que meu útero tinha, e que acontecia independente da minha vontade..eu só tinha que obedecê-la...seguir esse poder...assumir como meu! Era meu poder. Tive certeza disso. E quando meu primeiro filho nasceu desse útero poderoso..me senti muito poderosa...gostei muito de mim, pois percebi que eu não tive medo da minha natureza selvagem...não tive medo desse poder e que me entreguei a ele!


Disse pra mim mesma depois do parto: "Se posso isso, posso qualquer coisa!"

Sou grata ao meu útero por isso. Uma grande parte do meu poder, é um poder uterino, é visceral!!!

E mais ainda...

Adorava minhas mentruações...adorava menstruar...eu sempre tive um pré-mentrual tão doloroso, que a menstruação parecia um prêmio...era como se meu útero liberasse numa explosão, todas as tensões de um mês inteiro...era um alívio. Foi assim desde a 1ª vez que menstruei. Menstruar significava liberação...alívio..relaxamento...Me sentia profundamente conectada com a Deusa Ártemis que me revelava todo o poder animal/instintivo que existia em mim. Era um contato com uma fera poderosa que habitava meu corpo.


Não sinto abrindo mão de meu poder, nem o perdendo porque meu útero vai embora...sinto que sou grata e feliz por ter vivido toda essa conexão.

Como posso nesse momento me apegar a ele. Sinto gratidão..sinto muita gratidão.


Vou operar..ele será retirado de mim, mas as histórias e a energia que esse coração das entranhas mobilizou e ainda mobiliza na minha vida continuarão...
Me interno hoje e volto domingo...sem ele..mas muito grata por ele ter existido na minha vida quando eu precisei.



Namastê





Ludmila Rohr

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Notícias e um tempo para a alma...


Foi assim...

Fomos a São Paulo. Estivemos com a médica que tratou Judson do 1º câncer e com o médico que o operou da metástase, Dra. Angelita Habr-Gama e Dr. Joaquim Gama. Eles são muito bons. Nos oferecem um tratamento absolutamente digno. Nos sentimos respeitados e atendidos com eficiencia. É muito fácil confiar no que eles dizem, eles passam tranquilidade e segurança no que estão fazendo. São além de médicos, pesquisadores, cientistas. Em nenhum momento nesse 1,5 ano senti nenhum tipo de insegurança com eles, ou a respeito deles e do que eles nos propunham em termos de tratamento.

Enretanto, essas consultas envolvem muita tensão, muita expectativa. Estávamos ansiosos por esse dia, mas ao mesmo tempo sem querer vivê-lo, porque o que queremos é apenas uma coisa. Não existe algo mais ou menos, ou próximo do que desejamos que nos satisfaça. Não há alternativa que nos dê satisfação, a não ser uma: Saber que tudo deu certo.

Deu certo.

Judson é considerado a partir de hoje por eles como um paciente em controle.
Ele fará, durante um ano, revisões de 3 em 3 mêses, que passarão em seguida para de 6 em 6 mêses...e ...enfim..continuarão tendo seus espaços dilatados até completarem 5 anos, quando o paciente de câncer é considerado em remissão.

Não se fala em cura, mas em remissão.

Tenho me perguntado quais os sentimentos? O que tenho sentido nesse momento?

Não sei.

Às vezes um alívio..porém, às vezes me pego tensa como se ainda tivesse que viver uma próxima quimio na semana seguinte...às vezes nem lembro que tivemos um notícia boa assim...de verdade ainda não consegui ficar alegre. Queria tanto...mas acho que minha alma tá assustada ainda...assim meio desconfiada...sabe como alguém que esteve na prisão e que não confia muito na liberdade? Parece que uma parte da minha alma, da minha energia...da minha vida..esteve aprisonada..e agora tem que se acostumar com o brilho do sol..com o vento no rosto...com a vida!

Já me peguei desejando mais uma quimio...só mais uma, por favor! Como se ela fosse me salvar de algo...já refiz as contas das quimios...fico achando que a clínica contou errado e ainda falta uma...! ai..e se eles estiverem errados? e se ainda faltar uma?

Bom...acredito na cura da alma, sou terapeuta..cuido de almas feridas. Mas acredito que o tempo da alma é um tempo próprio...e que talvez a alma demore mais a se curar que o corpo.

Minha alma vai se curar, mas preciso de um tempo....

Sou grata a vibração e companhia, que recebemos, durante todo esse tempo, de todos!

Namastê!

Ludmila Rohr


domingo, 13 de setembro de 2009

A última!


Estamos vivendo um momento de uma enorme contradição. A alma dividida entre a alegria e alívio e o medo...uma desconfiança.
Judson fez o último ciclo de quimioterapia. A sensação que tenho é que esse ciclo foi o pior de todos. Muita prostração, enjôos, fraqueza, muitas dores...inapetencia..simplesmente horrível..
É tão ruim que não conseguimos ainda nos dar conta de que é o ultimo ciclo!!
ou talvez seja tão ruim exatamente por que é o último ciclo!

Bom..Já vivemos esse momento no ano passado. Fizemos a última quimio e celebramos muito. Jantamos, brindamos, viajamos..., mas o câncer apareceu outra vez e nos assustou muito. Talvêz estejamos com medo de celebrar...

Essa é uma doença que não machuca só o corpo, e não machuca só aquele que ela acomete...ela machuca a alma, e a todos que estão por perto. O câncer modifica a nossa relação inteira com a vida. As nossas prioridades se transformam..os apegos precisam ser trabalhados...muitas coisas ficam pra trás..outras ganham importancia...

Não farei ainda uma avaliação do que o câncer me tirou, nem do que ele me trouxe...ainda é cedo pra isso..., mas quero hoje apenas sentir que vencemos uma etapa importante. Quero abrir meu coração e agradecer à vida por estarmos aqui, juntos nessa luta que não escolhemos lutar, mas que estamos conseguindo lutar...batalhas duras, dolorosas...muito dolorosas..

Quero poder sentir alegria, mas não é uma alegria muito simples de ser sentida, pois Judson está muito mal, enquanto eu escrevo sobre esse momento...ele está há 5 dias sem praticamente comer nada, com muitas dores que o impossibilitam de sair da cama, com perda de sensibilidade nas pernas e mãos, enjôos, prostração...mas, ele conseguiu!

Não sei se sinto alegria ainda, mas sinto um orgulho enorme! Ele é o meu marido..o meu amor..o pai dos meus filhos..e é um guerreiro...que nunca se queixou de nada esse tempo todo...NUNCA e NADA! Nunca se queixou de nada!!! é verdade! Ele foi sempre corajoso, quieto nas suas dores e nos seus medos..mas sempre corajoso e focado. Estamos nessa luta há 17 mêses...e ele é um vencedor.

Ainda não consigo ficar alegre..mas consigo sentir um orgulho muito grande. Uma sensação de missão cumprida...de que a maratona está no fim...ainda não dá pra celebrar, por que estamos exaustos, mas dá pra sentir que conseguimos...e isso é tudo nesse momento.

Namastê

Ludmila Rohr

domingo, 6 de setembro de 2009

Não gosto de praia...adoro o mar!


Nasci em Salvador...em frente a praia. Praia sempre foi o programa de todo mundo que nasce e cresce em Salvador. Demorei algum tempo pra descobrir que detesto praia. Detesto tudo que envolve esse ritual de ir à praia, biquine, protetor (antes era bronzeador), sacola, sombreiro, cerveja..carangueijo...acarajé...calor, areia....afe...simplesmente detesto...


Quando Caio e Lucas eram pequenos, eu os levava à praia..toda mãe faz isso. Eles brincavam de castelo de areia, nas ondinhas...tomavam picolé, queijo assado...se perdiam, se achavam...e cresceram...Hoje eles detestam praia. Os meus dois filhos, que cresceram indo a praias aos domingos, também detestam praia.


Quando eu descobri que não precisava ir a praia...que eu podia assumir a minha brancura...foi como uma alforria. Ainda tenho que lidar com os espantos das pessoas quando digo que detesto e que não vou a praia, mas tudo bem. Sou baiana de Salvador e detesto praia e carnaval, aviso logo! Vou a praia todos os anos no dia 1º de janeiro, é um ritual íntimo...e não vou mais nenhum dia durante o ano todo; e no carnaval não vou nunca, nem nunca levei meus filhos.


Bom..mas por que estou falando sobre isso?

Porque eu adoro o mar. Eu amo ver o mar...estar aqui em Lisboa...ver o mar, me deixou extremamaente emocionada. Gosto de tudo que vem do mar. As poesias e as canções. Gosto dos peixes, mariscos....adoro as comidas que produzimos do mar. Como moro em frente à praia...vejo o mar todos os dias....tenho uma certa reverencia pelo mar... respeito mesmo. Não acho que sou íntima e posso ir entrando...tenho uma espécie de adoração respeitosa...que contempla mas não se aproxima muito... quase uma reverência romântica...que endeusa...que glorifica...


Quando eu era pequena sonhava com o mar quase todas as noites. Ondas me pegavam...eu tentava resistir...depois me rendia...Sonhava com mergulhos intermináveis pelo oceano...eu podia respirar dentro d'água (nesses sonhos)...sonhava com algo que parecia morte por afogamento, mas não eram mortes..não havia desespero, nem eu me debatia...apenas mergulhava e me deixava levar....o mar me levava...e eu ía....


Hoje é meu último dia em Lisboa..estou voltando pra casa...penso que em outra vida, talvez tenha sido um navegador..alguém do mar..ou um pescador...quisera ter sido um poeta...que escrevesse sobre o mar...que usasse o mar como metáfora da própria alma, da própria vida...


Tenho marés...tenho ondas e calmarias...sou profunda e sou rasa....dou frutos...quando mais entro em mim, mais silencio encontro...do lado de fora...ruidos...coisas se mexem...mas dentro...só silencio...profundidade e quietude....


Namastê


Ludmila Rohr



terça-feira, 1 de setembro de 2009

Meu trem sairá às 05:53h


Hoje é meu 7º dia na Alemanha. Amanhã vou embora...ficaria muito mais...simplesmente amei esse lugar. Amei a sensação de ordem, a sensação de que as coisas funcionam por que cada um faz sua parte. Uma autonomia adulta no comportamento das pessoas que não são nem de longe subservientes, muito menos infantilizadas por um governo assistencialista como o que o nosso governo produz. Uma cidade adulta, culta, rica e educada.


As pessoas sabem o que devem fazer, e fazem. Elas esperam, na rua, o sinal de pedreste abrir, mesmo que não venha carro algum. Os ciclistas também. Os carros param quando em faixa de pedestre mesmo sem sinal. As calçadas tem espaço para idosos, deficientes...(aliás, eles estão todos na rua, andando e fazendo programa comum a todos), crianças, carrinhos de bebê, andador de idosos....bom, esse é um país onde os direitos são respeitados, mas os deveres são cumpridos. O cidadão tem consciencia dos seus direitos, mas sabe dos seus deveres e os cumpre. O lixo é jogado na lixeira, existem lixeiras. A água pode ser bebida da torneira, é limpa. As pessoas fazem bem, o que deve ser feito.


Nossa...tô apaixonada. Não tenho ilusões de perefeição a respeito de nada. Não acho que a perfeição exclua a falhas. Perfeição é um estado de inteireza...a Alemanha, com certeza tem seu lado social obscuro...mas eu não vi. Fiquei com muita raiva de meu país em vários momentos...raiva e vergonha. Hoje me vi indo ao banheiro de um Jardim Zoológico...banheiro público...limpo...cheiroso!! Onde acharia isso no Brasil?


Conversei com muitos imigrantes...aqui tem muitos turcos, paquistaneses e indianos....eles não voltariam para seus países...eles trabalham pra caramba...mas acham que a vida aqui é civilizada. Acham uma pena isso, mas entendem que dificilmente algum país chegará a esse nível de organização, civilidade e respeito humano que a Alemanha chegou.


Amanhã pegarei um trem para Frankfurt que sairá da estação às 05:53h. Não sairá 05:54, nem 05:55h...ele sairá 05:53h!!! está no painel e assim será. Fácil viver assim né? Se eu perder esse trem, não posso me queixar de nada, nem de ninguém...seria minha total responsabilidade...esse é o preço da vida adulta...assumir sua parte pra que o "todo" funcione.
Ludmila Rohr
P.S. foto na escada da estação de trem.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu e minha mãe na Alemanha!!!!


Estou na Alemanha há 4 dias. ESTOU NA ALEMANHAAAA!!!


Tudo é absolutamente incrível. Tudo funciona. As pessoas são extremamente profissionais e educadas. Somos tratados com extrema civilidade e educação.

Trouxe minha mãe. Ela está encantada...ela fala dos velhos nas ruas..da educação dos cachorros, da sobriedade das pessoas...da limpeza e organização do supermercado, da infinidade de produtos lindos...ela está gostando muito...acho até que ela está animada a fazer outras dessa.


Eu gosto muito do meu país, mas de fato não sei se gosto dele porque ele merece ou simplesmente porque nasci lá. Tento deixar de lado qualquer sentimento bairrista, porque não os quero. Gosto do Brasil, gosto de Salvador...mas acho que gosto, porque lá estão os meus afetos...a minha história. Nem sei se Salvador merece que eu goste tanto dela. Ela me trata mal....o Brasil me trata mal...me desrespeita, me ignora nos meus direitos básicos...Acho que o Brasil não gosta dos brasileiros...


Minha mãe tem um problema com viagens. Para ela viajar significa ir ver a família. Eu nunca tive família pra ir ver. Minha mãe quando pensa em viajar, pensa em ir a Manaus(onde ela nasceu) reencontrar a infinidade de parentes que ela tem lá. Pra mim viajar significa ver novos lugares, novas culturas, diferentes estilos de vida, comidas...arte...Não tenho parentes, pelo menos que possuam significados afetivos pra reencontrar, então, viajar significa ver lugares e me sentir dentro deles.


Eu e minha mãe nunca fizemos uma viagem como essa. É a primeira vez. Viajamos quando eu era uma criança. Viagem de família. Desde lá é dificil convencê-la a ir a qualquer lugar que não seja Manaus ver a família dela! Essa é nossa 1ª viagem. Essa é sua 1ª viagem à Europa, entretanto de vez em quando eu a pego imaginando se morasse ali...ela diz: "seu pai ía gostar desse lugar", "seu pai ía gostar de ouvir música nesse parque"..."já viu como as senhoras se vestem?"..coisas assim...


Ela tem medo...ela é muito apegada...Sei que qaunto maior o apego, maior o medo. Talvez por isso, ela só faça viagens de volta pra "casa". Eu não tenho muitos apegos...gosto de saber que ninguém me conhece. Gosto de saber que estou em um lugar onde ninguém sabe quem eu sou. Ela preferia estar "em casa" com todos os irmãos e sobrinhos. Ela sente-se segura entre conhecidos. Eu me sinto segura sabendo que não serei assaltada na rua, e não serei atropelada ao atravessar uma rua.


Tenho refletido nessa viagem sobre como somos diferentes. Não quero o mesmo de sempre. Escolho comidas no cardápio em alemão, sem ao menos saber o que estou pedindo. Penso...se eles comem, eu como também. Aliás adoro provar coisas novas. Fico triste quando descubro que aquilo que eu achava que seria algo muito exótico é simplesmente uma sopa de alguma coisa....enquanto isso minha mãe queria comer o bife com arroz, ou o café com leite e bolo que ela tem em casa.


Ela não reclama...muito pelo contrário. Acho que ela está adorando, mas percebo que o que eu penso de viagem, não é o que ela pensa. Viajar pra ela é encontrar aqueles que a reconhecem..é voltar pra casa. Acho que talvez seja isso que sentem os que tiveram que morar longe do lugar onde nasceram. Ainda não sei o que é isso.


Falo mal do Brasil..não consigo ser ufanista. Não consigo nem achar que o Brasil é o melhor lugar pra se viver. Por enquanto é, porque meus filhos estão lá, porque meu trabalho, meu cachorro, meu gato...meus amigos, meus afetos...estão todos lá...


Conversei muito com o nosso motorista paquistanês...o pai dele veio pra cá quando ele era uma criança...ele é cidadão alemão...o filho dele nasceu aqui...ele estudou, ele é poliglota...o filho dele é trilingue...eles tem educação e saúde...ele conseguiu construir uma vida aqui...nem pensa em voltar para o país dele...disse que lá ninguém vive, apenas sobrevive...


Essa não é a minha realidade no Brasil, mas é a de muitos brasileiros...as pessoas simples sobrevivem. Eu sei que nem posso reclamar, e não reclamo. Tenho uma vida boa. Mas sei que o "meu" Brasil, não é o Brasil de todos. Nem ao menos da maioria. Sou parte de uma minoria, sei disso.


Mas o filho do motorista paquistanês tem uma educação melhor do que a de muitos barsileiros com boa condição. Ele chegará à vida adulta sendo um estrangeiro, isso é verdade, mas estará instrumentalizado a conquistar um lugar em qualquer lugar do mundo, assim como o avô dele fez anos atrás e sem instrumento algum além da coragem.


Bom...a viagem está uma delícia...amo cada esquina que vejo...amo cada experiencia que vivo...amo o frio com sol. Nem penso em voltar...queria que meus filhos estivessem aqui...Ao contrário de minha mãe que a cada instante relembra de Manaus (onde nasceu e viveu até os 25 anos, ou seja, quase 50 anos atrás)....eu não lembro de nada...eu só contemplo o novo...sinto que estou livre...sinto uma leveza grande....estou aqui, e isso é o que me interessa!


Ludmila Rohr
P.S. Foto de um brinde em Bad Homburg...é de noite, mas o sol só se põe às 21h!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Himalaya sob os meus pés...


Uma vez o Dalai Lama disse que o Himalaya estava debaixo dos nossos pés. Ele quis nos alertar, que não adianta grandes aventuras externas, sem que antes tenhamos encontrado o significado do "himalaya" dentro de nós. Já estive no Himalaya três vezes. Sobrevoei aquela imensidão branca quase sem respirar de tão linda e inacreditável. Estive diante do Everest três vezes, e o impacto foi avassalador para minha alma. Tive que levar meus filhos lá, senão eu teria a sensação mais ou menos como na loucura, em que voce fala algo e não é compreendido.
Precisava que minha família me entendesse. Precisava que eles soubessem do que eu estava falando....


Acredito no Dalai Lama. Vi pessoas que estavam lá comigo e não viam o que eu via. Aliás na 3ª viagem teve até uma pessoa que conseguiu provocar sentimentos negativos e competitivos em meio aquela visão sagrada. Lembro até que chorei. Chorei como se tivesse sido atingida por uma lança no meu coração, em um momento de total desproteção. Definitivamente aquela pessoa não estava no mesmo Himalaya que eu.


Porque falar do Himalaya agora?

-Estou saindo de férias. Serão apenas 15 dias. Irei na Alemanha e em Portugal. Levarei minha mãe para sua 1ª viagem à Europa, e levarei meu pai só pra Portugal. Ele nos encontrará lá.


Tenho vivido um ano muito difícil desde que descobrimos o câncer de Judson em abril de 2008. Tenho buscado força na minha prática do yoga e em amigos reais e virtuais. Sou tão grata a esses amigos. Eles me acolheram com todos os meus altos e baixos. Não me senti julgada, nem cobrada em momento algum, nem pra ser forte. Só recebo elogios, incentivos e carinhos.


Esse ano difícil se prolongou por mais tempo de que imaginávamos, já estamos em um segundo ano ano muito difícil. Tem horas que me sinto muito forte, corajosa, serena...tem horas que me sinto cansada, exausta. Polarizo entre esses dois lugares...e tanto em um, quanto no outro, lá estão meus amigos. Lá está o yoga. Encontro sempre a mim mesma nesses lugares e a mim mesma entre esses dois lugares. Não me desconheço...tenho uma sensação de mim mesma o tempo todo. Isso me dá um lugar sereno e consistente dentro de mim....acho que é o meu Himalaya!


Não tenho grandes ilusões a respeito de férias...elas nos tiram de uma paisagem externa, mas não podemos esquecer que não é só a mala que levamos juntos...nós vamos juntos! Nossos medos, tensões, preocupações...ansiedades...


Estou tranquila...sem grandes ansiedades...acho que me acostumei (por causa do tratamento de Judson) a não criar grandes expectativas. Apenas uma mudança de paisagem...e me dou conta de que isso é uma delícia...simples assim.... Quero, mais do que tudo, proporcionar isso aos meus pais. Quero ver minha mãe andando por ruas da Europa...quero ver meu pai falando com os portuguêses...(acreditem em mim. Isso vai ser uma pândega!)


Bom...estou indo hoje...levo um pouquinho do Himalaya que conquistei dentro de mim....ele sempre está lá...e depois volto....minha vida está aqui...com meus filhos, clientes, alunos, amigos, com meu gato, cachorro....minha vida estará sempre onde meu coração estiver!


Mas....agora....eu mereço férias.....


Beijos a Todos


Namastê


Ludmila

sábado, 22 de agosto de 2009

Minha voz pela liberdade


Li esse livro. Chama-se "Minha voz pela liberdade". Acabei de ler esses dias. Livro simples, rápido de ler. Ele me foi dado de presente por uma cliente. Na capa uma foto de uma monja nepalesa linda. Ela é a autora. Ela é Ani Chöying Drolma.


Comecei a ler e fui reconhecendo os lugares que ela citava em Kathmandu, no Nepal.

Uma delícia isso!

Descobrir que conheço os lugares que são descritos em um livro que fala sobre a vida de uma monja Budista no Nepal?

Não me acostumo com isso, parece surreal demais pra mim!


Conheço esses lugares...fico emocionada. Ainda me espanto em pensar que já estive nesse pequeno país três vezes! Que já estive de frente para o Himalaya e o sobrevoei três vezes...que já andei pelas ruas de Kathmandu...que as conheço, que já levei meus filhos e meu marido nesses lugares...isso pra mim ainda é motivo de muito encanto e espero que nunca venha a banalizar essa experiencia. Acho que ela é mágica mesmo, e sou muito grata a vida por ter me permitido isso!


Ani Chöying Drolma conta sua história de vida. Como conseguiu transformar o ódio e violência em AMOR!

Ela conta como se deu sua escolha monástica...uma necessidade de sobevivência...pela necessidade de escapar de um pai violento e uma infancia miserável. Nada muito romântico. Necessidade mesmo.


Muitas coisas são lindas nesse livro, mas o que encanta é a descrição da sua luta interna de não se deixar levar pela sua mágoa e raiva, transformando esses sentimentos em música, em beleza, em luz, em paz e amor.


A monja Drolma nos mostra de forma simples como isso é possível. Como a nossa natureza humana pode renascer das situações mais duras...como podemos transformar a dor em luz e conhecimento.


Ela não nega a sua raiva...ela chegar a descrever o seu ódio e violência interna. Ela não se faz de "santa" ela simplesmente se encara de frente, encontra metas luminosas e principalmente, ela não culpa ninguém pela sua vida. Ela se resposabiliza por tudo e por cada mudança que ela deseja.. Ela não espera, não se queixa e, sem pudores nenhum, pensa grande, muito grande!


Os sonhos dela são imensos...aparentemente impossíveis...mas sua força e disposição pra transformá-los em realidade são incomensuráveis...


A psicologia tradicional diria que uma criança vitima de tanta violencia e por tantos anos, teria sua capacidade de sonhar afetadas...teria sua auto-estima e confiança abaladas...mas ela nem sabe o que é isso... ela sabe o que quer. Ela sabe onde quer chegar. Ela simplesmente caminha sem medir esforços e vai!


Ela sabe que LIBERDADE só é possível quando vencemos a nós mesmos, e o caminho dela é em busca dessa liberdade! Ela sabe então, que seu único inimigo é ela mesma, não o seu passado, muito pelo contrário....ela honra e agradece ao pai violento que a ajudou a chegar onde chegou!
Bom livro...nos faz repensar nosso infeliz e destrutivo hábito da queixa e da lamentação!


Namastê!

Ludmila Rohr


sábado, 15 de agosto de 2009

Eu sou V.I.P.?


Saiu uma entrevista comigo em uma revista virtual daqui da Bahia em uma coluna que chama-se "Entrevista VIP".
Dar essa entrevista para Nilza Barude foi muito agradavel. Ela é uma jornalista apaixonada. Na verdade foi mais uma conversa...uma longa conversa...

Nem ía comentar sobre essa entrevista, mas hoje eu estava lendo um site de notícias e li sobre uma lista de VIPs famosos...fiquei curiosa....


Quem me conhece sabe que eu não sou VIP no sentido conhecido dessa sigla. Não sou uma socialite, não frequento lugares badalados, não tenho pais ricos, nunca casei e me separei de um milionário...não coloquei silicone nos seios, não sou uma ex-BBB, nem modelo, nem atriz...bom não saio em colunas sociais, trabalho muito.... definitivamente não sou uma pessoa VIP!


Ser V.I.P. significa ser uma "Very Important Person"..ou, em português: uma "pessoa muito importante"!


Conheço muitas pessoas importantes, e provavelmente eu sou uma pessoa muita importante para algumas pessoas. Acho que devo ser importante para meus alunos. Eles aprenderam a respirar comigo... ensinei pra eles alguma coisas bem legais que com certeza os fazem mais felizes. Devo ser importante para amigos meus. Com certeza sou muito importante para meus filhos, marido, pais, irmãs...


Não tenho problemas com minha auto-estima. Tenho uma noção bem legal de mim mesma. Não tenho nenhum tipo de falsa modestia. Sei do meu valor. Talvez ainda me assuste ao receber um elogio, ou mesmo um agradecimento, mas tenho noção do que faço e do que sou. Não faço as coisas esperando elogios, e nem acho que eles sejam muito importantes, talvez até porque eu não tenha dificuldade alguma de receber olhares de afeto e carinho. Eles me alimentam mais do que elogios.


A coluna VIP do jornal que li hoje falava de alguma atriz que tinha diminuido o tamanho do silicone de 385ml para 260ml. Outra VIP havia dado um "lance" e mostrado a calcinha em uma festa que estava provavelmente amontoada de pessoas VIPs, e uma outra tinha ido a um jantar na casa de alguém com muito dinheiro. Esses eram os VIPs de hoje, desse jornal.


Bom, não preciso dizer que nao sou VIP.


Nilza Barude viu algo de importante em mim e me colocou em sua coluna. Ela viu algo que não tem a ver com dinheiro, posição social, festas e jantares....Não sei se o que tenho de importante, importará para as pessoas tradicionalmente VIPs...mas, quero aqui deixar registrado que estou ao lado de muitas pessoas importantes e elas são muito importantes para mim.


Essa é a lista de VIPs da minha vida:

Meus companheiros da comunidade "Faço quimio e sou feliz",

da comunidade "Parentes de vítimas de câncer",

meus alunos,

meus clientes,

minha família,

meus amigos queridos...


Sem voces eu não seria nada!


Namastê!


Ludmila Rohr


o site que saiu a minha entrevista caso alguém queira ler:

sábado, 8 de agosto de 2009

Entre netos e cachorros...


Sou clichê. Já disse isso aqui.

Não conseguiria deixar de falar do meu pai, hoje, véspera do Dia dos Pais.

Todos que me conhecem sabem do orgulho imenso que sinto por ser filha dele. Tenho admiração e respeito. Meu pai é alguém muito especial, mas não é porque ele é meu pai. Acho que ele é realmente especial. No mínimo, ele é muito diferente. Ele sempre foi muito diferente dos outros pais.


Meu pai era comunista na época da ditadura. Foi preso político em 64, logo após meu nascimento. Perdeu emprego e teve direitos cassados. Ele foi anistiado muitos anos depois junto com outros tantos brasileiros. Foi sindicalista e teve uma vida muito dura. Nasceu em uma família muito humilde, perdeu o pai quando era uma criança.

Meu pai, era o único pai (que eu conhecia), que tinha viajado à União Soviética (ainda existia) e à Cuba. Era exótico isso. Todos os outros íam pra Europa. Ele não.

Ele escolheu os nomes russos dos seus 4 filhos. Eu, Vladimir, Tatiana e Larissa. Todos os nomes tinham uma história. Ele lia muito sobre guerras, sobre história... e lia pra gente.


O pouco dinheiro que ele ganhava, não era pra guardar..ele vivia. Nos proporcionava coisas que não poderiamos ter. Sempre estudamos em boas escolas. Junto com minha mãe, lembro da dureza pra manter finaceiramente essa família grande. Mas ele, achava que era importantíssimo nos levar pra tomar sorvete nos domingos. Ele achava fundamental que fôssemos aos domingos assistir a matinê no cinema. Ele achava que valia a pena sonhar.


Teria muitas histórias sobre ele pra contar, aliás, eu poderia fazer uma palestra muito incrível sobre ele, mas hoje só quero falar de duas coisas.


A primeira é a relação deles com os 3 netos, e a outra sobre a relação dele com os cachorros. Isso mesmo: netos e cachorros.


O amor a a paciencia dele para com os netos e para com os animais é algo incomensurável. Ele verdadeiramente os ama. Meu pai nunca reclamou de absolutamente nada que os netos e os cachorros tenham feito. Ele é completamente permissivo e apaixonado por todos. Ele não dedica nem uma ínfima parte disso pra ninguém mais. Acho que não tem mais saco pra ninguém (exceto nós, os filhos), mas os netos e os cachorros merecem, da parte dele, toda a deferencia e isso é recíproco.


Convidá-lo para um lugar onde ele não possa levar os cachorros é uma ofensa. Ele até vai, mas arranja um jeito de voltar logo. Ele, aos olhos de alguém que entende de cachorro, estraga os bichinhos. Ele faz todas as vontades. Ele dá a própria comida a eles. Não preciso dizer que os cachorros acabam hipertensos e acima do peso (como ele). Ele adora qualquer cachorro. Os meus, da minha irmã, os deles...e qualquer um que chegue perto. Ele simplesmente encanta os cachorros, e os cachorros o amam também.


Voces podem até estar pensando que ele entende alguma coisa sobre cachorro...que ele possa ter técnicas para lidar com eles. Não, não tem. Ele é absolutamente permissivo..e os cachorros ficam completamente mal educados com ele. E ele se diverte muito com isso. Ele faz com os cachorros, o mesmo que fazia com a gente. Permitia tudo. Nos tirava de castigos que minha mãe colocava, nos autorizava a transgredir e a quebrar regras. Nos autorizava a ser aquilo que podíamos ser. A seguir nossa natureza. Assim ele é com os cachorros. Ele não pretende que um cachorro haja como um ser humano adulto, mesmo porque, ele acha que os cachorros são superiores aos humanos. Ele simplesmente os aceita, e por isso é venerado pelos mesmos.


E os netos? Não existe pessoas mais importantes para meu pais que os netos. Ele os chama de "os catitos", são homens barbados, mas para ele, são "os catitos". Eles podem tudo. Ele fará qualquer coisa por eles. Ele não estranha nada que eles façam. Apesar da idade, ele não critica os cabelos longos dos meus filhos. Ainda diz que se Jesus era cabeludo, porque os netos dele não podem ser? Quando Caio pintou o cabelo de azul, e, ele soube por minha mãe, que estava meio assustada, ele disse: Se voce pode pintar de "amarelo" por que ele não pode pintar de azul?


Ele acha um barato as namoradas dos meninos e, nunca fez nenhuma crítica a eles, nem aos seus hábitos, roupas, cabelos e amigos. Não interfere em nada, apoia absolutamente tudo. Os netos e os cachorros são os seus amores. Max (o atual cachorro), Rafael, Caio e Lucas contam com o apoio irrestrito do meu pai. Eles contam com a maior defesa que alguém pode desejar.


Ninguém pode brigar com um cachorro na sua frente, assim como ninguém pode falar mal dos seus netos, (nem nós,os pais).


Essa é uma história de aceitação da natureza. Meu pai aceita os cachorros como cachorros que são. Não cobra, nem espera nada que eles não tenham na sua natureza canina pra dar. Ele aceita os netos como são. Cada um do seu jeito. Ele vê as diferenças entre eles, mas simplesmente os aceita.


Acho que nenhum cachorro poderia ter um dono melhor.

Acho que ninguém poderia ter um avô melhor.


Namastê


Ludmila


domingo, 2 de agosto de 2009

Uma Declaração de Amor!


Amo muito Judson...acho que todos sabem disso!
Sou muito amada também...adoro isso!

Temos uma relação normal, brigamos, discordamos, temos os estresses naturais de um casamento...aliás, acho o casamento um grande destruidor dos amores...mas o nosso tem resistido até ao casamento.

Judson é um super companheiro. Sabe das minhas dificuldades e me ajuda. Eu também sou uma super companheira.
Estamos do lado um do outro.

Nos respeitamos como individuos. Mantemos nossas individualidades, nossos interesses particulares, e precisamos fazer isso, já que somos tão diferentes.

Hoje, quero fazer uma declaração de amor. Ele estava viajando, fora de casa por 15 dias. Entre uma sessão de quimio e outra, viajou a trabalho para os EUA. Acho isso lindo. Manter a vida correndo o seu curso... continuar aberto pra vida sempre..
Ele é corajoso, determinado, disciplinado...acho lindo alguém que ama o seu trabalho..eu amo, ele também! Nossos trabalhos sempre foram prioridades para ambos, então sempre há compreensão de ambas as partes, sentimos o mesmo em relação ao trabalho!

Hoje quero apenas dizer do quanto sou feliz de tê-lo como amigo, marido, pai dos meus filhos, amante, companheiro....
Hoje eu quero dizer para todo o Universo, que sou feliz por ter vivido esse amor, por ter sentido a vida toda que ele era importante pra mim...e não só quando o câncer ameaçou isso...nada a me queixar...amei muito, sem economia...e fui amada, sem economia...amo e sou amada!

Amanhã ele estará em quimio outra vez...mas hoje não. Hoje ele é o meu amor, inteiro pra mim.

Como sou muito clichê, hoje tenho só uma simples declaração de amor pra fazer!

Judson, te amo muito e, te amar me faz muito bem!

Namastê

Ludmila Rohr

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Caminhar Juntos


Ontem fui procurada por um homem cuja filha está com câncer. Ele soube de mim através de uma amiga com quem tenho uma longa história de trabalhos voluntários de ajuda ao próximo. Fizemos parte por longos de incríveis 18 anos de um serviço que se chamava Plantão da Fraternidade, atendíamos 24 h por dia, pelo telefone, pessoas que estivessem precisando de algum tipo de orientação, acolhimento..etc.. Esse pai precisa de ajuda nesse momento. Me senti extremamente honrada ao ser procurada por ele. Ser reconhecida como alguém que tem algo pra dar , me faz sentir uma felicidade no fundo do meu coração e percebo que tudo que tenho vivido junto com minha família não tem sido em vão!

Aprendi também nesses anos, que quando uma pessoa ajuda a outra, nesse momento está sendo ajudada também. Minhas ilusões a respeito de que fazendo aquilo eu seria uma pessoa boazinha, caíram por terra imediatamente quando percebia a cada atendimento do Plantão da Fraternidade, que podiam ser pela madrugada, sábado, domingo e feriados, em que eu saia tão feliz, tão alimentada. Descobri muito cedo que na verdade eu me ajudava, quando ajudava alguém. Eu me alimentava na alma, quando escutava as dores da alma de alguém. Aprendi que quanto mais dou, mais recebo. Essa é a única forma de aprendermos sobre Generosidade e Fraternidade.

Descobri que a fome maior vem do isolamento, e a minhas duas maiores descobertas foram:

"É dando que se recebe" e "Amar é mais importante que ser amado".

Nunca me senti perdendo nada quando eu estava dando. Nunca me senti mais rica, do que quando eu estava tirando de mim para dar a quem mais precisasse. Nunca me senti mais preenchida de amor, do que quando eu estava amando.

Amar vale a pena. Sempre ganhamos quando amamos.

Com a doença de Judson tenho entrado em contato com dores que não conhecia, pessoas que não conhecia, e por incrível que pareça chegam pra mim pessoas que estão com câncer ou têm parentes com câncer também no consultório.

Acho que no momento que entro num caminho, não fico sozinha. Aparecem outras pessoas que eu posso ajudar, e que vão caminhar comigo, e me farão companhia. Um empurra o outro. Um puxa o outro. Um dá suporte ao outro.

Uma amiga me disse, que eu devia evitar tanto envolvimento, me perguntou porque eu estou me martirizando? Disse que me envolver com essas pessoas iam me deixar mal. Nunca senti isso. Desde que tornei pública a luta de Judson, só encontrei pessoas que me ajudassem, caminhando comigo, não me deixando sentir solidão nunca. Com elas falo a mesma linguagem, o mesmo idioma, me sinto tão entendida..acho que ninguém que não tenha vivido isso poderia me entender tão bem! Não sei como isso pode ser um martírio.

Essas pessoas que parece que estou ajudando, é que na verdade me ajudam. Elas me tiram de qualquer possibilidade egoísta de me fechar em mim mesma, ou de ter pena de mim mesma.

Não me sinto fraca diante de alguém que luta contra o câncer, muito pelo contrário. Pessoas que lutam, que fraquejam, que querem desistir, que adorariam poder desistir, mas não conseguem. Pessoas com muitas chances, pessoas com poucas chances, mas que lutam, e são vencedoras..

A grande derrota é não lutar. A grande derrota é aceitar simplesmente sobreviver. A grande derrota é passar um dia após o outro sem valorizar o poder que nos foi concedido de sermos vencedores!

Quero muito ouvir esse pai com sua filha que está com câncer. Quero muito descobrir por que eles me procuraram, o que eu tenho pra dar. Quero muito caminhar junto com cada vez mais pessoas, dando as mãos, caindo e levantando...é assim que eu quero, é assim que eu sei!

Namastê

Ludmila Rohr


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Isso é bom ou ruim? Mente contemplativa!


Uma coisa pode ser boa e outra pode ser ruim?
Essa é uma questão importante, pois a partir de como compreendemos a forma como nos ligamos às "coisas", poderemos entender também os nossos apegos e aversões.
Segundo Buda, nada por si só teria a característica de ser bom ou ruim, mas que a forma como nos ligamos a elas sim, faria toda a diferença.

Milhões de pessoas não vacilariam em afirmar que ganhar um prêmio de loteria milionário é algo muito bom. Tenho lá minhas dúvidas, sei de casos de pessoas que tiveram suas vidas destruidas pelo excesso de dinheiro, que perderam amigos, família e que foram até assassinadas. Mas isso nos levaria a pensar que ganhar esse prêmio é algo ruim? Também não. Sabemos de inúmeras histórias de pessoas que conseguiram transformar suas vidas após um prêmio desse. Não só as suas vidas, mas da sua família, amigos, sua comunidade, etc. Então isso é bom ou ruim?

Perguntaram certa vez numa comunidade de câncer, se ter tido câncer foi bom ou ruim? Foi um alvoroço...pessoas ficaram indgnadas e ofendidas com a pergunta, outras falaram dos benefícios que o câncer havia trazido para suas vidas...Bom não consigo pensar que o câncer é algo bom. O câncer pra mim é uma praga, é um limão muito azedo, é algo doloroso e assustador, mas apesar disso, acredito sim, que a ligação que faremos com ele pode ter várias qualidades diferentes.

Tenho desde os 16 anos a prática de meditar, não exatamente de sentar e fechar os olhos, embora faça muito isso, mas tenho a prática de olhar a vida e as coisas com a MENTE CONTEMPLATIVA, que é uma qualidade da nossa mente que é absolutamente oposta à mente habitual que normalmente é discriminativa, que normalmente está julgando, comparando, criando aversões e paixões, e com isso gerando sofrimento.

A mente contemplativa é uma mente que não julga, apenas vê, apenas contempla, escuta, sente, mas não discrimida, se é bom ou ruim, se é pior ou melhor, se estou ganhando ou perdendo, se sou maior ou menos....essas são habilidades imbecis da nossa mente sofredora. A mente contemplativa apenas observa, ela não sabe o que é bom ou ruim, pois ela sabe que as duas respostas são possíveis...e porque isso vai depender não do fato em si, mas de como nos ligamos ao fato, às coisas.

Então conheço pessoas que tiveram ou estão com câncer e que estão se descobrindo como pessoas melhores, estão descobrindo forças que não sbiam que tinham, estão encontrando amigos, aprendendo a abrir o coração....elas estão fazendo algo muito bom com o câncer, a ligação é muito positiva, mas isso faz do câncer algo bom? certamente não. Essas pessoas se ligaram de forma positiva a ele e conseguiram fazer desse limão uma limonada. Conseguiram transformar DOR em AMOR.

Enquanto outras passam muito tempo reclamando, sentindo-se vítimas injustiçadas, chegam a perguntar porque Deus não deu uma doença dessa a um assassino? A forma como se ligaram ao câncer foi essa. Negativa e vitimizada.

Acho que existe estudos que mostram que os positivos vencem mais essa batalha, mas isso não tem a menor importancia pra mim, pois não consigo pensar na morte ou na não-morte. O importante é pensar na vida. O quanto estamos infelizes agora, nesse dia. O quanto estamos felizes agora, nesse dia. Isso depende de mim, depende exclusivamente da forma como eu me conecto às coisas, aos fatos, porque eles por si só não são nem bons, nem ruins.

A mente contemplativa é a única liberdade possível, com ela nos liberariamos das prisões que nós mesmos nos encerramos, a prisão imbecil da comparação, que nos leva ou para a vaidade de ser melhor, ou para a inferioridade de ser menor, pior, menos. Ambos são lugares aprisionantes.

A mente contemplativa que a meditação nos oferece, nos tiraria dos apegos, pois eles são gerados pela paixão e pela aversão. Tudo que eu temo perder (paixão), e tudo que luto para evitar (aversão), esses são os meus grilhões, são os cadeados que me mantem prisioneira de mim mesma!

A Mente Contemplativa observa, livre, independente....sabe que tudo tem um sentido...que nada é bom ou ruim, que a perfeição está em tudo, que só existe o presente...ela é livre, e isso é felicidade!

Namastê

Ludmila Rohr

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Não sejamos sobreviventes!!!!


Digo paras as pessoas quando as ensino a respirar que elas precisam querer respirar! Digo que não é bastante respirar porque precisa, mas que é urgente respirar por que se quer!
O corpo cumpre a obrigação básica de respirar o suficiente para SOBREVIVER. O corpo não quer morrer, então ele sobrevive. Mas a mente pode RESPIRAR para VIVER, e isso faz muita diferença.
Essa é a questão importante. Queremos o mínimo para sobreviver? o que significa apenas que não queremos morrer, ou em algum momento vamos decidir que queremos mais? muito mais. Precisamos querer respirar não preocupados simplesmente com a manutenção da vida, mas sim com a qualidade da vida! Respirar não apenas para não morrer, mas sim, respirar para viver!


Sou professora de yoga, então é claro que sou professora de respiração. A nossa respiração consciente mobiliza o Prana, que é a energia da vida, o "Hálito Vital", o "Sopro Divino"...movemos vida quando respiramos! Então, nossa vida pode ser rasa e curta, se assim for a nossa respiração; e pode ser profunda e longa...se assim respiramos...pode ser vibrante, expandida, ou pesada e tensa..

Bom adoro o tema RESPIRAÇÃO, já apresentei trabalho em congresso de psicologia com esse tema, falo de respiração todos os dias com alunos, clientes...criei meus filhos pedindo para eles repirarem quando sentiam algo....isso em algum momento se voltou contra mim, pois quando eu estava brigando com eles, eles diziam: mamãe, respire!!
Apesar de me sentir em casa com esse tema, hoje na verdade o tema é outro. Quero refletir sobre a diferença entre VIVER e SOBREVIVER.

Fiquei muito incomodada, porque alguem chamou meus companheiros de luta contra o câncer de "sobreviventes"...e parei pra refletir..dei até uma lida na psicologia dos sobreviventes...mas minha experiencia com Respiração Yogue foi quem mais me ajudou nessa reflexão.

Sobreviver é ser levado...nada lhe cabe mais em termos de ação consciente, a pessoa entende que é um sobrevivente, e deve no máximo ser grato por isso. Os sobreviventes não têm desejos, eles não acionam a vida na direção desses desejos...os sobreviventes apenas sobrevivem...cada dia em relação àquilo que os ameaçaram na sua vida.
Se eles sobreviveram a um acidente ou a um câncer...a vida passa a funcionar em torno disso... tudo gira em torno da manutenção da sua sobrevivencia...a vida foi ameaçada, agora é preciso ter muito cuidado, viver como se "pisasse em ovos", sem barulho, sem chamar atenção pra que o monstro não seja despertado outra vez...os sobreviventes vivem assutados...vivem delicadamente mantendo a sobrevida...com medo, tensos...e por isso não podem viver! Os sobreviventes apenas respiram pra manter a vida!

Viver é o oposto disso. Viver envolve riscos, emoções, amores e dores...sonhos, planos, ideais. Pra viver é preciso respirar grande, expandir os limites, expandir a alma, abrir o coração...Viver é intenso...é pisar em todos os ovos e, quebrá-los logo pra não sobrar nenhuma tensão...pra viver é preciso coragem, é preciso saber virar páginas, é preciso encerrar histórias e iniciar novas...é preciso estar aberto para o novo...Esse novo não tem garantias...a vida não nos oferece garantias...então é encarar o novo com todas as possibilidades...


Viver depois de um câncer é preciso!...é preciso sentir que se é um VENCEDOR e não um SOBREVIVENTE! Alguém que vence e pode celebrar a vitória. Alguém que vence e pode partir pra outra. Partir para a vida, que sempre existiu cheias de desafios...sempre foi assim...e continuará sendo...então será preciso encará-los...não há um lugar especial para ex-pacientes de câncer. É preciso abrir mão da ilusão desse lugar especial, que nem existe.

Aqueles que se foram durante essa batalha coletiva, não são perdedores...são vitoriosos também...não é a não-morte que indica um vencedor...vencedor é aquele que vive intensamente e luta sem desistir...eles ajudaram na luta, eles contribuiram na batalha...

Assim como soldados que vêem seus amigos cairem, e querem vencer ainda mais a guerra para honrá-los...precisamos fazer isso! Precisamos honrar aqueles que se foram. Precisamos honrar a Lili, o Ivan, a Suu, o pai da Katy, o Pai da Criss, o pai da Patsy, o pai da Marcela, a neta da Bertilha, o marido da Élida, da Rai..precisamos honrá-los e a única forma eficiente de fazer isso é VIVENDO!!!


Lugar de ex-paciente de câncer é na VIDA! e não na sobrevida!
Vamos respirar grande, vamos respirar vida...abrir o peito e dar espaço para a vida entrar! é de muita vida que temos sede e fome!

Sejamos VIVENTES dessa vida e não sobreviventes!!!!
Namastê

Ludmila Rohr

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Como uma bola de neve...


Me envolvo...como uma bola de neve...
...vou me envolvendo...

Não sei ser diferente...


Li no livro de Nilton Bonder, "A Alma Imoral", uma passagem que vou tentar reproduzir aqui...está no capítulo "O certo que é errado e o errado que é certo"...

"...não há nada na experiência do ser humano que não tenha sido criado sem uma utilidade., Então vem a pergunta: E pra que serviria a atitude daqueles que negam a existencia de Deus? ... ... Há alguma transgressão à crença em Deus que seja, em algumas condições, mais construtivas do que a própria manutenção desta crença?

Depois desses questionamentos, Bonder discorre sobre o quanto é comum, pessoas carentes de alguma ajuda, ouvirem de crentes em Deus, que elas devem ter fé, que devem entregar a Deus, que devem confiar que Deus as ajudará...etc...

Depois ele começa a explicar que por não acreditarem em Deus, muitas pessoas produzem um efeito de acreditar nele. Promovendo ações positivas e de acolhimento, envolvendo-se de forma direta nos problemas e, de fato oferecendo ajuda necessária e concreta...


Não sei se acredito em Deus...definitivamente o "meu" Deus, não se parece em nada com muitas descrições que ouço...já falei sobre isso outras vezes aqui nesse blog. Uma vez escrevi até por conta de alguém que questionou de forma agressiva a minha fé...disse que eu era uma pessoa inteligente, mas que precisava me ajoelhar diante do pai e implorar pela cura do meu marido! Respondi na época, que o meu Deus não precisava que eu implorasse nada, que nem meus filhos nunca precisaram me implorar nada...e que eu (que sou apenas eu), faria tudo que estivesse ao meu alcance pela vida de qualquer pessoa sem que ela precisasse implorar, imagine o meu Deus? Disse ainda se Deus atendia a quem pedisse mais, que eu não queria esse Deus...


Acredito na vida e no ser humano...por isso me envolvo. Não consigo dizer pra alguém, que me conte que está sofrendo, "Tenha fé em Deus"...simplesmente, não consigo!....Eu digo: Posso fazer alguma coisa? Quer que eu va aí? às vezes já digo: Tô indo aí. Ou digo: voce vai vencer! Respire. Voce tem coragem o bastante! ou...é possível vencer isso! ou até mesmo: Estou aqui para o que voce precisar! e ainda..tem momentos que digo: que merda! vc tem todo direito de chorar, ou de estar assim!


Quando eu era mais jovem, eu tinha um certo medo disso em mim, achava que isso seria como uma bola de neve, que não teria fim...que eu teria que me envolver cada vez mais, que quando eu parasse pra avaliar, estaria envolvida com as dores dos outros até o pescoço. Dizia pra mim mesma, que nao era Madre Tereza, nem Irmã Dulce, e de fato não sou. Sou egoísta demais. Penso em mim. Penso no meu bem estar. Quando ligo pra alguém ou faço um movimento na direção de alguém estou pensando em mim. Quero fazer algo pra não ficar no mal estar, ou talvez por que não acredite muito em Deus.


Paciencia...sou assim...talvez seja essa a função das pessoas que não acreditam ou não sabem se acreditam em Deus...

Eu acredito no Deus que existe em mim, e preciso dar movimento a ele.
Acredito na Energia Vital que me foi confiada e preciso fazer algo útil com ela.

Acredito que tudo é possível e acredito no amor.
Essas são minhas crenças...


Namastê!


Ludmila Rohr