quinta-feira, 7 de julho de 2016

OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE VLAD (texto de Wilson Langeani Filho*)


– Vamo nessa!

Era a deixa usual do anfitrião. Para os frequentadores da residência, apesar de certa rispidez no enunciado, o bota-fora não melindrava ninguém. Pelo contrário. O impagável bom humor e a hospitalidade do dono da casa nos fins de noite memoráveis, nos irreverentes colóquios vespertinos, em papos profundos e destrambelhados, nas divertidas pajelanças, as oportunidades dos flertes regados a um suprimento infindável de drinks e trilhas sonoras poderosas, as tertúlias literárias ... o leque de atividades edificantes compensava, com folga, o desapontamento da súbita e eventual interrupção.


Assim era o jeito cativante, e sutil, de Vladimir. Quando chegava o momento do repouso do guerreiro, que de tudo e todos independia, ele tascava um ponto final na estória. Aos presentes, não raro uma festiva multidão de dez ou mais – considerando a singela metragem dos 40 m2 do apartamento –, restava o caminho da roça, já na expectativa da próxima esbórnia.

Naquela terça-feira, 17 de maio, uma simples dupla dividia o espaço.
Aqui cabe um adendo. Há quase vinte anos, com o objetivo de manter uma atividade física minimamente regular, nadávamos no Clube dos Médicos durante os finais de semana. Por envolver o período matinal, o encorajamento mútuo era estrategicamente importante para conservar a saudável tradição. Dedicados, mas sem extravagâncias, não eram incomuns os perdidos, de lado a lado. “Hoje não, estou cansado”; “tá meio frio”; “sem condições: ressaca braba!”; “sentindo uma dorzinha aqui”; “preguiça ... mas amanhã vamos sem falta”.
Assim foi no sábado anterior. Mas eis que um distraído telefonema vespertino resgatou os planos para o domingão. Senti firmeza no combinado. Pouco depois, porém, Vladimir liga de volta. “Estou cheio de provas para corrigir, não consegui fazer o que tinha programado para hoje, amanhã vai ser difícil, vamos deixar pra lá”. Estranhei um pouco, mas não era nenhuma novidade.

No vai-não-vai dos acertos do final de semana, ele estava bem. Voz boa, animado, contou as novidades do aniversário da nossa querida Nis, comemorado no começo da semana anterior em um barzinho, onde, como sempre, causou. 
festa da Niss

Na segunda-feira, à noitinha, telefona. Durante uma consulta pela manhã o doutor requisitou seu retorno acompanhado de um familiar próximo. Mau sinal. A mãe viria de Salvador. Sua voz estava um pouco engrolada. Aliás, nada soava muito bem. Respirava com certa dificuldade. Fazia uns dias que as náuseas não o deixavam alimentar-se direito. E concluiu: “Meu carro está na oficina, não tenho como sair e estou ficando sem água e papel higiênico”. Na hora me prontifiquei: compras, médico? Ele declinou. “Aguenta até amanhã, sem problemas”.

Pouco depois do almoço, abastecido, chego ao edifício. Logo ao entrar no apartamento fiquei apreensivo. Vacilante, ele se desdobrava entre manter o equilíbrio e varrer do chão da cozinha os cacos de vidro da garrafa de água que acabara de derrubar. Detalhe: descalço. Também, o Conde Vlad tinha múltiplos talentos, mas o manejo da vassoura, definitivamente não estava entre eles.

Assumi a operação e perguntei se havia se alimentado. Ao desabar na poltrona, abatido, respiração curta e difícil, pediu água. “Não consigo comer, volta tudo”. E soltou: “Tô mal, mermão”. Quis levá-lo para o hospital. “Não precisa. Tenho médico na quinta, meu sobrinho chega amanhã e vai comigo.” Permaneci um pouco para fazer companhia, mas não durou. “Wilson, vamo nessa”.

Respeitei sua vontade mas saí preocupado. Em pouco mais de uma hora, me liga. “Não estou conseguindo respirar”. Puta que pariu. “Vou chamar o resgate e tô indo praí”. A distância entre nossas casas é pequena, mas foi um longo trajeto. O porteiro, conhecido, me deixou subir direto. Toquei a campainha, bati, e nada. “Vladimir!”. A resposta veio num sussurro. “Já vou”. Consigo ouvir através da porta ele pelejando, quando meu celular começa a tocar. Ignorei porque finalmente conseguiu abrir e pude entrar. Com o telefone na mão, era ele quem me ligava.

Desta vez fiquei assustado. Seu olhar estava vazio. O esforço drenou sua energia. Foi preciso ampará-lo. Vladimir era grande, pesado, mas conseguimos que se ajeitasse no sofá, bem menor que ele. Apesar do desconforto, o que importava era respirar. Ao se recuperar, quis ir para a cama. Uma meia dúzia de passos novamente esgotou suas forças. O resgate não demorou e o hospital onde ele se tratava aceitou a internação. Tranquei a casa, deixei as chaves na portaria e fui atrás.


Na emergência, ele assistido, pediram que permanecesse: um rosto familiar é um conforto psicológico. Mas passei a sobrar no entra-e-sai de médicos e enfermeiros: a pressão arterial persistia baixa. Fui defenestrado. Logo voltaram a me chamar. “Quer entrar mais um pouco?”

Lembro bem de uma sóbria conversa, como de hábito, que tivemos há um tempo aqui em casa. O tema era a finitude da vida, de onde viemos, coisas assim. Num rompante, já diagnosticado, ele largou: “Sempre fiz tudo o que tive vontade. A gente tem que encarar o que vier. Não tenho medo da morte, não”.

Lá dentro, e na verdade desde que o vi àquele dia, achei-o tranquilo. Me pareceu mesmo que desde à véspera. Quando o médico plantonista debruçou no seu leito, foi pragmático. “Precisamos tomar uma decisão. Como está consciente, isso cabe a você. O seu prognóstico é muito ruim”. Vlad não se alterou. “Você precisa ser entubado. Ficaria mais estável e seria mais sereno, embora sedado. Entretanto, minha recomendação é esperar o máximo possível, enquanto você está consciente”. Não houve hesitação. “Não quero ser entubado”.

Fiz um sinal ao doutor. Com função a hepática comprometida, sua sobrevida era uma incógnita. Nada havia a fazer além de garantir-lhe conforto. Precisava avisar sua família. O médico concordou.

Tinha o número da casa dos pais, em Salvador. Pai falecido, e se a mãe atendesse? Nenhuma mãe merece ouvir isso por telefone, ainda mais de um estranho. Vladimir tinha três irmãs. Tentamos, sem sucesso – ele já um pouco aéreo –, que se recordasse de algum dos números. Lembrei do seu celular que tinha ficado sobre a mesa, em sua casa. E lá fui eu. A caminho, ia imaginando como se participa uma notícia dessas. Para qual iria ligar, se afinal, além dos nomes, nada mais sabia delas, quem teria melhores condições de assimilar uma bomba daquelas?

Ao chegar, uma surpresa: o telefone de um primo me aguardava na portaria. Marco atendeu logo. A prima era sua esposa, Grace. Conversamos sem meias palavras. Sem entender como, soube que a mãe, irmãs e sobrinhos, estavam sabendo de tudo e viriam no dia seguinte. E, para melhorar, os dois já estavam quase no hospital. Quando cheguei, eles falavam com o médico.

Ocorreu que enquanto Vladimir e a mãe acertavam a viagem, por acaso o sobrinho escutou o telefonema. Indagou da avó o motivo, se dispôs a substituí-la e comentou com a mãe. Residente no exterior mas por uma feliz coincidência no Brasil, Ludmila resolveu procurar diretamente o médico do irmão. E ele foi taxativo: Vladimir não tinha mais condições de ficar só. Foi um choque. Embora ciente, a família desconhecia detalhes: Vladimir se mantinha reservado e evasivo quanto à sua condição. Imediatamente começaram a se movimentar e ligaram para pedir à prima, em São Paulo, que fosse à casa dele. “Ele saiu de ambulância com um amigo”, informou o porteiro.

Conhecia Vlad desde a infância. Em Salvador, frequentávamos o mesmo clube. A amizade vingou em São Paulo, já adultos, depois de alguns esbarrões no bar do Ciccio. “Te conheço de algum lugar ...”. Estive com o cara quase a vida toda. Era praticamente um irmão. Permaneci ao seu lado durante todo o tempo àquele dia. Mas quando Grace entrou e passou a confortar o primo, quando ouviu que a mãe, irmãs, sobrinhos, estavam a caminho, pensando nele e torcendo, foi ali que o vi ficar em paz.

Vlad seguiu para a UTI. O reencontramos inconsciente e entubado, mas seu semblante, tranquilo. A médica intensivista, com muito tato, disse que o quadro era bastante grave. “A família chega amanhã”, informamos. “Talvez ele não passe dessa noite”. Não havia mais nada para ser dito. Deixamos os telefones e o pedido para ser avisados, independentemente da hora. Mais alguns instantes junto ao leito e foi tudo. Era por volta de dez horas da noite.

O telefone tocou quatro e meia da manhã. 

*texto escrito por Wilson Langeani Filho, amigo de Vlad, que esteve ao lado dele em muitos momentos de alegria e nesse último. Nós da família, somos extremamente gratos por ele ter estado lá .... 

Segue uma pequena homenagem aos amigos que estiveram ao seu lado desse baiano em São Paulo ....









sábado, 18 de junho de 2016

FÊNIX - SEM MEDO DA MORTE



Aos 52 anos achei que estava na hora de fazer minha tão sonhada tatuagem da Fênix. Fiz.

Nessa fase da vida, o fogo que me queima até a "morte" não me assusta mais. A certeza de que renascerei, é total. A forma, a aparência já não importam tanto.... posso renascer em várias formas....tanto faz....

Nessa fase da vida, tenho a certeza de que o que eu antes achava que me mataria, e que agora quando muito, apenas me machuca ou fere, mas não me mata....

Nessa fase da vida, um poder enorme emerge impulsionado pela certeza de que preciso de muito pouco, e de poucos....

Não por acaso que a Fênix surgiu sob as folhas do outono. Elas são a marca da maturidade....o desapego que deixa ir, o que não é para ficar... deixa morrer o que não faz mais sentido de estar ali. As folhas que caem e morrem, são o alimento para as novas folhas que nascerão.... o fogo que queima e transforma a fênix em cinzas, é o que possibilita que ela surja cada vez mais livre e conectada com o seu poder. Poder que vem da certeza de que essas "mortes" são libertadoras e apesar de dolorosas, são bem vindas. 

Não há vida sem morte.
Não há renovação sem desapego.
Não há eternidade sem finitude.
Não há liberdade, se há medo da morte. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O VLAD QUE CONHECI - Vai em Paz, Miserável! (ÚLTIMA PARTE)



Esse último post é uma tentativa de agradecer todo o carinho e respeito aos alunos, ex-alunos, colegas e amigos que compartilharam com meu irmão o que ele tinha de melhor, sua inteligência, sua irreverência e paixão. Não existem palavras suficientes para agradecermos por vocês terem compartilhado conosco as histórias que vocês viveram com ele. 

Seguem algumas imagens que encontramos no facebook dele, e segue o nosso amor e gratidão.
Sinto muito pela perda de vocês, e de todos os que não o terão como professor e amigo daqui pra frente.
Meus sentimentos.

































Eu acho que você viveu muito pouco, meu irmão, mas você fez a diferença na vida de muitas pessoas, e por isso viverá eternamente na lembrança de muitas delas. Tenho certeza de que você viveu mais intensamente que a maioria das pessoas que conheço, e fez valer a vida que teve.

Vai em paz, meu irmão.
Vai em paz, Miserável.

P.S. Se vc tem foto ou histórias para compartilhar, comente esse post e conte pra gente! Isso nos alegrará imensamente. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

O VLAD QUE CONHECI - ENTRE LIVROS (parte 6)


Impossível falar do meu irmão Vladimir, sem fazer relação com meu pai. Eles se pareciam muito, e foram minhas primeiras referências no mundo masculino. Eles eram brilhantes, marcantes e tinham uma forte presença, nunca passavam despercebidos. Fiz essas comparações nos posts anteriores, e farei mais uma vez nesse, que é o sexto post dessa série. 

Quando nosso pai morreu, (contei no post anterior), levamos muito pouco tempo para arrumar e nos desfazer de suas coisas pessoais. Descobrimos o que já sabíamos, meu pai era desapegado, não acumulava coisas... Arrumar o armário dele foi uma emoção grande... ele tinha algumas poucas bermudas, pouquíssimas calças compridas, e bem antigas, pois desde que ele se aposentara, ele se recusava a vesti-las, sapatos fechados, um ou dois, tênis e alpercatas. Ele tinha muitas camisetas, nada caro ou de marca, muito pelo contrário, a maioria eram com fotos dos netos, dos cachorros, ou de viagens lembranças de viagens (a maioria havia ganho de presente), camisetas com coisas engraçadas escritas (vesti-las era sua forma de provocar as pessoas), e camisas dos times de futebol, não me lembro se tinha alguma oficial, eram na sua imensa maioria coisa barata. Bonés,  que também que havia ganho de presente de viagens.

 O fato é, não levamos muitas horas para doar tudo que ele tinha para os funcionários do prédio que ele morava e para escolhermos uma camiseta que tivesse valor afetivo. Eu mesma peguei uma que ele havia comprado quando nos visitou em Houston, que estava escrito: "Mi casa es tu casa, pero mi cerveja non."

Um dia após a cerimônia de cremação de Vladimir, eu e minha irmã Tatiana, fomos desmontar o apartamento dele. Tínhamos pressa, não moramos em SP, tínhamos que adiantar tudo e voltar pra casa. Não sabíamos o que seria, como faríamos, o que encontraríamos.

Encontramos livros, livros e mais livros. Vladimir desde sempre amava ler. Ela sempre gastou seu dinheiro com livros. Desde que ele recebeu seu primeiro salário como estagiário, que ele gastava comprando livros. Vlad tinha um sofá e uma poltrona, que deviam ter uns 20 anos, muitas roupas que doamos para instituição de caridade, um computador que não era nada demais, um aparelho de som bem simples, LPs e CDS, um carro velho de 2002, e livros, muitos livros.

Impressionante que ele não tenha trocado de carro, que ele não tenha comprado coisas que lhe oferecesse mais conforto material. Ele comprava livros, o tesouro dele eram os livros.


Em uma estante, encontramos carinhosamente expostos, os seus troféus: Placas e mais placas de homenagem de várias turmas que ele paraninfou, objetos que percebemos ser presentes dos alunos, ao lado dos seus muitos livros, e isso foi um conforto enorme para mim e minha irmã. Vlad não era só, ele tinha uma família enorme, ele tinha os alunos, os ex-alunos,  os amigos  e os livros.

O carinho com que ele guardava as homenagens dos alunos, devia ser uma prova de reciprocidade do que ele havia recebido por todos esses anos, muito carinho também. Vlad foi amado e admirado. Ele com certeza tinha restrições com relação a intimidade, mas ele era querido por ser uma pessoa brilhante, bem humorada, irreverente, inteligente, sarcástico e por amar o que fazia.

Ele amava ser professor e isso ele aprendeu com nossa mãe, que foi professora a vida inteira e amava o seu trabalho mais que qualquer coisa na vida. Algumas vezes tentei sugerir que ele parasse de trabalhar e fosse para Salvador se tratar melhor, e ele rejeitou qualquer continuação de conversa sobre esse tema. Ele trabalhou doente, trabalhou enquanto pôde, trabalhou até morrer. Encontramos dois pacotes de provas dos alunos sobre a mesa. Ele trabalhara até o fim, literalmente.

Limpamos o apartamento, doamos os livros de economia, as homenagens dos alunos para a FACCAMP, onde ele lecionou nos últimos e muitos anos.

O vizinho ao lado do seu apartamento, abriu a porta para nos atender, e sua cadela, Abigail e seu gato, Sancho Pança, entraram correndo no apartamento de Vlad para ver o que estava acontecendo, e procurar o amigo. Vagaram desolados com o esvaziamento daquele lugar que parece que eles conheciam bem. A síndica do prédio, ainda chocada, pois nem sabia que ele estava doente, fazia elogios ao fato de que ele não dava problemas, o que acho que era efeito da santificação que a morte produz, pois acho que ele deve ter dado muito trabalho aos vizinhos.

Os porteiros e o pessoal da limpeza chocados e desolados, esforçavam-se para nos ajudar. A sua faxineira falava sobre o homem bom que ele era. 

O fato é que a morte é para todos, mas a vida é para os que escolhem viver. Vlad escolheu viver a vida dele do jeito dele, e viveu. Foi bem sucedido no que investiu energia, poderia ter vivido muito mais, e ensinado a muito mais alunos, lido muito mais livros e nos presenteado com seus posts no facebook por muito mais tempo. Ninguém merece morrer aos 53 anos, mas ninguém pode negar que ele viveu intensamente a vida que escolheu, e que viveu sem dar satisfação a ninguém das suas escolhas (isso parece uma sonho). 

Meu filho mais velho ficou com LPs e alguns livros, meu sobrinho ficou com um casaco do Botafogo, trouxe alguns livros para meu filho caçula que mora aqui nos EUA, além de blusas do Bota. Minha mente fotografou cada canto daquele lugar que foi sua caverna, e levarei comigo uma parte da história dele, que foi algo que ainda não sei definir bem, mas que me compõe como pessoa, pois faz parte da minha vida e da minha história.

O próximo post será provavelmente o último, e farei um álbum com as fotografias que ele tinha de amigos a alunos para deixar registrado meu respeito e agradecimento aos amigos e alunos,  que foram a família que ele escolheu. 








domingo, 5 de junho de 2016

O VLAD QUE CONHECI - O FILHO DO PAI (parte 5)



A relação de Vlad com meu pai era muito especial, mas devo dizer que meu pai amava demais os filhos, era um paizão apaixonado e completamente seduzido por todos nós. Escrevi sobre ele nos posts  A Luta Continua Companheiro  , que foi a minha despedida depois da sua morte; e  Entre Netos e Cachorros , um post em homenagem ao Dia dos Pais. A forma de ser irreverente e inconformada do nosso pai, explica muito do Vladimir que todos conheciam, vale a pena ler os dois posts citados. 

Vlad nasceu no Rio de Janeiro em 62. Um primeiro filho amado, desejado, lindo e leonino. Ele era o centro de tudo. Meu pai tinha uma mania de colocar apelidos nos filhos, e Vlad inaugurou isso, ele era o "Homão", sim, o aumentativo de homem. Pra vocês terem noção de quanto esses apelidos eram fortes, meu filho caçula quando tinha uns 5 anos, teve que fazer um trabalho na escola sobre a família, foi quando descobrimos que ele não sabia o nome verdadeiro do tio, pois ele escreveu com ajuda da professora, na lacuna do nome do tio, "Almão". Eu perguntei pra ele como era o nome do tio, ele respondeu: "Almão", e ficou espantado com a novidade dele se chamar Vladimir.

Vlad era um orgulho imenso de Jair de Brito. Ele amava saber que Vlad estudara Economia, e que discutia política. Embora tivessem opinões contrárias em quase tudo nesses aspectos, eles tinham muitas coisas em comum, e a maior de todas: o gosto pela polêmica. Eram polêmicos por natureza. Amavam uma discussão acalorada sobre temas políticos. Amavam discursar e serem escutados. Adoravam provocar discussões. Eram muito parecidos nisso. Esse era um universo masculino na nossa família, não lembro da nossa mãe, ou das minhas irmãs, gostando disso. Eu não suportava, a polêmica me cansava, mas eles se divertiam.

Quando Vlad sofreu o acidente que quase o matou, (contei sobre isso na parte 3 dessa sequência de posts), vi o quanto um pai pode sofrer por um filho. Meu pai urrava de dor. Chorava alto pelos corredores do hospital. Nunca imaginei ver meu pai naquele estado um dia, ele não suportou ver o filho na UTI, meu pai não aguentou a dor de saber que o filho poderia não ser mais o mesmo depois que saísse do coma, e não suportou a possibilidade de perder o filho. Nossa mãe sofria quieta, calada, contida ...., nosso pai se desmanchava em dor. 

Vladimir tinha um defeito imperdoável, uma mancha que meu pai preferia não ver, ou que ele não entendia onde havia errado: Vlad torcia para o Bahia, o arquirrival do Vitória, time do meu pai. Esse tema era delicado, um sacaneava o outro na medida que os times subiam ou desciam no campeonato baiano, mas essa rivalidade era compensada pelo amor em comum pelo Botafogo. Ambos torciam e sofriam juntos pelo Fogão. Essa era uma compensação que meu pai aceitava e que oferecia algum tipo de conforto pela traição no Campeonato Baiano.

Os dois amavam um bom papo, mas acima de tudo, uma boa polêmica. Gostavam de cerveja e futebol. Gostavam de uma mesa de bar, eram populares, daquele tipo que todos conheciam. Adoravam discutir política e economia. Os dois eram excelentes leitores, liam jornais e livros, além de revistas semanais. Eram parceiros a distância em muitos temas. Discutiam sobre tudo até algum cansar e se retirar. Os dois eram bons nisso também, saiam das situações ou davam limites aos que tentavam invadi-los, com maestria. Os dois gostavam da solidão. Eram livres das obrigações sociais, e as atendiam apenas quando "tinham saco" para isso.

Pressenti a morte do meu pai, sabia que esse dia estava chegando, embora ele não estivesse doente. Morava nos EUA nessa época, fui ao Brasil um mês antes do meu pai morrer, fiquei uma semana com eles, sabia que era uma despedida, quando me despedi do meu pai com um beijo na testa, ele estava deitado na rede, eu sabia do fundo do meu coração que aquele seria meu último beijo nele em vida. Escrevi pra Vlad alertando-o sobre minha intuição, já que nós éramos os filhos que moravam fora. Eu disse pra ele que ele desse mais atenção ao velho, pois eu sentia que nós o teríamos por pouco tempo. Vlad não alimentou essa conversa, achou que era "viagem" minha. Um mês depois, sou acordada por um telefonema de uma irmã, que avisava da morte dele.

Viajei para o Brasil naquela noite, cheguei a tempo do fim do funeral, e para me despedir do nosso pai....Vlad que tinha ido de SP, me abraçou e disse: "bem que você me avisou, minha irmã...". Ele estava destruído, todos nós estávamos. Perder nosso pai, foi uma dor imensa. 


Pouco tempo depois da morte do nosso pai, Vladimir recebe o diagnóstico de câncer no fígado. Conversamos sobre a doença, dentro do limite que ele me oferecia, mas como meu marido havia lutado contra o câncer alguns anos antes e se tratado em São Paulo, ele algumas poucas vezes me deu liberdade (pouca) para conversarmos sobre a nossa experiência nisso.

Na época eu pensei o quanto o universo era perfeito por ter tirado meu pai da terra a tempo dele não saber que o filho estava doente, e que sofreria muito com o tratamento que se seguiria. 

Quatro anos após, no funeral de Vlad, vendo minha mãe tão pequena e fragilizada, agradeci mais ainda ao universo que meu pai não estivesse ali, e sim do outro lado....esperando Vlad para mais uma discussão, agora sobre a queda de Dilma e do PT.





quinta-feira, 2 de junho de 2016

O VLAD QUE CONHECI - O ESTRANHO (parte 4)


Esse post faz parte de uma sequência, leia os que vieram antes, só assim será possível entender essa história....

Depois do acidente de Vlad, que contei no post anterior, uma pessoa estranha surgiu para nós da família. Hoje, como psicóloga e como pessoa adulta, posso entender melhor, a imensa dificuldade e dor que ele viveu, as perdas foram imensas. As pernas que nunca mais serviriam para o futebol, a voz que ficou arrastada, a pausa no auge da vida, pais extremamente ocupados com seus trabalhos exaustivos para notar que algo de muito errado estava acontecendo. Nenhum investimento em cuidar dos sentimentos dele. Não lembro de nenhuma atitude que pudesse nos levar a um caminho amoroso ou de encontro. Ele era apenas um jovem de 20 anos, com certeza precisava de mais ajuda do que as que os médicos poderiam dar.

Tenho certeza de que esse foi um período de exclusão para ele. Ele reagiu contra nós, e não posso condená-lo. Morávamos em um lugar que odiávamos. Saímos do bairro que crescemos, e mudamos para um bairro feio e longe de tudo que conhecíamos. A lembrança que tenho desse período é como estivéssemos em um barco afundando, e o lema era: "salve-se quem puder". Não lembro de ninguém feliz nessa época. Para ser sincera, eu me retirei da família, já havia mergulhado no yoga, meditação, estudos e trabalho, fui cada vez mais fundo, como uma sobrevivente de um naufrágio ... não lembro nem das minhas irmãs. Vlad fez o mesmo. Éramos uma família de 6 pessoas, cada uma isolada da outra... sobreviveríamos ao naufrágio, mas em ilhas separadas.

Vlad voltou-se de forma muito agressiva contra todos nós, levei anos para entender o que estava acontecendo, e enquanto não entendia, reagia com violência também. Nossa família era um palco de desencontros, brigas e distanciamentos.... Quando os sentimentos não são cuidados, são empurrados para debaixo do tapete, em algum momento toda a estratégia de defesa e organização, caem por terra, o que sobra é a dor, a mágoa, as faltas e as lembranças.

Meu irmão tornou-se, para mim, um homem grosseiro, sarcástico ao extremo e rude. Eu não devolvia com flores o que ele me ofertava, nossa relação era extremamente belicosa. Ofensas dos dois lados. Briga e separação. Não fomos fáceis um para o outro. Tínhamos palavras duras e ofensas prontas. Não consigo lembrar de nada bom e leve dessa época. Éramos dois titãs em guerra. Uma queda de braço poderosa se estabeleceu entre nós dois. Leonino e Capricorniana em guerra. Salve-se quem puder.

Adoraria mentir e dizer que nossa família era linda, mas não era. Era uma família normal e com muitas dificuldades para lidar com os sentimentos. 

Já morávamos em um outro lugar e amávamos. Essa mudança nos fez algum bem. Nesses anos, eu estava completamente envolvida com a universidade, e ele também. Ele conseguira sua vida de volta, mas para nós da família, sobrava muito pouco dele, e nem sei se o queríamos. Vladimir tornou-se um incomodo. Viver longe dele era um alívio. A saudade do que ele havia sido um dia, permaneceu, mas acho que agradecíamos quando ele não estava. Mas na verdade, éramos ilhas distantes uma da outra.....

Casei antes de completar 22 anos, ou seja menos de 4 anos após seu acidente, fui embora viver minha vida....
Ele formou-se, e foi embora.... 

... e nunca mais voltou, exceto para as férias e por alguns períodos curtos, mas infelizmente, ficou claro que não existia lugar para ele naquela casa.  Apenas meu pai amava quando ele estava em Salvador, mas para nós, tudo ficava meio caótico quando ele chegava. Ele fumava muito, ele não se relacionava conosco, ele era um estranho. Sua vida social era rica. Saía muito, mantinha os amigos, víamos a vida dele através de um abismo que nos separava e que era intransponível. Em família, ele apenas conversava com os sobrinhos, com meu marido e com nosso pai. Eram as pessoas que o escutavam e que conversavam sobre futebol, economia e política. Nós, as irmãs, eram estranhas .... ele era um estranho para nós. 

João e Maria se detestam quando estão próximos....se amam na distancia...


Sabíamos da sua vida em São Paulo, pelo mundo virtual....primeiro o Orkut, onde foi criado uma comunidade de alunos do "baiano", adorávamos ler as histórias que eles contavam sobre nosso irmão. Mais tarde o Facebook.... passamos a acompanhá-lo virtualmente. Isso era extremamente excitante, pois um Vlad lindo e amado nos era mostrado por estranhos. Um Vlad que lembrava os áureos tempos.....

No próximo post, conto sobre a morte do nosso pai, e sobre a descoberta da sua doença. 






segunda-feira, 30 de maio de 2016

O VLAD QUE EU CONHECI - A QUASE MORTE (parte três)


As novas gerações nunca saberão como eram tensos os dias que antecediam a divulgação do resultado do vestibular. Naquela época, passar na Federal era o que importava, não existiam tantas universidades como hoje existem. Passar no vestibular era um acontecimento importante, e o dia que o resultado ia sair, ninguém saía de casa, ninguém desgrudava do rádio, os locutores oficiais iriam ler em ordem alfabética os nomes dos futuros universitários, e começando pela área 1, até a área 5. Claro que depois dos resultados anunciados, o carnaval começava em Salvador, cidade em que morávamos. 

No ano de 1981, eu esperava pelo resultado do meu vestibular. Vlad já havia passado um ano antes, e cursava com sucesso, Economia. Eu havia passado o ano meditando e praticando yoga, confesso que não esperava nada e confiava na Lei do Karma, como uma bicho-grilo perfeita, achava que os caminhos já estavam traçados e os mestres sabiam o que era melhor para mim. Muito engraçado pensar nisso depois de 34 anos, mas era assim mesmo.

Passei no vestibular. Ouvimos meu nome no radio, assim como ouvimos um ano antes, o de Vlad. Os Deuses Brahmam, Vishnu e Shiva devem ter me ajudado. Fui para meu retiro espiritual fazer meditações e entoar mantras de agradecimento. Vlad foi para a Barra, bairro onde as festas e comemorações aconteciam.

Toda Salvador jovem estava lá. Como Vlad conhecia quase a cidade inteira, ele estava comemorando a vitória de centenas de amigos, e provavelmente minha também. Mas a alegria para ele, e para a maioria que estava ali naquele ano, acabou de repente. Dois carros que faziam "pega" (racha), percorreram a avenida em frente a Praia da Barra, de forma violenta, e um deles atropelou Vladimir, que foi atirado pra tão longe que os amigos tiveram dificuldade de encontra-lo.

Muita gente perseguiu o motorista criminoso, foi um momento de extrema tensão em Salvador. Muitos jovens tentavam salvar Vlad, que havia sumido com o impacto e que mais tarde foi achado debaixo de um carro há uns 20 metros de distância de onde havia sido atingido. 

Terror, revolta, consternação, sangue, sangue, muito sangue.....

Muito difícil para todos que ali estavam acreditar que aquilo estivesse acontecendo.

Vladimir foi levado para o Hospital Português, foi internado na UTI com traumatismo craniano, fratura nos braços e pernas, e com o rosto desfigurado.

Nunca imaginei ver meu irmão assim, mas ver meu pai urrando pelos corredores do hospital, foi pior ainda. Os médicos não conseguiam garantir que ele sairia vivo; se saísse vivo, não conseguiam nos dizer quais os prejuízos que ele teria. Falaria outra vez? Andaria? Quais as consequências do traumatismo craniano? Ninguém sabia. Ele acordaria do coma? Lembraria de algo? A medicina daquela época não tinha muitas respostas.

Salvador parou. Todos os jovens que andavam pela Barra, conheciam Vlad. A porta do hospital virou um verdadeiro ponto de encontro. As pessoas iam pra lá, e lá ficavam. Luto na cidade. Era muito triste tudo aquilo .....

..... mas assim como na morte, o tempo leva o glamour de tudo.....o choque e o horror dos amigos, dos colegas e dos conhecidos, transforma-se em um dia-a-dia penoso e sofrido... a vida continuava para todos, menos para ele que perdeu uma parte importante de sua vida, no auge da juventude, da beleza e do sucesso, lá estava ele numa cadeira de rodas, sem falar direito, e com toda a vida na tecla "pause".  Ele, apenas ele perdeu um ano de vida.... talvez o mais importante. Vlad tinha 19 anos e estava em recuperação de um acidente grave que o deixou em coma e com sequelas para toda a vida.

Vlad levou meses pra se recuperar, muletas foram suas companheiras na recuperação, muitas cirurgias nos joelhos (que nunca foram os mesmos), braço, rosto, aprender a falar e a andar de novo, voltar a vida......ele foi retirado por um ano inteiro do ápice de sua vida. Um sofrimento que nem podemos imaginar. Ele foi sequestrado pelo destino, mantido em um quarto, em uma cadeira de rodas.....perdeu um ano, perdeu a identidade, a faculdade, perdeu namorada, amigos, tempo.....

Mas ele voltou. Um ano depois lá estava ele....seguindo....mais leonino que nunca.

Um detalhe de toda essa tragédia ficou para mim, quando ele saiu do coma, ainda na UTI, os médicos diziam que ele estava em semi-coma, uma pessoa por dia podia vê-lo na UTI, naquele dia eu entrei para ..... ele completamente desfigurado (nunca esquecerei sua imagem), olhou pra mim e disse: 

- "Lu, eu vi Buda." Eu chorei.

Como irmã penso que, depois desse acidente que quase o matou, e o retirou da vida por um ano, ele nunca mais foi o mesmo.

Mas como uma Fênix, ele voltou.