quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mudando para os EUA!


Passei 10 dias em Houston, grande cidade do Texas nos EUA. É pra lá que estou mudando com toda a família em dezembro. Fui encontrar Judson que já está lá. Fui escolher casa, móveis e tudo mais. Nossa vida em breve terá esse novo cenário.


Judson foi transferido para um projeto dentro da própria compania que ele trabalha, que está sendo detalhado em Houston, e lá é seu endereço agora.


Nunca pensei em morar fora do Brasil, ou mesmo em outro lugar que não Salvador. Adoro minha casa, adoro meu trabalho, adoro minha vida. Adoro acordar e dirigir olhando o mar, moro em frente a praia, nunca vou nela, isso é fato, mas adoro ver o mar...sentir seu cheiro.


Olho toda essa mudança por vários prismas. Tento perceber o que deixo aqui...o que perco, e o que encontrarei lá. É preciso fazer um exercício de desapego nesse momento. Tem sido fácil me desapegar de muitas coisas, mas de outras, não.
Tenho sofrido muito em deixar meus clientes e alunos. Isso tem sido o mais difícil pra mim. Ver a expressão de cada um deles que de alguma forma sentem que estão sendo abandonados, isso é duro pra mim. Normalmente choro quando penso nisso. Alguns não conseguem acreditar nisso, outros não conseguem conversar sobre isso. É uma separação que ninguém imaginou, e que tem sido dificil para os dois lados.


Tem os meus pais. Eles são queridos, e acho que sentirão muito a falta dos netos. Eles têm três netos, e dois estarão indo pra longe. Tem os meus funcionários, que são verdadeiros amigos, pessoas que trabalham comigo há muito tempo, e que me são muito fiés. Sentirei muita falta deles.


Amigos queridos ficarão aqui...mas não sou apegada a nenhum deles. Tenho vínculos tão fortes com alguns que sinto que nada mudará com esse afastamento. Tenho uma segurança interna grande, acho que realmente posso me afastar e voltar...e retomar minha vida aqui na hora que eu quiser ou assim for preciso.


Então eu começo a olhar pre frente!...e penso que essa é uma excelente mudança! Experimentaremos enquanto família algo muito legal. Morar em outro país, juntos. Meus filhos já moraram lá por um ano cada um, mas juntos, nós quatro!? Será muito bom! Poder estudar alguma coisa legal. Poder ir a shows, fazer viagens, assistir jogos da NBA (rsss, vi um e amei!), organizar nossas vidas, contar um com o outro...desbravar...enfrentar as dificuldades...sei lá!


Encontrei minha casa americana, ela é linda....é agradável e aconchegante. Moraremos em um lugar muito legal, perto do centro de Houston que é uma cidade grande e rica. Ela tem muitos museus, muitas coisas pra estudar...universidades, e claro muita coisa pra comprar! Acho que teremos uma vida de qualidade material muito boa.


Estamos animados e confiantes de que podemos fazer dessa experiencia algo emocional e espiritualmente rico! Estamos confiantes de que esse tempo fisicamente distantes daqui nos ajudará a crescer como pessoas. Não sabemos ainda como será, e nem poderíamos, mas temos sentido muita excitação com isso.


Farei 46 anos em dezembro, pela númerologia estarei em 2010 entrando em um ano 1, ou seja, estou saindo de um ano 9, fechando um ciclo. Bom momento para mudanças e recomeços. Depois de tudo que vivemos nesses dois últimos anos na luta contra o câncer, acho que essa sensação de recomeço, nos dá uma força enorme para seguir com o que vier a nossa frente!


A vida é surpreendente e definitivamente temos que nos colocar abertos para o que vier.


Sempre peço que a vida seja inteira pra mim, que ela venha e que eu possa estar inteira em cada experiencia!


Assim seja!


Namastê!


Ludmila


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Parabéns meu amor!



Gosto de contar a história de como conheci Judson. Acho linda a nossa história. Acreditem, mas desde pequena eu sonhava com ele.


Não sabia que era ele, mas eu sonhava com o cara que eu amaria e que me amaria muito.


Eu sonhava com a aparencia dele. Nos meus sonhos, o meu amor era um homem magro, usava óculos, era louro de olhos claros...eu via Judson. Eu sabia que o encontraria em algum momento.


Quando meu pai comprou o apartamento, onde ele mora até hoje, eu pensei que seria lá que eu o encontraria. Lembro de olhar a lista com o nome dos proprietários e tentar imaginar em que apartamento ele estaria morando.


Quando nos mudamos, logo no primeiro dia de mudança, lembro que eu e minha irmã arrumávamos nosso quarto e resolvemos descer pra piscina...era final de tarde...quando caminhávamos pra piscina....eu o vi....ele vinha caminhando....eu o reconheci!


Eu disse pra minha irmã: "Vou casar com esse cara!"...ela riu, nós rimos...


Um mês depois nós namorávamos...dois anos depois, nós estávamos casados...


Casamos no dia 14 de dezembro de 1985...eu tinha 21 anos...e nós nos amávamos muito!


Caio nasceu em 88, Lucas em 90...e completávamos nossa família.


Eu sou uma pessoa com muitas certezas...pelo menos era. Não as tenho mais. Muitas certezas se foram, mas o amor de Judson por mim sempre foi uma certeza imensa. Quando descobrimos em 2008 que ele estava com câncer, comecei a viver dentro de uma perspectiva nunca antes pensada...Nunca imaginei minha vida sem Judson. Nunca passou pela minha cabeça que eu não fosse envelhecer ao lado dele. Sempre achei que ele estaria me amando por toda a minha vida!


Ele cantava isso pra mim: Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida...eu vou te amar!
Eu acreditava nisso...mas nunca pensei que ele podia não estar por toda a minha vida.


Sou egoísta. Adoro ser amada por ele. Temos um casamento legal. Temos vidas independentes. Somos muito diferentes, mas nos amamos muito.


Judson é um pai preocupado, um filho atencioso, um genro muito querido.


A luta dele contra o câncer tem sido um grande exemplo...se eu o admirava antes, agora, o admiro infinitamente mais. Ele foi corajoso, ele enfrentou tratamentos dolorosos com tanta dignidade. Ele nunca reclamou de nada. Ele fazia o que devia ser feito. Ele foi focado, determinado...eu só o acompanhava. Ele não se identificou com a doença. Ele tentou ser durante todo o tempo, ele mesmo, e não um paciente de câncer. A descoberta da metástase trouxe medo e mais dores, cirurgia, tratamentos, mais químios...ele continuou forte...mas, ele chorou...O incrível, é que eu sempre reclamava dele nunca chorar. Nos anos todos que estivemos juntos, nunca o vi chorar! Achava isso um problema. Como alguém viver sem chorar? mas.. com a metástase no fígado, ele chorou...nós choramos juntos...abraçadinhos...nos sentimos tão ameaçados nos nossos sonhos...tudo parecia tão assutador...




Há um mês o tratamento acabou...ele fará controle por muito tempo. O fantasma dessa doença ainda nos perseguirá, mas ele não parou...mesmo em tratamento ele não se vitimizou, trabalhava quase normalmente e se transferiu para os EUA. Apostou em novos projetos...acreditou na vida!



Quero falar sobre Judson hoje. É o aniversário dele. Ele faz 50 anos!


Ele está longe de mim agora. Ele está em Houston, no Texas...onde estaremos morando a partir de dezembro. Ele está iniciando um novo período da sua carreira profissional, e está nos esperando lá.


Fico muito triste de não estarmos juntos nesse aniversário que por si só, já é muito especial, 5 décadas!! e ainda mais depois de tudo que passamos...vamos comemorar atrasados...dia 29 estarei chegando lá...vamos escolher juntos nossa nova casa...onde moraremos nesse novo momento das nossas vidas.




Parabéns meu amor!
Feliz aniversário!
Voce sabe que eu te amo muito!


Que voce tenha muitos anos de vida...e, ao meu lado!

Ludmila

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dançando....mudando...libertando....


Sou capricorniana. Sempre tive muitas metas, e nunca tive medo delas. Metas ambiciosas para alguns, mas não para mim, sempre achei que o que eu de verdade quisesse, eu poderia alcançar.

Fiz isso com muitas coisas que desejei. Não temia as experiencias, não temia o fracasso...nem o sucesso. Por incrível que pareça às vezes até temia o sucesso. Estranho mais é verdade!


Cheguei numa idade que eu amo! Farei 46 anos! Me sinto madura, adulta e cada dia mais livre. Cada dia mais livre de mim mesma! Isso é que é legal! Não tive pais repressores...e nem posso culpar ninguém por nada que eu não tenha feito...se houve algo que deixei pra trás, foi fruto de mim mesma...o freio estava em mim!


Estou para viver uma grande mudança da minha vida! Viverei a partir de dezembro por algum tempo nos EUA. Vamos a família toda! Judson já está lá. Tudo indica que em dezembro estarei também. Penso em estudar, penso em trabalhar...me pego com tantos desejos...Não sinto medo. Sinto uma excitação grande quando penso nessa mudança.


A medida que as pessoas que me conhecem vão sabendo disso, ficam espantadas. Como posso deixar o Espaço Mahatma Gandhi (http://www.mahatmagandhi.com.br/)? Como posso deixar pra trás as coisas que plantei aqui? Clientes, alunos..casa...amigos...?? Não sinto que deixo nada pra trás...mas sinto que a vida faz essas coisas...e nós temos que escutar e sentir esses movimentos..


Depois de ter enfrentado, ao lado do meu marido, um câncer durante esses dois anos, sinto que me liberei de muitas coisas...se já me sentia uma pessoa livre...agora me sinto mais ainda...; se já não tinha muitos medos, agora então...Essa doença, me ajudou a perder algumas ilusões...de segurança e estabilidade...se a impermanência já era um tema pra mim, agora virou uma verdade!!!


Em setembro viajei pra Europa, estava na Alemanha, quando me percebi estava apaixonada pela ordem de lá, tudo funcionava, tudo era tão perfeito...depois de alguns dias, aquela perfeição começou a me incomodar...não é possível pra mim que a vida esteja tão sob controle como eles tentam mostrar, ou até mesmo acreditar!! Procurava o caos naquela ordem e não achava.


Um dia, estava em Köln, cidade linda, em frente a famosa catedral, lugar muito lindo...muitos turistas...todos muito educados, nenhuma bagunça...tudo limpo...tudo em ordem...escuto um som jamaicano. Era um artista de rua, um homem negro, jamaicano, cantando Bob Marley..as pessoas escutavam..colocavam moedinhas..e continuavam a andar...ele tocava e cantava...


Nesse momento, eu vi o caos!

Onde estava a expressão? O que aquelas pessoas sentiam? Não é possível que aquilo não provocasse nenhuma reação. Elas estavam gostando..por que colocavam moedinhas...mas onde estava o corpo delas? porque elas não expressavam nada?


Aquilo me incomodou...eu não queria aquilo pra mim..foi tão simbólico...algo se descortinou diante dos meus olhos...então, comecei a dançar!!! Eu dançava sozinha no meio da rua!!!


Don't worry about the things...cause every little things is gonna be all right! ...e eu dançava!

No woman no cry....e eu dançava....dançava sozinha...no meio da rua!!!


O jamaicano adorou! acho que ele se deu conta da solidão dele naquele momento...

As pessoas na rua reagiam de forma diferente...algumas tiravam fotos....outras olhavam com espanto..e outras nem viam! Eu não estava nem aí...vi isso, depois nas fotos que minha mãe tirava...acho que ela se espantou também! acho que ela desejou fazer aquilo também!

Eu dancei no meio da rua em meio àquela "ordem" toda! Parecia que eu de alguma forma, quebrava aquela ordem aparente...balançava a estrutura...trazia vida àquele lugar!


Uma energia enorme tomou conta de mim! Senti em todo meu corpo a liberdade possível! Entendi no meu corpo porque muitos Deuses indianos são representados dançando!!

Senti que o que me aprisiona, é aquilo que eu quero e deixo que me aprisione...

Nenhum olhar pode me aprisionar.


Ninguém pode aprisionar minha alma, assim como ninguém pode libertá-la!


Ludmila Rohr



domingo, 11 de outubro de 2009

Símbolo de Poder e Liberdade!

Terei que dar uma pausa no tema da sexualidade que vinha desenvolvendo, mas ele voltárá logo. Não se preocupem. Mas, preciso fazer isso, porque nesse instante conversando com Patrícia Guerra no msn...nem me lembro como o assunto começou, mas de repente estávamos falando sobre o simbolismo dos cabelos, sobre nossa visão a respeito de "cabelo"!


Bom, meu filme preferido de toda a vida, chama-se "Hair", já o assisti umas mil vezes. Ele tem tudo a ver com uma época da minha vida, mas que não fica pra trás nunca..sempre me acompanha.


Semana passada, meu filho Lucas que tinha os cabelos muito longos (na cintura), resolveu raspá-los. Acho que ele começou a se sentir preso a uma imagem. Não interfiro nisso, mas me deu uma dor vê-lo raspando a cabeça. Ele tá lindo sem eles também, e acho que foi um momento de ruptura importante pra ele..sinto que é como se ele dissesse que não precisa dos cabelos pra se conectar com o poder dele. Que ele se basta.


Tenho lidado nesses últimos 2 anos, por conta do câncer do meu marido, com pessoas que perderam os cabelos por causa da químio...tenho visto como para a grande maioria é uma grande dor.


Meus cabelos são longos e cacheados....digo sempre que sou uma espécie em extinção...que em algum momento irão me fotografar pra provar que existiam mulheres que tinham cabelos cacheados. As mulheres hoje são todas iguais com seus cabelos lisos.


Sempre que vou ao salão alguém me pergunta se não quero defrizá-lo, ou fazer uma escova progressiva, japonesa...afe...nem sei mais os nomes. Sempre respondo com uma pergunta: Voce por acaso está com medo dos meus cabelos? Porque eu não tenho.


Em uma passagem de Hair, um personagem confronta a mãe indignada que o cabelo dele, com a seguinte pergunta: Maria aceitava os cabelos longos de Jesus, por que voce não aceita os meus?


Os cabelos estão ligados a muitas tradições espirituais. Os Sikhs na Índia não cortam o cabelo nunca durante toda a vida. Jesus, Budha, Khrisna, metres, gurus, rishis....todos tem cabelos longos... até quando alguém tenta transformar Deus em um homem, esse homem é personificado com cabelos e barbas longas. Todos conhecem a história de Sansão que perdeu a força quando cortou os cabelos. Raspar a cabeça em várias culturas, tem o significado de sacrifício, de abnegação, ou de ritos de passagem.


Mas, os meus cabelos cacheados mexem com as pessoas não porque são longos, mas porque os deixo naturais, como eles são. Domar, controlar, conter, reduzir, desbastar..são verbos usados quando querem me propor algo. Dai eu penso: Será que eles tão falando mesmo do meu cabelo? Qual a fantasia de ameaça que ele produz que precisa de tanta contenção?


Cabelos são incontroláveis. Eles tem vida própria, e humor também. Eles se rebelam e fazem não o que queremos, mas o que eles querem. Eles representam pra mim, um poder que vem de dentro de mim. Poder que só posso ter, quando me rendo a ele. Estar rendida à minha natureza, é assumir o meu poder. Não quero nada me controlando, nem me domando, muito menos me reduzindo...quero expansão, quero apropriação, quero todo poder que meu corpo tem pra me dar.


Assim como eu sempre achei que meus partos naturais, me levaram a uma conexão profunda com algo da minha natureza animal, meus cabelos também me levam a isso.


Não existem cabelos feios. Existem cabelos mal cuidados, ou mal entendidos.
As pessoas não são iguais, então porque querem cabelos iguais?
Chris Rock, comediante americano, e negro, fez um documentário sobre cabelos, e a grande pergunta dele, era por que as pessoas queria ficar iguais a todas as outras? Com uma imagem homogênea e pasteurizada?


Bom...nada contra a absolutamente nada que as pessoas façam ou queiram fazer pra se sentirem melhor, ou mais belas, mas...meus cabelos continuarão aqui, enquanto for do meu desejo...e serão (pra mim) um símbolo do meu poder e liberdade! E recomendo que assistam Hair, se ainda não o assistiram. É um lindo filme!
Ludmila
P.S. Na foto com Lucas, antes de abrir mão dos cabelos, vendo por-do-sol no Farol da Barra.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sexualizando....

Quero continuar a refletir sobre desejo.

Quero também deixar claro que quando falo de desejo, não faço nenhuma referencia direta, ao desejo sexual, embora toda energia que move os desejos, sejam energias de natureza sexual, mas não no sentido genital!
Quando pensamos em sexualidade, somos levados imediatamente a pensar em genitalidade, em ato sexual, ou mesmo em desejos sexuais, fantasias...e por aí vai..


Sexualidade é muito mais que isso! A nossa sexualidade ultrapassa os limites das nossas zonas erógenas e alcança todo o nosso corpo; ultrapassa os limites do corpo e avança na nossa alma, na nossa áura, e na nossa mente... a nossa sexualidade é a porta de acesso ao nosso espírito!


Essa energia é tão poderosa que tem o poder de nos conectar com o que existe de mais mundano, mas também com o que existe de mais sagrado! Os indianos chamam de Kundalini...a energia da vida..que nos leva em direção aos desejos e/ou à sabedoria e conhecimento. A tradição indiana milenar, conseguiu, ao contrário da nossa, unir o mundano ao sagrado...o sexo é visto como sagrado. A união de corpos e o orgasmo são visto como um momento que imita a criação do universo, como o momento em que mais estaríamos próximos de Deus.


Conheci na Índia inúmeros templos que são adornados por imagens de atos sexuais explícitos. Muitos Deuses e Deusas são representados com seus genitais expostos, com seios fartos. Conheci templos onde no centro estavam a figura do Linga (pênis), e Ione (vagina). Eles nos colocam em choque com as nossas imagens santas, com seus corpos cobertos e negados.


Digo com muita convicção que precisamos sexualizar a vida. Se queremos uma vida intensa e prazerosa, precisamos buscar as sensações das coisas, sair de um estado de anestesia que normalmente se vive e buscar SENTIR. Entretanto, devemos fazer isso desapegadamente. Precisamos estar abertos e inteiros no contato com nossas sensações e sentimentos, mas precisamos nos desapegar..deixar passar...não tentar retê-los por mais tempo que o necessário.. por que dái vem o sofrimento.


Tenho visto durante esses anos que lido com pessoas, que elas foram aos poucos e por conta da dores da vida, se anestesiando! Tentando fugir das dores, e por acreditarem que podiam selecionar o que não queriam sentir...foram aos poucos ficando cada vez mais distantes de suas almas..Não se pode dizer pra alma que não quer sentir mais dor. Quando se diz isso... a alma entende, que voce não quer mais SENTIR....e aos poucos...voce vai passando a não sentir nada! A alma vai adormecendo..e passa a ter medo de qualquer coisa que ameace essa falsa estabilidade, que mais se parece com a MORTE do que com a VIDA.


Tenho visto também, como a sexualidade e o desejo ficaram reduzidos à genitalidade, e como foram associados apenas aos prazeres momentâneos e carnais (que são deliciosos), mas é como se voce pudesse ter e viver algo muito especial e mágico, e escolhesse ficar apenas com a parte menor que aquilo pode oferecer.


Bom...esse é um assunto vasto e profundo..e não quero ser leviana...vamos andando..vamos caminhando com ele. Participem....escrevam seus pontos de vista, façam seus comentários..indiquem para outras pessoas...vamos movimentar essa energia!


Ludmila Rohr



domingo, 4 de outubro de 2009

Desejando............sem culpa?

Tenho uma amiga virtual linda. Torço pra que um dia possa abraçá-la de verdade. Ela é uma guerreira na luta contra o câncer. Ele me chama de Diva! Acho que temos uma afinidade intelectual..de almas..e de desejos...guardando as devidas proproções da idade..ela é uma jovem e linda mulher e eu sou uma linda mulher! Já vivi muito mais que ela...mas a admiro muito.


Bom...um dia após muita conversa, filosofando sobre a vida.e principalmente sobre o Amor e Desejo...questionando o quanto vale a pena adiar a vivencia desses amores e desejos...falamos sobre ousadia, liberdade...sobre Ser Mulher...sobre se apropriar do nosso corpo e dos nossos desejos... sobre o quanto tememos os nossos próprios desejos...e sobre muitas outras variações do mesmo tema...



Devo dizer que posso passar horas conversando sobre esses temas femininos com mulheres interessantes e questionadoras. Adoro mulheres que ousam questionar o poder patriarcal e não aceitam os comportamentos misóginos.. adoro conversar com mulheres que reconhecem o seu poder, ou o buscam!! Poderia fazer workshops e palestras infindáveis sobre isso! A "mulher" é o meu tema preferido!! Sempre me apaixono e tenho energia quando o tema é esse! Não sou feminista...não acho que os homens são inferiores, nem nada parecido...mas acho que os homens são mais monótonos, monocromáticos...tem menos apelo pra minha alma de terapeuta e de escritora...


Sou casada e tenho dois filhos homens...adoro eles..acho os homens lindos e não quero fazer nenhum manifesto pró-mulheres..só quero falar da minha paixão pelo tema feminino! Até nesse blog, tenho escrito muito sobre esse tema.



Bom..minha amiga me perguntou se é possível viver assumindo os desejos e sem culpa? Pergunta difícil né? Acho que nem vou conseguir responder só nessa postagem...voces terão que me acompanhar alguns dias até que eu possa organizar isso no meu corpo e mente.



O que me vem em primeiro lugar é uma pergunta: por que colocamos essa condição para viver o desejo? Porque ele precisa vir sem um preço? não podemos pagar esse preço? e se a culpa for nossa companheira, não podemos lidar com ela? Será que se o desejo for bom mesmo, não valeria a pena pagar um preço por ele, seja ele qual for?



Depois eu começo a pensar se existe vida sem culpa. Não sei...acho que não. A culpa é uma nuance da nossa alma, em algum nível, penso que a sentiremos sim.


Em seguida me pergunto: mas porque culpa associada a desejo? Estaríamos traindo que ordem? Estariamos quebrando algum paradigma? Estariamos provocando alguma ruptura profunda na humanidade ou mesmo nas famílias, se assumimos os nossos desejos? Por que os nossos desejos assustam tanto os homens, as famílias...e até as própria mulheres?


Outra coisa: Precisamos realizar todos os desejos? ou precisamos pelo menos assumir todos eles? Tomar consciencia dos meus desejos já não seria uma grande conquista? Por que algumas mulheres não querem nem pensar nos próprios desejos? não querem nem saber! Temem que apenas por os tornarem conscientes, a vida fique insustentável após isso.


Culpa está associado a erro. O desejo feminino na cultura cristã está associado a um grande erro. A primeira mulher que desejou, foi culpada e punida. Nascemos com essa imagem atávica impregnada nas nossas mentes e corpos...


Não concluirei nada nessa postagem..e talvez em nenhuma outra..mas prometo que voltarei a esse tema, logo...hoje só quero levantar essa questão..


Quem puder e quiser..comente essa postagem...seguirei com esse tema outras vezes...repassem pra outras mulheres...vamos tentar enriquecer esse debate!


Mulheres, desejem!!!


Beijos


Ludmila Rohr

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Me traindo....



Desde que lembro de mim, questiono as coisas. Desde que lembro de mim, penso que as coisas são mais do que aparentam, e que elas significam algo mais do que a primeira vista revelam.


Acho que fui uma criança sem graça e uma adolescente chata...não lembro de mim sendo superficial nas coisas... até queria ser, mas não conseguia. Isso, aos 45 anos pode parecer algo cult, legal...mas aos 13 era uma tortura, aos 18 era um saco..Bom...fui assim. Fui velha antes de ser nova! Assim são os capricornianos. Eles ficam jovens com o passar do tempo.


Já tem tempo que me sinto jovem...muitos anos atrás comecei a ficar jovem.


Entendi que se quisesse ser fiel a mim mesma, teria que me trair!


Essa foi uma compreensão libertadora.


Compreendi que não precisava ser fiel à Ludmila de ontem, nem ao que a minha história havia escrito pra mim. Descobri que podia trair essas perspectivas e prognósticos, podia fazer tudo diferente. Podia trair pensamentos, crenças...podia trair até idéias, até mesmo minhas próprias opiniões.


Eu me liberei de uma imagem de Ludmila, e comecei a ser a Ludmila que posso ser hoje. A Ludmila que posso ser a cada dia.


Quando experiemnto posições novas diante da vida..me experiemento! Descubro que posso ser mais essa, além daquela!

Não quero conclusões mais. Eu conclui que não preciso concluir muito as coisas..nem ter grandes certezas a respeito de nada!


Alguém que me lê agora, já comprou um perfume achando delicioso e depois descobriu que não era tanto assim? Ou que havia afirmado alguma coisa, que não merecia tanta defesa assim? pois é.
Posso me contradizer, por que sou muitas. Não sou uma só.


E pra que eu seja fiel às muitas que sou, preciso me trair também.


Posso mudar, porque sou uma pessoa que busca a liberdade...e tenho uma impressão (hoje) que a liberdade não está nas certezas.
Namastê

Ludmila Rohr

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Despedida do Coração do Ventre!



Meu útero tá indo embora...vou operar hoje e o retirarei de mim...


Fiquei pensando que isso poderia vir com um grande pesar..mas não tá sendo assim...


Conheço o significado simbólico do útero de uma mulher....ele é o "coração do ventre"! Assim sempre o senti. O meu útero sempre foi uma espécie de coração...um coração que estava nas minhas entranhas...no meu âmago. Sentia uma espécie de poder emanando dele.


Conheço as energias que são mobilizadas no meu ventre..conheço os chakras e o corpo de luz que tenho..
Por isso...por saber tanto de outros aspectos do meu útero, até pensei que ía ficar triste ou com uma sensação de perda..sei lá...mas não estou.
Consigo me despedir com muita gratidão dele. Sem apegos.

Ele abrigou meus dois grandes amores. Meu útero foi tão generoso comigo que além de acolher tão bem Caio e Lucas, de forma tão protetora e sem intercorrencias...ele se abriu completamente para que eles saissem sem me causar sofrimento. Meus partos foram partos de um útero generoso e poderoso. Ele se dilatava completamente sem que eu me esforçasse...sem que eu precisasse passar por qualquer tipo de dor...abria caminho pra que meus filhos simplesmente viessem à vida.
A sensação de estar grávida..indescritível...me sentia como o centro do Universo..Meu útero era o centro do universo! Era lindo, mágico, poderoso...sentia como uma Deusa que gera a vida!
Lembro muito bem da imensa sensação de poder que tive quando senti meu útero contraindo para me ajudar a parir. Eu fiquei fascinada com aquela força animal que meu útero tinha, e que acontecia independente da minha vontade..eu só tinha que obedecê-la...seguir esse poder...assumir como meu! Era meu poder. Tive certeza disso. E quando meu primeiro filho nasceu desse útero poderoso..me senti muito poderosa...gostei muito de mim, pois percebi que eu não tive medo da minha natureza selvagem...não tive medo desse poder e que me entreguei a ele!


Disse pra mim mesma depois do parto: "Se posso isso, posso qualquer coisa!"

Sou grata ao meu útero por isso. Uma grande parte do meu poder, é um poder uterino, é visceral!!!


E mais ainda...

Adorava minhas mentruações...adorava menstruar...eu sempre tive um pré-mentrual tão doloroso, que a menstruação parecia um prêmio...era como se meu útero liberasse numa explosão, todas as tensões de um mês inteiro...era um alívio. Foi assim desde a 1ª vez que menstruei. Menstruar significava liberação...alívio..relaxamento...Me sentia profundamente conectada com a Deusa Ártemis que me revelava todo o poder animal/instintivo que existia em mim. Era um contato com uma fera poderosa que habitava meu corpo.


Não sinto abrindo mão de meu poder, nem o perdendo porque meu útero vai embora...sinto que sou grata e feliz por ter vivido toda essa conexão.

Como posso nesse momento me apegar a ele. Sinto gratidão..sinto muita gratidão.


Vou operar..ele será retirado de mim, mas as histórias e a energia que esse coração das entranhas mobilizou e ainda mobiliza na minha vida continuarão...
Me interno hoje e volto domingo...sem ele..mas muito grata por ele ter existido na minha vida quando eu precisei.



Namastê





Ludmila Rohr

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Notícias e um tempo para a alma...


Foi assim...

Fomos a São Paulo. Estivemos com a médica que tratou Judson do 1º câncer e com o médico que o operou da metástase, Dra. Angelita Habr-Gama e Dr. Joaquim Gama. Eles são muito bons. Nos oferecem um tratamento absolutamente digno. Nos sentimos respeitados e atendidos com eficiencia. É muito fácil confiar no que eles dizem, eles passam tranquilidade e segurança no que estão fazendo. São além de médicos, pesquisadores, cientistas. Em nenhum momento nesse 1,5 ano senti nenhum tipo de insegurança com eles, ou a respeito deles e do que eles nos propunham em termos de tratamento.

Enretanto, essas consultas envolvem muita tensão, muita expectativa. Estávamos ansiosos por esse dia, mas ao mesmo tempo sem querer vivê-lo, porque o que queremos é apenas uma coisa. Não existe algo mais ou menos, ou próximo do que desejamos que nos satisfaça. Não há alternativa que nos dê satisfação, a não ser uma: Saber que tudo deu certo.

Deu certo.

Judson é considerado a partir de hoje por eles como um paciente em controle.
Ele fará, durante um ano, revisões de 3 em 3 mêses, que passarão em seguida para de 6 em 6 mêses...e ...enfim..continuarão tendo seus espaços dilatados até completarem 5 anos, quando o paciente de câncer é considerado em remissão.

Não se fala em cura, mas em remissão.

Tenho me perguntado quais os sentimentos? O que tenho sentido nesse momento?

Não sei.

Às vezes um alívio..porém, às vezes me pego tensa como se ainda tivesse que viver uma próxima quimio na semana seguinte...às vezes nem lembro que tivemos um notícia boa assim...de verdade ainda não consegui ficar alegre. Queria tanto...mas acho que minha alma tá assustada ainda...assim meio desconfiada...sabe como alguém que esteve na prisão e que não confia muito na liberdade? Parece que uma parte da minha alma, da minha energia...da minha vida..esteve aprisonada..e agora tem que se acostumar com o brilho do sol..com o vento no rosto...com a vida!

Já me peguei desejando mais uma quimio...só mais uma, por favor! Como se ela fosse me salvar de algo...já refiz as contas das quimios...fico achando que a clínica contou errado e ainda falta uma...! ai..e se eles estiverem errados? e se ainda faltar uma?

Bom...acredito na cura da alma, sou terapeuta..cuido de almas feridas. Mas acredito que o tempo da alma é um tempo próprio...e que talvez a alma demore mais a se curar que o corpo.

Minha alma vai se curar, mas preciso de um tempo....

Sou grata a vibração e companhia, que recebemos, durante todo esse tempo, de todos!

Namastê!

Ludmila Rohr


domingo, 13 de setembro de 2009

A última!


Estamos vivendo um momento de uma enorme contradição. A alma dividida entre a alegria e alívio e o medo...uma desconfiança.
Judson fez o último ciclo de quimioterapia. A sensação que tenho é que esse ciclo foi o pior de todos. Muita prostração, enjôos, fraqueza, muitas dores...inapetencia..simplesmente horrível..
É tão ruim que não conseguimos ainda nos dar conta de que é o ultimo ciclo!!
ou talvez seja tão ruim exatamente por que é o último ciclo!

Bom..Já vivemos esse momento no ano passado. Fizemos a última quimio e celebramos muito. Jantamos, brindamos, viajamos..., mas o câncer apareceu outra vez e nos assustou muito. Talvêz estejamos com medo de celebrar...

Essa é uma doença que não machuca só o corpo, e não machuca só aquele que ela acomete...ela machuca a alma, e a todos que estão por perto. O câncer modifica a nossa relação inteira com a vida. As nossas prioridades se transformam..os apegos precisam ser trabalhados...muitas coisas ficam pra trás..outras ganham importancia...

Não farei ainda uma avaliação do que o câncer me tirou, nem do que ele me trouxe...ainda é cedo pra isso..., mas quero hoje apenas sentir que vencemos uma etapa importante. Quero abrir meu coração e agradecer à vida por estarmos aqui, juntos nessa luta que não escolhemos lutar, mas que estamos conseguindo lutar...batalhas duras, dolorosas...muito dolorosas..

Quero poder sentir alegria, mas não é uma alegria muito simples de ser sentida, pois Judson está muito mal, enquanto eu escrevo sobre esse momento...ele está há 5 dias sem praticamente comer nada, com muitas dores que o impossibilitam de sair da cama, com perda de sensibilidade nas pernas e mãos, enjôos, prostração...mas, ele conseguiu!

Não sei se sinto alegria ainda, mas sinto um orgulho enorme! Ele é o meu marido..o meu amor..o pai dos meus filhos..e é um guerreiro...que nunca se queixou de nada esse tempo todo...NUNCA e NADA! Nunca se queixou de nada!!! é verdade! Ele foi sempre corajoso, quieto nas suas dores e nos seus medos..mas sempre corajoso e focado. Estamos nessa luta há 17 mêses...e ele é um vencedor.

Ainda não consigo ficar alegre..mas consigo sentir um orgulho muito grande. Uma sensação de missão cumprida...de que a maratona está no fim...ainda não dá pra celebrar, por que estamos exaustos, mas dá pra sentir que conseguimos...e isso é tudo nesse momento.

Namastê

Ludmila Rohr

domingo, 6 de setembro de 2009

Não gosto de praia...adoro o mar!


Nasci em Salvador...em frente a praia. Praia sempre foi o programa de todo mundo que nasce e cresce em Salvador. Demorei algum tempo pra descobrir que detesto praia. Detesto tudo que envolve esse ritual de ir à praia, biquine, protetor (antes era bronzeador), sacola, sombreiro, cerveja..carangueijo...acarajé...calor, areia....afe...simplesmente detesto...


Quando Caio e Lucas eram pequenos, eu os levava à praia..toda mãe faz isso. Eles brincavam de castelo de areia, nas ondinhas...tomavam picolé, queijo assado...se perdiam, se achavam...e cresceram...Hoje eles detestam praia. Os meus dois filhos, que cresceram indo a praias aos domingos, também detestam praia.


Quando eu descobri que não precisava ir a praia...que eu podia assumir a minha brancura...foi como uma alforria. Ainda tenho que lidar com os espantos das pessoas quando digo que detesto e que não vou a praia, mas tudo bem. Sou baiana de Salvador e detesto praia e carnaval, aviso logo! Vou a praia todos os anos no dia 1º de janeiro, é um ritual íntimo...e não vou mais nenhum dia durante o ano todo; e no carnaval não vou nunca, nem nunca levei meus filhos.


Bom..mas por que estou falando sobre isso?

Porque eu adoro o mar. Eu amo ver o mar...estar aqui em Lisboa...ver o mar, me deixou extremamaente emocionada. Gosto de tudo que vem do mar. As poesias e as canções. Gosto dos peixes, mariscos....adoro as comidas que produzimos do mar. Como moro em frente à praia...vejo o mar todos os dias....tenho uma certa reverencia pelo mar... respeito mesmo. Não acho que sou íntima e posso ir entrando...tenho uma espécie de adoração respeitosa...que contempla mas não se aproxima muito... quase uma reverência romântica...que endeusa...que glorifica...


Quando eu era pequena sonhava com o mar quase todas as noites. Ondas me pegavam...eu tentava resistir...depois me rendia...Sonhava com mergulhos intermináveis pelo oceano...eu podia respirar dentro d'água (nesses sonhos)...sonhava com algo que parecia morte por afogamento, mas não eram mortes..não havia desespero, nem eu me debatia...apenas mergulhava e me deixava levar....o mar me levava...e eu ía....


Hoje é meu último dia em Lisboa..estou voltando pra casa...penso que em outra vida, talvez tenha sido um navegador..alguém do mar..ou um pescador...quisera ter sido um poeta...que escrevesse sobre o mar...que usasse o mar como metáfora da própria alma, da própria vida...


Tenho marés...tenho ondas e calmarias...sou profunda e sou rasa....dou frutos...quando mais entro em mim, mais silencio encontro...do lado de fora...ruidos...coisas se mexem...mas dentro...só silencio...profundidade e quietude....


Namastê


Ludmila Rohr



terça-feira, 1 de setembro de 2009

Meu trem sairá às 05:53h


Hoje é meu 7º dia na Alemanha. Amanhã vou embora...ficaria muito mais...simplesmente amei esse lugar. Amei a sensação de ordem, a sensação de que as coisas funcionam por que cada um faz sua parte. Uma autonomia adulta no comportamento das pessoas que não são nem de longe subservientes, muito menos infantilizadas por um governo assistencialista como o que o nosso governo produz. Uma cidade adulta, culta, rica e educada.


As pessoas sabem o que devem fazer, e fazem. Elas esperam, na rua, o sinal de pedreste abrir, mesmo que não venha carro algum. Os ciclistas também. Os carros param quando em faixa de pedestre mesmo sem sinal. As calçadas tem espaço para idosos, deficientes...(aliás, eles estão todos na rua, andando e fazendo programa comum a todos), crianças, carrinhos de bebê, andador de idosos....bom, esse é um país onde os direitos são respeitados, mas os deveres são cumpridos. O cidadão tem consciencia dos seus direitos, mas sabe dos seus deveres e os cumpre. O lixo é jogado na lixeira, existem lixeiras. A água pode ser bebida da torneira, é limpa. As pessoas fazem bem, o que deve ser feito.


Nossa...tô apaixonada. Não tenho ilusões de perefeição a respeito de nada. Não acho que a perfeição exclua a falhas. Perfeição é um estado de inteireza...a Alemanha, com certeza tem seu lado social obscuro...mas eu não vi. Fiquei com muita raiva de meu país em vários momentos...raiva e vergonha. Hoje me vi indo ao banheiro de um Jardim Zoológico...banheiro público...limpo...cheiroso!! Onde acharia isso no Brasil?


Conversei com muitos imigrantes...aqui tem muitos turcos, paquistaneses e indianos....eles não voltariam para seus países...eles trabalham pra caramba...mas acham que a vida aqui é civilizada. Acham uma pena isso, mas entendem que dificilmente algum país chegará a esse nível de organização, civilidade e respeito humano que a Alemanha chegou.


Amanhã pegarei um trem para Frankfurt que sairá da estação às 05:53h. Não sairá 05:54, nem 05:55h...ele sairá 05:53h!!! está no painel e assim será. Fácil viver assim né? Se eu perder esse trem, não posso me queixar de nada, nem de ninguém...seria minha total responsabilidade...esse é o preço da vida adulta...assumir sua parte pra que o "todo" funcione.
Ludmila Rohr
P.S. foto na escada da estação de trem.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu e minha mãe na Alemanha!!!!


Estou na Alemanha há 4 dias. ESTOU NA ALEMANHAAAA!!!


Tudo é absolutamente incrível. Tudo funciona. As pessoas são extremamente profissionais e educadas. Somos tratados com extrema civilidade e educação.

Trouxe minha mãe. Ela está encantada...ela fala dos velhos nas ruas..da educação dos cachorros, da sobriedade das pessoas...da limpeza e organização do supermercado, da infinidade de produtos lindos...ela está gostando muito...acho até que ela está animada a fazer outras dessa.


Eu gosto muito do meu país, mas de fato não sei se gosto dele porque ele merece ou simplesmente porque nasci lá. Tento deixar de lado qualquer sentimento bairrista, porque não os quero. Gosto do Brasil, gosto de Salvador...mas acho que gosto, porque lá estão os meus afetos...a minha história. Nem sei se Salvador merece que eu goste tanto dela. Ela me trata mal....o Brasil me trata mal...me desrespeita, me ignora nos meus direitos básicos...Acho que o Brasil não gosta dos brasileiros...


Minha mãe tem um problema com viagens. Para ela viajar significa ir ver a família. Eu nunca tive família pra ir ver. Minha mãe quando pensa em viajar, pensa em ir a Manaus(onde ela nasceu) reencontrar a infinidade de parentes que ela tem lá. Pra mim viajar significa ver novos lugares, novas culturas, diferentes estilos de vida, comidas...arte...Não tenho parentes, pelo menos que possuam significados afetivos pra reencontrar, então, viajar significa ver lugares e me sentir dentro deles.


Eu e minha mãe nunca fizemos uma viagem como essa. É a primeira vez. Viajamos quando eu era uma criança. Viagem de família. Desde lá é dificil convencê-la a ir a qualquer lugar que não seja Manaus ver a família dela! Essa é nossa 1ª viagem. Essa é sua 1ª viagem à Europa, entretanto de vez em quando eu a pego imaginando se morasse ali...ela diz: "seu pai ía gostar desse lugar", "seu pai ía gostar de ouvir música nesse parque"..."já viu como as senhoras se vestem?"..coisas assim...


Ela tem medo...ela é muito apegada...Sei que qaunto maior o apego, maior o medo. Talvez por isso, ela só faça viagens de volta pra "casa". Eu não tenho muitos apegos...gosto de saber que ninguém me conhece. Gosto de saber que estou em um lugar onde ninguém sabe quem eu sou. Ela preferia estar "em casa" com todos os irmãos e sobrinhos. Ela sente-se segura entre conhecidos. Eu me sinto segura sabendo que não serei assaltada na rua, e não serei atropelada ao atravessar uma rua.


Tenho refletido nessa viagem sobre como somos diferentes. Não quero o mesmo de sempre. Escolho comidas no cardápio em alemão, sem ao menos saber o que estou pedindo. Penso...se eles comem, eu como também. Aliás adoro provar coisas novas. Fico triste quando descubro que aquilo que eu achava que seria algo muito exótico é simplesmente uma sopa de alguma coisa....enquanto isso minha mãe queria comer o bife com arroz, ou o café com leite e bolo que ela tem em casa.


Ela não reclama...muito pelo contrário. Acho que ela está adorando, mas percebo que o que eu penso de viagem, não é o que ela pensa. Viajar pra ela é encontrar aqueles que a reconhecem..é voltar pra casa. Acho que talvez seja isso que sentem os que tiveram que morar longe do lugar onde nasceram. Ainda não sei o que é isso.


Falo mal do Brasil..não consigo ser ufanista. Não consigo nem achar que o Brasil é o melhor lugar pra se viver. Por enquanto é, porque meus filhos estão lá, porque meu trabalho, meu cachorro, meu gato...meus amigos, meus afetos...estão todos lá...


Conversei muito com o nosso motorista paquistanês...o pai dele veio pra cá quando ele era uma criança...ele é cidadão alemão...o filho dele nasceu aqui...ele estudou, ele é poliglota...o filho dele é trilingue...eles tem educação e saúde...ele conseguiu construir uma vida aqui...nem pensa em voltar para o país dele...disse que lá ninguém vive, apenas sobrevive...


Essa não é a minha realidade no Brasil, mas é a de muitos brasileiros...as pessoas simples sobrevivem. Eu sei que nem posso reclamar, e não reclamo. Tenho uma vida boa. Mas sei que o "meu" Brasil, não é o Brasil de todos. Nem ao menos da maioria. Sou parte de uma minoria, sei disso.


Mas o filho do motorista paquistanês tem uma educação melhor do que a de muitos barsileiros com boa condição. Ele chegará à vida adulta sendo um estrangeiro, isso é verdade, mas estará instrumentalizado a conquistar um lugar em qualquer lugar do mundo, assim como o avô dele fez anos atrás e sem instrumento algum além da coragem.


Bom...a viagem está uma delícia...amo cada esquina que vejo...amo cada experiencia que vivo...amo o frio com sol. Nem penso em voltar...queria que meus filhos estivessem aqui...Ao contrário de minha mãe que a cada instante relembra de Manaus (onde nasceu e viveu até os 25 anos, ou seja, quase 50 anos atrás)....eu não lembro de nada...eu só contemplo o novo...sinto que estou livre...sinto uma leveza grande....estou aqui, e isso é o que me interessa!


Ludmila Rohr
P.S. Foto de um brinde em Bad Homburg...é de noite, mas o sol só se põe às 21h!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Himalaya sob os meus pés...


Uma vez o Dalai Lama disse que o Himalaya estava debaixo dos nossos pés. Ele quis nos alertar, que não adianta grandes aventuras externas, sem que antes tenhamos encontrado o significado do "himalaya" dentro de nós. Já estive no Himalaya três vezes. Sobrevoei aquela imensidão branca quase sem respirar de tão linda e inacreditável. Estive diante do Everest três vezes, e o impacto foi avassalador para minha alma. Tive que levar meus filhos lá, senão eu teria a sensação mais ou menos como na loucura, em que voce fala algo e não é compreendido.
Precisava que minha família me entendesse. Precisava que eles soubessem do que eu estava falando....


Acredito no Dalai Lama. Vi pessoas que estavam lá comigo e não viam o que eu via. Aliás na 3ª viagem teve até uma pessoa que conseguiu provocar sentimentos negativos e competitivos em meio aquela visão sagrada. Lembro até que chorei. Chorei como se tivesse sido atingida por uma lança no meu coração, em um momento de total desproteção. Definitivamente aquela pessoa não estava no mesmo Himalaya que eu.


Porque falar do Himalaya agora?

-Estou saindo de férias. Serão apenas 15 dias. Irei na Alemanha e em Portugal. Levarei minha mãe para sua 1ª viagem à Europa, e levarei meu pai só pra Portugal. Ele nos encontrará lá.


Tenho vivido um ano muito difícil desde que descobrimos o câncer de Judson em abril de 2008. Tenho buscado força na minha prática do yoga e em amigos reais e virtuais. Sou tão grata a esses amigos. Eles me acolheram com todos os meus altos e baixos. Não me senti julgada, nem cobrada em momento algum, nem pra ser forte. Só recebo elogios, incentivos e carinhos.


Esse ano difícil se prolongou por mais tempo de que imaginávamos, já estamos em um segundo ano ano muito difícil. Tem horas que me sinto muito forte, corajosa, serena...tem horas que me sinto cansada, exausta. Polarizo entre esses dois lugares...e tanto em um, quanto no outro, lá estão meus amigos. Lá está o yoga. Encontro sempre a mim mesma nesses lugares e a mim mesma entre esses dois lugares. Não me desconheço...tenho uma sensação de mim mesma o tempo todo. Isso me dá um lugar sereno e consistente dentro de mim....acho que é o meu Himalaya!


Não tenho grandes ilusões a respeito de férias...elas nos tiram de uma paisagem externa, mas não podemos esquecer que não é só a mala que levamos juntos...nós vamos juntos! Nossos medos, tensões, preocupações...ansiedades...


Estou tranquila...sem grandes ansiedades...acho que me acostumei (por causa do tratamento de Judson) a não criar grandes expectativas. Apenas uma mudança de paisagem...e me dou conta de que isso é uma delícia...simples assim.... Quero, mais do que tudo, proporcionar isso aos meus pais. Quero ver minha mãe andando por ruas da Europa...quero ver meu pai falando com os portuguêses...(acreditem em mim. Isso vai ser uma pândega!)


Bom...estou indo hoje...levo um pouquinho do Himalaya que conquistei dentro de mim....ele sempre está lá...e depois volto....minha vida está aqui...com meus filhos, clientes, alunos, amigos, com meu gato, cachorro....minha vida estará sempre onde meu coração estiver!


Mas....agora....eu mereço férias.....


Beijos a Todos


Namastê


Ludmila

sábado, 22 de agosto de 2009

Minha voz pela liberdade


Li esse livro. Chama-se "Minha voz pela liberdade". Acabei de ler esses dias. Livro simples, rápido de ler. Ele me foi dado de presente por uma cliente. Na capa uma foto de uma monja nepalesa linda. Ela é a autora. Ela é Ani Chöying Drolma.


Comecei a ler e fui reconhecendo os lugares que ela citava em Kathmandu, no Nepal.

Uma delícia isso!

Descobrir que conheço os lugares que são descritos em um livro que fala sobre a vida de uma monja Budista no Nepal?

Não me acostumo com isso, parece surreal demais pra mim!


Conheço esses lugares...fico emocionada. Ainda me espanto em pensar que já estive nesse pequeno país três vezes! Que já estive de frente para o Himalaya e o sobrevoei três vezes...que já andei pelas ruas de Kathmandu...que as conheço, que já levei meus filhos e meu marido nesses lugares...isso pra mim ainda é motivo de muito encanto e espero que nunca venha a banalizar essa experiencia. Acho que ela é mágica mesmo, e sou muito grata a vida por ter me permitido isso!


Ani Chöying Drolma conta sua história de vida. Como conseguiu transformar o ódio e violência em AMOR!

Ela conta como se deu sua escolha monástica...uma necessidade de sobevivência...pela necessidade de escapar de um pai violento e uma infancia miserável. Nada muito romântico. Necessidade mesmo.


Muitas coisas são lindas nesse livro, mas o que encanta é a descrição da sua luta interna de não se deixar levar pela sua mágoa e raiva, transformando esses sentimentos em música, em beleza, em luz, em paz e amor.


A monja Drolma nos mostra de forma simples como isso é possível. Como a nossa natureza humana pode renascer das situações mais duras...como podemos transformar a dor em luz e conhecimento.


Ela não nega a sua raiva...ela chegar a descrever o seu ódio e violência interna. Ela não se faz de "santa" ela simplesmente se encara de frente, encontra metas luminosas e principalmente, ela não culpa ninguém pela sua vida. Ela se resposabiliza por tudo e por cada mudança que ela deseja.. Ela não espera, não se queixa e, sem pudores nenhum, pensa grande, muito grande!


Os sonhos dela são imensos...aparentemente impossíveis...mas sua força e disposição pra transformá-los em realidade são incomensuráveis...


A psicologia tradicional diria que uma criança vitima de tanta violencia e por tantos anos, teria sua capacidade de sonhar afetadas...teria sua auto-estima e confiança abaladas...mas ela nem sabe o que é isso... ela sabe o que quer. Ela sabe onde quer chegar. Ela simplesmente caminha sem medir esforços e vai!


Ela sabe que LIBERDADE só é possível quando vencemos a nós mesmos, e o caminho dela é em busca dessa liberdade! Ela sabe então, que seu único inimigo é ela mesma, não o seu passado, muito pelo contrário....ela honra e agradece ao pai violento que a ajudou a chegar onde chegou!
Bom livro...nos faz repensar nosso infeliz e destrutivo hábito da queixa e da lamentação!


Namastê!

Ludmila Rohr


sábado, 15 de agosto de 2009

Eu sou V.I.P.?


Saiu uma entrevista comigo em uma revista virtual daqui da Bahia em uma coluna que chama-se "Entrevista VIP".
Dar essa entrevista para Nilza Barude foi muito agradavel. Ela é uma jornalista apaixonada. Na verdade foi mais uma conversa...uma longa conversa...

Nem ía comentar sobre essa entrevista, mas hoje eu estava lendo um site de notícias e li sobre uma lista de VIPs famosos...fiquei curiosa....


Quem me conhece sabe que eu não sou VIP no sentido conhecido dessa sigla. Não sou uma socialite, não frequento lugares badalados, não tenho pais ricos, nunca casei e me separei de um milionário...não coloquei silicone nos seios, não sou uma ex-BBB, nem modelo, nem atriz...bom não saio em colunas sociais, trabalho muito.... definitivamente não sou uma pessoa VIP!


Ser V.I.P. significa ser uma "Very Important Person"..ou, em português: uma "pessoa muito importante"!


Conheço muitas pessoas importantes, e provavelmente eu sou uma pessoa muita importante para algumas pessoas. Acho que devo ser importante para meus alunos. Eles aprenderam a respirar comigo... ensinei pra eles alguma coisas bem legais que com certeza os fazem mais felizes. Devo ser importante para amigos meus. Com certeza sou muito importante para meus filhos, marido, pais, irmãs...


Não tenho problemas com minha auto-estima. Tenho uma noção bem legal de mim mesma. Não tenho nenhum tipo de falsa modestia. Sei do meu valor. Talvez ainda me assuste ao receber um elogio, ou mesmo um agradecimento, mas tenho noção do que faço e do que sou. Não faço as coisas esperando elogios, e nem acho que eles sejam muito importantes, talvez até porque eu não tenha dificuldade alguma de receber olhares de afeto e carinho. Eles me alimentam mais do que elogios.


A coluna VIP do jornal que li hoje falava de alguma atriz que tinha diminuido o tamanho do silicone de 385ml para 260ml. Outra VIP havia dado um "lance" e mostrado a calcinha em uma festa que estava provavelmente amontoada de pessoas VIPs, e uma outra tinha ido a um jantar na casa de alguém com muito dinheiro. Esses eram os VIPs de hoje, desse jornal.


Bom, não preciso dizer que nao sou VIP.


Nilza Barude viu algo de importante em mim e me colocou em sua coluna. Ela viu algo que não tem a ver com dinheiro, posição social, festas e jantares....Não sei se o que tenho de importante, importará para as pessoas tradicionalmente VIPs...mas, quero aqui deixar registrado que estou ao lado de muitas pessoas importantes e elas são muito importantes para mim.


Essa é a lista de VIPs da minha vida:

Meus companheiros da comunidade "Faço quimio e sou feliz",

da comunidade "Parentes de vítimas de câncer",

meus alunos,

meus clientes,

minha família,

meus amigos queridos...


Sem voces eu não seria nada!


Namastê!


Ludmila Rohr


o site que saiu a minha entrevista caso alguém queira ler:

sábado, 8 de agosto de 2009

Entre netos e cachorros...


Sou clichê. Já disse isso aqui.

Não conseguiria deixar de falar do meu pai, hoje, véspera do Dia dos Pais.

Todos que me conhecem sabem do orgulho imenso que sinto por ser filha dele. Tenho admiração e respeito. Meu pai é alguém muito especial, mas não é porque ele é meu pai. Acho que ele é realmente especial. No mínimo, ele é muito diferente. Ele sempre foi muito diferente dos outros pais.


Meu pai era comunista na época da ditadura. Foi preso político em 64, logo após meu nascimento. Perdeu emprego e teve direitos cassados. Ele foi anistiado muitos anos depois junto com outros tantos brasileiros. Foi sindicalista e teve uma vida muito dura. Nasceu em uma família muito humilde, perdeu o pai quando era uma criança.

Meu pai, era o único pai (que eu conhecia), que tinha viajado à União Soviética (ainda existia) e à Cuba. Era exótico isso. Todos os outros íam pra Europa. Ele não.

Ele escolheu os nomes russos dos seus 4 filhos. Eu, Vladimir, Tatiana e Larissa. Todos os nomes tinham uma história. Ele lia muito sobre guerras, sobre história... e lia pra gente.


O pouco dinheiro que ele ganhava, não era pra guardar..ele vivia. Nos proporcionava coisas que não poderiamos ter. Sempre estudamos em boas escolas. Junto com minha mãe, lembro da dureza pra manter finaceiramente essa família grande. Mas ele, achava que era importantíssimo nos levar pra tomar sorvete nos domingos. Ele achava fundamental que fôssemos aos domingos assistir a matinê no cinema. Ele achava que valia a pena sonhar.


Teria muitas histórias sobre ele pra contar, aliás, eu poderia fazer uma palestra muito incrível sobre ele, mas hoje só quero falar de duas coisas.


A primeira é a relação deles com os 3 netos, e a outra sobre a relação dele com os cachorros. Isso mesmo: netos e cachorros.


O amor a a paciencia dele para com os netos e para com os animais é algo incomensurável. Ele verdadeiramente os ama. Meu pai nunca reclamou de absolutamente nada que os netos e os cachorros tenham feito. Ele é completamente permissivo e apaixonado por todos. Ele não dedica nem uma ínfima parte disso pra ninguém mais. Acho que não tem mais saco pra ninguém (exceto nós, os filhos), mas os netos e os cachorros merecem, da parte dele, toda a deferencia e isso é recíproco.


Convidá-lo para um lugar onde ele não possa levar os cachorros é uma ofensa. Ele até vai, mas arranja um jeito de voltar logo. Ele, aos olhos de alguém que entende de cachorro, estraga os bichinhos. Ele faz todas as vontades. Ele dá a própria comida a eles. Não preciso dizer que os cachorros acabam hipertensos e acima do peso (como ele). Ele adora qualquer cachorro. Os meus, da minha irmã, os deles...e qualquer um que chegue perto. Ele simplesmente encanta os cachorros, e os cachorros o amam também.


Voces podem até estar pensando que ele entende alguma coisa sobre cachorro...que ele possa ter técnicas para lidar com eles. Não, não tem. Ele é absolutamente permissivo..e os cachorros ficam completamente mal educados com ele. E ele se diverte muito com isso. Ele faz com os cachorros, o mesmo que fazia com a gente. Permitia tudo. Nos tirava de castigos que minha mãe colocava, nos autorizava a transgredir e a quebrar regras. Nos autorizava a ser aquilo que podíamos ser. A seguir nossa natureza. Assim ele é com os cachorros. Ele não pretende que um cachorro haja como um ser humano adulto, mesmo porque, ele acha que os cachorros são superiores aos humanos. Ele simplesmente os aceita, e por isso é venerado pelos mesmos.


E os netos? Não existe pessoas mais importantes para meu pais que os netos. Ele os chama de "os catitos", são homens barbados, mas para ele, são "os catitos". Eles podem tudo. Ele fará qualquer coisa por eles. Ele não estranha nada que eles façam. Apesar da idade, ele não critica os cabelos longos dos meus filhos. Ainda diz que se Jesus era cabeludo, porque os netos dele não podem ser? Quando Caio pintou o cabelo de azul, e, ele soube por minha mãe, que estava meio assustada, ele disse: Se voce pode pintar de "amarelo" por que ele não pode pintar de azul?


Ele acha um barato as namoradas dos meninos e, nunca fez nenhuma crítica a eles, nem aos seus hábitos, roupas, cabelos e amigos. Não interfere em nada, apoia absolutamente tudo. Os netos e os cachorros são os seus amores. Max (o atual cachorro), Rafael, Caio e Lucas contam com o apoio irrestrito do meu pai. Eles contam com a maior defesa que alguém pode desejar.


Ninguém pode brigar com um cachorro na sua frente, assim como ninguém pode falar mal dos seus netos, (nem nós,os pais).


Essa é uma história de aceitação da natureza. Meu pai aceita os cachorros como cachorros que são. Não cobra, nem espera nada que eles não tenham na sua natureza canina pra dar. Ele aceita os netos como são. Cada um do seu jeito. Ele vê as diferenças entre eles, mas simplesmente os aceita.


Acho que nenhum cachorro poderia ter um dono melhor.

Acho que ninguém poderia ter um avô melhor.


Namastê


Ludmila


domingo, 2 de agosto de 2009

Uma Declaração de Amor!


Amo muito Judson...acho que todos sabem disso!
Sou muito amada também...adoro isso!

Temos uma relação normal, brigamos, discordamos, temos os estresses naturais de um casamento...aliás, acho o casamento um grande destruidor dos amores...mas o nosso tem resistido até ao casamento.

Judson é um super companheiro. Sabe das minhas dificuldades e me ajuda. Eu também sou uma super companheira.
Estamos do lado um do outro.

Nos respeitamos como individuos. Mantemos nossas individualidades, nossos interesses particulares, e precisamos fazer isso, já que somos tão diferentes.

Hoje, quero fazer uma declaração de amor. Ele estava viajando, fora de casa por 15 dias. Entre uma sessão de quimio e outra, viajou a trabalho para os EUA. Acho isso lindo. Manter a vida correndo o seu curso... continuar aberto pra vida sempre..
Ele é corajoso, determinado, disciplinado...acho lindo alguém que ama o seu trabalho..eu amo, ele também! Nossos trabalhos sempre foram prioridades para ambos, então sempre há compreensão de ambas as partes, sentimos o mesmo em relação ao trabalho!

Hoje quero apenas dizer do quanto sou feliz de tê-lo como amigo, marido, pai dos meus filhos, amante, companheiro....
Hoje eu quero dizer para todo o Universo, que sou feliz por ter vivido esse amor, por ter sentido a vida toda que ele era importante pra mim...e não só quando o câncer ameaçou isso...nada a me queixar...amei muito, sem economia...e fui amada, sem economia...amo e sou amada!

Amanhã ele estará em quimio outra vez...mas hoje não. Hoje ele é o meu amor, inteiro pra mim.

Como sou muito clichê, hoje tenho só uma simples declaração de amor pra fazer!

Judson, te amo muito e, te amar me faz muito bem!

Namastê

Ludmila Rohr

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Caminhar Juntos


Ontem fui procurada por um homem cuja filha está com câncer. Ele soube de mim através de uma amiga com quem tenho uma longa história de trabalhos voluntários de ajuda ao próximo. Fizemos parte por longos de incríveis 18 anos de um serviço que se chamava Plantão da Fraternidade, atendíamos 24 h por dia, pelo telefone, pessoas que estivessem precisando de algum tipo de orientação, acolhimento..etc.. Esse pai precisa de ajuda nesse momento. Me senti extremamente honrada ao ser procurada por ele. Ser reconhecida como alguém que tem algo pra dar , me faz sentir uma felicidade no fundo do meu coração e percebo que tudo que tenho vivido junto com minha família não tem sido em vão!

Aprendi também nesses anos, que quando uma pessoa ajuda a outra, nesse momento está sendo ajudada também. Minhas ilusões a respeito de que fazendo aquilo eu seria uma pessoa boazinha, caíram por terra imediatamente quando percebia a cada atendimento do Plantão da Fraternidade, que podiam ser pela madrugada, sábado, domingo e feriados, em que eu saia tão feliz, tão alimentada. Descobri muito cedo que na verdade eu me ajudava, quando ajudava alguém. Eu me alimentava na alma, quando escutava as dores da alma de alguém. Aprendi que quanto mais dou, mais recebo. Essa é a única forma de aprendermos sobre Generosidade e Fraternidade.

Descobri que a fome maior vem do isolamento, e a minhas duas maiores descobertas foram:

"É dando que se recebe" e "Amar é mais importante que ser amado".

Nunca me senti perdendo nada quando eu estava dando. Nunca me senti mais rica, do que quando eu estava tirando de mim para dar a quem mais precisasse. Nunca me senti mais preenchida de amor, do que quando eu estava amando.

Amar vale a pena. Sempre ganhamos quando amamos.

Com a doença de Judson tenho entrado em contato com dores que não conhecia, pessoas que não conhecia, e por incrível que pareça chegam pra mim pessoas que estão com câncer ou têm parentes com câncer também no consultório.

Acho que no momento que entro num caminho, não fico sozinha. Aparecem outras pessoas que eu posso ajudar, e que vão caminhar comigo, e me farão companhia. Um empurra o outro. Um puxa o outro. Um dá suporte ao outro.

Uma amiga me disse, que eu devia evitar tanto envolvimento, me perguntou porque eu estou me martirizando? Disse que me envolver com essas pessoas iam me deixar mal. Nunca senti isso. Desde que tornei pública a luta de Judson, só encontrei pessoas que me ajudassem, caminhando comigo, não me deixando sentir solidão nunca. Com elas falo a mesma linguagem, o mesmo idioma, me sinto tão entendida..acho que ninguém que não tenha vivido isso poderia me entender tão bem! Não sei como isso pode ser um martírio.

Essas pessoas que parece que estou ajudando, é que na verdade me ajudam. Elas me tiram de qualquer possibilidade egoísta de me fechar em mim mesma, ou de ter pena de mim mesma.

Não me sinto fraca diante de alguém que luta contra o câncer, muito pelo contrário. Pessoas que lutam, que fraquejam, que querem desistir, que adorariam poder desistir, mas não conseguem. Pessoas com muitas chances, pessoas com poucas chances, mas que lutam, e são vencedoras..

A grande derrota é não lutar. A grande derrota é aceitar simplesmente sobreviver. A grande derrota é passar um dia após o outro sem valorizar o poder que nos foi concedido de sermos vencedores!

Quero muito ouvir esse pai com sua filha que está com câncer. Quero muito descobrir por que eles me procuraram, o que eu tenho pra dar. Quero muito caminhar junto com cada vez mais pessoas, dando as mãos, caindo e levantando...é assim que eu quero, é assim que eu sei!

Namastê

Ludmila Rohr


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Isso é bom ou ruim? Mente contemplativa!


Uma coisa pode ser boa e outra pode ser ruim?
Essa é uma questão importante, pois a partir de como compreendemos a forma como nos ligamos às "coisas", poderemos entender também os nossos apegos e aversões.
Segundo Buda, nada por si só teria a característica de ser bom ou ruim, mas que a forma como nos ligamos a elas sim, faria toda a diferença.

Milhões de pessoas não vacilariam em afirmar que ganhar um prêmio de loteria milionário é algo muito bom. Tenho lá minhas dúvidas, sei de casos de pessoas que tiveram suas vidas destruidas pelo excesso de dinheiro, que perderam amigos, família e que foram até assassinadas. Mas isso nos levaria a pensar que ganhar esse prêmio é algo ruim? Também não. Sabemos de inúmeras histórias de pessoas que conseguiram transformar suas vidas após um prêmio desse. Não só as suas vidas, mas da sua família, amigos, sua comunidade, etc. Então isso é bom ou ruim?

Perguntaram certa vez numa comunidade de câncer, se ter tido câncer foi bom ou ruim? Foi um alvoroço...pessoas ficaram indgnadas e ofendidas com a pergunta, outras falaram dos benefícios que o câncer havia trazido para suas vidas...Bom não consigo pensar que o câncer é algo bom. O câncer pra mim é uma praga, é um limão muito azedo, é algo doloroso e assustador, mas apesar disso, acredito sim, que a ligação que faremos com ele pode ter várias qualidades diferentes.

Tenho desde os 16 anos a prática de meditar, não exatamente de sentar e fechar os olhos, embora faça muito isso, mas tenho a prática de olhar a vida e as coisas com a MENTE CONTEMPLATIVA, que é uma qualidade da nossa mente que é absolutamente oposta à mente habitual que normalmente é discriminativa, que normalmente está julgando, comparando, criando aversões e paixões, e com isso gerando sofrimento.

A mente contemplativa é uma mente que não julga, apenas vê, apenas contempla, escuta, sente, mas não discrimida, se é bom ou ruim, se é pior ou melhor, se estou ganhando ou perdendo, se sou maior ou menos....essas são habilidades imbecis da nossa mente sofredora. A mente contemplativa apenas observa, ela não sabe o que é bom ou ruim, pois ela sabe que as duas respostas são possíveis...e porque isso vai depender não do fato em si, mas de como nos ligamos ao fato, às coisas.

Então conheço pessoas que tiveram ou estão com câncer e que estão se descobrindo como pessoas melhores, estão descobrindo forças que não sbiam que tinham, estão encontrando amigos, aprendendo a abrir o coração....elas estão fazendo algo muito bom com o câncer, a ligação é muito positiva, mas isso faz do câncer algo bom? certamente não. Essas pessoas se ligaram de forma positiva a ele e conseguiram fazer desse limão uma limonada. Conseguiram transformar DOR em AMOR.

Enquanto outras passam muito tempo reclamando, sentindo-se vítimas injustiçadas, chegam a perguntar porque Deus não deu uma doença dessa a um assassino? A forma como se ligaram ao câncer foi essa. Negativa e vitimizada.

Acho que existe estudos que mostram que os positivos vencem mais essa batalha, mas isso não tem a menor importancia pra mim, pois não consigo pensar na morte ou na não-morte. O importante é pensar na vida. O quanto estamos infelizes agora, nesse dia. O quanto estamos felizes agora, nesse dia. Isso depende de mim, depende exclusivamente da forma como eu me conecto às coisas, aos fatos, porque eles por si só não são nem bons, nem ruins.

A mente contemplativa é a única liberdade possível, com ela nos liberariamos das prisões que nós mesmos nos encerramos, a prisão imbecil da comparação, que nos leva ou para a vaidade de ser melhor, ou para a inferioridade de ser menor, pior, menos. Ambos são lugares aprisionantes.

A mente contemplativa que a meditação nos oferece, nos tiraria dos apegos, pois eles são gerados pela paixão e pela aversão. Tudo que eu temo perder (paixão), e tudo que luto para evitar (aversão), esses são os meus grilhões, são os cadeados que me mantem prisioneira de mim mesma!

A Mente Contemplativa observa, livre, independente....sabe que tudo tem um sentido...que nada é bom ou ruim, que a perfeição está em tudo, que só existe o presente...ela é livre, e isso é felicidade!

Namastê

Ludmila Rohr

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Não sejamos sobreviventes!!!!


Digo paras as pessoas quando as ensino a respirar que elas precisam querer respirar! Digo que não é bastante respirar porque precisa, mas que é urgente respirar por que se quer!
O corpo cumpre a obrigação básica de respirar o suficiente para SOBREVIVER. O corpo não quer morrer, então ele sobrevive. Mas a mente pode RESPIRAR para VIVER, e isso faz muita diferença.
Essa é a questão importante. Queremos o mínimo para sobreviver? o que significa apenas que não queremos morrer, ou em algum momento vamos decidir que queremos mais? muito mais. Precisamos querer respirar não preocupados simplesmente com a manutenção da vida, mas sim com a qualidade da vida! Respirar não apenas para não morrer, mas sim, respirar para viver!


Sou professora de yoga, então é claro que sou professora de respiração. A nossa respiração consciente mobiliza o Prana, que é a energia da vida, o "Hálito Vital", o "Sopro Divino"...movemos vida quando respiramos! Então, nossa vida pode ser rasa e curta, se assim for a nossa respiração; e pode ser profunda e longa...se assim respiramos...pode ser vibrante, expandida, ou pesada e tensa..

Bom adoro o tema RESPIRAÇÃO, já apresentei trabalho em congresso de psicologia com esse tema, falo de respiração todos os dias com alunos, clientes...criei meus filhos pedindo para eles repirarem quando sentiam algo....isso em algum momento se voltou contra mim, pois quando eu estava brigando com eles, eles diziam: mamãe, respire!!
Apesar de me sentir em casa com esse tema, hoje na verdade o tema é outro. Quero refletir sobre a diferença entre VIVER e SOBREVIVER.

Fiquei muito incomodada, porque alguem chamou meus companheiros de luta contra o câncer de "sobreviventes"...e parei pra refletir..dei até uma lida na psicologia dos sobreviventes...mas minha experiencia com Respiração Yogue foi quem mais me ajudou nessa reflexão.

Sobreviver é ser levado...nada lhe cabe mais em termos de ação consciente, a pessoa entende que é um sobrevivente, e deve no máximo ser grato por isso. Os sobreviventes não têm desejos, eles não acionam a vida na direção desses desejos...os sobreviventes apenas sobrevivem...cada dia em relação àquilo que os ameaçaram na sua vida.
Se eles sobreviveram a um acidente ou a um câncer...a vida passa a funcionar em torno disso... tudo gira em torno da manutenção da sua sobrevivencia...a vida foi ameaçada, agora é preciso ter muito cuidado, viver como se "pisasse em ovos", sem barulho, sem chamar atenção pra que o monstro não seja despertado outra vez...os sobreviventes vivem assutados...vivem delicadamente mantendo a sobrevida...com medo, tensos...e por isso não podem viver! Os sobreviventes apenas respiram pra manter a vida!

Viver é o oposto disso. Viver envolve riscos, emoções, amores e dores...sonhos, planos, ideais. Pra viver é preciso respirar grande, expandir os limites, expandir a alma, abrir o coração...Viver é intenso...é pisar em todos os ovos e, quebrá-los logo pra não sobrar nenhuma tensão...pra viver é preciso coragem, é preciso saber virar páginas, é preciso encerrar histórias e iniciar novas...é preciso estar aberto para o novo...Esse novo não tem garantias...a vida não nos oferece garantias...então é encarar o novo com todas as possibilidades...


Viver depois de um câncer é preciso!...é preciso sentir que se é um VENCEDOR e não um SOBREVIVENTE! Alguém que vence e pode celebrar a vitória. Alguém que vence e pode partir pra outra. Partir para a vida, que sempre existiu cheias de desafios...sempre foi assim...e continuará sendo...então será preciso encará-los...não há um lugar especial para ex-pacientes de câncer. É preciso abrir mão da ilusão desse lugar especial, que nem existe.

Aqueles que se foram durante essa batalha coletiva, não são perdedores...são vitoriosos também...não é a não-morte que indica um vencedor...vencedor é aquele que vive intensamente e luta sem desistir...eles ajudaram na luta, eles contribuiram na batalha...

Assim como soldados que vêem seus amigos cairem, e querem vencer ainda mais a guerra para honrá-los...precisamos fazer isso! Precisamos honrar aqueles que se foram. Precisamos honrar a Lili, o Ivan, a Suu, o pai da Katy, o Pai da Criss, o pai da Patsy, o pai da Marcela, a neta da Bertilha, o marido da Élida, da Rai..precisamos honrá-los e a única forma eficiente de fazer isso é VIVENDO!!!


Lugar de ex-paciente de câncer é na VIDA! e não na sobrevida!
Vamos respirar grande, vamos respirar vida...abrir o peito e dar espaço para a vida entrar! é de muita vida que temos sede e fome!

Sejamos VIVENTES dessa vida e não sobreviventes!!!!
Namastê

Ludmila Rohr

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Como uma bola de neve...


Me envolvo...como uma bola de neve...
...vou me envolvendo...

Não sei ser diferente...


Li no livro de Nilton Bonder, "A Alma Imoral", uma passagem que vou tentar reproduzir aqui...está no capítulo "O certo que é errado e o errado que é certo"...

"...não há nada na experiência do ser humano que não tenha sido criado sem uma utilidade., Então vem a pergunta: E pra que serviria a atitude daqueles que negam a existencia de Deus? ... ... Há alguma transgressão à crença em Deus que seja, em algumas condições, mais construtivas do que a própria manutenção desta crença?

Depois desses questionamentos, Bonder discorre sobre o quanto é comum, pessoas carentes de alguma ajuda, ouvirem de crentes em Deus, que elas devem ter fé, que devem entregar a Deus, que devem confiar que Deus as ajudará...etc...

Depois ele começa a explicar que por não acreditarem em Deus, muitas pessoas produzem um efeito de acreditar nele. Promovendo ações positivas e de acolhimento, envolvendo-se de forma direta nos problemas e, de fato oferecendo ajuda necessária e concreta...


Não sei se acredito em Deus...definitivamente o "meu" Deus, não se parece em nada com muitas descrições que ouço...já falei sobre isso outras vezes aqui nesse blog. Uma vez escrevi até por conta de alguém que questionou de forma agressiva a minha fé...disse que eu era uma pessoa inteligente, mas que precisava me ajoelhar diante do pai e implorar pela cura do meu marido! Respondi na época, que o meu Deus não precisava que eu implorasse nada, que nem meus filhos nunca precisaram me implorar nada...e que eu (que sou apenas eu), faria tudo que estivesse ao meu alcance pela vida de qualquer pessoa sem que ela precisasse implorar, imagine o meu Deus? Disse ainda se Deus atendia a quem pedisse mais, que eu não queria esse Deus...


Acredito na vida e no ser humano...por isso me envolvo. Não consigo dizer pra alguém, que me conte que está sofrendo, "Tenha fé em Deus"...simplesmente, não consigo!....Eu digo: Posso fazer alguma coisa? Quer que eu va aí? às vezes já digo: Tô indo aí. Ou digo: voce vai vencer! Respire. Voce tem coragem o bastante! ou...é possível vencer isso! ou até mesmo: Estou aqui para o que voce precisar! e ainda..tem momentos que digo: que merda! vc tem todo direito de chorar, ou de estar assim!


Quando eu era mais jovem, eu tinha um certo medo disso em mim, achava que isso seria como uma bola de neve, que não teria fim...que eu teria que me envolver cada vez mais, que quando eu parasse pra avaliar, estaria envolvida com as dores dos outros até o pescoço. Dizia pra mim mesma, que nao era Madre Tereza, nem Irmã Dulce, e de fato não sou. Sou egoísta demais. Penso em mim. Penso no meu bem estar. Quando ligo pra alguém ou faço um movimento na direção de alguém estou pensando em mim. Quero fazer algo pra não ficar no mal estar, ou talvez por que não acredite muito em Deus.


Paciencia...sou assim...talvez seja essa a função das pessoas que não acreditam ou não sabem se acreditam em Deus...

Eu acredito no Deus que existe em mim, e preciso dar movimento a ele.
Acredito na Energia Vital que me foi confiada e preciso fazer algo útil com ela.

Acredito que tudo é possível e acredito no amor.
Essas são minhas crenças...


Namastê!


Ludmila Rohr


quarta-feira, 8 de julho de 2009

A Verdade sempre está....

O que fazer quando tenho dúvidas se devo ajudar alguém ou não?

O que fazer se tenho dúvidas de esse alguém está sendo sincero, se está falando a verdade?

Tenho a tendencia humana de a principio não querer ajudar, mas isso dura muito pouco...

Ofereço à pessoa a possibilidade de se defender...de se explicar...falo abertamente da minha dúvida, da minha desconfiança, tentando não julgar, mas deixando claro o meu mal estar...mas tento não impor minha verdade..


No fundo, no fundo...sei que as pessoas que mentem, precisam muita da nossa ajuda, talvez sejam elas que precisem mais da nossa ajuda. A necessidade de mentir é humana, mentimos, isso é um fato...primeiro porque nem conseguimos entender a Verdade, segundo por que não a alcançamos... talvez também por achar que a verdade será dolorosa demais...bom...mil motivos são usados pra entendermos a necessidade da mentira. Mas de fato...acho que a mentira vem do nosso medo.


Quando não estou confiando em alguém, tento oferecer a chance da verdade aparecer, falando da minha desconfiança. Penso que eu não falar do que estou pensando, estarei mentindo também, e penso que quando falo da minha desconfiança, dou uma chance concreta das pessoas se abrirem e correrem o risco de exercitarem a confiança. Digo risco, por que acho que as pessoas temem confiar... temem o risco de confiar...não aprenderam sobre isso...não confiam em si mesmas...


Entretanto, mesmo com isso, algumas pessoas sutentam a mentira...acho que estão tão identificadas com a mentira que nem conseguem viver sem ela...ou falta a coragem necessária de se despir dela e correr o risco de se mostrar de verdade. Talvez falte a autoconfiança necessária pra sustentar esse risco. Autoconfiança de que sobreviverá sem os escudos da mentira...


Bom...o que fazer diante disso?

Chego a conclusão que prefiro ajudar mesmo assim.....
que prefiro entender que existe alguém ali muito necessitado de amor...e de confiança....alguém que foi traído na sua essencia, e que hoje trai a si mesmo o tempo todo...

O Satyagraha, que significa "Poder da Verdade", ensinado pelo Mahatma Gandhi...diz que a verdade sempre é o melhor caminho. Ele diz mais ainda, ele diz que a verdade funciona, torna avida mais simples. No entanto o Mahatma diz que temos que ter o Ahimsa (não-violência) nas nossas vidas também. Então quando nos vemos diante de uma encruzilhada, em que falar a verdade seria ser violento, Gandhi nos ensina que existe a opção do silencio...ele diz que poderiamos nos refugiar da máxima do "amor incondicional", que nos levaria a "ajudar sem ver a quem"...ajudar aquele que poderá nos matar depois...Gandhi fala isso...ele fez isso...

Então...como estou muito longe de ser um Mahatma (grande alma), e como sei que existe a minha verdade, existe a verdade do outro e existe a VERDADE VERDADEIRA, sinto que não devo me preocupar em fazer "a verdade" aparecer....ela sempre está lá...mesmo em meio às mentiras, a verdade existe, em algum lugar...ela de fato é a única coisa que existe...talvez eu apenas não esteja conseguindo vê-la, devido aos meus olhos serem pequenos e distantes de Deus..mas ela está lá, em todo lugar, porque a VERDADE é DEUS.
Assim eu acredito em Deus, porque acredito na Verdade!
Namastê
Ludmila Rohr

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Vivendo a noite escura... sem resistir....


Hoje parece um dia de sol, depois de uma longa noite escura!!!
Assim eu sinto!

Judson na segunda fez quimio, quase que não consegue fazer, por causa dos benditos leucócitos que ainda estavam abaixo do mínimo. Fez. Passou mal, quase desmaia, vomitou, e teve febre! A febre é um fantasma pra quem está em quimio...ela não pode acontecer...febre significa infecção...leucócitos baixos significa baixa imunidade...péssima combinação...dias difíceis...

Nada a ser feito!
Esperar com serenidade e sabedoria. Só temos que esperar...

Acredito que tudo que aprendi na vida até hoje, me preparou para momentos como esse. A não-resistência é um grande aprendizado. Simplesmente poder estar, onde devo estar. Deixar a minha mente e o meu coração onde é possível estar. Não brigar com isso.

Nesse momento, não a há nada a ser feito, a não ser esperar. Esperar a "noite escura" passar. Esperar com serenidade...e isso não significa, sem dor...mas com serenidade. Eu posso fazer isso.

Sei que posso fazer isso, porque o que tenho uma certeza inquestionável dentro do meu coração. É uma crença inabalável. Sei que as noites tem um tempo de durar. Elas, assim como tudo na vida, não são eternas. São impermanentes, são finitas. Então, basta esperar!

Outra crença inabalável na minha vida, e que me ajuda nessa espera, é que depois de cada "noite", tem um "dia de sol"...eu sei disso. Sei porque nunca perco o contato com esse "Sol interno"...ele é perene...brilha sempre...mesmo quando estamos na noite...ele só está no meu outro lado...esperando a vida virar de novo...

Sei que preciso estar com a minha mente e o meu coração, no mesmo lugar onde meu corpo está. Isso me protege das ansiedades tão comuns quando nos deslocamos de onde temos que estar... e nos repartimos..nos fragmentamos. Isso aprendi com o yoga e com a meditação.

Outra coisa que aprendi faz tempo, é que a mente precisa estar no único tempo que existe, e que é esse que vivemos. Não devo estar no futuro, nem no passado. As ansiedades nascem assim. O tempo é o presente.

Bom, nessas "noites escuras", preciso apenas estar inteira. Com os medos que surgem e desaparacem. Com a perdas e mudanças que precisam ser feitas. Desapegando daquilo que na arrogancia humana havia programado...e esperar....o dia virá...e enquanto não vem....que a noite seja uma energia feminina de transformação que me envolve...não lutarei contra ela.

Recebo a noite no meu corpo e alma....e me despeço dela....tá na hora do Sol brilhar outra vez!


Namastê

Ludmila

domingo, 28 de junho de 2009

Tratamento digno


Desde que Judson descobriu que estava com câncer, descobrimos também o quanto estávamos bem assistidos. Ele fez todos os tratamentos que precisou, nunca esperou absolutamente nada pra conseguir uma consulta ou pra ter algum exame liberado. Escolheu onde fazer a radioterapia, porque podíamos fazer onde fosse melhor, com os melhores equipamentos, com as melhores equipes. Ele recebe o que existe de melhor, as drogas mais modernas, os tratamentos..tudo que existe de melhor. Ele sofre todos os medos e dores de um tratamento como esse, mas é tranquilo por que sabe que está recebendo o melhor.

Alguém uma vez, em uma comunidade de câncer, perguntou se o dinheiro vence o câncer, e eu respondi nesse debate que não. Continuo achando que o dinheiro não vence o câncer. Acabamos de ver a Farrah Fawcett morrer depois de uma luta contra o câncer que envolveu muito dinheiro. Ela se tratou com o que existia de melhor....e não conseguiu vencer essa doença horrorosa. O Câncer não tem cura. Muitas pessoas conseguem se livrar dele, por toda a vida e morrem até de outras coisas..mas se o câncer tivesse cura, todos seriam curados.

Bom..mas a questão dessa minha reflexão hoje é sobre dinheiro e câncer. Qual a diferença quando se tem uma assistência decente como a que meu marido vem tendo e a da realidade contrária? Aliás, o que é isso? Apesar de que sempre soube do quanto o nosso Sistema de Saúde Pública é ofensivo e assassino, e o quanto ele mata, pelo descaso com a vida e dignidade das pessoas, mas depois que me aproximei, fiquei estarrecida com o descaso. A realidade de muitos convênios particulares de saúde não é muito diferente.

Ontem ouvi de uma pessoa no chat que participo, contar que quando descobriu o tumor, ele estava com 2cm, os exames e tratamentos demoraram tanto para serem liberados (pelo convenio!) que quando iniciou o tratamento o tumor estava com 8cm! Fiquei horrorizada.

A nossa ministra descobriu o seu tumor bem no início, iniciou o seu bem sucedido tratamento imediatamente. Até aí, tudo bem! Mas ela foi pra TV alertar que os brasileiros que façam seus exames preventivos regularmente, que se cuidem, que o tumor descoberto no inicio é mais fácil ser vencido... bla, bla bla...parece uma piada de mau gosto pra quem luta meses pra conseguir uma consulta!

Senti como se a ministra, nessa fala, desse tapas na cara de todos que estão lutando bravamente, pra conseguir uma tomografia, brigam com convênios que pagaram a vida toda pra conseguirem uma cintilografia...pet scan, nem pensar...juntam dinheiro, para fazer, dividem no cartão em seis vezes...quem pode..., por que uma parte imensa do nosso Brasil, verão seus filhos, pais, amigos, irmãos, mortos sem conseguir um tratamento adequado! O que a ministra recebeu está certo, queremos apenas as mesmas chances.

E quando se está em tratamento, mas sabendo que existem tratamentos mais modernos. Que aquele que voce está sendo submetido é ultrapassado? Vejo as pessoas, perguntando quais drogas estão usando? Quando falei que meu marido usa o Avastim, alguns lamentaram que seus plano não cobriam! Como tratar um filho, um pai, um irmão ou a si mesmo sabendo que existe coisa melhor? E quando os Hospitais entram em greve, e adiam sessões de radio ou quimioterapia?

Farrah Fawcett para quem não lembra foi uma das Panteras na TV nos anos 70-80. Ela morreu no mesmo dia do Michael Jackson e por isso sua morte não teve nenhuma repercussão, mas ela lutou muito. Sofreu muito nessa luta, e expôs a sua luta com muita dignidade e bravura ao mundo quando gravou um documentário sobre o seu tratamento. Essa doença é uma estupidez para todos, para quem tem dinheiro e pra quem não tem, mas certamente ela fica uma luta menos injusta quando sabemos que estamos usando todas as armas disponíveis.

A ministra Dilma pode até pensar que o brasileiro é relaxado e displicente com a saúde, e que ela não foi e por isso ela vencerá a doença. Ela pode até querer acreditar que esse é um mérito dela, e que os brasileiros são preguiçosos e irrsponsáveis com a própra vida. Sem desmerecê-la na sua luta, pois acho que o tratamento do câncer é horrível para todos, mas tentando honrar os pais e filhos que lutam por um exame no SUS ou nos seus convênios, preciso dizer que fiquei muito ofendida.

Farrah Fawcett morreu. Ivan morreu. Lili morreu. O pai da Katy morreu, o marido da Élida, da Rai morreram. Jaqueline resistiu, Silvia resistiu, Fefa resistiu, a Cris também... Day está lutando, Otávio, Carin, Judson, a mãe da Criss, da Gabi e da Dani, o pai da Patsy, Marcelo estão lutando......tantos lutam....uns sucumbirão outros não, mas todos são vencedores nessa luta contra um inimigo que parece imortal.

Farrah Fawcett tentou mostrar ao mundo o quanto essa doença é cruel. O quanto que as pessoas que a encaram já são vencedores e heróis. A luta da pantera, assim como a do meu marido e dos meus amigos é heróica. Não precisamos de ninguém contra nós, nem convênios, nem SUS...o nosso inimigo já é o bastante. Precisamos só saber que estamos entrando nessa luta com as chances possíveis de vencer, e que nada nem ninguém será contra nós. Que seremos respeitados e instrumentalizados para essa guerra. Que nada do que já existe para vencer esse inimigo, nos será sonegado. Só isso.

Quero dizer aos meus amigos que fico muito honrada em participar dessa luta ao lado de vocês. Vocês são merecedores de toda a minha admiração!

Namastê!

Ludmila


terça-feira, 23 de junho de 2009

um dia "Não".... pelo menos até agora....


Judson não pôde fazer a sessão de quimioterapia hoje. Essa deveria ser seu 8º ciclo. Não foi. Os leucócitos estavam abaixo do nível que permite uma quimio. Essa é uma notícia ruim. Dentro das nossas perspectivas, é ruim. Estamos com muita vontade de acabar isso tudo. Então sem nenhum tipo de filosofia, e reflexões a respeito da sabedoria da vida, de que existe um plano para tudo...só com o olhar da minha perspectiva humana e simples...é uma notícia ruim.

Claro que não ficaremos aqui chorando ou lamentando, mas não podemos também fazer de conta que nada aconteceu. Mas o que é pior nessa notícia é que as taxas do exame de sangue estejam baixas... é se dar conta de qua algo acontece no nosso corpo sem que tenhamos nenhuma percepção e controle sobre isso. Ele se sente bem...nenhum mal estar...vai fazer a quimio sem nenhuma sensação de que algo poderia estar errado e no entanto, está.

Segundo as pessoas que estão em tratamento semelhante isso é comum...isso acontece...e não é o acontecido que estou questionando, mas sim a nossa total falta de controle e de conhecimento a respeito do que nos acontece. Sabemos muito pouco sobre nós mesmos...que coisa...!

Assim que começo a eleborar essa notícia, me deparo com outra bem pior... IVAN morreu. Assim como muitos dos amigos que fiz nesse ano, ele mais um que eu só conhecia pela internet. A prima dele me escreveu avisando...fiquei em choque. Falei com ele ontem! Não é possível!

Ivan era um rapaz...recem formado em Psicologia, morava em pernambuco...e estava lutando contra a recidiva de um tumor...esteve bem deprimido quando descobriu que o tumor tinha voltado, mas nesses últimos dias estava engraçado, conversando...animado...Ontem ele me escreveu e ontem ele morreu! Como posso acreditar nisso? Ele me disse que estava lendo o meu blog e estava gostando muito....! ele morreu...

Bom...uma notícia dessas deixa a todos muito abalados. Aqueles que têm fé em Deus, se agarram nele. Eu que acredito que a vida sempre está certa, que eu não sei de nada...e que apenas tenho que lidar da melhor forma com o que acontece...vou tentando fazer isso. Sem questionar, apenas tentando me organizar e não me deixar tomar pelo desanimo e pela tristeza.

Esses acontecimentos reforçam minha crença de que a vida que temos é agora...é essa...que não sabemos de nada, e que apenas temos que viver cada instante de forma plena e verdadeira. É nisso que acredito, que a vida é essa mesmo, que quando entramos nela, é como aceitar entrar em um jogo, não podemos mais questionar as regras do jogo quando estamos dentro dele.

Em nossa defesa podemos até alegar que não sabiamos as regras antes do jogo começar, mas quem abriria mão da vida ao sabê-las? Bom...eu não abro...eu quero a vida assim mesmo...apesar das dores e perdas que nos são impostas.

Acho que não tenho do que me queixar...apesar de tudo, amo a maioria dos meus dias...

...não o dia de hoje....pelo menos até aqui...

Namastê!

Ludmila


sexta-feira, 19 de junho de 2009

Histórias de AMOR


Estou comovida hoje...muitas emoções. Duas mortes me deixaram assim. Não conheço, os personagens principais dessas histórias, não conheço ninguém próximos a essas pessoas...pelo menos pessoalmente.

O pai de Katy morreu. Ela é uma jovem mulher, e uma linda filha da comunidade de Parentes de vítimas de câncer. Ela é muito querida por todos. Sempre muito atenciosa e carinhosa. Nas fotos sempre com um sorriso quase infantil...leve...sei lá...assim eu percebia seu sorriso. Falei com ela uma vez ...ficamos emocionadas no telefone, meio bobas.

Katy, não tem uma vida fácil..ela trabalha, estuda, tem uma filha...e ajudava a cuidar do pai. Amava muito esse pai. Nos fez amá-lo também. Acompanhamos de perto toda a sua luta, sofrimento e dor. Dias melhores, outros piores, mas sempre lutando....O pai da Katy descansou, assim dizem quando alguém morre. Eu tenho essa sensação com relação à morte. Katy e sua família terão que conviver com a saudade, mas eles sabiam que essa hora ía chegar....ele estava sofrendo muito.

Aílton morreu também. Nunca havia ouvido falar nele. Soube dele ontem. Ele tinha leucemia e fez um curso universitário enquanto lutava contra essa doença. Ele conheceu seu amor enquanto lutava contra essa doença. A ironia é que ambos lutavam contra a leucemia. Um amou o outro. Um ajudou o outro. Um fortaleceu o outro. Agora o seu amor terá que lutar contra e leucemia e ainda lidar com a dor e a saudade de tê-lo perdido. Triste não?

Eu fiquei sabendo dessa história do Aílton através de uma pessoa muito linda e é sobre ela que quero falar hoje. Ela chama-se Jaqueline, a conheci em uma comunidade de pessoas que fazem quimioterapia, e hoje é minha amiga em um chat também.

Falar de Jaqueline é falar sobre a vida. Ela é uma carioca linda. Torce pro Vasco (a perdoem por isso!). Eu a descrevi uma vez (pra ela mesma), como uma pessoa leal e passional. Ela concordou. Ela é muito leal e muito apaixonada. Parece que tudo com ela fica vivo...ela é uma pessoa viva, engraçada, esquentada, faz bolos e pudins e ainda vai a festas, dança e bebe caipiroska estragada..., passa mal e depois passa bem! Parece que ela é uma leoa...tenho a certeza de que ,se algum dia eu precisar de alguém pra me defender, gostaria de ter a Jaque junto de mim.

Jaqueline teve câncer quando era uma adolescente. Foi desenganada. Os médicos não tinham esperança. Ela lutou muito e venceu. Essa história daria um livro, mas não é essa a história que quero contar, mas sim sobre o que ela fez depois de vencer o câncer. Ela se engajou. Ela se apaixonou por essa causa. Ela recolhe assinaturas para enviar à Globo sobre transplante de medula. Ela conhece e ajuda muitas pessoas que estão nessa batalha. Ela vira amiga dessas pessoas. Ela se envolve, se implica, a luta é dela. Ela nos contou sobre Aílton. Não conhecíamos no chat, mas ela nos fez conhecer mais essa história, assim como a sua história, assim como a de Melissa, uma menininha por quem ela se apaixonou e por quem luta também!

Fiz amigos queridos depois do câncer de meu marido...eles abrem meus olhos pra uma vida que eu não conhecia...e não é uma vida de dor, como voces podem a principio imaginar, mas é uma vida de esperança, de amor, cumplicidade, bondade, generosidade, dedicação e compaixão.

Katy e Jaque....amo voces do fundo do meu coração. Voces fazem parte da minha vida e estão enriquecendo-a com exemplos de amor e generosidade.

Namastê!

Ludmila

Ps. Jaque com Melissa na foto.
Esse é o link para a campanha que a Jaque movimenta para divulgar o Transplante de medula, por favor assinem.

abaixoassinado.org/webroot/assinaturas/abaixoassinado/4162



quarta-feira, 17 de junho de 2009

Onde está Gatão....?


No ano passado um lindo gato foi atropelado em frente do Espaço Mahatma Gandhi...onde eu trabalho. Procuramos por toda a vizinhança o seu dono, sem sucesso. Ele estava muito mal, completamente paralisado do lado esquerdo do corpo...estava morrendo...trouxe pra casa.

Nessa época eu tinha 2 cachorros..um morreu de velhice e voces que acompanham o blog desde o começo, devem lembrar de ter lido sobre isso. Estavam aqui em casa também uma gata de rua com seus seis filhotinhos paridos aqui em casa...Uma loucura!

Levei o gato pra o veterinário, que constatou traumatismo craniano, passou um tratamento e não deu muitas esperanças. Passei muitos dias dando leite de seringa, remédios e mais remédios....cuidando do estresse que a sua chegada provocou em todo o Zoologico daqui de casa...Era uma dedicação que tinha que ter, não escolhi isso...ele simplesmente parou nas minhas mãos. Ele não tinha nome, chamávamos de GATÃO. Era o nosso Gatão. Aos poucos foi melhorando, e ficou absolutamente lindo e saudável. Engordou e se apaixonou por Caio. Esse amor foi recíproco. Todos da casa amavam Gatão, mas Caio formava com ele uma dupla inseparável.

Começamos a entender os gatos....eles são nobres, altivos, não são carentes e submetidos, são elegantes e poderosos, estávamos apaixonados por Gatão. Caio, quando em casa, passava o tempo com Gatão no colo e fazendo mil torções no seu corpo maravilhosamente elástico. Encantado sempre me chamava pra ver...eu já sem saco, ía ver pela insistencia dele.

Bom...Gatão sumiu...tem dois dias que ele sumiu...não sabemos mais onde procurá-lo...sinto muita saudade dele....parece que falta algo em casa....embora ele fosse absolutamente silencioso e passasse o dia inteiro dormindo. Não sabemos o que pode ter acontecido com ele....se perdeu? Foi roubado? morreu? está por aí sem conseguir voltar pra casa? Essa última hipótese me assusta muito. Ele é muito lindo...mas muito bobo também. Não sei se consegue se virar sozinho...muito mimado. Fico torcendo pra que alguém tenha se apaixonado por ele e levado-o pra casa...

Essa história pode parecer boba, mas acreditem, tem muitos significados pra mim....Me diz mais uma vez sobre o quanto a vida é fugáz..o quanto que o que existe é só esse momento. Se tenho que dizer algo pra alguém deve ser agora. Não me lembro se a última vez que Caio me chamou pra ver gatão, se eu fui...não consigo lembrar, embora saiba que a insistencia de Caio me fazia levantar de onde eu estivesse para vê-lo...mas não tenho certeza...

Não quero deixar coisas pendentes na minha vida...não quero deixar coisas não ditas...não quero que as pessoas ou eu mesma, desapareça sem dizer ou fazer o que tenho vontade...Gatão sumiu...ele não está aqui e nem sei onde ele está...diferente de Simba e Nagan|(nossos cachorros) que enterramos, não sei onde está Gatão...essa é uma sensação estranha...acho que o primeiro dono dele deve ter sentido a mesma coisa que sinto agora...espero que agora ele tenha achado alguém que cuide dele, como eu cuidei...

Essa minha postagem pode parecer boba, mas é sinceramente o que sinto nesse momento...é de verdade esse sentimento...tô triste por que não sei onde anda Gatão ...

Namastê

Ludmila




sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dia dos namorados...Sou tão Clichê!

Estou sem namorado esses dias. Meu amor está viajando. Ele está bem, viagem de trabalho. Ele está animado e feliz, isso é o que importa.

Isso é o que importaria!...se eu não fosse tão clichê!

Mas sou clichê!
Acho que sou clichê e egocentrada...
Adoro dia das Mães... adoro Dia dos Namorados...adoro qualquer dia que seja meu também!

Tinha problemas com meu aniversário, porque é perto do Natal... e fazer concorrência com Jesus nunca foi meu forte! É uma concorrência desleal, sempre perco...

Acho que é por isso que eu adoro as datas que são minhas também.
Sei o quanto essas datas servem pra ao comercio, não sou uma pessoa alienada nem obtusa, longe disso...sei a quem serve ter essas datas...mas eu gosto!
Simples assim...eu adoro ter meu namorado perto de mim nessa data! Adoro brindar e adoro ganhar presente também..
Não gosto quando ele tá longe de mim em nenhuma data, aliás...eu não gosto de ficar longe dele...

Digo que vouaproveitar esses dias para ler, escrever, que vou arrumar coisas, que vou ligar pra amigas...mas não faço nada disso...fico aqui...sem namorado.

Sou casada desde 1985, serão 24 anos em dezembro. Namoramos 2 anos...são 26 anos, bem mais da metade da minha vida! Ele é meu amigo, meu amante, meu companheiro, meu namorado. Ele é o pai dos meus filhos. Ele me conhece como ninguém e me ama como ninguém.

Ele me ama com fartura, é declarado o seu amor. Ele cuida de mim e torce por mim. Ele me acha exagerada, emocional demais...mas engole meus defeitos numa boa...ele me admira, tem orgulho de mim, e tem desejo por mim. Eu sempre achei que ele só não era perfeito, porque não sabia dançar....mas eu também não sei dançar...então...tudo bem!

Ultimamente tenho cuidado mais dele do que ele de mim. Tenho me preocupado com ele...mas, descubro que com o câncer ele ficou ainda mais lindo, mais admirável, mais corajoso, mais tranquilo... aliás, ele não me surpreendeu em nada...ele continuou o mesmo cara de sempre, só que melhor...entretanto ele diz que se surpreendeu comigo...ele não me imaginou tão companheira e cuidadora...isso, claro, não é um elogio, percebo como ele e a vida me dão chances sempre de ser uma pessoa melhor e menos egoísta, e sou grata por isso.

Vivo um amor tranquilo nesses muitos anos da minha vida....vivemos uma paixão muito intensa, uma amizade que não perdeu o calor nunca, somos amantes e amigos....penso que mereço isso...e que nos merecemos...

Bom...hoje é Dia dos Namorados e o meu amor está muito longe de mim....ele está no Texas...e ainda vai demorar pra voltar...mas já avisei quando voltar vou querer meu presente, porque sou absolutamente Clichê não tenho nenhuma vergonha disso!!!

Ludmila

sábado, 6 de junho de 2009

Libertação é Felicidade!!!


Muitas pessoas certamente concordariam comigo, quando digo que a Felicidade não impôe condições para existir. Que para sermos felizes não precisamos de nada especificamente, e que por isso mesmo, nada concretamente poderia nos garantir felicidade.

Pessoas ricas podem ser felizes e infelizes, as pobres também, pessoas casadas, solteiras, com ou sem filhos, pessoas que sofreram perdas podem ser felizes, pessoas que nunca perderam nada nem ninguém podem ser felizes ou infelizes.

Quero deixar claro que não estou falando de "alegria" e muito menos sobre "Ausência de sofrimento". Felicidade não tem nada a ver com isso. Podemos esatr em sofrimento e até mesmo tristes e ao mesmo tempo sermos pessoas felizes.

Embora eu não consiga explicar a Felicidade, adoro olhar para esse sentimento com carinho e curiosidade, e gosto muito de pessoas felizes, é claro! É uma delícia estar ao lado delas, elas têm um brilho especial, são leves e adoram ver as outras pessoas felizes também. Elas exalam felicidade mesmo quando estão sofridas. Isso aparece em forma de confiança, de centramento, de serenidade, de sabedoria, de compreensão...muitas formas..

Uma caracteristica comum das pessoas felizes é a generosidade. Elas são generosas, nunca são econômicas naquilo que elas têm de melhor. Elas distribuem de forma generosa suas experiencias, seus sentimentos, seus saberes e seus poderes...elas simplesmente compartilham.

Elas também são destemidas. Não se sentem ameaçadas pelo outro, nem acham que alguém ou algo possa ameaçar sua felicidade, porque já sentiram que a felicidade que sentem não está atrelada a nada...então, nada pode ameaçá-la. Generosidade e destemor são características das pessoas felizes.

Aprendi com o Budismo que se queremos a Felicidade teremos que praticá-la, e que a Felicidade está amparada em 4 pilares: AMAR, SERVIR, DOAR e MEDITAR. Isso fez muito sentido pra mim, nunca mais esqueci. Realmente acredito que a prática do amor nos leva a um lugar de felicidade. O Amor liberta, o amor nos aproxima do outro, encurta as distancias. O amor compreende e aquece a vida. Isso é Bhakti Yoga. O Yoga do amor, da devoção. Ver Deus em tudo e em todos, ou melhor dizendo pra mim que ainda não compreendo bem Deus: Tudo e Todos são Deus.

O Servir e o Doar fazem parte do karma Yoga. O caminho que nos revela que temos muito a dar. essa descoberta trás como efeito colateral, a felicidade. Saber que tenho algo a dar, algo que alguém precisa...e realizar isso, trás paz e Felicidade. Isso é Karma Yoga. As pessoas que SERVEM e DOAM, não aquilo que lhes sobra (isso é importante, não é de restos que estou falando), mas aquilo que lhe é muito precioso, essas pessoas são felizes por isso.

E por fim o MEDITAR. A meditaçãqo que é o Raja Yoga, nos levaria par dentro de nós, não para aprendermos algo, mas para redescobrirmos algo. A meditação nos ajudaria a encontrar aquilo que sempre existiu dentro de nós, aquilo que sempre esteve ao nosso alcance, aquilo que de fato é o nosso estado básico, a vibração primeira da nossa alma.... a meditação nos levaria a refazer a conexão genuína com a Felicidade que existe dentro de nós, que sempre existiu e sempre existirá...a meditação nos faria sentir que em essência somos felizes, porque nada nos falta. Temos tudo que precisamos. Somos plenos e inteiros. Isso é Moksha, a LIBERTAÇÃO da sensação de carência, que nos impede de sermos felizes agora! Moksha é o que o yoga pretende nos fazer alcançar. Ser feliz agora, por que nada me falta!!!!

Namastê!

Ludmila


terça-feira, 2 de junho de 2009

Felicidade é amizade!!!

Essa semana darei uma palestra..o tema será FELICIDADE....então tenho passado os dias, desde que decidi por esse tema...refletindo sobre o que é ser Feliz.
Sou uma pessoa feliz...me lembro de dores, mas não de sensação de infelicidade...realmente sou uma pessoa feliz e por incrível que possa parecer, já que esse é o momento mais difícil que já vivi na vida..., esse tem sido também o momento das maiores felicidades...


Tenho buscado, para a pelestra, sinônimos de felicidade, e tenho refletido sobre o que precisamos pra ser feliz....reflito sobre contentamento, resiliencia, amizade, aceitação, amor, compaixão...e sinto que tudo isso são sinônimos de felicidade.

Nunca me senti tão feliz como nessa época de grandes dores e preocupações, e acho que isso se deve ao fato de que eu encontrei aquilo que não tinha a menor dúvida que encontraria...AMIGOS!!!...eu sempre soube deles, e agora sei mais ainda..., tenho amigos e por isso recebo muito. Dou muito, e por isso tenho amigos. Planto e colho esses amigos. Faço isso com muito carinho.

Tenho os amigos que escrevem, que ligam, que mandam emails, que mandam recados...tem os amigos que nem me procuram, mas nunca os senti tanto como agora...é verdade...sei que sou amada por eles, e que eles estão pensando em mim e em Judson nesse momento...


Mas hoje quero falar mais uma vez sobre amigos especiais...amigos virtuais... Tenho falado muito dessas pessoas que conheci na internet por conta dessa doença maluca que se desenvolveu em nossas vidas.. Hoje eles me fizeram chorar muito...choro desde a hora que acordei...choro com minha alma, com meu corpo...choro tomada por um amor profundo...choro de muita felicidade...e gratidão.

Não quero escrever muito hoje por que quero que voces ASSISTAM o motivo do meu choro, e tenho certeza que voces irão se emocionar muito também. Ganhamos esse presente de Jaque e do João Vítor, eles aparecem nas imagens também...mas já foram eternizados no meu coração.


Obrigado meus amores!! Muito obrigado!



Esse é o presente, assistam em:



Namastê

Ludmila

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Minha religião é algo muito íntimo...

o
Acho as coisa relativas à religião muito interessantes, exatamente por isso tenho muito respeito por qualquer prática religiosa. Costumo não misturar Deus com religião. Pra mim são assuntos absolutamente distintos. Nunca tive nenhuma prática relacionada a nenhum grupo religioso. Nunca frequentei nenhuma igreja e nunca senti falta disso. Minha relação com Deus é íntima e não envolve outras pessoas, não preciso de grupos, nem de alguém me falando sobre Deus para que eu me conecte com ele.

Entretanto tenho muito respeito por todas as religiões...e não consigo achar que uma é melhor do que a outra. Apenas vejo que uma atende mais as necessidades de algumas pessoas do que a outra. Já fui a missas, cultos evangélicos de várias ordens, já fui a cultos hinduístas, Budistas, Bahais , Muçulmanos, Brahmanistas, Cultos em adoração a Shiva, A Vishnu, já fui a rituais de candomblé, ubanda, espíritas, rituais xamânicos, indígenas, judaicos.... nem sei quantos eu já conheci.

Em muitos fui tocada na alma e me emocionei muito...em outros tantos, nada aconteceu comigo...não consegui nenhum tipo de conexão com minha alma, embora o respeito tenha sido o mesmo... Não fui a tudo isso por que estava procurando uma religião, muito pelo contrário. Fui a tudo isso porque eu não quero uma religião. Eu cheguei muito tempo atrás a uma conclusão sobre minha prática religiosa.. Ela é íntima! Talvez a coisa mais íntima que tenha na vida! Não preciso e nem quero companhia nesse meu caminho...sinto que ele é um caminho absolutamente solitário...e isso me faz um bem enorme!

Preciso de muitas pessoas ao meu redor pra tudo. Adoro conversar, adoro falar da minha vida e saber da vida do outro. Adoro meus alunos...fico feliz quando a sala tá cheia. Adoro meus amigos. Adoro as comunidades que faço parte. Adoro trabalhar com gente, não conseguiria trabalhar com máquinas ou com números. Gosto de gente quase o tempo todo perto de mim. Mas minha espiritualidade é íntima, é pessoal e intransferível.

Todo o bem que consigo nas minhas meditações, ou nas minhas reflexões sobre a vida, sobre Deus...eu compartilho sem nenhuma economia..dou palestras..conto minhas meditações até aqui no blog mesmo..passo adiante com muita generosidade tudo que aprendo, não escondo nada, mas minha ligação com Deus é única..não tenho como explicar e nem tenho necessidade disso.

Muitas pessoas querem me convencer a ter uma religião...e eu digo que já tenho a minha, porque aprendi que religião é aquilo que me RELIGA a Deus...e nunca me sinto distante de Deus...então eu já tenho a minha religião! Uma vez perguntaram a Gandhi, quantas religiões ele reconhecia no mundo...e Gandhi que era um Hinduísta praticante respondeu que havia tantas religiões quantas pessoas houvessem...por que cada pessoa era a sua própria religião.

Minha religião chama-se "pratica da bondade e da generosidade...sem olhar a quem", nem sempre consigo ser uma boa praticante..tenho como meta também ter como religião o Satya e Ahimsa, que são a prática da Verdade e da Não-violência, mas também não sou das melhores...mas tô tentando...

Enquanto isso apenas vou vivendo cada dia o seu bem e o seu mal...

Namastê!

Ludmila
P.S. No memorial ao Mahatma Gandhi, em New Delhi, Índia!






sexta-feira, 22 de maio de 2009

Mulheres unidas!!!!


Escrevi aqui algumas vezes sobre os meus amigos e amigas virtuais das duas comunidades de câncer que participo. Fiz um homenagem especial aos homens de uma dessas comunidades quando escrevi "Espaço dos Cuecas", esse é o nome de um fórum criado por eles. Hoje quero falar das mulheres, apenas delas!

Elas são mães, filhas, tias, sobrinhas, netas, amigas, amantes , esposa, ex-esposas, vizinhas de alguém. Elas lutam contra um câncer, ou ajudam alguém que está nessa luta, e tem aquelas que perderam alguém nessa luta. São muitas mulheres corajosas, determinadas, amorosas....mulheres que tem altos e baixos, e que como toda mulher têm que lidar além de tudo que já lidam por causa dessa doença maluca, algumas delas, infelizmente têm que lidar com TPM, menopausa, crises no casamento, ver filhos crescendo, ex-maridos aprontando...maridos indiferentes...distantes e assustados..., filhos pequenos, filhos adolescentes, trabalho...algumas descobriram o câncer na gravidez, ou amamentando!!!

Converso com algumas delas em tempo real....falamos de comida, de homens, de chocolates, de homens, de receitas novas, de homens, de vaidade, de homens., de novelas, de viagens, e da Índia...rsrsrsr....nos divertimos, mas falamos muito de coisas sérias também. Nos preocupamos com alguém que anda sumido, falamos amorosamente uma das outras, nos incentivamos...dizemos que somos lindas e poderosas e reforçamos nossa auto-estima.....fazemos o que toda amiga faz. Jogamos conversa fora, nos apoiamos, nos escutamos e não julgamos umas as outras...

Não sinto que somos coniventes ou lenientes com nossos defeitos e fraquezas, pois discordamos também, falamos o que não gostamos, tentamos acalmar uma que é mais esquentada...tentamos alertar outra sobre sua responsabilidade pessoal com sua vida...dizemos sempre coisas boas...mas nem sempre são agradáveis..ou fáceis...Tudo é delicado pra quem tá vivendo um momento assim, mas por outro lado, quem tá vivendo um momento assim, não quer perder muito tempo com bobagens....

Minhas amigas são lindas. Umas estão carecas, outras estão vendo seus cabelos crescerem, outras já os tem de volta. Umas estão vendo seus pais sofrerem, ou irmãos e maridos, mas outras passam pelo sofrimento absurdo e inimaginável para mim, de verem seus filhos lutarem contra um cancer, outras perderam seus filhos para o câncer!

Marcinha me disse que não é guerreira, mas que é corajosa. Que ela nunca quis essa guerra, mas já que teve que entrar, lutou com coragem...Ninguém quis essa guerra! Ninguém desejou pelo menos conscientemente passar por isso, mas vejo mulheres corajosas, com um coração enorme lutando ou acompanhado seus queridos.

Algumas estão em luto. Perderam alguém. Choramos junto. Elas rezam uma pela outra, eu mentalizo. Não sei rezar. Elas trocam mensagens de amor e orações, eu escrevo no blog, não tenho essas mensagens. Nos entendemos com nossas diferenças e com nossos momentos diferentes, mas somos unidas por algo em comum...o câncer.

Elas me dão uma nova dimensão do meu poder, elas me ajudam também a redimensionar meus problemas, minha dores, minha vida. São mulheres comuns, como outra qualquer, mas que experimentaram ou ainda experiementam o contato com o que essa doença provoca em nós. Não temos tempo a perder com lamentações, não temos tempo a perder com coisas que não tem importancia...Elas me ensinam e eu ensino algo pra elas. Nós trocamos e assim nos fortalecemos . Cuidamos das feridas e dos momentos tristes, mas nos alegramos com os momentos felizes, celebramos, parabenizamos uma a outra!

Sou muito grata por voces terem entrado na minha vida minhas amigas virtuais e de caminhada!

Patsy, Pati, Cris, Katy, Dani (s) , Gab, Ângela (s), Marcinha, Jaque, Myrloca, Mary, Regininha, Rejane, Cristine, Criss, Iolanda, Ione, Élida, Rai, Bertilha, Luana, Valérias (s), Mazé, Suu, Ceiça, Malu, Marcela, Cláudia, Fefa, Elaine, Gilca, Vera, Dayane, Caroline, Alexandra, Virginia, Marcela, Marli, Ana Cristina, Liliane, Ione, Simone, Márcia....ai...todas, todas, pois com certeza esquecerei algum nome....mas não de voces!

Beijos enormes

Ludmila

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Seja quente ou seja fria...


Na Bíblia existem muitas passagens que me tocam profundamente pelo seu aspecto simbólico. Estudei muito pouco a Bíblia, li quase nada do que eu acho que deveria. Li muito mais textos Védicos do que a Bíblia.

Hoje estava escrevendo pra esse blog quando recebi uma email de uma amigo muito amado que me lembrou de uma passagem que simplesmente adoro. Em algum momento da minha vida, essa passagem era a minha cara....eu a via como um lema!


é assim...


"Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito".


Quando conheci essa passagem, ela ganhou um significado que talvez fosse muito pessoal, mas que eu amei...Já escrevi aqui sobre o quanto a passividade e a acomodação não fazem parte da minha vida. Já escrevi também sobre o quanto pra mim é importante fazer a diferença, e que pra isso precisamos encarar os nossos medos, encarar que os nossos maiores inimigos estão dentro de nós mesmos.


Não consigo ser bege, não consigo ser morna...embora ache que existe um enorme conforto nisso. Acho que as pessoas mornas, pensam muito mais em si mesmas do que aquelas que não o são. Elas estão preocupadas com os riscos que correrão, com as consequencias dos seus atos, das suas palavras e dos seus afetos. Elas pensam muito e encontram um lugar de contenção para as emoções, e para os desejos. Elas dificilmente seguem algum tipo de impulso, precisam também freiar arroubos de paixão e desejos. Precisam deixar de ter opinião a respeito das coisas. Não podem destoar e jamais contrariar.


Elas são mornas; não são frias, e muito menos quentes; elas são mornas.


Acho que deve ser muito confortável estar ao lado de alguém morno, porque não existem surpresas, porque elas são esperadas e planejadas, exatamente pra não causarem instabilidades . Não existem muitas turbulências.... acho que a vida fica mais leve.... muitas vezes quis ser morna, ou bege...muitas vezes até tentei isso.... Porém as pessoas mornas também são perigosas, por que elas tentam controlar a temperatura do outro. Acho que elas pensam: Poxa, se eu me controlo e me freio tanto.....quem é voce pra se permitir sentir tanto! Os mornos são controladores de temperatura. Eles freiam as expressões de calor...eles querem tudo bege, não aguentam muita intensidade...


Fiquei um pouco receiosa de publicar aqui no blog o meu poema "Por tras de mim". Ele fala exatamente dessa dualidade, que é quente e fria. As pessoas tendem a pensar que isso é um desequilibrio, que deveriamos encontrar um lugar no meio disso. Que deveriamos com o passar do tempo ir ficando mais bege, mais morna. Não tenho conseguido.


Com o passar dos anos, tenho me conhecido mais e mais, mas não tenho conseguido ficar morna. É bem verdade que não tenho tentado muito. Não tenho me empenhado nisso. Tenho buscado todas as nuances possíveis da minha alma e tenho conseguido não ser pega se surpresa por mim mesma. Sei que minhas emoções não me destruirão, nem me farão perder a consciencia de mim mesma, por mais intensas que sejam, mas elas não me tiram de mim, mas daí a ficar morna....tá difícil... o que consegui foi ter cada vez menos medo de mim.


Quando decidi publicar o poema "Por trás de mim", pensei que talvez algumas pessoas pudessem pensar algo de mim que não correspondesse a realidade, mas em seguida pensei: O que poderiam pensar de mim que não corresponda a realidade?...provavelmente sou, ou seria qualquer coisa que pensassem, me sinto livre pra sentir o sentimento que vier....se vier o medo, vou lá dentro, se vier a raiva..sinto e por isso, posso não atuar nela; se vier o desejo me entrego; se vier a descrença, a esperança, a fé, a alegria...
....qualquer coisa que vier de mim, eu viverei....., pois prefiro errar do que me omitir, eu prefiro sofrer do que não viver, eu prefiro ser quente ou ser fria, mas jamais serei vomitada à terra, por ser morna.
Ludmila
P.s. na foto, gesticulando muito numa aula...sempre repleta de emoções....

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Exaustos, mas felizes....


Muitos anos atrás, os meninos eram pequenos ainda, em uma das idas a Lençois, na Chapada Diamantina aqui na Bahia, lugar inesquecível, (quem conhece certamente irá concordar comigo), estávamos numa pousada, que organizava trilhas e passeios para os hóspedes e as divulgavam em um mural, e lá estava escrito que no dia seguinte o passeio seria uma trilha longa pra uma daquelas cachoeiras inesquecíveis...e dizia, além de todas as recomendações..: "Voltaremos exaustos, mas felizes!"

Nunca esqueci dessa frase...e foi exatamente assim que voltamos de SP ontem, completamente exaustos, mas absolutamente felizes...

Chegamos em SP depois de uma viagem de madrugada, fomos para o Hcor, e às 08:30h, Judson entrou por uma porta, de onde só saiu às 12h, com uma expressão linda e leve no rosto, que já dizia tudo e que me fez desabar num choro de alívio. O que havia acontecido lá dentro eu não sabia, mas sabia pela carinha dele, que iria ouvir, o que desejei muito ouvir: não foi detectado nenhuma célula cancerosa pelo PetScan.

Quero contar que fiz e senti nessas 3 horas e meia que fiquei no hospital, sem notícias e sem ninguém fisicamente ao meu lado, até chegar a esse momento de alegria.

Achei que conseguiria passar o tempo vendo TV ou lendo algo, mas não foi possível...o relógio simplesmente não andava... estava no 2º sub-solo e por isso sem sinal do celular...resolvi andar um pouco pelo hopital, e fui até a lanchonete tomar um café e descobri que em frente a lanchonete tinha uma capela ecumênica, entrei... silencio....estava sozinha....sentei... e chorei....chorei muito. Era um choro muito profundo...

Vivi um momento de muita espiritualidade...de mergulho nas águas profundas do oceano da minha alma....quanto mais eu mergulhava, mais silencioso ficava. Algumas pessoas entraram e sairam da capela, mas eu estava ali, com o meu silencio interior, com o meu Deus. O meu Deus é um lugar, é um lugar dentro de mim, é um estado de alma. Mergulhei nesse lugar, encontrei esse estado e fiquei lá...ouvia meu choro, ouvia minha respiração...não conseguia pedir nada, não havia nada a ser pedido...só fiquei nesse lugar primitivo, em que somos por natureza sós...e absolutamente acompanhada e preenchida pelo meu Deus interno.

Experimentar essa solidão preenchida foi libertador. Não me sentia sozinha...mas era uma constatação irrefutavel de que sou só, porque existe um lugar na minha alma que só é possível ser acessado por mim mesma e, como eu não sentia pena de mim e pude me render a isso, podia sentir Deus, podia sentir as dores e alegria de todas as pessoas que ali estavam naquele momento...podia sentir algo absolutamente transcendental, algo que transcendia os meus medos e as minhas necessidades. Pude ver uma perfeição naquele instante. Entrei em estado meditativo...a vida e a existência eram muito maiores do que o meu mundo pessoal....a vida (assim que eu chamo Deus) era perfeita, e nada me faltava...fiquei quieta e em paz.


Depois de tantas experiencia internas, desci para o 2º sub-solo...e sabia que tinha que esperar o meu amor sair do exame, quando ouço meu nome ser chamado por uma voz feminina, olhei, não sabia quem era aquela mulher, ela me diz: "Sou Patsy, da comunidade" ... "soube que Judson vai sair daqui a 5 minutos".....demorei algum tempo para processar...havia sido encontrada por um anjo, uma pessoa linda da comunidade de "parentes de vítimas de câncer"...ela foi lá me ver, ela, assim como toda a comunidade, sabiam que eu estava ali...eles vibravam, rezavam, oravam por mim...sabia que isso estava contecendo...mas de repente, isso ganha um aspecto físico, ela estava ali...e nos abraçamos...e choramos...


Patsy presenciou aquele que foi um dos melhores momentos da minha vida...alguém que eu nunca havia visto, mas que sabe das minhas dores...foi lá...simplesmente apareceu pra me lembrar da imensa rede de proteção que nos envolve o tempo todo. Patsy era um símbolo, ela foi a presença simbólica de todos os meus alunos queridos, dos meu clientes, amigos, dos meus pais e irmãs, dos meus amigos das duas comunidades que faço parte...Patsy representou a realidade protetora que me envolve e que posso até não ver, mas que está ali...por isso posso até estar só, mas nunca estou sozinha!!!


Amo a vida...não sei o que é ser infeliz...sei o que é estar triste e com medo, mas não sei o que é ser infeliz...Estamos exaustos, mas muito, muito felizes!!!


Obrigada a todos que simplesmente nos amam e torcem por nós!

Namastê
Ludmila



P.S. na foto...na Toscana, nem um pouco exaustos e muito felizes.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por trás de mim....

Viajo essa madrugada. Vamos pra São Paulo. Judson fará um Petscan, esse é um exame que escaneia todo o corpo a procura de células malignas. Foi esse mesmo exame que em janeiro detectou a metástase no fígado.
Muitos sentimentos....medo, ansiedade, que se alternam com tranquilidade, serenidade...

Nesse momento não há nada a ser feito...tudo que podíamos fazer...fizemos.
Fantasmas nos assombram e assombrarão, por muito tempo ainda...assim é essa doença.

Uma confiança serena, me invade, mas não é sufcientemente forte para espantar o medo....

Sou assim....essa contradição.


Lembrei de uma coisa que escrevi em 2004 e quero compartilhar.




Por trás de mim


Por trás da dureza que mostro tem algo muito delicado e sensível.
Por trás de toda certeza e convicção existem medos e inseguranças.
Por trás de todo esse tamanho existe uma miniatura.
Por trás de todo preenchimento tem um imenso vazio.
Por trás de tanta propriedade existe um nada.
Por trás de tanta fé, a mais total descrença.
Por trás da paz, um caos.
Por trás de tanta vitalidade, uma vontade enorme de sumir.
Por trás da coragem, a vontade de pedir ajuda.
Por trás da firmeza, vacilo.
Por trás da resiliência, uma vontade de desistir.
Por trás de todo o planejamento, uma grande desorganização.
Por trás de toda a minha lucidez, uma vontade de enlouquecer.
Por trás de tanta expansividade, muita retração.
Por trás de toda determinação, uma vontade de sucumbir.
Por trás da mulher segura existe uma menina assustada.
Por trás daquilo que conheço de mim, uma total desconhecida.
Por trás de mim, só existe a mim mesma.
Então essa sou eu inteira,
Frente e costas,
Sou inteira essas duas e muito mais.


02/10/2004



terça-feira, 12 de maio de 2009

Rindo...falando besteiras....lavando a alma.....


Todos sabem que faço parte de comunidades virtuais de pacientes e parentes de pacientes de câncer. Já falei disso outras vezes. São duas comunidades muito atuantes. Somos muito solidários e amigos. Na comunidade de parentes, fiz tantas amizades, que sinto que poderia estar com essas pessoas, dado ao nível de intimidade que conseguimos... Os temas são quase sempre muito sérios, mas também falamos sobre as boas notícias. Mas em geral os temas por motivos óbvios são sérios e dolorosos. Falamos dos nossos medos e dores, ansiedades e tratamentos...enfim, assuntos que essa doença maluca provoca.


Tudo corria normalmente na comunidade de pacientes de quimioterapia. Todos lá fazem quimio, ou já fizeram ou tem parentes fazendo (que é o meu caso), os assuntos normais eram discutidos, até que algo de novo aconteceu. Algo inesperado e sem grandes pretensões, uma proposta simples de um João que tecla lá da Itália, que criou e nos convidou a fazer parte um chat para conversarmos em tempo real. Uma idéia simples, muito simples...., mas eis que um fenômeno aconteceu e é sobre isso que quero falar hoje!


Todos devem ter assistido ao filme Patch Adams, a história de um médico que acredita que rir é um bom remédio, que falar coisas leves e engraçadas ajudaria no tratamento das pessoas. Patch Adams revolucionou o olhar sobre o paciente e sobre os hospitais. Ele simplesmente tratava dos pacientes, mas também os fazia rir!


Isso é o que está acontecendo nesse chat. Rimos, falamos muita , mas muita besteira mesmo....falamos sobre comida o tempo todo e sobre os homens.....rimos tanto que desligamos o computador mais leves. Hoje estavamos avaliando com um olhar internacional qual nacionalidade de homens que preferimos: árabes, japoneses, italianos......rsrsrsrsrsrsr.....negros, louros....tem sempre uma que quer um namorado...e grita: Eu quero!....sempre alguém falando algo muito engraçado e completamente desprovido de racionalidade e de objetivos...só besteirol!! besteirol da melhor qualidade! Homens e comidas são os assuntos preferidos!


Penso que precisamos aprender a rir de nós mesmos e sinto como isso nos faz bem... rir é um remédio importante, principalmente no universo de dor e angustia, de medos e ansiedades, de enjôos e tratamentos dolorosos.... Isso não é uma fuga. Isso é uma necessidade lúdica. Uma necessidade que vem das nossas crianças que ainda vivem dentro de nós. Criança que mantem a chama acesa da esperança e da alegria. Essa criança interna pode nos render e nem que seja por alguns instantes, ela pode nos lembrar que estamos vivos e que a vida vibra dentro de nós!


Obrigada minha amigas e amigos por todas as gargalhadas que voces tem me proporcionado.


Beijos


Ludmila
P.s. Foto leve e saltitante no Taj Mahal na Índia!

sábado, 9 de maio de 2009

Minha mãe

Amanhã é Dia das Mães.


Fiquei pensando que escrever sobre o quanto eu amo ser mãe seria algo tão comum....falo sobre isso o tempo inteiro. Todos que me conhecem sabem o quanto sou completamente apaixonada por meus filhos e o quanto que eu adorei ficar grávida, parir, amamentar, vê-los crescendo....adoro fazer coisas com eles, sair pra jantar, vê-los com as namoradas, viajar com eles.


Qdo fomos todos juntos pra Índia e Nepal, eu não sabia se eu olhava para os lugares ou se olhava para os meus filhos nos lugares... já interrompi palestras minhas por que os vi entrando..., quando eles moraram fora do Brasil por um ano, meus alunos me consolavam e riam de mim....sou realmente muito abestalhada e acho que eles são sobreviventes do meu amor escandaloso. Não amo de forma pegajosa, nem possessiva, mas é um amor exagerado, que faz alarde.....graças a Deus eles sairam da adolescencia, pois eu os fazia morrer de vergonha...eles sobreviveram....hoje, segundo eles mesmos, já se acostumaram...

Levei dois parágrafos falando deles pra dizer que não ía falar deles. Quero falar da minha mãe. Sempre falo do meu pai...falo muito dele, hoje falarei dela.


Minha mãe é de Manaus no Amazonas, filha de uma família enorme e muito pobre. Viviam em uma casa de madeira e dormiam em redes. Desde jovem, vemos pelas fotos, ela tinha uma beleza altiva, imponente, passava uma imagem de poder. Estudou Escola Normal como todas as moças da época. Frequentava Igreja. Ela conta histórias difíceis de infância, mas sempre conta rindo...apanhava muito, tinha que trabalhar em casa pois eram muitos filhos homens e só três mulheres...vida simples e difícil...

Minha mãe casou com o primo carnal dela (meu pai), casou por procuração, pois meu pai já morava no RJ nessa época e ela não poderia sair de casa sem estar casada. Ela não teve um casamento de verdade, mas vestiu seu vestido de noiva depois pra tirar as fotos do casamento com o marido..algum tempo depois quando foi encontrá-lo.

Ela fez então sua grande viagem..pro RJ e para mudar de vida completamente. Teve um filho lá e três aqui em Salvador. Não sei se ela queria tantos filhos. Ela trabalhava demais. Tinha três empregos. Sempre lembro da minha mãe trabalhando...trabalhando muito. Foi professora a vida toda. Professora de matemática.

Minha mãe era muito popular...toda vez que saiamos na rua, sempre muitas pessoas falavam com ela. Sempre falo sobre o quanto meu pai era popular, mas minha mãe era incrivelmente conhecida. Ela ensinava matemática em escolas de ricos e de pobres, então era comum estarmos na rua e o camelô reconhecê-la e chamá-la: professora!! Mas, muitos amigos meus foram alunos dela também. Então doutores e empregadas domésticas; médicos e camelôs; advogados e garçons foram alunos de minha mãe. Todos falavam do quanto ela era excelente professora, do quanto todos a adoravam. Minhas irmãs foram alunas dela, eu não.

Minha mãe era vaidosa, e tinha uma atitude sensual, sempre reclamando do giz que ressecava suas unhas(nessa época os quadros das escolas eram negros ou verdes e se escrevia de giz). Usava decotes enormes e era uma mulher moderna. Dirigia pra cima e baixo, apesar de trabalhar tanto, nos levava pra todos os lugares sempre que possível, não lembro de meu pai ajudando-a em nada de casa ou de filhos. Ela fez faculdade depois de ter três filhos, se formou com quatro..recém parida da última. Acho que ela foi uma guerreira.

Não tenho uma visão romântica da maternidade, acho que deixo faltas imensas nos meus filhos, acho que provavelmente os deixo em situações dificeis, e acho que toda mãe erra muito. Acho que as mães podem ser terríveis, e provavelmente são, e duvido muito de uma pessoa que diga que nunca sentiu muita raiva da sua mãe ou que não desejasse ter tido outra mulher como mãe.

Mães são contraditórias, são imperfeitas, são mulheres com suas próprias faltas. Minha mãe é assim, eu sou assim. Meus filhos podem fazer uma lista daquilo que não gostam em mim, com certeza podem, eu também, quando tinha a idade deles também faria uma lista dos defeitos da minha mãe. Hoje isso não importa mais. Não tenho culpas com relação às faltas que provoquei nos meus filhos e por isso mesmo não seria justo cobrar nada da minha mãe. Aliás, uma coisa implica na outra. Me resolvo como filha e me libero como mãe. Sem culpas, sem cobranças...


Minha mãe lê esse blog, é muito orgulhosa de mim, e lerá essa minha postagem, e quando ler vai se esforçar pra não chorar, pois ela nunca chora, pelo menos não na frente de outra pessoa. Eu sou uma chorona, chorei e choro por tudo que meus filhos fazem. Choro por qualquer coisa. Minha mãe controla o choro.


Talvez ela chore sozinha lendo isso que escrevi, mas nunca saberei.


Mãe, te amo.


Ludmila


P.s. Na foto, minha mãe entre as três filhas!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Espaço dos cuecas *


Quero escrever sobre os homens. Já escrevi algumas vezes sobre as mulheres, sobre o quanto adoro ser mulher, sobre minhas irmãs lindas e poderosas, sobre minha mãe, sobre minhas alunas, clientes, sobre minhas companheiras das comunidades realacionada ao câncer...falei das mulheres como Deusas, mas hoje quero falar dos homens.


Tenho dois filhos homens, quando era jovem queria parir 6 homens. Meus filhos são muito especiais. Não sou uma mãe coruja (aquela que não vê os defeitos), eles os tem, mas acho que eles tem algumas qualidades raras, e uma delas é a delicadeza e gentileza que eles tratam as amigas e namoradas. Eles são gentis e cavalheiros. Gosto muito também da fidelidade deles aos amigos.


Meu pai, foi o primeiro homem da minha vida...já falei tanto dele aqui. Ele foi ficando velhinho e ficando preocupado com os filhos, cada vez mais preocupado. Nós cada vez mais independentes e ele cada vez mais atencioso. Tem meu sobrinho que foi o primeiro bebê da minha vida, tão lindo, hoje um homem e profissional sério. Adoro meus alunos e clientes. Acho muito lindo um homem contrariar uma força cultural e fazer terapia, chorar suas dores e buscar esse contato com o mundo interno. Não poderia de citar meu marido, meu companheiro e que já falei tantas vezes aqui.

Mas quero dedicar essa postagem aos poucos homens que frequentam as duas comunidades virtuais dedicadas a câncer que faço parte: Rodrigo, Gustavo, Gui, João, Ivan, José, Dan, Siro, João Vitor...e outros que talvez tenha esquecido. Eles são pacientes dessa doença maluca ou são parentes....mas são guerreiros como poucos que já conheci.


Lidar com uma doença dessa é uma porcaria. Não dá pra falar coisas bonitas dela. O tratamento é doloroso, os fantasmas são constantes...tanto homens, quanto mulheres precisam de muita coragem determinação, serenidade, paciencia...e muita fé e esperança. Como acompanho o meu marido de perto, sei o quanto é preciso acreditar e querer muito a vida pra suportar tudo que vem com o tratamento.

Mas quero falar daqueles que chamo os meninos da comunidade. É preciso ficar claro, que eles são minoria absoluta nesses ambientes, as mulheres ocupam todos os espaços, mas eles estão ali, vão aos poucos falando, se expondo, na maioria das vezes brincam, mas também tem seus dias de fossa. Sou completamente apaixonada por eles, porque além deles atravessarem essa doença, eles também conseguem um lugar num espaço em que as mulheres dominam. Por conta disso, um fenomeno aconteceu, todas nós nos apaixonamos por eles, achamos graça das coisas que eles falam, ficamos encantadas e excitadas com a forma masculina de lidar com os problemas...e rimos, brincamos....falamos bobagens...algo muito lindo acontece desse encontro.


Meus queridos, existe uma crença no mundo feminino que voces homens não aguentam dor, as mulheres brincam dizendo que a humanidade seria extinta se dependesse dos homens parirem seus filhos, brincamos sobre o quão dengosos voces ficam por causa de uma gripe.... e nem sei o que pensar agora disso. Quando me deparo com a luta de voces, na maioria jovens, muito jovens, enfrentando essa doença louca, quando vejo que voces batalham e buscam sair dessa batalha de uma forma tão linda e como vencedores...fico muito emocionada.


Também tenho a tendencia a achar que as mulheres são mais fortes, que aguentam mais as dores e sofrimentos, mas isso é uma grande bobagem, acho que a grande diferença é que nós alardeamos o nosso sofrimento, falamos mais sobre ele, precisamos falar, falar e voces talvez não. Ainda por cima, nós temos a possibilidade socialmente aceita de sermos frágeis, de poder chorar, de cair e levantar, e isso faz com pareçamos mais fortes do que realmente somos; de voces é esperado uma luta sem quedas, uma coragem de macho, uma dureza sofrível...cruel isso, não?


Quero hoje dizer pra voces meus amigos e companheiros de comunidade que tenho muito carinho e admiração por voces. A forma como voces encaram suas lutas toca bem fundo no meu coração. Fico imaginando suas mães, irmães, namoradas, esposas e me identifico tanto com elas, pois eu vivo isso agora, e quero acolher voces, fazer companhia, ser amiga, ser irmã, ser mãe, ser companheira... algumas sentimentos lindos brotam do meu coração, e voces HOMENS, são responsáveis por isso!


Sou muito grata aos homens que entraram de várias formas na minha vida, tenho muita admiração e respeito por voces. Sinto que muitas experiencias lindas que vivi na vida, foram por causa de voces.... quero fazer essa homenagem aos homens e dizer do meu grande amor e gratidão por essa energia masculina com a qual já briguei tanto na minha vida, no meu processo de individuação, mas que hoje posso cada vez mais me render, admirar, amar, respeitar, reconhecer.

Meus queridos, muito obrigada e tentem resistir à nossa energia borbulhante e repleta de contradições, e permaneçam conosco!


Ludmila
P.S. na foto, meu pai e os 3 netos representando esses homens guerreiros e meninos que conheci.

* nome de um fórum criado pelos homens, dentro de uma comunidade de quimio, onde imperava a força e a palavra feminina!!!!!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Chove chuva....chove sem parar....




Quem nos disse que temos que correr da chuva?


O que a chuva me traz? O que ela leva de mim?


veio a água.... muita água...energia da alma... dos sentimentos, que assim como a água, podem congelar, endurecendo...podem evaporar mas continuam a existir...podem fever...esquentar, esfriar...podem fluir... Nesse momento a água cai com força e leva com força aquilo que estiver no seu caminho.... tem um rio de chuva me envolvendo agora...

Que venha a chuva....quero ficar quietinha...a chuva me leva pra dentro, num lugar quentinho dentro de mim.


Que venha a chuva e que venha purificando, lavando, levando....levando tudo que não me serve mais e que a terra que é uma mãe amorosa, receba isso e transforme tudo em amor, coragem, sabedoria...


Que venha a chuva e que me deixe mais leve...que leve todos os medos, todas as dúvidas, dores..


Que venha a chuva e traga o que ela quiser me dar.


Que venham as gotas delicadas e as fortes também, as enchurradas.

Que atravessem o meu corpo, a minha áura, a minha casa... e que meu coração aberto não resista, apenas se entregue.


A chuva é uma mãe amorosa ou uma mãe severa?


O som da chuva me aninha ...a som da chuva me acolhe e me encolhe também... sinto medo, parece um medo de criança....mas descubro que não há nada há ser feito... fico menor com a chuva, encolhida, acolhida e aninhada não tenho defesas ...devo ficar quietinha...escutar o meu coração...sentir a água caindo...lavando...lavando....


Não há nada a ser feito...não existe a possibilidade de resistir ao poder da chuva...da água...podemos apenas respirar e esperar, esperar pra saber o que ela levou e, como ficou o que ela não levou.



Chove chuva...chove sem parar....

Ludmila






segunda-feira, 4 de maio de 2009

Não quero nada pela metade!


Recebi um email que falava sobre o como nos acostumamos a receber tudo pela metade. Falava sobre o fato de que vamos nos acostumando a receber cada vez menos e achar que está bom. A medida que eu lia, meu primeiro movimento era de concordar com tudo que ali estava sendo dito. Já falei aqui outras vezes sobre o quanto eu desejo na vida. Já falei em outros posts sobre a minha falta de pruridos em assumir que quero sempre muito, ou que quero muito aquilo que quero, assumo também que sei que as coisas não contecem exatamente como eu quero, então sei que devo me preparar para as frustrações também.


As coisas nem sempre acontecem como eu quero, sei disso. O fato de meu marido estar travando uma batalha contra o câncer nos anos que poderiam ser, os melhores anos das nossas vidas, prova isso. Não temos poder sobre tudo, não temos poder sobre a maioria das coisas. Então quando falo sobre os meus desejos, não falo com uma visão onipotente, que tem todas as garantias, falo de um lugar de quem sabe que muitas coisas não estão sob a determinação da minha vontade, que existe algo muito maior, uma "vontade" muito maior que podemos não entender, mas teremos que nos render.


Assumir o que quero e que não quero pela metade, me leva a um lugar onde tenho que me implicar nos meus desejos na medida que els são importantes pra mim. Se não quero algo pela metade, também não posso estar pela metade, tenho que me implicar inteiramente. Tenho que me expor, tenho que me instrumentalizar, tenho que saber como chegar lá, tenho que descobrir caminhos e formas de alcançar aquilo que desejo e mais ainda, talvez a parte mais importante: não posso ter medo denão conseguir o que desejo e, muito menos de conseguir o que desejo.


Parece uma contradição. Como pode alguém desejar uma coisa e ter de medo de alcançá-la? Isso infelizmente é muito mais comum do que podemos imaginar. Muitas pessoas andam nas suas vidas como se estivessem com um pé no acelerador e a mão no frio de mão! Com medo, freiando...sem saber se querem mesmo que aconteça...com medo de ser feliz, de gozar as delicias de conseguir algo que batalhou muito! Outras temem tanto a frustração que se dão pela metade, como se isso garantisse uma frustração pelo meio também....pessoas que se contentam com metade das coisas, um parceiro mais ou menos bom, um trabalho mais ou menos bom, uma vida mais ou menos boa...um amor pela metade, sonhos pela metade...Ainda dizem que não tem o queriam , mas se contentam com o que a vida deu!


Contentamento e desejos parecem conflitantes, mas pra mim não são. Já escrevi sobre isso aqui também. Posso ser uma pessoa que tem contentamento ( e sou), mas que tem muitos desejos e metas, que tem muitos sonhos e aspirações.


Bom...acredito que somos feridos nesse caminho de busca pelo que desejo...acredito até que alguns pedaços são arrancados, mas acredito que não existe outra forma melhor de estar na vida, que não seja a de estar inteira, e isso significa: Consciente de mim! querendo os meus desejos realizados e me implicando inteiramente na realização dos mesmos....se eles não acontecem, posso chorar minhas dores até que elas acabem...chorar plenamente...e continuar....


Namastê!


Ludmila

P.S. Foto - sendo coroada por uma Deusa! rsrsrsrsr (Museu D'Orsay- Paris)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Celebração das Deusas


Acho que já devo ter dito aqui, algo sobre o quanto eu adoro meu trabalho e todas as possibilidades que tenho de realizar mil coisas com ele. Já fui empregada da empresa privada e não aguentei, já fui funcionária pública concursada e também tive que sair senão ía morrer. Como psicoterapeuta e professora de yoga posso fazer tantas coisas diferentes....tenho tantos interesses e descubro sempre que posso produzir coisas com esses interesses se eu usar além do meu conhecimento, minha criatividade. Por isso, não posso ter um emprego, tenho que ser "dona" de mim mesma e ter a liberdade que vem daí.

Ontem encerrei mais um grupo que chamo de "Círculo das Deusas". É um trabalho com um grupo de mulheres, que procuram através da compreensão dos Arquétipos das Deusas Gregas e de como elas estão presentes nas nossas vidas (ou não) nos apropriarmos mais dos nossos poderes femininos.

Voces não tem idéia de como eu amo esse trabalho! Eu realmente amo muito esses encontros! Eu normalmente nem me preparo (tecnicamente) para eles. Eu sinto que apenas preciso abrir meu coração para as mulheres que lá estão e deixar que cada uma delas revele seus poderes. Sinto que a única coisa que faço nesse trabalho é autorizar cada uma delas a ser cada vez mais quem elas são em essência, e liberar seus desejos, saberes e poderes.

Passamos dois meses descobrindo a nossa porção Afrodite e como a nossa sexualidade teve que ser freiada e envolvida em culpas e sentimentos de inadequação; fazendo as pazes com a nossa Hera que não tem pruridos com relação ao poder; encontrando a nossa Ártemis e descobrindo o nosso amor pela natureza e pela liberdade; reconhecendo a Athena que mora em nós e que nascida da cabeça do pai luta contra as injustiças e ama o seu trabalho; acolhendo nossa Demeter que é mãe amorosa e que pode ser mãe de nós mesmas, e finalmente, descobrindo que podemos mergulhar fundo nas nossas dores como Perséfone e resgatar a nossa integração nos recônditos mais profundos da nossa alma.

Ontem encerramos essa jornada de resgate, reverenciando a nós mesmas.... brindando às Marilyns, às Fridas, às Anas Carolinas, às Priscilas, às Elianas, às Dôras, às Julianas, às Ângelas, às Ludmilas e a todas as Marias, brindamos aos batons, esmaltes, strasses, brilhos, livros; celebramos as delicadezas das fábulas, à coragem das guerreiras, ao prazer das cortezãs....rimos regadas a um bom vinho, uvas e claro, que não podia faltar, com chocolates.
Brindamos por cada orgasmo que teremos, por cada amiga que ainda faremos, pelos livros que publicaremos, pelos beijos que daremos, pelos homens que ainda abrirão portas de carro e trocarão nossos pneus e que nos amarão... e terão coragem de dar suporte aos nossos desejos e embarcarem neles... brindamos pelos filhos, pelas mães, irmãs e amigas que temos...brindamos por todas as mulheres das nossas vidas conhecidas ou não, mas que nos compõem....e nos ajudam a ser tudo que podemos ser.

Obrigada minhas lindas amigas, alunas, clientes...obrigada mulheres que me proporcionam uma experiencia como essa, que me dá uma noção muito linda de mim mesma. Acho que já disse que gosto muito de ser mulher, que gosto muito de mim mesma e da minha vida, mas quero mais uma vez agradecer, dizer o quanto sou grata por voces me darem esse prazer de rirmos e chorarmos juntas, de abrirmos a nossa alma uma para a outra e descobrir que podemos confiar. Confiar em nós mesmas, nos nossos desejos, intuições e sentimentos.



Namastê!


Ludmila
P.S. Escultura que mais amei no Museu D'Orsay em Paris

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Isso é bom ou isso é ruim?


Como saber quando algo nos acontece se aquilo é bom ou ruim? Por teoria ou crença sempre tendo a pensar que as coisas são boas e ruins sempre. Que tudo tem em si a sua polaridade, ou mesmo que podemos fazer das coisas ruins algo bom e vice-versa. Conhecemos inúmeras histórias de pessoas que ganharam muito dinheiro e que tiveram suas famílias antes unida, destruida, ou mesmo que morreram...pessoas que perderam um emprego e que por causa do desemprego foram obrigadas a serem criativas e empreendedoras e se descobriram capazes disso. Bom o que não falta são histórias que nos levam a questionar se uma coisa é boa ou ruim...


Hoje era dia de quimioterapia do meu marido, todas as quartas de 15 em 15 dias é dia de quimioterapia. Essa seria a sexta sessão, ou seja, estariamos no meio desse caminho que parece longo demais. Chegando na clínica, descobrimos que a quimio não poderia acontecer. Sexta é feriado, a clínica não funcionará, não teriam como retirar a bomba com as drogas que ficam sendo gotejadas por 3 dias no corpo dele..., ai...que droga! - esse é o primeiro pensamento. Que raiva, que droga. Não podíamos nem ficar com raiva deles, porque de fato a quimio tava marcada para terça, nós é que não vimos pelo hábito de sempre ser quarta. Droga, droga....


Segundo momento....Hum...quem sabe isso não é o universo querendo nos dar uma folguinha...? No último fim-de-semana SIM, eu estava gripadíssima e nem podia ficar perto dele....hum...talvez o universo esteja nos oferecendo um cineminha, um teatro, um jantar sem enjôos...talvez o universo queira que a gente possa namorar um pouco e extendeu o periodo SIM por mais uma semana...uau! Isso pode ser muito bom!!!! Tem tempo que não temos dois finais de semana sem quimios!! Uau...estou convencida de que isso pode ser maravilhoso!


Terceiro momento....isso é bom ou ruim? provavelmente as duas coisas. O tratamento de Judson não será prejudicado. Esses adiamentos acontecem as vezes por conta das taxas de hemoglobina que estão baixas..etc. Mas, algum prejuízo terá. Ficaremos mais tempo em quimio...ai, ai, ai...
Hora da escolha: Escolho então não pensar nisso, no que poderia ser ruim! Agora não! Não há nada a ser feito! O que podemos fazer a não ser aproveitar o lado bom dessa história? Será que esquecer o feriado de sexta não foi um legítimo "ato falho" de duas pessoas que estão desejando tanto, mas tanto mesmo, dias de paz e amor? Deve ter sido... nossos inconscientes no fundo, no fundo devem ter desejado isso.....


Meus amigos! Não sou Poliana, (já falei sobre isso em outro post aqui desse blog), mas sou tântrica (já falei sobre isso também) e para o tantrismo o presente é que deve ser vivido com intensidade, pois é o único tempo que existe. E meu presente hoje, nesse exato momento, meu marido não está enjoado e nem ficará enjoado esse fim-de-semana. Posso antever dias de descanso merecido e de prazer amoroso, muito amor...e, acho que posso receber isso com prazer!
Então nesse momento, posso responder a pergunta que intitula esse post assim: É bom! Quero que seja muito bom!!!!!!!!
Eu mereço, ele merece, nós merecemos!!!
Namastê!
Ludmila
P.s. Foto sob um sol lindo em Veneza!!! uhhuuuuu!!!!!!

domingo, 26 de abril de 2009

Ano 9


Estou num ano 9. Na numerologia esse é o meu ano 9, ou seja, é o último ano de um ciclo de 9 anos. É portanto, um ano de fechamento, de conclusão, de avaliar o que aconteceu nesse último ciclo e de planejar o próximo. No ano 9 temos que pensar que o ano seguinte será um ano 1, um ano de recomeçar, ou de começar. Então nesse ano não só fazemos um balanço, como também começamos a fazer planos...uma coisa naturalmente puxa a outra. Quando avalio o que fiz, o que deu certo, o que deu errado, o que aprendi, o que conquistei, e o que perdi, imediatamente penso no que preciso mudar, é inevitável isso. Esse tem sido um ano assim, de fechamento, de organização para um novo ciclo.


Não sou uma pessoa surperticiosa (longe disso), nem vivo consultando oráculos, nem gurus, nem zodíacos...nem numerologias...nem nada parecido. Nada contra, muito pelo contrário, gosto até. Gosto muito do I Ching, oráculo chinês de sabedoria milenar. O I Ching sempre me diz coisas interessantes, já falei dele aqui antes. Me identifico muito com meu signo, sou capricorniana com ascendente em áries e lua em peixe. Não me consulto muito em nenhum desses meios por preguiça e talvez por sentir que não preciso que nada nem ninguém me fale sobre meu futuro. Não tenho grandes ansiedades em saber sobre futuro, primeiro por que acredito na construção diária do meu futuro, e na possibilidade constante de transformá-lo, então acabo achando que ganho mais se ficar atenta ao meu presente do que se olhar para o meu futuro.


Sempre tive muita visão de futuro olhando para o presente. Quando eu era uma jovem eu dizia com tranquilidade como estaria minha vida em 5, 10, 15 anos....eu dizia naturalmente como eu achava que as coisas estariam....falava de mim, de como eu estaria e queria estar. Acho que minhas previsões não falharam. Eram prognósticos baseados no presente. Nunca esperei que nada caisse do céu, e sempre me senti responsável por minhas escolhas, por isso mesmo dificilmente culpei ou culpo alguém por algo que tenha me acontecido.


Tenho hoje 45 anos. Estou na meia idade. Íncrivel, mas será realmente minha meia idade, se eu viver até os 90 anos, o que pretendo, mas, se eu viver mesnos, talvez já tenha passdo da minha meia idade. Como saber? Mas de qualquer forma, é a minha meia idade, no sentido de "turn point", um ponto ou momento de virada...não sei ainda que tipo de virada, nem pra onde irei, nem o que farei, mas com certeza esse fechamento de ciclo será uma virada.


Não sou mais jovem, embora me sinta muito melhor hoje do que em qualquer outro tempo. Não tenho problema com os sinais da idade no meu corpo e se os tiver, não terei pudor nenhum em aliviá-los... me sinto emocionalmente madura, com muito menos conhecimento do que pretendo, mas muito mais do que muitas pessoas da minha idade. Com uma vivência intensa de vida que me garante estabilidade emocional para enfrentar muitas coisas, e o melhor, com muita coragem para enfrentar a mim mesma, porque se ao chegar nessa idade não conseguimos entender que o nosso maior inimigo está dentro de nós, perdemos muito tempo de vida sem aprender o mais importante.


Gosto de mim e nesse ano 9, posso começar a concluir que vivi muito intensamente, que aprendi muitas coisas e que apesar de todas as dores que tenho vivido, quando me dou um tempo pra me sentir ou pra meditar concluo que a sensação que tenho de mim mesma é boa, muito boa.


Não tenho do que me queixar, por mais que tenha tido problemas, não me faltou felicidade.


Namastê


Ludmila Rohr


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Contentamento


Recebi alguns emails de pessoas reclamando da minha demora em postar algo novo, ou mesmo preocupados se algo havia acontecido....achei isso incrível. Nada de errado aconteceu meus queridos....e de fato voces teem razão...tem tempo que não escrevo, mas tenho meditado muito...


Essa semana refleti muito sobre Contentamento, que os yogues chamam de Santosha. Esse estado da alma que não queixa, que não lamenta, que não reclama, o estado de alma das pessoas que podem estar simplesmente, contentes, independente de quaisquer condição. Esse é conceito difícil de ser compreendido por nós ocidentais.


Bom...fui criada para não me "contentar" com menos do que fosse o meu desejo, pra não me contentar com pouco, a não ser se meu esforço e dedicação tivesse sido pouco também. Fui educada para achar que quem se "contenta" aceita qualquer coisa, e pode até ficar sem nada. Fui educada a ser competitiva, a lutar por minhas ambições e desejos. Aprendi muito bem isso. Realizei isso na maioria das vezes. Simplesmente não me contentava e, buscava... brigava....batalhava por aquilo que eu queria. Achava isso lindo em mim! Me julgava corajosa e tinha orgulho dessas características minhas.


Tenho mudado de uns anos pra cá. Tenho me percebido com menos ambições. Tenho me sentido Contente com menos coisas, e sem tanto esforço. Tenho sentido muito prazer com coisas simples. Tenho ficado contente apenas na contemplação. A meditação na vida me deixa contente. A contemplação na respiração me deixa contente. Tenho conseguido depois de muitos anos estudando yoga, começar a entender o Santosha.


Santosha é a simplificação da vida. É o contentamento não por ter alcançado tudo que queria, mas sim, por descobrir que se quer muito menos do que imaginava. Santosha é o contentamento por descobrir que nenhum esforço nos tira daquilo que é maior que nós mesmos, que é o Dharma (aquilo que deve ser feito; a Lei)...o contentamento é possível onde há confiança, e onde não há medo. Santosha é sinônimo de felicidade e não está relacionado ou condicionado a nada, apenas a uma entrega àquilo que as pessoas chamam de Deus, e que eu chamo de vida.


A vida tem sabedoria. A vida tem um fluxo próprio de energia...e por maior que seja o nosso "livre arbítrio", tem algo maior que nem entendemos, mas ao qual precisamos nos entregar.


Quando eu era pequena comecei a ter um sonho recorrente que se repetiu até a idade adulta. Era o mesmo sonho por muitos anos, se repetindo...repetindo...Era assim: No sonho eu sempre era uma criança de mais ou menos 3 - 4 anos, sentada na balaustrada da praia do Farol da Barra (aqui em Salvador). Eu olhava o mar, que de repente começava a se retrair até que desaparecia totalmente. De repente todo o mar que havia se retraido, voltava como uma imensa onda que de tão grande, escurecia o sol. A onda começava a cair sobre mim...arrastava tudo... eu me agarrava nas colunas onde estava sentada...acordava desesperada.


Sonhei incontáveis vezes e por muitos anos esse sonho. Fiz inúmeras análises dele, segundo várias abordagens da psicologia. Deixei de sonhá-lo, mas nunca o esqueci, nem da sua sensação. Não esqueço do espanto de ver o mar desaparecendo, do pânico de ver a onda imensa e do desespero de tentar me agarrar pra me salvar.


Qual a relação desse sonho com Santosha? Bom...sei hoje, sinto no meu corpo e na minha alma, que não quero me agarrar a nada pra me "salvar". Não quero me agarrar nem a idéia de Deus! embora ela me dê muita paz...mas não quero me segurar desesperadamente a nada, pelo simples motivo que não há nada a ser salvo.


Santosha vem da entrega e do desapego. Santosha nasce na nossa alma no momento que começamos a nos entregar e relaxamos, saimos da luta e do esforço, e é complicado falar sobre isso já que aparentemente estamos "lutando" contra um câncer, pois poderia levar a interpretações errôneas de que quero "entregar os pontos". Nada disso. Quero fazer tudo que precisa ser feito. Quero valorizar a vida sagrada que temos. Mas não quero desespero na minha vida, nem na minha morte. Quero Santosha!


Experimentei Santosha 15 anos atrás, quando (no sonho) larguei as colunas nas quais tentava agarrar e me deixei levar deliciosamente pelas águas poderosas daquela onda que passou a vida me chamando e, a partir daquele dia, nunca mais o sonhei. Não tinha nenhum medo da onda, da força das águas...e por isso, não precisava mais sonhá-lo.


Santosha é entender que não estamos lutando contra um câncer e sim nos entregando à vida.

Não preciso ter medo das ondas da vida, elas estão dentro de mim também. Não preciso ter medo de nada que está dentro de mim. Não preciso ter medo de mim, e por isso posso estar contente. Essa onda é Deus, essa onda é a vida, essa onda sou eu repleta de contentamento e poder.


Namastê


Ludmila Rohr

domingo, 19 de abril de 2009

Encontro de histórias...num espaço virtual!


Faço parte de uma comunidade no Orkut frequentada por Parentes de vítimas de câncer. Lá estão pessoas que perderam alguém muito querido com essa doença louca. Lá estão pessoas que estão acompanhando alguém que luta contra essa doença louca. Alguns estão caminhando no sentido da vitória, outros sabem que é uma questão de tempo. Todos sofrem, e isso foi o que deu inicio a nossa união.


Uns sofrem saudades, de quem já foi. Outros sofrem por verem seus pais, maridos, filhos, avós sofrerem dores e as consequências do tratamento. Outros sofrem com os fantasmas que essa doença traz....enfim nos encontramos nessa vibração de alma.


Tem dias que alguém está mais feliz, algo de bom aconteceu, as vezes nem precisa algo bom ou ruim acontecer...simplesmente ficamos emotivos, felizes ou tristes, raivosos ou exaustos....as vibrações da alma vem e vão, se alternam como marés, florescem e desaparecem.... somos muita alma, e parecem que nossos corpos estão com a pele bem fina, alguns em carne viva, mas todos muito sensíveis, então as emoções são transbordantes, mas ali, encontramos bordo, acolhimento, continência. As emoções podem aparecer, porque é um lugar acolhedor e onde não há julgamentos.


Já nos conhecemos. Isso é incrível, mas é verdade. Sabemos um pouco da história um do outro. Visitamos nossos perfis, vemos nossas fotos, deixamos recadinhos um pro outro, nos queremos bem mesmo. Formamos uma turma, um grupo, nos entendemos. Nenhuma barreira de qualquer espécie é importante aqui, (o que seria na vida), não temos barreiras sociais, culturais, religiosas...só falamos coisas boas um pro outro, nos damos força, acolhemos e torcemos um pro outro. Fazemos papel de amigos, de mães, de filhas e filhos, de netas e netos uma da outra. Por sinal temos uma avó de todos lá. O colo dela é muito disputado, mas é bem grande, sempre cabe mais um.


Poucos dias atrás, soubemos que uma de nós está grávida (a mãe dela está com câncer), estamos felizes. Parece que essa gravidez foi um presente para todos nós do grupo. É como se estivéssemos sendo lembrados que a vida renasce a cada dia. Que a única coisa permanente que existe nessa vida de impermanencias, é o poder que a vida tem de se renovar.


Queria homenagear, nesse post, meus amigos virtuais. Meus queridos amigos que caminham junto comigo e que como poucas pessoas, me permitem desmontar e me ajudam a levantar de novo.

Sou grata a voces!


Namastê!


Ludmila Rohr

sábado, 18 de abril de 2009

Realismo? Talvez?


Feriadão e "Fim-de-semana NÃO" juntos... pra começar me preparei tomando um chopinho com uma amiga na sexta e pegando um cineminha (Divã, vão assistir!!!!!). Achei que assim estaria mais preparada para o que viesse....

Bom sou uma pessoa muito reflexiva, reflito sobre tudo...sempre tenho que compreender as coisas na sua subjetividade, ou na sua profundidade, ou elas precisam fazer sentido...eu analiso os significados..as consequencias, o que elas representam...etc. Não sou uma chata analítica, muito pelo contrário, sou seguidora do coração, escuto os meus desejos como poucas pessoas e me entrego bastante aos meus sentimentos. O que consigo com isso, com essa aparente contradição, é muita consciencia...sinto que tenho muita (aquela que consigo alcançar) consciencia das minhas dinâmicas internas, daquilo que me governa, daquilo que posso ser, ou não, até onde posso ir ou não. Acredito em mim e sinto que sou consistente e de verdade. Gosto disso.

Sou uma pessoa forte também, pelo menos assim me considero. Isso não significa que eu não chore e não queira de vez em quando comer uma torta de chocolate inteira. Mas tenho relativa consciencia e controle de mim mesma. Gosto disso, porque dificilmente me sinto vítima de qualquer coisa. No máximo posso ser vítima de mim mesma, mas não de algo fora de mim.

Tenho reletido muito sobre três conceitos: o de pessimista, otimista e realista. Tenho uma implicancia básica com os otimistas. Mas passei a questionar qual o meu conceito de otimista, pra evitar os preconceitos. Pra mim eles são aqueles que não querem, ou não conseguem ver o que está dando, ou deu errado; aquilo que é feio, sombrio, frustrante, eles tem dificuldade com as decepções e só querem ver a luz. Querem ver o bem, como se o mal não existisse, querem ver a luz como se ela própria não produzisse a sombra. Bom...otimista pode não ser isso, e aqueles que o são, provavelmente vão defender aqui seus conceitos, mas se é isso, isso eu definitivamente não sou.

Penso nos pessimistas como aqueles que não conseguem ver a luz. Tudo já se perdeu, e se houver alguma chance de algo dar errado (e sempre tem), dará. Eles tem uma dificuldade ou impossibilidade com o sonho, com a beleza, com a leveza...as pessoas são capazes do pior sempre, e em algum momento elas vão mostrar isso. A vida sempre está tentando nos punir e é difícil para um pessimista fazer planos, acreditar, ter fé... Bom, não sou pessimista. Faço planos e sonho bastante e sempre acredito neles.

Sobram os realistas. Esse é o mais difícil de conceituar. O budismo me ensinou que "Tudo é Ilusão". Se tudo é ilusão onde está a realidade dos realistas? O budismo me diz que, se conseguíssemos retirar todos os véus de Maya (ilusão) que teimam em cobrir os nossos olhos, poderiamos ver a realidade pura. Fica difícil imaginar o que sobraria...mas vamos lá.

Acho que ser realista é desenvolver um olhar mais central a respeito da vida. Um olhar que não saia do meu centro, do meu umbigo ou das minhas necessidades. Um olhar que conseguisse ver as coisas além das aparencias. Um olhar que pudesse ver por um angulo não pessoal, mas que alcançasse uma visão de 360º . Esse é o olhar do Buda, ou de Jesus. Um olhar de uma realidade ampla, não a realidade dos meus desejos egoístas, e muitas vezes legítimos, mas não menos egoístas. Uma visão da realidade total poderia se dar conta da luz e da sombra; do prazer e da dor; do bem e do mal; das perdas e dos ganhos; da vida e da morte...ao mesmo tempo e inseparáveis.

Tento ser uma pessoa realista e, se verdadeiramente fosse, não classificaria meus fins de semana como SIM e NÃO, porque eles são sim e não ao mesmo tempo. O Não pode ser sim, e vice-versa. Uma pessoa realista não faria afirmações categóricas a respeito de nada, porque tudo pode ser, ou não. As pessoas podem ser boas e não, ao mesmo tempo. Um evento pode ser bom e não, ao mesmo tempo.

Bom...que venha o talvez para a minha vida. Quero mais talvez e menos SIM e NAO. Quero estar aberta para vida com tudo que ela tem de possibilidades. O meu talvez não significa dúvida, pois dificilmente fico em dúvida....por exemplo: quando tenho que escolher algo pra comer num cardápio, simplesmente escolho, sem medo do sentimento de perda em relação a tudo que não irei escolher...realmente não tenho medo das escolhas, porque sempre tenho a convicção de que posso retornar, e que talvez eu queira diferente da outra vez. O meu TALVEZ significa, QUEM SABE? O meu talvez significa abertura para a possibilidade...sem negar que as coisas podem dar errado ou certo e tavez isso seja bom ou ruim....

Bom, eu não sei de nada. Quem sabe?

Namastê

Ludmila Rohr

P.S. Foto: Perdidos numa estrada na Toscana, Quem poderia imaginar onde ela nos levaria?


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Aquilo que se foi...aquilo que ficou...


Estou me dando conta de uma coleção de perdas repetitivas na minha vida. Não sei como elas me afetam diretamente, mas sei que são importantes.


Quando eu era uma criança, um carro de meu pai, pegou fogo, nele estavam álbuns de fotos de todos os filhos, muitas foram queimadas, algumas poucas foram reaproveitadas. Não sei o que os álbuns estavam fazendo lá, mas isso aconteceu.


Quando Salvador viveu a pior chuva da sua história, o rio que passa perto da minha casa transbordou, a enchente inundou muitas casas, inclusive a minha, perdemos muitas coisas, que foram repostas com o tempo, mas perdemos fotos, fotos do meu casamento, fotos das crianças ainda bebês...muitas fotos simplesmente desapareceram...nem sei o que perdi de fato.


Agora meu notebook deu um xilique...algo aconteceu com ele...e eu tive que gastar dinheiro para tê-lo de volta. Ele voltou, mas sem as fotos que eu armazenava lá. Inclusive todas as fotos da nossa viagem a Europa no ano passado. Algumas estão no orkut, mas perdi muitas fotos e assim como na inundação, nem sei de fato o que perdi.


Quando lembro do meu casamento fico triste em não ter fotos, eu casei em 1985, tinha 21 anos e casei numa cerimonia diferente. Eu estava vestida de Sari (traje típico das mulheres na Índia), descalça....acho que eu estava linda...., mas de fato essa fotos não me fazem falta, lembro de cada instante daquele dia.


As fotos dos meus filhos pequenos que foram perdidas doem, mas eu vivi tanto cada momento deles, vi cada dentinho nascer, vivi cada passo que foi dado e poderia contar em detalhes, poderia escrever um livro sobre isso...


A viagem para a Europa em 2008! Uau! Não existe nem ao menos um segundo dessa viagem que eu tenha esquecido...posso relembrar de tudo. Estávamos celebrando a vitória com o 1º câncer de Judson. Nos divertimos, nos amamos, choramos, brindamos, brigamos, fizemos as pazes...tudo está registrado no meu corpo e alma.


Quando era adolescente li um livro autobiográfio de Neruda "Cofesso que vivi". Confesso que não lembro de nada mais que li nesse livro, mas não consigo esquecer o título. Confesso que vivi.


Hoje, nesse exato instante meu marido está com drogas sendo injetadas no seu corpo pra tentar aniquilar célular cancerosas que ainda podem estar lá. Não tenho fotos de tudo que estamos passando desde abril do ano passado por causa desse câncer, mas não existe nada mais nítido na minha mente que isso.


Confesso que casei vestida como uma indiana.

Confesso que meus filhos fizeram muitas coisas lindas nas suas infancias.

Confesso que experiementei prazeres inesquecíveis na Europa em 2008.

Confesso que tenho vivido minha vida com muita intensidade que nenhum fogo ou água, ou problemas tecnológicos podem apagar.

Confesso que vivi, e viverei muitas experiencias intensas nessa vida e as contarei, contarei muitas vezes...contarei aos meus amigos, a quem quiser ouvir ou ler.

Confesso que muitas coisa se foram e eu tive que apreder a aceitar isso..., mas não há nada que realmente eu tenha, que algo ou alguém possa tirar de mim, pois elas me compõem, elas estão presentes na pessoa que sou, elas me construiram...


Confesso que vivi e viverei muito mais ainda...


Namastê


Ludmila Rohr
P.S. foto sobrevivente do meu casamento

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O Jesus que eu amo!


Primeiro preciso confessar que o título desse post é um plágio. O Mahatma Gandhi escreveu um texto lindo que se chamava assim. Ele confessava ter passado a vida sem conhecer Jesus, como a maioria dos indianos. Nesse texto ele diz que não entendia bem a fé cristã, com tantos pecados e culpas. Não entendia a relação de inferno e céu, mas que achava Jesus incrível. Ele dizia que se todas as escrituras sagradas do mundo se perdessem e sobrasse apenas o Sermão da Montanha, tudo estaria salvo! Ele conheceu Jesus já adulto, era um hinduísta e tinha o Bhagavah Gita como livro sagrado.

Eu cresci sabendo muito pouco sobre Jesus. Não tive uma educação religiosa. Aliás, eu não sabia o que era Deus ou Jesus...não entendia essas coisa de religião. Nunca fui batizada, nunca frequentei nenhuma Igreja, nunca fiz aulas de religião nem nada parecido. Meus pais vinham de famílias extremamente religiosas, acho que quando se casaram deixaram pra trás uma vida inteira de fé imposta e cheia de dogmas. Meu pai era (é ainda), um comunista praticante, líder sindical, preso político em 64...ou seja...crescemos longe das religiões, que ele chamava de ópio do povo! Mas nunca o ouvi falar mal de Jesus, muito pelo contrário...Jesus era o "companheiro Jesus". Cresci achando que Jesus tinha sido um homem digno de ser imitado, admirado e que tínhamos muito a aprender com o companheiro! Jesus não era inalcançavel para mim, era um homem possível!

O Jesus que eu conhecia era esse. Um homem possível. Alguém que conseguiu chegar num lugar e, em uma condição que todos nós deveriamos tentar chegar. Alguém que tinha o compromisso com a verdade e com a justiça!

Com 16 anos comecei a praticar yoga. Estudei muitas escrituras hinduístas, budistas, livros da tradição Védica e Tântrica. Conheci e desenvolvi a minha espiritualidade nesse caminho. Tudo que eu estudava reforçava mais o meu amor e admiração por Jesus. Achava muito incrível compreender a jornada de Jesus através do olhar de um Yogue. Jesus foi um Yogue. Alguém que praticou a ética, alguém que desenvolveu controle sobre os sentidos, concentração, capacidade de meditação e reflexão, alguém que alcançou o Samadhi, (para os yogues), ou iluminação, (para os hinduistas) ou para os budistas, o Nirvana. Ele trilhou todo o caminho que os yogues descrevem como o caminho da iluminação. Jesus é um Buda, alguém que se realizou completamente, alguém que cumpriu plenamente o Karma e conseguiu viver o Dharma (a Lei). Jesus é UM com o PAI! Jesus é um unificado! Encontrei Jesus estudando Yoga e o amei muito, do fundo do meu coração!

Certa vez na Índia, eu estava em Delhi e o motorista que me servia, me pediu pra que eu falasse um pouco sobre Jesus, ele queria conhecê-lo, nunca tinha lido nada, mas era curioso. Tentei falar de Jesus, contar alguma passagem...não consegui, mas quando disse para ele que Jesus para nós do ocidente, era como Rama, como Krishna, como Vishnu, ou Shiva, ou Buda....que Jesus era como um Deus deles, ele que ouvia respeitosamente, se emocionou e silenciosamente disse que entendia, que os Deuses eram todos iguais e que estavam sempre tentando nos ensinar a sermos melhores do que nós somos e alcançar a liberação do Karma e que Jesus devia ser assim para nós também.

Jesus tenta me ensinar a ser limpa de coração...assim como as crianças que confiam e se entregam. Jesus tenta me ensinar que o amor e a simplicidade são o caminho para a paz. Jesus tenta me ensinar que tenho apenas que confiar e nada a pedir, que tenho que fazer a minha parte e que o resto virá como acréscimo.... Esse Jesus eu amo e me toca profundamente o coração!

Amor e Paz para todos!
Namastê!

Ludmila

P.S. Foto tirada em Delhi no dia que conversei com o tal motorista. Ele quem me levou nesse lugar lindo!



quarta-feira, 8 de abril de 2009

Tudo é possível...Nada é impossível!


Não consigo ser "otimista", queria muito, mas não consigo... As pessoas otimistas veem um futuro lindo, com vitórias e mais ainda, conseguem ver seus desejos realizados. Essas pessoas acreditam que a força desses pensamentos otimistas construiriam essa realidade tão almejada. Não sou assim., embora seja muito realizadora e cheia de desejos, não sou uma otimista, não sou alguém que só tem olhos para o bem, o belo e o "positivo". Vejo as dificuldades, planejo como encará-las, me pego querendo ver a sombra das coisas e não só a luz!

Quando aquelo livro "O segredo" apareceu e foi aquele escandaloso sucesso, eu simplemente ria e achava uma imbecilidade. Achava que as pessoas estavam querendo uma ilusão...continuo achando. Não acho que isolando meus pensamentos negativos e só colocando energia nos pensamentos positivos eu consiga mudar minha vida.

O primeiro problema pra mim é que eu questiono o conceito de positivo e de negativo. O que realmente é positivo? O que eu desejo para mim, o que eu desejo alcançar é necessariamente positivo? Acho que não. Duvido que tenhamos essa sabedoria toda para discernir o que é realmente positivo. Muitas vezes vejo pessoas agarradas a coisas, sentimentos e ideias e colocando tanta energia nelas como se fossem positivas e sem noção de que essas mesmas coisas a estão levando ladeira abaixo. Na Índia se diz que, quando os Deuses querem se vingar, eles atendem os nossos desejos. É um ditado popular que fala sobre a nossa ignorancia a esse respeito.

Depois questiono como seria a vida sem o negativo. Uma vida de Polianna, (romance que todas as mulheres da minha idade leram em suas adolescencias). Polianna jogava o jogo do contente. Ela transformava qualquer coisa que lhe acontecia, por mais dolorosa que fosse em alguma lição muito linda! Lembro que quando li Pollyanna fiquei com muita raiva dela. Achei que ela se enganava e não queria enxergar a realidade.

Passado alguns anos, eu comecei a ter uma certa compaixão por Polianna, minha raiva cedeu espaço para um olhar mais amoroso. Tive pena dela. Achava que ela era muito frágil e que precisava de tantos enganos, de tantos faz-de-conta. Comecei a pensar que ela precisava de terapia pra conseguir em algum momento ver a realidade, que nada mais é, que a visão do positivo e o negativo integrados. Talvez deva ser grata a Polianna. Talvez ela tenha sido algo que definiu desde cedo minha vocação para ser terapeuta, ou seja, ajudar as pessoas a se olharem de frente e sem auto-enganos, mas dentro de um possível amoroso, até por que eu também não sei o que é o melhor para ninguém.

Hoje penso que o positivo não necessariamente é algo bom, e o negativo nem sempre é algo ruim. Sei que muitos prazeres podem ser a derrota de uma pessoa, e muitas dores podem significar exatamente o oposto. Hoje penso que sou uma pessoa realista, acho que sempre fui, desde pequena. Lembro de mim, como uma pessoa "velha" desde nova.

Minha crença hoje, é que não preciso ser uma pessoa boa, mas que devo buscar ser boa naquilo que faço. Devo buscar estar inteira e com a visão cada vez mais ampliada. Acredito que tudo é possível e que nada é impossível. Então não posso ser como Polianna, que se permitia apenas uma possibilidade, só via aquilo que ela queria ver.

Tudo é possível....Nada é impossível... isso me coloca diante de um universo imenso de possibilidades, e que não posso controlar, que por isso mesmo pode ser assutador, mas que também, exatamente por conta da sua imensidão pode ser muito acolhedor... Isso me dá Paz.

Namastê!

Ludmila Rohr








domingo, 5 de abril de 2009

Só amanhã, hoje não....


Domingo. Tive que sair de casa, levar um material lá no meu trabalho. Sabia que teria que fazer isso, mas fui pega de surpresa com a urgencia de ter que fazê-lo correndo. Fui. Na volta fui agredida por um motoqueiro que simplesmente atacou meu carro e quebrou meu retrovisor. Agressão gratuita. Não merecia aquilo, ninguém merece. Fiquei um tempo com raiva de todos os motoqueiros, depois um tempo com raiva de ter saido de casa, depois mais um tempinho com raiva das coisas estúpidas que acontecem.... fiquei pensando que aquele imbecil devia ter uma mãe, e quando penso nas mães minha raiva começa a passar...

Pele fina. Assim me senti esse fim-de-semana. A morte de Lili que eu nem conhecia. Tudo que aconteceu ou o que não aconteceu me tocou de modo especial. Acho que dizer que estou em contato com a minha vulnerabilidade não seria errado. Somos vulneráveis, isso é uma verdade para todos, mas tem dias que isso fica mais evidente, a pele antes curtida pela vida dá uma afinada e de repente o vento doi, as palavras machucam, um tom de voz mais rispido é o suficiente pra provocar lágrimas, uma cobrança mínima faz aflorar algo...

Percebo que posso controlar isso, mas nem tento... nem quero...
Posso respirar, enraizar minha energia, focar minha mente, mas não quero...hoje eu não quero...
Não tenho pena de mim, não me sinto fraca, muito menos acho que sou uma pessoa triste, mas agora não quero ser "forte", agora não quero ser resistente, não quero me esforçar para nada...quero me permitir ficar assim, meio largada, meio boiando, meio flutuando, sendo levada...vendo o tempo passar...

Quero ficar em frente a TV vendo uma comédia boba, quero ficar no pc jogando free cell, não quero cobrar nada de mim.... meu corpo sabe respirar, então que ele respire. Não quero estudar nada. Não quero conversar sobre nada sério, não quero fazer nada sério. Não quero exercitar pensamentos otimistas e nem quero ser uma pessoa "boa". Quero comer algo gostoso e nem vou me preocupar se é saudável.

Bom... essa sou eu também. Sem cores, sem sabores, sem odores...sem palavras bonitas, sem grandes sentimentos, apenas esperando o tempo passar... Sei que posso fazer isso porque tenho uma boa sensação ao meu respeito, posso fazer isso porque sei que sou uma pessoa boa, posso fazer isso porque sei que também poderia fazer o contrário. Posso fazer isso, porque isso não sou eu, e amanhã, quem sabe eu queira ser uma pessoa melhor do que fui hoje, e se quiser, não tenho dúvida alguma de que poderei. E serei. Mas só amanhã, hoje não.

Namastê

Ludmila

P.S. foto que chamo de"A insignificância do Ser"no Red Fort, Agra, Índia.




sexta-feira, 3 de abril de 2009

Lili morreu...


Eu não a conhecia...nem a conhecerei mais. Ela morreu aos 36 anos. Acho que tinha dois filhos ainda pequenos. Não sei o que ela fazia. Só a vi em uma foto pequena em um tópico de uma comunidade do orkut. Esse tópico chama-se "Confesso...". Lá as pessoas que fazem quimioterapia e seu amigos ou parentes, fazem suas confissões. Já li todas, quando entrei na comunidade esse tópico já existia, por isso passei um dia inteiro lendo tudo que havia sido postado nele desde a sua criação.

Conheci muitas histórias...muitas pessoas incríveis. Vi essas mesmas pessoas em vários momentos distintos. Ora confessavam momentos de alegria e esperança, ora de raiva, tristeza e desânimo. Esse espaço me é muito útil., é um espaço de muito acolhimento. Lá também faço as minhas confissões. Na verdade são desabafos, catarses que escancaram a nossa alma e revelam sentimentos íntimos.

Não sei porque a foto de Lili me chamou atenção. Na foto que aparecia no site, ela lembrava alguém conhecido. Tinha um olhar conhecido. Um pouco melancólico...sei lá. Senti essa atração por ela, mas por outras pessoas também. Percebi que ela não postava há tempos. Pensava nela de vez em quando...

Hoje pensei nela. Fui lá no seu perfil e descobri que pessoas tristes escreviam mensagens desejando que ela descansasse em paz, que agora ela morava ao lado de Deus, que a luta havia terminado, que agora não haveria mais dor!! Essas mensagens começaram um dia atrás, pois dois dias atrás alguém escreveu dizendo que sentia saudade e que ía aparecer um dia desses!!

Lili morreu um dia atrás. Não sei quem ela era. Mas ela sou eu. Ela é cada uma das mulheres que conheço. Ela é uma mãe, uma filha, uma irmã, prima, uma amiga, uma vizinha, uma amante, namorada, esposa, uma colega de alguém...ela agora existe na memória dessas pessoas que a conheceram e também na minha que nunca a conheci, nem a conhecerei.

Tenho uma fala que muitos dos meus amigos já ouviram. Digo sempre que amo muito a vida e que quero viver muito, que tenho muitas coisas pra fazer. Digo que se eu morrer jovem que eles (os amigos) devem fazer vibrações, orar, rezar, acender incensos, velas, bater atabaques, mandar rezar missa...qualquer coisa...pois com certeza eu vou estar muito puta da vida (ou puta da morte) por ter morrido jovem. Sempre digo isso brincando, mas percebo que estou falando sério. Acho um grande desperdício morrer jovem. Quero morrer quando não estiver mais lúcida...muito velhinha...quando estiver cansada e achar que a morte e o que vier depois dela sejam um descanso, mas por enquanto meu descanso com certeza é uma boa cochilada, um mergulho no mar ou assistir a um por-do-sol no Farol da Barra.

Por isso choro por Lili, choro por mim...choro por seus pais, filhos e irmãos....

Namastê!

Ludmila Rohr




quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sou todas as emoções...


É noite agora. Estou bebendo uma taça de vinho. Sinto cansaço. Me dou conta de que vivi em um só dia muito mais emoção do que normalmente levaria muito tempo para experimentar.

Hoje foi dia de quimioterapia. A quarta sessão de 12. Estávamos tensos com a possibilidade dela não acontecer, por causa dos leucócitos que havia sinalizado, dois dias antes, estar abaixo do nível mínimo possível para fazer o procedimento. Começamos a vivenciar o conflito de emoções desde esse momento, pois como desejar algo que seu corpo sabe que te causará sofrimento. Uma parte sua quer muito, pois sabe que é a possibilidade de cura, outra parte, que é visceral, animal repugna algo que sabe que lhe causará desconforto e sofrimento, deseja até se ver livre daquilo.

Experimentei controlar o choro várias vezes nesse dia. Senti raiva, medo, coragem, serenidade, ansiedade, quietude, alegria...em sequencias que se alternavam...eu via os sentimentos virem e irem....eu via os sentimentos que se apossavam do meu corpo como água que inunda e saiam, evaporavam...eu via isso acontecer!

Somos emocionais...não tem como fugir disso. Sentimos tudo que nos acontece (dentro e fora de nós) em forma de emoções, sentimentos... Acho incrível perceber cada emoção e poder não me identificar com nenhuma delas. Não sou medo, mas sinto medo. Não sou raiva, mas a sinto. Não sou coragem, mas tenho. Não sou alegria, mas posso gozar essa alegria quando ela me toma.

Se me percebo como sendo susceptivel às emoções, com poder de reconhecê-las e não fujo delas, posso também perceber o meu poder sobre elas...percebo então que ...nenhuma delas sou eu, mas eu, sou todas elas!

Namastê!

Ludmila Rohr

P.S. No Farol da Barra (Salvador) lugar mais lindo do mundo e que guarda preciosas lembranças da minha infância e adolescência.


terça-feira, 31 de março de 2009

O Amor contagia!


No meu último post falei sobre a capacidade de sonhar, ou melhor, sobre a necessidade de sonhar! Sonhar é preciso. Assim como amar é preciso. Como viver ser sonhos e sem amor? Acho que a vida seria apenas suportável, dura demais, talvez nos sentíssimos áridos como num deserto, talvez, sem sonhos e sem amor, nos sentíssemos amargos, e não acreditássemos na vida, no poder transformador da vida. E na pior das hipóteses, sem sonhos e sem amor, a vida seria um fardo.

Acho então que Sonhar e Amar são as necessidades básicas da nossa alma, assim como respirar, se alimentar...para o nosso corpo. Nossa alma fenece, perde o brilho, murcha se não sonhamos e amamos. Podemos nos sentir meio vivos se não sonhamos e amamos.

O problema é que muitas pessoas confundem a necessidade básica de "amar", com a necessidade de "ser amado", e esperam com um coração fechado que alguém descubra a sua necessidade e lhes devotem algum amor, para só então, possam vir a amar. Essas pessoas esperam e aumentam suas dores com doses grandes de frustrações e de confirmações para a sua teoria. Eu sou assim, porque não sou amado.

No Backti Yoga aprendemos a amar. Esse é um caminho dentro do yoga que fala que só é possível caminharmos com a prática do amor. O amor pode e deve ser devocional. Aquele amor que simplesmente ama. Pode ser um amor por um Deus, mas deve ser amor pelo ser humano que são vistos pelo Backti como a face de Deus. Alguém que tem um amor devocional, não cobra e não espera, simplesmente ama, porque precisa disso, porque já entendeu que sua alma precisa disso. Que no fundo no fundo, quem ganha muito é quem ama. Entende que quando ama, já ganhou o que mais precisa, que é o efeito desse "amar".

Faço parte de uma comunidade de pessoas que fazem quimioterapia, eles aceitam parentes, terapeutas...etc....Sou parente e terapeuta, achei que ali era meu lugar e entre. Estar com outras pessoas, ouvir histórias de outras pessoas, saber das dores das outras pessoas, dá limite as nossas dores, nos sentimos acompanhados, e quando vemos, estamos amando! Estamos amando sem nem conhecer essas pessoas.

Leio todos os depoimentos todos os dias, me pego torcendo por cada uma daquelas pessoas, sofro quando algo dá errado, me alegro quando dá certo...elas fazem, parte do meu ciclo de amor expandido. Nem as conheço, e provavelmente nem irei conhecê-las, mas tenho uma amor profundo por cada uma delas. Algumas pessoas já sei o nome, já imagino suas conexões familiares, sei que estão começando ou terminando a quimio...sei que foram operadas ou não... sei quando estão sofridas e desanimadas e sei quando amanhecem animadas...tenho amor por elas. Algumas são esposas de pacientes com câncer, assim como eu; outras são filhos e filhas de alguém com câncer....uns falam muito em Deus, outros falam muito nos tratamentos....cada um no seu caminho, e ao mesmo tempo, todos juntos nesse caminho.

Obrigada pessoas que nem conheço...Obrigada por me provocarem tanto amor no coração. Posso deixar essa amor contagiar minha vida e todas as pessoas que circulam próximas a mim, e dessa forte estarei multiplicando essa energia e sentindo o poder contagiante de amar!

Namastê

Ludmila Rohr






sexta-feira, 27 de março de 2009

Um sonho auspicioso


Eu sabia que escrever sobre minha visão de Deus provocaria algumas reações. Quando eu acabei de escrever o post anterior, pedi que meu filho Caio desse uma lida antes que eu o postasse. Gosto muito da visão dele. Somos muito parecidos em muitas coisas. Apesar dele só ter 21 anos, é maduro e profundo em seus pensamentos. Ele leu e disse que estava Ok, que não percebia nada de ofensivo nem chocante. Depois lembrei que Caio é um ateu praticante. Ele assim como eu, tem muita fé no homem, em tudo que podemos fazer com nosso corpo, com nossa mente e com nossos sentimentos. Acreditamos na criatividade e na inventividade do ser humano. Acreditamos nas mesmas coisas. Aquilo que eu chamo de características divinas do homem, ele chama de humano. O Deus que eu acredito, parece com o que ele pensa da vida. Acho isso muito lindo e percebo que difícil não é viver sem acreditar em Deus, dificil deve ser viver sem acreditar em nada...mais ainda, difícil deve ser viver sem amar e sem sonhar!

Acho que o câncer, assim como toda dor forte que passamos e que nos leva a experimentar a mortalidade e o medo, tem um poder nefasto de reduzir drasticamente a nossa capacidade de sonhar. Isso é enlouquecedor! Me pego as vêzes pensando em câncer muito mais do que deveria. Me pego querendo conversar com o meu marido sobre outros assuntos que não sejam câncer, alimentação anticâncer, acidez no sangue, cogumelos, graviolas, antioxidantes, leucócitos....quero falar sobre minha próxima viagem à Índia em 2010, quero falar sobre um filme que vi...ou melhor, quero ver um filme! Quero beijar, namorar, fazer sexo...quero amar, quero sonhar!

Sonhar é a capacidade humana mais divina que conheço. Quando sonhamos mudamos a vibração da nossa alma. A nossa alma abre-se para um mundo onde as coisas podem acontecer e atraimos energias que podem se realizar. Acredito piamente, que se podemos sonhar com algo, se temos elementos internos para fazer isso, temos poder também para realizar esse sonho. Todas as grandes realizações começaram em sonho. As curas também!

O oposto do sonho é a queixa, a lamentação. As pessoas que não sonham, se queixam e se lamentam. Reclamam da vida e se envolvem em energias pesadas e densas. Não conheço pessoas que sonham com coisas belas e realizáveis, que se queixem ao mesmo tempo! O sonho elimina a queixa, e a queixa é o pior ralo de energia que existe. O sofrimento, seja ele motivado pelo que for, pode nos afastar do sonho, porque somos, por conta da dor, arrastados para uma realidade muito dura...sonhar, nessas horas, pode parecer bobagem, mas não é!

Quero partilhar com todos que sofrem e que não querem abrir mão do sonho, uma oração védica (tradição milenar da Índia) que me acompanha e que foi a única oração que consegui gravar em toda a minha vida, já que tenho a prática de orações espontâneas!

Ela é assim:

"Que tudo que for auspicioso permaneça comigo, aquilo que não for auspicioso conectado comigo e com os meus, seja destruído!"

Meus sonhos são auspiciosos. Sonho com cura, beleza, paz, prazer, felicidade, generosidade, bondade, força, quietude, coragem, alegria, ternura....para mim e para todos. Tenho fé que não perderei minha capacidade de sonhar. Essa é a habilidade mais humana e eficiente que conheço de me aproximar de Deus. Essa é a caracteristica mais divina que nós temos. Sonhando, honro o Deus que existe em mim.

Namastê

Ludmila Rohr
P.S. Foto em Aimar, Rajastão, Índia. Um sonho, não?




terça-feira, 24 de março de 2009

Uma questão de fé?


Tenho participado de algumas comunidades do orkut relacionada a câncer. Tenho participado de muitas histórias fortíssimas. Leio nomes de drogas que nunca tinha ouvido falar. Participo de questões específicas de quem vive na pele ou de perto essa doença horrível. Tenho acompanhado algumas questões que nunca havia pensado antes. É um mundo inteiro que se descortina diante de mim.

O impacto disso é imenso, porque me dou conta do quanto minha visão de vida era limitada, apesar de considerar uma pessoa muito questionadora, curiosa a novas culturas, leitora ávida de muitas coisas...mas essa experiencia eu não tinha. Não me questiono o porquê de estar vivendo isso. Não acho que o câncer tem algo de especial no sentido de que ele por si só é transformador, redentor ou que passar por ele é para pessoas especiais. É uma doença dos humanos...todos estamos sujeitos a ela. Tento não moralisar essa doença, nem transformá-la em um ícone de alguma coisa. É uma doença. Mostra que somos mortais e que geramos na nossa vida tudo que precisamos para mantê-la e para destruí-la. Somos assim.

Como do ano passado pra cá tenho frequentado, além desses espaços virtuais também as salas de espera de clínicas e hospitais, acabo conversando com muita gente. Nessas conversas as questões relativas à fé sempre vem à tona. Isso me deixa confusa, questionando qual a minha relação com Deus e com a minha fé. As pessoas me dizem que para Deus nada é impossível. Que quem tem muita fé encontra a cura. Ouço também sobre o quanto devemos pedir, orar, rezar a Deus pedindo que ele nos envie essa benção. Conflitos internos surgem....não consigo definir bem "Deus" em minha vida, embora tenha uma espiritualidade praticante no sentido de buscar a paz, crescimento e evolução espiritual.

Sou mãe de dois filhos que foram muito desejados e amados. Meus filhos nunca tiveram que me pedir nada de joelhos. Não existe absolutamente nada nessa vida que eu não fizesse por eles se pudesse e, achasse que salvaria a vida deles. Confesso que, apesar de todas as faltas que devo ter causado na vida deles, atendo a muitos desejos sem a menor importancia, simplesmente por que não consigo deixar de atender. Imagine se não atenderia algum pedido se isso estivesse relacionado com a vida deles. Me desculpem aqueles que pensam diferente, mas o "meu" Deus não é assim.

Bom...é difícil e polêmico falar sobre isso, mas apesar disso, eu acredito em Deus. Infelizmente não acredito em um Deus que pode salvar meu marido se eu pedir muito isso, e não pode salvar outra pessoa, porque a mesma não pediu tanto. Não acredito em um Deus que salva, porque não acredito em um Deus que condena ou que não salva. A existência de um, implicaria imediatamente na existência do outro. Não acredito nem em prêmios divinos, muito menos em castigos. Queria muito acreditar, pois acho que as pessoas se seguram nisso e se sentem confortadas ou protegidas, e meu marido é do bem, por essa lógica ele estaria salvo.

Meu conforto vem de acreditar que tudo sempre dá certo. Que o câncer não é uma questão de morte, mas sim de sofrimento. Eu não tenho câncer, pelo menos não sei disso. Eu não sei do que, e quando irei morrer. Meu marido está com câncer, ele também não sabe do que, e quando irá morrer. Qual a diferença entre nós dois? A diferença imensa é que ele sofre agora. Ele passa por tratamentos dolorosos. Ele questiona a vida e o que fazer para viver mais e melhor. Mas...eu não deveria estar fazendo o mesmo? independente de estar com uma doença como essa ou não?

O medo da morte é absolutamente humano. Temos a certeza de que iremos morrer desde o início da nossa existencia. Como pode por causa de uma doença (que é horrorosa mesmo) passarmos a achar que estamos em risco de morte? Desde quando não estivemos?

Minha forma de me relacionar com Deus é acreditar que nada está fora de lugar. É acreditar na perfeição da vida. É acreditar que sempre encontrarei forças para caminhar o meu caminho, sempre encontarei acolhimento e possibilidades de revelar aquilo que tem de melhor em mim, e de me transformar...de crescer...de ser uma pessoa melhor.

Assim é a minha fé.

Namastê!

Ludmila Rohr

P.S. Foto no maior templo mulçumano da Índia (New Delhi)

domingo, 22 de março de 2009

Compartilhando...


Menos um fim-de semana de efeitos da quimio. Judson começa a sair da prostração e até quer comer alguma coisa. Apesar de não sair de casa, e de ficar ao lado dele esperando que ele precisasse de mim pra alguma coisa, muitas coisa aconteceram nesse fim-de-semana; aliás, nunca mais tinha vivido dias com tantas emoções, com tantas experiencias e trocas. Saio desse fim-de-semana muito diferente de quando entrei e sou muito grata à vida por ter me proporcionado isso.

Entrando em comunidades do orkut dedicadas a pessoas com câncer ou parentes de pessoas com câncer, conheci muitas histórias de pessoas que lutam contra essa doença. Pessoas de verdade que sentem medo, esperança, raiva, coragem, fraqueza, certeza, ansiedade, dor, dúvida...e que confessam seus sentimentos numa tentaiva de sentirem-se melhor, mais acompanhadas e de fazerem outras pessoas se sentirem melhor.

Li muitas histórias de pessoas de todas as idades, de muitos credos, de muitas partes do país, pessoas que se desnudam e generosamente oferecem seus testemunhos e confissões para todos que quiserem compartilhar suas dores e esperanças.

Pequenas alegrias, grandes esperanças, tensões, medos e ansiedades comuns a todos. O resultado de um exame que veio bom e permitiu a quimio, é motivo de uma grande celebração; a contagem regressiva das quimios, os kg ganhos ou perdidos, a fome exagerada ou a falta de apetite, os cabelos que caem e os cabelos que voltam a crescer, o intestino que solta ou que prende, a relação com os pais, os filhos, os maridos, as esposas, os amigos... a notícia da morte de alguém e a notícia da cura de alguém....

As pessoas são diferentes, mas os fantasmas são os mesmos, os medos também... as esperanças também...

Um grande obrigada a todos os meus amigos virtuais que me acompanharam esse fim-de semana e que certamente estarão ao meu lado nessa jornada de cura que farei ao lado do meu marido.

Namastê

Ludmila Rohr


sábado, 21 de março de 2009

Ação na Inação


Estamos no fim de semana "Não". Judson fez quimioterapia e agora vive os efeitos colaterais dela. Os efeitos curadores não podemos ver, nem sentir, temos que imaginar que essa coisa tão desagradável o está curando. Temos que metalizar isso, para não cair nas queixas, nem se sentir vítima de nada. Prostração, inapetência, náuseas, fraqueza, mudanças de humor, muito sono....tudo isso acontece nesses dias, mas o que é incrível é que de alguma forma vamos encontrando maneiras de atravessar isso da melhor forma possível.

O fim de semana passado que chamei de "Sim", e que fomos pra Praia do Forte, namoramos, comemos, nos divertimos, nos amamos, faz oposição é esse fim de semana que é do "Não". Não podemos fazer nada, não saimos de casa, não rimos...ele descansa....come muito pouco, dorme...e eu faço companhia...fico ao lado, escutando e tentando atender as demandas.

Percebo o quanto essas denominações (Sim e Não) não revelam a verdade. Como todo rótulo, acaba por limitar e se distanciar da verdade. Me dou conta de que no fim de semana "Não", vivo intensamente questões internas, invisíveis, tenho ações de expressão minimalista do meu amor. Não mergulhamos no mar e nos beijamos, mas posso levar uma maçã já cortadinha em cubinhos pra ele no quarto. Posso ficar atenta ao que ele precisa e tentar atender. Compreendo que são dias muito ativos, silenciosamente ativos. Faço muitas coisas pequenas, silenciosas...e o meu mundo interno está em constante movimento.... reflito, medito, estou atenta a tudo, minha mente fica expandida e concentrada ao mesmo tempo... é a ação na inação!

Bom, esses dias passarão, como tudo. E nós, com todas as vivencias com as quais fomos contemplados, estaremos aqui para contar histórias e para nos olharmos sem arrependimentos, e com a paz no coração própria daqueles que sabem que fizeram tudo que podiam e da melhor forma possível.

Namastê!

Ludmila
P.S. Em Paris....

sexta-feira, 20 de março de 2009

Arrumando o guarda-roupa


Uma amiga me disse ontem que eu estou mudada.... que eu estou diferente. Imediatamente respondi, que pra mim parecia óbvio que eu estivesse em algum nível diferente, minha vida está diferente... e a vida tem me pedido muitas mudanças! Respondi que mudar é preciso, que se não mudamos, cristalizamos, enrijecemos....Mas em seguida parei pra refletir sobre o que ela estava falando, que mudanças ela estava sinalizando e se realmente eu estou mudada. Achei que minha resposta foi defensiva, rápida demais, ou teórica demais. Realmente espero mudanças constantes em mim, pois sempre procuro o crescimento... a necessidade de mudar é óbvia, mas não fiquei muito convencida de mim mesma. Quero sempre mudar, mas será que tenho conseguido?

O que será que está mudado em mim? Penso agora que não são muitas coisas, mas talvez sejam pequenas coisas que refletem em todas as outras. Minha crença de que a vida é agora, não mudou. Penso assim faz tempo...tem tempo que sinto no meu coração e corpo que não posso jogar fora nenhum segundo da vida, que não devo procrastinar decisões, nem pedidos de desculpas, nem demonstrações de amor; sei já faz tempo, que a vida pode ser simples, que existem coisas que nos fazem sofrer, mas que na verdade não tem importância alguma; sei também que os amigos valem a pena, que os sentimentos de verdade valem a pena, que meus sonhos valem a pena, que meus filhos valem a pena, que meu Amor vale a pena, sei que mergulhar para dentro de mim e descobrir coisas que as vezes nem gosto muito, vale a pena!... Tenho tentado estar atenta ao que vale a pena e ao que não vale a pena, e fazer boas escolhas sobre onde quero investir energia!

Acho que quando essa amiga falou que eu estava mudada, talvez ela estivesse falando do fato de que a cada dia que passa, tenho mais consciencia de que eu não quero mais nada na minha vida sobrando. Não quero acumular nada que não tenha um sentido, que não faça sentido, ou que eu saiba que não vai me levar a lugar algum... ela falou isso quando eu disse que precisava arrumar meu guarda-roupa, que precisava me livrar e doar muitas coisas que lá estão acumuladas e que não me servem mais. Servem pra alguém, mas não pra mim...não preciso guardar o que não me serve, não preciso ter energias paradas na minha vida.

Sempre gostei de arrumar guarda-roupa. Arrumar guarda-roupa é de um simbolismo imenso! Toda vez que arrumo o meu, me dou conta de que muitas coisas não estavam lá da última vêz! Como consegui comprar tantas coisas nesse tempo? Ou, quanto tempo tem que não arrumo meu guarda-roupa? Pra que guardar tantas coisas? Adoro fazer isso! Adoro sentir que poucas coisas que ali estão, realmente tem importância e que preciso de muito menos do que tenho! Arrumar guarda-roupa é uma faxina simbólica e concreta também! Sinto leveza ao me desfazer de tantas coisas acumuladas, ocupando espaço e paralisando energias... Sinto a leveza e felicidade imediatas que o desapego produz. Sinto no meu quarto e na minha alma.

Lembro imediatamente de uma cena na minha 1ª viagem à Índia, quando, em uma estação de trem em Jhansi, vi indianos esquálidos, carregando as nossas incontáveis e pesadíssimas malas... senti naquele momento muita vergonha de carregar tantas coisas. Pensei que eles, os carregadores, deviam estar perplexos com a quantidade de coisas que tínhamos. Pensei que provavelmente o conteudo de apenas uma daquelas malas, seria equivalente a tudo que eles juntos possuiam durante toda uma vida! E o que é pior...pensei que além de acumularmos tanto peso, ainda queremos que alguém carregue por nós! Senti tanta vergonha naquele dia que chorei.

Bom acho que não mudei muito, mas de qualquer forma.....vou arrumar meu guarda-roupa e me livrar de algumas coisas que não fazem mais sentido!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Carregadores das nossas malas na estação de trem em Jhansi na Índia.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Eu posso também!


Começou outra semana de quimio...nesse exato momento Judson está recebendo drogas na veia e ficará assim até sexta-feira. É impressionante como o tratamento que pode salvá-lo, causa imediatamente tanto desconforto e mal estar, e exatamente por isso temos que imediatamente iniciar um trabalho mental para receber o "desagradavel" com tranquilidade! Esse é um super trabalho! Penso que, se ele desenvolve resistencias ao tratamento, o mesmo será mais dificil ainda. Ao mesmo tempo, não desenvolver resistencia àquilo que nos causa desconforto é muito difícil...


Tenho uma fala que comumente repito para os meus alunos de yoga quando diante de uma postura um pouco mais complicada, eles reclamam dizendo: Poxa, mais é tão difícil! Eu digo: Viver é difícil! Não existe nada fácil! ....Nessa minha fala não existe nenhum tipo de pessimismo ou algo parecido, muito pelo contrário, essa minha forma de ver a vida sempre me colocou diante dos desafios de uma forma natural e com pouca resistencias e sem queixas e lamentações, porque acho muito natural a dificuldade da vida e de seus desafios...não acho que vai ser diferente nunca...temos momentos de descanso, mas pra quem caminha, não existe acomodação, e onde existe movimento, existe desafios...


Recebi de uma aluna querida, ela já fez isso antes, uma frase linda de Ariano Suassuna, ele diz: "...pois na dor também se vive, e pode-se viver com Alegria!". Obrigada Rita! Acredito nisso. Tenho vivido e experimentado isso. As alegrias estão presente, sinto-me uma pessoa feliz, grata, acolhida, acompanhada...


Tem outra coisam que sinto e percebo que por conta disso, faço parte de uma grupo seleto de pessoas. ADORO MEU TRABALHO! Adoro tudo que faço! Meu trabalho é um alimento precioso. Ele está diretamente relacionado com o meu prazer!! Acho muito especial ter um trabalho em que produzo minhas condições materiais de vida, mas que ao mesmo tempo me alimenta em outros níveis. Sair para trabalhar é um prazer, e vivo um momento profissional excelente, adoro trabalhar...simplesmente adoro! Adoro cada atendimento que faço, cada aula que dou. Sinto uma felicidade enorme e percebo como sou feliz por isso.


Quando comecei esse blog, algumas pessoas me perguntaram como seria me expor diante dos clientes. Como seria pra mim ou para os meus clientes saberem que eu sofro, ou que eu choro? Como seria para eles participarem desse momento tão doloroso e íntimo? Essa era a pergunta que me faziam. Eu pensava: Será que algum cliente ou aluno imaginou em algum momento que eu não sofresse ou não chorasse? Que tipo de pessoa eu seria se não chorasse ou não sofresse? Que tipo de terapeuta eu seria se não fosse uma pessoa que chora e sofre?


De fato isso nunca foi uma preocupação pra mim. Sou assim. Não consigo me imaginar presa a nenhum tipo de imagem, por conta do meu trabalho. Não sou alguém "Zen" por que sou professora de yoga, não sou alguém que não sofre...O yoga e a psicologia, mas sobretudo o Yoga, me deram a possibilidade de SER, livre de qualquer prisão...de ser quem eu sou...de viver minha dores e ser feliz ao mesmo tempo...porque aprendemos com o yoga a relaxar no esforço...isso o yoga me ensinou!


Aprendi também que os únicos demônios que existem são aqueles que moram dentro do meu coração, então não consigo vê-los fora de mim. Não consigo ver o câncer como um "demônio"...mas a forma como eu o vejo pode ser demoníaca...assustadora. Aprendi também que tudo que preciso, está dentro de mim...isso é libertador. Significa que nada me falta! e aprendi ainda que, se alguém conseguiu fazer uma coisa, isso significa que potencialmente todos poderiam conseguir fazer o mesmo. Se alguém escalou o Everest, eu poderia também. Se alguém enfrentou um determinadao desafio...eu posso também. Se alguém atravessou uma dor, eu posso também!


O que não nos falta na vida são os exemplos de pessoas que conseguiram, que venceram, que atravessaram sua dificuldades...e ainda temos exemplos daquelas que fizeram isso com alegria, com paz no coração, sem queixas... com amorosidade e com dignidade...Eu posso também!

Namastê!

Ludmila Rohr

domingo, 15 de março de 2009

Sol, mar, celebração do amor e do prazer


Super fim de semana "Sim"! Almoço com filhos e noras...jantar na Praia do Forte e ... resolvemos dormir lá! Bom, Praia do Forte pra quem não conhece, é um dos lugares mais deliciosos e lindos aqui na Bahia. Adoro tudo lá. Adoro andar na areia, mergulhar na praia que são verdadeiras piscinas de agua quente, adoro comer, dormir, acordar, namorar...adoro tudo em Praia do Forte. Adoro ainda mais quando posso celebrar algo lá! Eu e Judson somos ótimas companhias um para o outro. Gostamos muito de ficar juntos e, a Praia do Forte tem sido um cenário muito presente nas nossas vidas.

Nao é difícil pra mim achar motivos para celebrar. Sou daquelas pessoas que vê o copo meio cheio, e não meio vazio. Sempre acho que podemos celebrar alguma coisa. E nesse momento da nossa vida, não é difícil celebrar, e ainda mais, acho que é primordial fazer isso. A energia da celebração é a energia da gratidão, e sempre acho que temos muito a agradecer. Viver um fim de semana como esse, de sol, amor e prazer em meio a tudo que estamos vivendo, pra mim, é mais do que motivo para agradecer e celebrar!

Bom...foi tudo isso mesmo! A Deusa Lakshimi nos envolveu e nos permitiu abundancia de amor e prazer. Sem horários, sem compromissos, sem amanhã, sem ontem...só eu e Judson naquele paraiso. Estávamos nos alimentando merecidamente da energia da água salgada do mar e do sol. Energias que preencheram, sem cerimonia, os nossos corpos e nas nossas almas.

Esse momento de comunhão com a natureza nos favorece o contato com a nossa infinitude. Quando nos unimos a essa beleza infinita, somos infinitos. Quando nos identificamos com toda a perfeição da criação, somos perfeitos. Quando reconhecemos que tudo que precisamos, ali está, nos damos conta de que nada nos falta!

Assim nos sentimos hoje! Nada nos falta. Temos a coragem que precisamos. Temos o amor que precisamos. Temos a força que precisamos. Temos o sol, o mar, o amor um do outro, temos nossos filhos que amam também. Temos a Centelha Divina no nosso coração que nos lembra que pertencemos a um plano maior que sempre nos indicará o caminho do nosso crescimento. Temos a leveza de quem sabe que faz a sua parte da melhor forma possível... assim caminharemos para essa semana que começa, que será mais uma semana de quimio ou menos uma semana de quimio...ou "a" semana da quimio, com a certeza de que ainda iremos celebrar muito mais!

Namastê!

Ludmila Rohr

sábado, 14 de março de 2009

Fim de Semana SIM!


Esse é um final de semana "SIM". Explicarei. É o fim de semana sem os efeitos devastadores da quimio. A vida anda normal nesses dias. Temos a autonomia relativa que sempre temos e podemos fazer aquilo que desejamos. Podemos até desejar! Nos fins de semana "NÃO", não temos autonomia alguma, nenhum desejo pode ser desejado sob pena garantida de termos que lidar com frustrações, e temos que simplesmente esperar passar.

Estamos no SIM!!! e hoje meus dois filhos trarão as namoradas pra almoçar aqui em casa! Isso é inédito na minha vida. Explicarei: Lucas está pela primeira vez, vivendo um namoro e acho que ele está realmente gostando de namorar. A namorada de Caio, que está trabalhando em SP, passará esse fim de semana aqui em Salvador. Eu adoro que eles namorem. Fico feliz quando eles estão namorando....adoro conhecer minhas noras e ver que eles estão sendo queridos e estão apaixonados. Acho que homens apaixonados são mais felizes, mais abertos, mais lindos....

Não tive filhas...só eles dois, que são lindos! Sempre achei que um homem fica mais lindo quando ama. Judson nunca teve problemas em me amar explicitamente, queria que meus filhos também tivessem essa possibilidade, de simplesmente se entregarem ao amor, e as experiencias prazerosas do sexo e dos afetos. Desejei muito que eles não resistissem a essas experiencias e pudessem vivê-las sem reservas e com o corpo e o coração!

Esse é um Final de semana SIM, eu e Judson estamos cheios de amor...Caio e Lídia estão cheios de saudades, e Lucas e Lissa estão nessa fase linda de apaixonamento inicial! Vou comprar flores para minha casa, abrir as janelas, e deixar que essa energia amorosa e de alegria se espalhe generosa para todos que dela precisarem. Essa é uma energia curadora. É uma energia de grande poder e transformação! Sinto que estamos envolvidos por Lakshimi, a Deusa da Beleza e da Abundância. Então, que sejamos reverentes a ela!

Hare Lakshimi!

Namastê!

Ludmila Rohr



quinta-feira, 12 de março de 2009

O beijo que dei


Tudo que você tem não é seu
Tudo que você guardar
não lhe pertence
Nunca lhe pertencerá...

Conheci a letra dessa música e me encantei...ela se chama Pop Zen de Alexandre Leão. Ela é simples, palavras contadas...parece que nada sobra, me dá a sensação que está na medida exata. A delicadeza das palavras que não excedem nenhuma medida, não rebuscam, nem elaboram, dizem apenas o que deve ser dito, refletem o tema da música, que fala (pra mim) sobre como nos relacionamos com aquilo que pensamos possuir....com as pessoas, com as coisas, com os sentimentos, idéias, sonhos....

Tudo que você tem não é seu
Tudo que você guardar
Pertence ao tempo, que tudo transformará
Só é seu aquilo que você dá

Eu apenas tenho o que posso dar, aquilo que não posso dar, pertence ao tempo. Claro! As pessoas mais ricas que conheço, são aquelas que são generosas...que simplesmente dão, não economizam em dar aquilo que acham que tem de melhor. Elas opinam, elas sonham e compartilham seus sonhos, elas dividem suas experiencias, elas ensinam o que aprenderam, elas amam sem economia...elas dão a quem precisar seus afetos, suas histórias e sua energia...aliás, como se guarda energia? Não consigo entender as pessoas que dizem que precisam preservar sua energia! Como se guarda aquilo que não possuimos!

Tudo aquilo que voce não percebeu
Tudo que não quis olhar
É como o tempo
que voce deixou passar

Não há como voltar o tempo. Assim como não há como atravessar o mesmo rio duas vêzes. Não seremos os mesmos daqui a um segundo. Ninguém será o mesmo. As chances também não serão. Os sentimentos muito menos. Por que então perdemos ou desperdiçamos momentos tão sagrados? Por que economizamos tantas palavras e afetos? Po que nos escondemos tanto?

Tudo aquilo que voce escondeu
Tudo que voce não quis mostrar
Deixe que o tempo, com o tempo
Vai revelar

O tempo é o senhor. Nada passa despercebido dele. Em algum momento teremos que olhar para as nossas histórias mal vividas. Em algum momento teremos que nos deparar com as nossas mentiras. Teremos que olhar para um espelho e nos haver com o que veremos. E por que mentir pra nós mesmos?

Só é seu aquilo que voce dá
O beijo que você deu
É seu, é seu
É seu beijo!

O beijo que não foi dado não existe. O amor que não foi amado não existe. Os afetos que não foram vividos e expressados não existem. São idéias de um beijo, mas não o são. São idéias de um amor, mas não o são. São idéias de uma afeto, mas não o são...

A vida é esse momento. Não existe nada além disso, por que não viver a única coisa que de fato existe?

Namastê

Ludmila Rohr
P.S. Foto de um beijo que foi dado no Taj Mahal, Índia



quarta-feira, 11 de março de 2009

Sou forte....

Ontem senti cansaço...muito cansaço. Acho que quando Judson melhora, me dou ao luxo de me sentir cansada. Chorei muito. Chorei ouvindo música italiana no carro. Chorei ao pensar nos meus filhos. Chorei com saudade de ter alguém que cuidasse de mim...enfim, fiz um contato com minhas carências. Não é saudável negá-las. Tenho sido forte e corajosa, mas sou uma pessoa como outra qualquer. Tenho medos e carencias. É bem verdade que normalmente não mostro isso, por que acho que devo me organizar, que tenho instrumentos internos pra isso...aí eu respiro, medito, reflito...sinto meu corpo e de fato consigo me equilibrar, consigo me conectar com minhas forças, com minha coragem e com tudo que tenho dentro de mim que me sustenta nessas horas.

Algumas pessoas reclamam que sou forte demais, questionam isso. Me dizem que eu não mostro minhas fraquezas. Não acho isso. Sou forte mesmo e construi essa força ao longo dos anos e com muita prática de yoga, meditação e muita terapia. Me conheço bastante e também consigo me organizar internamente. Não me sinto desintegrada, ou desesperada. Não conheço isso, pois estou buscando manter a minha integração e lucidez todo tempo e sempre, independente da situação. Essa é a prática rotineira da minha vida nas mínimas coisas e nas máximas também. Isso é o que significa incluir a meditação e o yoga na vida, e não só em alguns momentos da vida. Realmente acredito nisso, acredito na minha prática pessoal. Acredito porque sinto que funciona, não porque está escrito em algum lugar.

Mas não tem sido fácil. Conto com amigas queridas com quem posso chorar. Conto com minha mãe e meu pai, com quem eu evito chorar para não preocupá-los, mas eles me conhecem muito e me ajudam mesmo sem eu pedir. Conto com minhas irmãs. Conto com tantas pessoas. Mas certa ou errada, eu sempre achei que tinha que contar comigo mesma, esse foi o meu aprendizado. Não suporto o lugar da vítima. Lembrei que em uma situação em um treinamento na minha formação como Analista Bioenergética, vivi um enfrentamento com uma pessoa que hoje é uma amiga muito querida, mas na época, ela reclamava da minha força, daquilo que ela chamava de excesso de energia, dizia que se sentia ameaçada pelo meu jeito de ser que ela julgava muito duro...enfim, ela chorava muito e eu não. Todos do grupo a acolheram e a mim, não. Lembro de ter dito pra ela e para o grupo, que preferia o lugar de algóz que ela estava me colocando, do que o lugar horroroso de vítima que ela estava se colocando, mesmo me sentindo só e dolorida com as acusações públicas, falei isso. Claro que fiquei mais sozinha ainda. Parece que as pessoas tem mais facilidade de acolher aqueles que se fragilizam e dificuldade em ver que os que não se fragilizam também sentem.

Bom...não sou mais tão dura assim. Hoje já choro e consigo mostrar minha alma feminina. Haja vista tantas manifestações amorosas que recebo o tempo todo de várias formas. Isso pode significar que eu estou mais exposta na minha vulnerabilidade humana. Mas ainda acho que tenho que dar conta da minha vida. Já entendi em terapia e nas minhas buscas que tenho orgulho da minha força, isso é bom ou ruim? Não sei. Provavelmente bom e ruim ao mesmo tempo. Devo mudar isso? Não sei também. Mas sei que essa é a minha forma de estar na vida.

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Yoga! aquilo que faz com que eu experimente no corpo as voltas que a vida dá.


terça-feira, 10 de março de 2009

Mulheres!!!!!


Sou uma mulher de 45 anos. Não tenho problemas com minha idade, pelo menos até então. Gosto da idade que tenho. Gosto do meu corpo maduro e da pessoa que sou. Até agora gosto de tudo que veio com a idade. Sei que poderia não ter vindo...por que as coisas não chegam simplesmente, mas nesses anos, vivi muito e acho que fui muito intensa na forma que vivi, por isso, gosto do resultado. Nesses anos, procurei ser honesta acima de tudo com o meu coração e aceitei muitos desafios que a vida me proporcionou. Normalmente não fujo deles, embora muitas vezes desejasse isso. Cresci muito, me transformei e agreguei em mim muitas experiências femininas.

Lacan famoso psicanalista francês afirmava - "a Mulher não existe" para explicar a ausencia de resposta para a grande pergunta feminina que é : "O que é ser mulher?". Parece que essa pergunta não tem mesmo resposta, ainda não sei porque. Passamos muito tempo nos perguntando isso - O que é ser mulher? e nos respodemos em forma de poema, verso, prosa e em músicas lindas! .. até utilizamos a mitologia para tentar explicar, mas acho que não conseguimos!

Acho que realmente não tem uma resposta para o que é ser mulher...acho que teremos que nos render a isso, mas de qualquer forma quando me vi, em um círculo de mulheres, ontem lá no Espaço Mahatma Gandhi em uma vivencia em homenagem ao Dia da Mulher, me senti muito querida, muito especial...e entendi com o meu coração aquilo que já sabia...adoro ser mulher!

Lá estavam mulheres tão diferentes, de todas as idades, em momentos diferentes de suas vidas...mas no fundo éramos todas iguais, nos sentiamos assim.... vivendo um momento sagrado, de encontro, de carinho, de acolhimento, de alegria, de tristeza, de grande e profundo vínculo, e o que nos vinculava de forma tão íntima naquele momento, era que sabiamos que somos Mulheres. Isso era o bastante!

Beijos a todas as mulheres!

Ludmila Rohr
P.S Na foto, eu e as mulheres mais importantes da minha vida! Minha mãe e minhas irmãs!


sábado, 7 de março de 2009

Eu e ele


Esses dias pós quimio são difíceis....Judson fica muito prostrado, sem energia....dorme muito, come muito pouco. O remédio pra aliviar o enjôo dá muito sono...enfim...parece que assim serão os próximos 6 mêses, alternando um fim de semana super bem disposto, com outro que vem depois da quimio em que ele fica muito abatido. Hoje ele ficou na cama deitado o dia inteiro. Parece que o corpo precisa se recuperar da bomba de drogas que recebeu. Não sobra energia pra nada, mas ele diz que se for pra paasar por isso, que está tudo bem. Ele não é queixoso nem demandante. Ele fica quieto, e isso às vêzes parte meu coração.

Descubro com isso que sou paciente e que tenho muito cuidado amoroso com ele. Não me sinto ansiosa. Não tenho desejos de sair, de ver pessoas ou de fazer coisas, muito pelo contrário. Estou bem ali do lado dele. Ele de vêz em quando me olha e diz que podiamos dar uma voltinha, mas sei que ele está dizendo isso por que fica preocupado comigo. Ele se preocupa que eu fique entediada ou cansada. Digo pra ele que não tenho essa necessidade, que estou bem, que estou tranquila ali, exatamente onde deveria estar, ao lado dele. Não tenho ansiedades porque me parece que não existe outro lugar pra mim. Nesse momento, é esse o meu lugar.

Quando casei aos 21 anos, achei (como a maioria das pessoas que casam apaixonadas) que havia encontrado a pessoa com quem queria viver o resto da minha vida. Recebia de Judson amor, respeito a minha individualidade, amizade, sexo de qualidade, cuidados atenciosos, proteção e muito mais. Desenvolvemos nesses 25 anos que nos conhecemos uma amizade muito preciosa. Gostamos da companhia um do outro. Somos muito diferentes um do outro, muito mesmo!! Eu falo pra caramba e ele, escuta. Às vêzes, acho que ele nem escuta, reclamo, ele jura que tava escutando...rimos, e eu continuo falando pra caramba e ele escutando...

Ele é a pessoa que escolhi pra viver junto. Foi uma escolha da paixão e depois do amor. Claro que tivemos nossos problemas ao longo desses anos, temos muitas diferenças, mas temos algo que é muito especial...gostamos da companhia um do outro. Nossos filhos cresceram, e são muito independentes, namoram e tem suas próprias vidas, o que achamos ótimo! Por isso, ficamos muito tempo sozinhos, um com o outro, viajamos sozinhos, almoçamos e jantamos sozinhos, e gostamos disso. Gosto de ficar com ele. Gosto de saber que é ele quem está vendo o meu corpo envelhecer e minhas rugas surgirem, e que quando a casa estiver vazia, seremos nós dois.

Sei que ele achava, e ainda acha que é muito pesado pra mim cuidar dele. Sei que ele acha que não é natural pra mim fazer isso. Ele tenta me poupar, porque sabe o quanto sou individualista, talvez egoísta. Entretanto, nunca gostei tanto de mim como agora. Descubro que sou muito melhor do que imaginava. A doença dele está servindo pra que eu conheça outros aspectos de mim mesma que nem eu sabia que existiam, nem ele! Infelizmente foi dessa forma que descobri isso. Preferia não descobrir. Preferia continuar mimada e mal acostumada por ele, que me mantinha no meu egoísmo infantil, a vê-lo sofrendo e abatido como tenho visto, mas, assim é a vida e tenho descoberto que somos muito mais ligados um ao outro do que podia imaginar!

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher e quero desejar muito amor, muita coragem, muita serenidade e força a todas as minhas amigas, irmãs, clientes, alunas, colegas; mulheres que fazem parte da minha vida e que moram no meu coração!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. foto clássica em Veneza


quinta-feira, 5 de março de 2009

Tocada no corpo e na alma...


Ganhei uma massagem de presente. Não foi a primeira vêz. Sempre ganho massagens de presente da minha amiga Lídia. Ela é uma massoterapeuta de primeira qualidade, também é psicóloga, e minha colega no Espaço Mahatma Gandhi e da vida. Ela sempre manisfesta o seu amor por mim (que é recíproco) de várias formas. Ela me faz rir como poucas pessoas conseguem, ela me ouve, ela compartilha comigo suas histórias....nós confiamos uma na outra. Sinto que ela me compreende e com certeza, ela se sente compreendida por mim. Ela é uma amiga do coração, e ela sabe disso!

Receber uma massagem é um presente delicioso para mim, pois adoro minhas experiências corporais, principalmente quando elas me colocam em contato direto com minha alma. Tenho experiências muito agradáveis com meu corpo. Ele não é um fardo para mim, muito pelo contrário. Normalmente não tenho dores e sinto o meu corpo como um espaço sagrado onde minha alma se expressa, onde meus sentimentos se revelam. Por isso adoro o yoga, sinto isso quando o pratico. Por isso acho que receber uma massagem feitas por mãos de quem me ama, e me quer bem é algo impagável! Não tem preço. É um presente muito especial.

Hoje minha amiga mais uma vêz entrou na minha alma através do meu corpo... e tocou minhas histórias, porque é isso que uma massoterapeuta faz...toca nas histórias através do corpo. As minhas lágrimas simplesmente saiam... brotavam....rolavam sem a menor cerimônia, e como eu estava em ótimas mãos...não fazia nenhum esforço para controlá-las...elas lavavam minha alma e eu permitia....sou feliz por isso!

Quem já recebeu uma massagem assim (no corpo e na alma) sabe do que estou falando. Saimos leves, como se tivéssemos mergulhado numa cachoeira...ou no mar num dia de sol. Alimentados e tranquilos. E foi assim, nesse estado de contentamento, que vivi outra experiencia de muito amor. Me deparei com Valéria, uma aluna de yoga que não via desde o ano passado e que voltou pro yoga, agora está grávida e linda! Ela é realmente linda...e ao me ver....me abraçou, chorou, disse que lia meu blog....e linda, grávida e emocionada, me tocou outra vêz muito profundamente...me deu carinho e me emocionou com sua emoção....A gravidez é muito sagrada para mim, já falei sobre o quanto me senti feliz , linda e poderosa as duas vêzes que vivi essa experiência....Essa mulher linda, que me abraçou com sua linda barriga, me tocou com sua energia transbordante e de muito poder...A linguagem do coração é muito poderosa.

Obrigada Lídia e Valéria, sei que voces vão ler esse blog...portanto preciso dizer que hoje voces fizeram desse dia, um dia especial de demonstrações de amor e carinho. Voces são a prova do quanto a vida se renova, e do quanto que a vida é generosa comigo. Sou feliz e grata!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Na foto estou com Lídia!



quarta-feira, 4 de março de 2009

Um passo...isso é o caminho!


Mais uma ou menos uma?
Fiz essa pergunta pra Judson hoje quando nos dirigiamos para a clínica para a sessão de quimioterapia.

O dia amanheceu lindo, claro, ensolarado, e como moramos em frente a praia no bairro de Piatã, e vamos até Ondina, atravessamos uma boa parte da orla da cidade de Salvador. Praias lindas! Dia tranquilo. Fomos mais ou menos em silêncio durante o trajeto....eu fico pensando.... Aliás, eu e Judson temos formas interessantes do nos organizarmos internamente. Somos tranquilos pra fazer o que deve ser feito. Temos baixíssima resistência a esse processo. Simplesmente fazemos tudo que deve ser feito e sem muitas queixas.

Ontem à noite fiquei olhando pra ele tão bem disposto e pensando que ele iria a partir de hoje passar mal outra vêz, que iria começar os vômitos, inapetência e náuseas. Lembrei da outra vêz e pensei que estávamos apenas no começo, que seriam 12 sessões, que essa será apenas a segunda! Lembrei de um dito popular: A ignorância é corajosa! Entendo porque muitas pessoas preferem a ignorancia, ela tem um certo conforto. Mas, devo discordar dessa fala, porque quando não sabemos do que vamos enfrentar, simplesmente atravessamos, não precisamos de coragem...a ignorancia é cega, mas não é corajosa! Quando sabemos o que nos aguarda, aí sim precisamos de coragem. Precisamos de tranquilidade e de uma mente atenta ao momento presente!

Então imediatamente organizo minha mente....essa sessão não é "ainda" e "tão somente" a segunda, como pensariam os pessimistas vislumbrando uma longa e dura jornada pela frente...., muito menos, essa sessão "já" é a segunda, que seria um pensamento dos "otimistas" que tentam criar uma fantasia de leveza, tentando negar as dores. Esta é A SESSÃO, essa é a única que importa, é a única que existe, não é nem mais uma, nem menos uma, é a sessão. Precisamos apenas dar um passo de cada vêz! Construir um caminho que, segundo Buda, não existe. Um caminho que só existe a medida que cada único passo é dado! Então nesse momento apenas um passo! Um de cada vêz! Por enquanto, só esse.

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Foto de um amor sob sol da Toscana (Itália)


segunda-feira, 2 de março de 2009

Amar sem economia!


Meu filho está triste. Ele vive nesse momento uma perda que certamente o faz experimentar sentimentos contraditórios. Sua namorada, seu amor, foi morar em SP, foi realizar um grande sonho profissional. Ela batalhou muito pra conseguir isso, e com certeza está muito feliz e muito triste nesse momento. Ele também. Essa parece ser uma história comum de amor entre dois jovens, mas não é.

A relação de Caio com o amor não é comum. Ele, diferente da maioria dos rapazes da idade dele, nunca teve medo de amar. Ele sempre amou muito sem nenhuma economia. Ele amou quando era criança. Teve uma "namorada" quando estava com uns 5 anos, e amou sem reservas e do jeito que é possível para uma criança. Ele amou quando era um púbere, amou muito na adolescência e ama muito agora, no final dela. Ele teve poucas namoradas, não era de "ficar" e estava feliz quando estava amando.

Esse amor que ele vive agora, é um amor adulto...a relação é adulta, o envolvimento é adulto e por isso mesmo tem que lidar com as questões da vida adulta. Trabalho, futuro...etc...tudo nessa fase da vida tem consequencias e é preciso pensar na vida, não apenas vivê-la. Então, minha norinha foi embora....imagino que aos prantos...e eu terei que ver meu filho triste e saudoso...

Sempre achei lindo o fato de Caio ser feliz amando. Nunca coloquei nenhuma dificuldade nas relações dele. Sempre gostei muito do fato dele abrir o coração sem medo e se entregar ao amor, mesmo que isso o levasse a algum sofrimento. Pensava que é lindo amar e que uma vida sem amor, é uma vida sem sabor, sem saudades...sem lembranças...sem graça.

Já ouvi muitas histórias de dor e sofrimento que levaram seus protagonistas a concluirem que não querem mais amar, que o amor causa dor, e por medo da dor, da possibilidade da perda ou de estar "nas mãos" do outro, as pessoas fecham o coração. Nessas histórias, o amor parece ser o culpado...as pessoas querem acreditar que é o amor que as levaram ao sofrimento, e não seus apegos, inseguranças e desejo de dominação...etc.

Bom...acho lindo amar, acho que amar é a maior necessidade do nosso coração. Acho que as pessoas confundem a necessidade básica do coração de amar, com a necessidade de ser amado. Amar alimenta, amar enriquece, amar traz beleza....não vejo sombra em alguém que ama. O verdadeiro amor, traz liberdade e leveza. Quando se ama, se quer o melhor para o amado. Amar faz bem ao corpo, a mente e ao espírito.

Fico triste por ver meu filho sofrendo, mas certamente ficaria muito mais triste se ele fosse indiferente ou que se defendesse do amor.

Namastê

Ludmila Rohr


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Alguém bem melhor....


Hoje de tarde fui beber uma água de coco no Jardim de Alah com Juliana, uma amiga querida. Eu já falei dela aqui em outros momentos. Tenho um carinho especial por ela. Ela é jovem e linda. Apesar de estarmos em momentos bem diferentes da vida, nos encontramos nesse universo feminino sem fronteiras, e nos identificamos em muitas coisas. Sinto que muitas dores e angustias que ela vive, eu de alguma forma já vivi. Tento lhe dizer da minha experiencia...tento lhe passar mais confiança, mais segurança, mais coragem.... enfim, dizer da vida que tenho vivido...

Sempre fui muito corajosa e batalhadora. Acho que até muitas vezes, enfrentei guerras que nem existiam de fato, confrontei pessoas sem a menor necessidade, vi desafios em momentos em que poderia estar descansando, falei coisas que me levaram a situações dificeis e quando poderia ter ficado calada... acho que muitas vêzes compliquei minha vida sem a menor necessidade. Lembro de muitas situações em que fui "bucha de canhão", ou até mesmo "bode expiatório" por ter escolhido ficar nesse lugar, ou por não ter feito nada para evitá-lo, muito pelo contrário.

Meu marido sempre me dizia que eu precisava ser mais política, mais conciliatória, mas eu achava que tinha que expôr as sombras, revelar as feridas, as falhas e as mentiras, não só minhas como de todos. Reconheço que em muitas situações na minha vida, agi como uma kamikase, algo meio orgulhoso e infantil. Tratava de forma dura e severa as fraquezas. minhas e dos outros. Não tinha paciência com as inseguranças e com os medos, nem meus, muito menos dos outros.

A vida vai nos ensinando. Hoje me trato com muito mais carinho, e aos outros também. Tenho paciência com meus medos e com os dos outros também. Ainda tenho alguma dificuldade em receber todo tipo de ajuda, por que ainda é dificil reconhecer minha fragilidade, ou também por não gostar de todo tipo de oferta de ajuda, mas isso hoje já é possível. Sei que não gosto do tipo de ajuda, piegas e melosa, muitas vezes, prefiro a companhia silenciosa e o apoio expresso de forma simples e direta. Sou assim. É difícil pra mim ser piegas, mas sou boa em ajudar fortalecendo, escutando e mostrando-me disponível.

Devo essa transformação ao meu marido, meus filhos, meus clientes, alunos e aos amigos, como Juliana; que compartilham suas vidas comigo e deixam à mostra seus corações e almas, e dessa forma vão me oferecendo histórias e vivencias preciosas que me transformaram e continuam a me transformar cada dia em alguém muito melhor!

Acredito na vida! Acredito em uma sabedoria divina que tudo rege...acredito principalmente, no poder do amor e da amizade.

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Foto sobre a Laxma Jhula (ponte sobre o Rio Ganges) , em Rishikesh, uma das cidades que mais amo na Índia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Tememos a morte ou a vida?

Fui apresentada à Irmandade da Boa Morte, através de um documentário realizado por uma amiga que é jornalista (Cláudia Bonatte). Essa irmandade, famosa na Bahia, sempre me chamara atenção por causa do seu nome. Achava curioso uma irmandade chamar-se de Boa Morte! Acho que esse documentário, infelizmente nunca foi exibido pela TV, mas graças a essa minha amiga, eu pude conhecer um pouco da história desse grupo de mulheres negras que vivem na cidade de Cachoeira na Bahia e soube que elas praticam uma religiosidade, assim como muitas comunidades que tiveram origem nos escravos ou seus descendentes, que mistura o candomblé com o catolicismo.

Lembro perfeitamente de assistir no documentário, uma das "irmãs", que era bem velhinha, mas perfeitamente lúcida e com uma alegria contagiante, explicar um pouco do significado desse nome tão forte. Minha amiga perguntava na entrevista o porquê desse nome e ela explicava de forma absolutamente simples, que elas não cultuavam a morte como alguns pensavam, muito menos que elas passavam a vida pensando na morte, mas afirmava ela, que todas as "irmãs" queriam e tinham uma boa morte, uma morte tranquila e, quando minha amiga perguntava qual era o segredo disso, ela dizia rindo parecendo surpresa com a pergunta: ter uma boa vida!

A sabedoria daquela mulher aparecia nos vincos do seu rosto idoso, na simplicidade e generosidade das suas palavras. Nunca a esquecerei! Bom...me dei conta naquele momento que a morte não tinha menor importancia para elas... entretanto, a vida, essa sim, era cultuada e vista como sagrada, única. Segundo essas irmãs, se vivêssemos bem e tranquilamente, certamente teriamos muita chance de, na hora da nossa morte, estarmos tranquilos e entregues.

Para os hinduístas o momento da morte tem muita importancia, eles acreditam que se na hora da morte, a pessoa chamar o nome de Deus..., estaria revelando o seu desapego das coisas materiais, elevando a mente a um nível espiritual e poderia assim, romper uma cadeia de prisão kármica, desencarnando livremente e em paz. Os indianos contam que na hora da morte, o Mahatma Gandhi chamou Rama(o nome de Deus).

Amo muito a vida! Amo muito a minha vida...amo as coisas que faço, as coisas que aprendo, as pessoas que conheço e não consigo me ver diferente disso. Acredito na vida em todos os seus momentos, acredito no poder soberano da vida que nos ensina a renascer sempre e a prreservá-la, mas reconheço que a morte no ocidente é um assunto evitado. Sempre que pensamos em morte, pensamos em dor, sofrimento e perdas. Penso que nossa cultura é pouco reverente à vida, por isso teme tanto a morte. Acho tambem que só morrendo várias mortes em vida, não temeriamos a última morte...

As perguntas que ficam nessa reflexão são: que mortes são essas que teríamos que experimentar em vida? O que teria que morrer em nós para que pudéssemos viver plenamente e sem temer a morte?

E finalmente, já que a morte faz parte da vida..., tememos a morte ou tememos a vida?

Namastê!

Ludmila Rohr

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Cosmos...Caos....


A idéia de procurar um padrão nas coisas é comum para um engenheiro (meu marido) e para uma capricorniana (eu). Tentamos de alguma forma entender como as coisas acontecem...se elas possuem algum padrão, como elas se repetem....Essa é uma tentativa bem humana de encontrar alguma segurança....se sabemos como acontecem, podemos estar mais preparados...essa é uma (não a única) forma de lógica!

Bom...o efeito desagradável da quimio passou. Judson acordou disposto, com fome e com a cara ótima, sem náuseas....realmente muito bem. Saimos para caminhar na praia, que fica em frente da nossa casa, bebemos água de côco....almoçamos um peixe delicioso em um restaurante que adoramos....e começamos a tentar entender o que se passou e imaginar um padrão.

Imaginamos que a cada quimio...sofreremos uns três dias de náuseas e mal estar e depois... a vida volta!.... sendo assim, já iniciaríamos a contagem regressiva de sessões de quimio.... nos prepararíamos física e emocionalmente para isso. Mas,...parece que as coisas não acontecem exatamente assim. Conversando com algumas pessoas que já passaram por isso, elas dizem que a reação às sessões de quimio podem ser diferentes, muitos fatores influenciam essas reações, e pra mim isso parece óbvio, tudo nessa doença e nesse tratamento é multifatorial...nada é simples...não existe padrão....aliás, câncer é exatamente isso! Células que crescem fora do padrão!!

Bom...não sei, só sei que teremos uns dias de "normalidade" até a próxima quarta. Exatamente uma semana, em que tudo indica que os enjôos não existirão, e até lá, poderemos refletir sobre essa crença de que há alguma "segurança na ordem". A segurança talvêz esteja em saber da nossa capacidade de reestabelecer algum tipo de ordem mesmo no caos, em saber e sentir que a ordem sempre se reestabelece...., mas que ela de fato nunca se perde em algum lugar em nós. Tenho essa fé. Tenho essa sensação de que por mais difícil que seja o momento, posso acessar um lugar tranquilo dentro de mim, e basta que eu busque, que o encontrarei.

No ano passado, na época do 1º câncer, fiz uma tatuagem de um "dorje". Tenho a mania de marcar momentos da minha vida com tatuagens, e achei que esse símbolo do Budismo Tibetano que fala sobre o estado da mente dos Budas, seria uma lembrança de que isso é possível, de que por mais caótico que as coisas aparentem e se mostrem, sempre vai existir um cosmo... algo que pode estar tranquilo como um lago sereno...

A Mente inquebrantável e inabalável dos Budas é algo que ainda está muito, mas muito distante de ser alcançado por mim, mas a certeza de que isso é possível, isso eu já alcancei. Sei que não precisamos nos identificar com o caos e com a desordem e que de fato...tudo é uma grande ordem, e se não é assim que enxergamos naquele momento é porque não estamos distanciados e tranquilos o bastante para perceber.

Namastê

Ludmila Rohr
P.S. Foto da minha tatuagem da imagem de um dorje.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A fé na fênix....


Após dois dias de muito mal estar, com vômitos, náuseas e sem conseguir comer nada, Judson parece que começa a melhorar...amanheceu tomando café e depois fomos caminhar....isso me deixou muito feliz. Vê-lo saindo da prostração e voltando a vida é uma verdadeira delícia. Quando ele sentir fome, celebrarei!

Tentei nesses dias, envolver mais os meus filhos nesse processo. Tenho uma visão sistêmica da vida que o Tântrismo me oferece (a psicologia muito depois me ofereceu também). Nada acontece somente em algum lugar específico, ou com um alguém. Somos sempre um sistema, tudo está integrado e interligado. Uma doença apesar de aparecer em uma parte específica do corpo, deve ser cuidada olhando para o corpo todo. Uma doença em uma família (círculo mais próximo) é um sintoma daquela família e deve ser cuidada por todos, assim como pelos amigos e comunidade (ampliando os círculos). Por isso, tento envolver muitas pessoas nessa história. É de todos nós e todos podem ajudar e serem ajudados por isso.

Meus filhos são dois rapazes lindos, já falei deles em outros momentos nesse blog, mas acho que a tendencia deles nessa idade, é de se eximir de alguma responsabilidade, é de achar que tudo está sendo feito e que eles não teriam muita coisa a fazer. Isso é um engano. Preciso muito deles. Precisamos muito deles. Não pra fazer coisas, mas precisamos da presença e da energia deles. Precisamos do amor e da continência. Eles são muito amados e tenho certeza do amor deles, mas é bom sentir isso.

Tivemos durante toda a vida, muita preocupação em deixá-los conscientes do nosso amor, com manifestações e expressões desse sentimento. Nessa fase da nossa família, não posso protegê-los da realidade, e nem quero, e preciso sentir o amor deles. Eles precisam sair da posição de quem recebe, para o lugar de quem dá. Esse é o momento de dar, e isso produz muito crescimento., muito amadurecimento. Alguém que não sabe dar, ou que não consegue.....é com certeza alguém muito infeliz e pobre, e alguém que insiste em se manter no lugar egoísta da criança que precisa ser atendida por todos. Então digo pra eles: Temos que estar juntos nessa, e com manifestações explícitas dessa união! Choro muito.....simplesmente choro, choro quando falo com eles, choro quando penso no que estamos e ainda teremos que passar, mas penso que teremos que fazer isso juntos. Choro porque estou colocando-os diante dessa dor que preferia que eles não sentissem, mas que é preciso que eles sintam.

Nesses dias em casa tenho meditado muito...não faço outra coisa. Tenho meditado sobre como a minha fé se comporta, como é a minha fé.....tenho ficado na minha caverna quase que o tempo todo. Esse é lum lugar de tranquilidade que me conecta com o meu Deus interno. Faço uma descoberta nesses mergulhos introspectivos, descubro que nunca invoco "Deus", que nunca peço nada....não sei pedir nada a Deus. Nunca fui acostumada a pedir a Deus alguma coisa. Fico meio sem graça. Me dou conta de que as pessoas fazem isso, e que deve ser muito reconfortante, que deve ser muito bom....sei lá, não sei pedir. Estranho pensar isso, mas não sei pedir. Peço pra todas as pessoas que me ligam ou escrevem, que peçam por nós...que orem ou vibrem por nós....que peçam pela saúde de Judson, mas eu não sei pedir...que coisa doida me dar conta disso!

Minha fé diz que tudo está certo, que no fim tudo dá certo, que não sabemos de nada e que devemos fazer a nossa parte...o resto virá como acréscimo...., mas acho que queria sentir como algumas pessoas descrevem, que sentem uma certeza de que Deus as atenderá! Bom, por enquanto vou fazendo aquilo que entendo ser a minha parte. Tento manter a minha mente tranquila, o coração aberto, compassivo e amoroso, e o corpo leve. Cuido de Judson com aquilo que tenho de melhor, tento manter a minha família unida nessa jornada e choro, choro muito quando fica pesado, sem perder a certeza de que como Fênix podemos renascer sempre. Essa, com certeza é a minha maior fé!

Namastê

Ludmila Rohr

P.S. foto tirada em Varanasi, no Aarti, ritual Brahmane que acontece às márgens do Ganges todas as noites. Chorei muito na 1ª vêz que lá estive....é uma manifestação espiritual muito forte!


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Uma jornada dura, mas com boas companhias...


Ontem foi sexta-feira de carnaval, e foi um dia bem estranho. Acordamos cedo para tentar chegar na clínica em que a bolsa da quimioterapia seria retirada. A clínica oncológica fica em Ondina e pra quem não conhece Salvador, isso significa que ela está no circuito do carnaval., que aqui em Salvador já começou na quinta-feira. Estávamos com medo de encontrar algum problema de acesso. A clínica havia nos dado um atestado que nos ajudaria a alcançá-la se isso acontecesse. Chegamos às 7h da manhã e por incrível que possa parecer, ainda encontramos pessoas que bebiam e voltavam pra casa naquela hora. As ruas ainda estavam sujas e muitos trios estacionados bem na frente da clínica. Deixamos o carro o mais próximo que conseguimos e fomos o resto a pé. Na clínica, outros pacientes chegavam pra fazer suas aplicações....muito estranho....quimioterapia.... câncer....carnaval.....bom, assim é a vida, né?

Saimos de lá aliviados, porque concluimos a 1ª aplicação da quimio.....voces não podem imaginar a sensação que nos acomete, uma sensação que dispara uma contagem regressiva....menos uma! Sabemos que haviamos colocado o pé na estrada da cura e conseguimos cumprir a 1ª etapa!! Muito boa a sensação. Daí começam as náuseas, vômitos, inapetência e tudo que acompanha colateralmente esse tratamento, mas com uma certeza de que podemos superar tudo que vier.

Descubro que não sei o que fazer com esses efeitos. Me dou conta de que quero conversar com pessoas que já passaram por isso, quero saber o que elas sentiram, o que elas fizeram, como conseguiram superar, o que fizeram com os filhos, com as questões emocionais, com os medos...o que fizeram com suas vidas durante o tratamento. Quero muito conversar com outras pessoas. Mas é carnaval! Onde encontrar pessoas que queiram falar sobre câncer? Não tenho coragem de incomodar ninguém. Lembro da internet! Tudo é possível ser encontrado na internet. Procuro sites de grupos de apoio a pacientes com câncer. Encontro alguns. Começo a me cadastrar e escrever para eles. Um deles me chama mais atenção, é um grupo que se chama Grupo Ezequiel. É um grupo de pessoas voluntárias que pensam o câncer com uma visão integralista, corpo/mente/espírito..., gosto deles, gosto porque são voluntários, fui voluntária por mais de 20 anos, sei o que motiva os voluntários, gosto disso. Escrevo, conto nossa história e envio o email.

Esperava receber alguma resposta depois do carnaval, mas me surpreendo quando 1h depois abro minha caixa de emails e lá está! Uma pessoa responsável pelo grupo, Dr. Décio Elias me respondeu. Não era uma resposta padrão, me falava em cima do que eu havia escrito. Falava dos meus filhos, da família, indicava livros e falava daquilo que é importante termos em mente durante um tratamento desses. Mas falava algo muito muito lindo...ele disse: Seu marido precisa querer a cura, mais do que o ar que respira! Não há espaço para dúvidas, esse é o momento da fé! A fé em si mesmo e a fé em Deus!

Fiquei emocionada....em pleno carnaval, consegui falar com alguém que nem conheço e que me deu tanto. Que incrível o poder da internet! Ontem descobri que quero e preciso falar com pessoas que tiveram ou estão tendo essa experiência...se alguém souber de outro alguém, por favor, pode me indicar, quero pertencer a esse rede daqueles que querem a cura e lutam por ela. O câncer é uma doença da família, é minha também e dos meus filhos e precisamos saber de tudo que venha a nos ajudar nessa jornada!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. foto tirada na Índia, em algum templo hinduísta ou budista que visitei...velas de oferendas devocionais.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O tempo que não vemos!


Existe tempo pra tudo. Tempo pra pensar, tempo pra fazer, tempo pra parar.....tempo pra nada fazer. Quando "me dou" um tempo, posso perceber claramente qual é esse momento. Se reconheço isso, se entendo e aceito o que o momento pede, me entrego....respeito a sabedoria que existe na vida e, me entrego. Assim não existe sofrimento, e me parece que não existe luta.

Esse momento que vivo, é definitivamente um momento para muitas ações invisíveis e poucas, muito poucas ações visíveis. Preciso manter a minha mente lúcida, calma e tranquila, e isso é um grande trabalho, mas preciso me render, me entregar, me entregar à sabedoria do tempo.

Na manhã de hoje a quimioterapia do meu marido começou. Ele ficará até sexta de carnaval com um recipiente com drogas sendo bombeadas para sua corrente sanguínea. O recipiente é muito menor do que eu imaginava, e o bombeamento é muito mais lento do que eu esperava. Imagino que deva entrar uma gota de remédio a cada 10 mintos ou mais, porque nem percebemos ao olharmos. Confesso que fiquei ansiosa ao perceber isso. Na minha fantasia seria como um soro que rapidamente é gotejado e conseguimos ver o recipiente esvaziando.

Isso me fêz lembrar de uma escola de monges que conheci em Kathmandu, no Nepal. Os monjes nessa escola aprendem a fazer pinturas de mandalas, tankas....algo de uma beleza que impressiona pelos detalhes. Comprei uma tanka linda quando lá estive pela primeira vêz. Essa tanka fica na parede atrás do tablado que uso para dar aula de yoga. Acho que a maioria dos alunos nunca parou pra olhar os detalhes que existem nessa pintura. Eu olho todos os dias, e por incrível que pareça não consigo percebê-la integralmente nos seus infinitos detalhes.

Uma vêz, lá no Nepal, fiquei parada olhando um monge pintar uma dessas tankas. Ele usava um pincel muito fino! Cada vêz que ele passava o pincel na tinta, ele o limpava antes de levá-lo à pintura. A quantidade de tinta que ía pra pintura era ínfima....Fiquei por uns 15 minutos olhando-o pintar e pra mim, no meu olhar grosseiro nada estava acontecendo! Nada estava sendo pintado...eu não conseguia ver resultados. Na minha mente ansiosa, resultados só existem por que são vistos...assim eu pensava!

Bom, os resultados eram vistos.... só que depois de muito tempo....cada pincelada que, sozinhas, me pareciam insignificantes, resultavam em pinturas impressionantes! Porém o que mais me impressionou, foi a paciencia daqueles monges....eles simplesmente ficavam ali...pincelando.....tranquilamente, sem nada ansiar, sabendo que só se fizessem desse jeito conseguiriam aquele resultado! Eles sabem e exercitam a verdade que esse tempo, esse exato segundo, é o único que existe e que somente a cada pincelada, com um pincel de apenas alguns poucos fios, eles conseguiriam produzir aquela preciosidade.

Bom.....existe tempo pra esperar, e esse pode parecer o pior de todos se, não entendermos que na verdade, não estamos esperando por nada, tudo já está acontecendo, por que esse é o único momento que existe!

Namastê!

Ludmila Rohr
P.S. Foto tirada na referida escola no Nepal.