segunda-feira, 14 de março de 2011

Mãe é mãe!

 Chorei essa semana. Não que isso seja uma notícia, mesmo porque sou a pessoa mais chorona da vida. Choro muito facilmente de alegria e de tristeza...simplesmente choro e acho muito estranho quando alguém diz pra eu não chorar. Penso na quantidade de cliente que já tive, que passava meses em terapia (pagando) pra aprender a chorar, pra conseguir expressar uma emoção. Já conheci muita gente que adoeceu e continua adoecendo por não conseguir chorar.

Esses dias chorei algumas vezes de saudade do meu filho que mora no Brasil. Chorei de saudade da minha vida lá. Essa semana tive alguns dias de banzo. Acho que o fato de meu marido ter feito os exames de revisão semestral do câncer mexeram comigo também (chorei de alívio por isso).

Nessas horas nada como a casa da gente. E por mais que eu adore estar vivendo essa experiência aqui nos EUA, aqui não é a minha casa, nem nunca será. Simplesmente porque nossa casa é o lugar onde temos história. Onde temos lembranças. Minha casa é o Farol da Barra onde cresci, minha casa é o lugar onde vi meus filhos crescerem. Penso que nossa casa será sempre o lugar onde vimos o maior número de pores-do-sol em toda a vida!  

Nenhuma reclamação de estar aqui. Gosto daqui. Mas é impossível negar a saudade que as vezes bate. Talvez exatamente porque eu não a negue, que eu consiga viver muito bem aqui. Consigo fazer planos,  fazer amigos, produzir e viver bem.

Mas....essa semana que passou chorei por uma emoção bem linda também. Minha mãe me emocionou muito. Já falei algumas vezes sobre minha mãe aqui, mas bem menos do que ela merece. Então aí vai.

Minha mãe é uma filha de 11 irmãos de uma família muito pobre em Manaus. Ela casou-se com o primo (isso mesmo, meu pai é primo da minha mãe). Saiu de Manaus sozinha pra encontrar com o já então marido no Rio de Janeiro, eles casaram por procuração, numa época que voar de Manaus até o Rio era como dar a volta ao mundo. Ela teve o primeiro filho no Rio e as 3 filhas em Salvador. 

Minha mãe não teve uma vida fácil. Só lembro dela trabalhando. Por muitos anos ela teve 3 empregos. Era professora. Ela era muito amada por seus alunos, muito querida. Não lembro de alunos que não tenham gostado dela como professora. Ela ensinava no mesmo colégio que eu estudava. Minhas irmãs foram alunas dela (acho que foram as 2 únicas alunas a não gostarem). Todos diziam que ela era uma excelente professora. Acho que até sentia algum ciúme dos seus alunos.

Como ela ensinou muitos anos para pobres e para ricos (escola pública e particular), era comum ser parada na rua por camelôs que haviam sido seus alunos, policiais, garçons e também médicos, advogados ...e amigos meus e dos meus irmãos. Todos falavam sempre com muito carinho dela. Até aqui em Houston, quando ela esteve me visitando, ela foi reconhecida por uma ex-aluna.

Minha mãe era muito linda, chamava atenção pela postura altiva. Ela inclusive parece mais alta do que de fato é por conta disso. Era charmosa e ainda é. Adorava contar piadas e ser o centro, como todo bom leonino. Lembro dela com roupas amarelas. Poucas pessoas ficam bem vestindo amarelo (eu acho). Ela ficava linda de amarelo.

Quando éramos pequenos, ela virava noites costurando nossas roupas pra São João...pois os babados dos nossos vestidos eram os mais bonitos. Ela fazia saias curtinhas e de fato, ficávamos as mais lindas. Os laços da nossas maria-chiquinha eram os mais bonitos. No carnaval era a mesma coisa...lembro das nossas fantasias..ela sempre caprichou muito. Assim como nossos uniformes da escola. Eu fui uma menina muito vaidosa e ela alimentava isso. Lembro de sair com ela e voltar cheia de anéis coloridos, que eu usava em todos os meus dedos.

Minha mãe nunca foi uma mãe de demonstrar afetos com carinhos, nem com palavras. Ela tem dificuldade com isso. Somos bem diferentes em algumas coisas. Eu choro muito e em qualquer lugar.  Ela chora pouco e escondido. Por quase minha vida toda, achei que ela não soubesse chorar. Lembro quando meu irmão sofreu um acidente grave, e quase morreu. Meu pai chorava, e ela não. Achava estranho, mas pensava que ela devia chorar escondido. Acho que ela aprendeu a lição dos sobreviventes. Ela teve que ser forte. Ela teve que endurecer na sua vida em um tempo que endurecer significava não mostrar sentimentos.

Sempre tive muita certeza de que qualquer coisa que eu precisasse que poderia contar com meus pais. Isso pra mim era uma convicção. Eles sempre fizeram tudo por nós. Não consigo me lembrar de ter precisado de minha mãe e ela ter colocado alguma dificuldade pra me ajudar. Se eu precisasse que ele fosse muito longe buscar algo pra mim, ela faria, e  faz até hoje, pra todos os filhos e netos. Ela simplesmente faz o que a gente precisar que ela faça.

Essa semana ela me mandou uma caixa do Brasil pelo correio. Mandou café (quem me conhece sabe o quanto adoro café) e outras coisinhas. Essa caixa ganhou muitos significados e mobilizou muitas emoções. Chorava como uma criança abrindo-a. Choro de novo enquanto escrevo. Senti uma gratidão tão grande. Nem consigo dizer exatamente o que senti, mas chorei muito...como uma criança. 

Minha mãe lê o meu blog. Ela é uma leitora fiel. Ela lerá esse post, e acho que vai se esforçar pra não chorar. Espero realmente que ela não consiga, porque sei o quanto chorar faz bem. Então vou aproveitar e dar um empurrãozinho dizendo: Mãe, obrigada. Obrigada por me deixar tranquila em saber que Caio está aí com voce. Voce e meu pai são as únicas pessoas que eu deixaria os meus filhos com tranquilidade. Obrigada por cada vestido de São João que voce costurou pra mim. Minhas roupas de samba-de-roda e de baiana das apresentações de folclore eram sempre as mais bonitas, obrigada por isso.

Obrigada pela caixa que veio carregada de amor e com uma imensa vontade de agradar. Tenha certeza de que voce conseguiu.

Te amo muito.

Afinal, mãe é mãe.

Ludmila Rohr



18 comentários:

  1. Lindo post... lindo e comovedor!
    Mãe é mãe mesmo!
    Minha mãe também tem dificuldade em expressar seus sentimentos... já eu, sou muito chorona!
    Mas, semana passada, vi minha mãe chorar como nunca, com a morte da nossa Laika (a que te falei num post sobre a morte do seu cãozinho)!
    Pra vc ter ideia, eu fiquei com tanto medo de ela entrar em depressão, que apressei a minha decisão de adotar outro cãozinho (gosto de adotar, pois tem muitos cães abandonados) e ontem, Jade chegou! Linda, com o vigor dos seus dois meses e fez minha mãe sorri novamente!
    Estou feliz, aliviada e agradecida!
    Ver minha mãe bem é tudo de bom!
    Beijos em vc e na sua mamãe
    Ah, vc teve a quem puxar, como se diz, na beleza e elegância altiva!

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  2. Lindo!

    Lembrei do suco de cupuaçu que ela sempre leva nos cafes da Yoga. A minha mãe tambem era assim, sempre alegre e movia montanhas para fazer o que os filhos precisavem!!!
    Beijos

    Rita Portela

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  3. Estou chorando....minha mãe também está longe....eu eu sinto muita falta dela. Sua mãe me deu aulas particulares e ela era realmente ótima professora. Bjs, Andréa

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  4. Que bonito Ludmila... eu tambem estou morando fora e sinto tambem muita falta da minha familia. Tambem choro muito as vezes, e no inicio chorava toda vez que recebia um e mail deles. Seu post me tocou ... um beijo para mae e filha, mulheres fortes... almas perfumadas
    Adriana

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  5. ela comentou comigo ontem e hoje que você tinha escrito sobre ela.

    disse que você disse que ela ia chorar, aí perguntei se ela chorou, afinal de contas.

    "chorei sim, é que eu não choro na frente de ninguém!"

    caio

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  6. Acho que depois de DEUS, mãe é o ser + poderoso do universo!
    Sou 1 sortuda, pq a minha mãe tem 85 anos, é saudável e ainda me dá colinho...
    Hoje sou mãe de 1 criaturinha de 5 anos, quero muito viver, p/ 1 dia ler ou ouvir, pelo menos algo parecido, com o seu relato. Tenho certeza que sua mãe adorou!
    Fiquei imaginando vc abrindo a caixa e chorei também!

    Bjos,minha mestra.

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  7. Eu chorei
    Tu choraste
    Ela chorou
    Nós choramos
    Vós chorastes
    Elas choraram

    Como não se emocionar lendo um texto destes...
    É ela quem nos conforta.

    Edineide

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  8. Fui aluna, eu e meu irmão também, de D. Jacira e ela era simplesmente maravilhosa, ainda mais numa matéria como matemática. Lembro que sempre de bom humor, a gente nunca sabia quando estava triste ou aborrecida, porque a alegria que transmitia era sempre a mesma e contagiante. Lindo post. Marcia Jansen.

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  9. ai Lud, a maioria das pessoas felizes, realizadas que conheço tiveram pai e mae que se pode contar a vida toda...

    sim, mãe é mãe!!!!!!!!!!!

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  10. Lana Rohr Cardoso Philippson16 de março de 2011 10:07

    Prima,entendo perfeitamente o que vc sentiu essa semana!Viver longe dos que amamos nao e facil.Eu moro aqui em Londres desde 2001 e nao e facil aguentar a saudade.Sei da luta de Judson contra o Cancer, tenho a mesma luta desde 2001, ja foram 19 cirurgias, mas estou aqui!Acho que o que vc disse sobre chorar faz a diferenca, eu choro por estar alegre, por estar triste e nao me envergonho, isso me ajuda a viver por completo esses momentos.
    Lindo o seu post e com certeza sua mae deve ter ficado muito emocionada.Nao existe amor maior do que o amor de mae.
    Um grande beijo pra vcs

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  11. Mãe é a melhor e maior benção da vida de alguém...encontrei seu blog no twitter do LeoJaime...gostei e vou voltar mais vezes...qdo puder, passa no meu...bjs e fik c Deus.

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  12. Li o seu texto e não tive de imediato disposição para me colocar ou fazer parte deste mundo de que mãe é mãe, que é a maior benção da vida, acredito até que depois de Deus é o ser mais poderoso do mundo, fomos educados para pensar assim, entretanto, creio que os grandes traumas da humanidade têm raiz justamente na mãe, lembro de um trabalho de grupo que fizemos com Churimar(?) e que no final verificamos que todos do grupo tinham problemas associados à mãe, é verdade! boas ou más o papel da mãe é fundamental para o desenvolvimento saudável de qualquer ser humano. Todos estarão se perguntando por que estou falando assim? é que a vida não foi facil para mim em relação a minha mãe, hoje, depois de muita análise (obrigodo Lud) convivo com estes sentimentos de forma saudável, minha história não tem nada com falta de amor mas, com ausência forçada durante muitos anos. Tenho hoje uma convivência com minha mãe que está com 85 anos, de respeito, consideração e amizade, o que foi perdido jamis retornará. Meu beijo para todos que tiveram uma vida sem estes problemas e desculpem a sinceridade, eu não consigo neste blog contar outra hitória. Estou atualmente confortável e penso que apesar do stress que passei durante anos isto me fez abrir caminhos de conhecimento, relacionametos, sucesso profissional, viagens, tudo para não abrir a "caixa preta", agora que ela foi aberta estou mais fortalecida e tranquila. Sinto falta de vc Lud para me ouvir mas, é bom saber que está feliz, que o Jadson está sem problemas, que seus garotos são maravilhosos e que tem pais e uma família bem estruturada e só podia ser deste jeito para existir um ser humano tão equilibrado e harmonizado.Estou um pouquinho emocionada lembrando das nossas secões de terapia..........Bjs, Nubs

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  13. Oi Ludmila, meu nome é Aditi tenho 11 anos e moro em salvador BA, adorei seu Blog tudo que você escreve é muito interessante e essa postagem me fez lembrar da minha mãe que também foi quem me convenceu a fazer um Blog, e todas as postagens que faço ela faz um comentário, agradeço pela postagem que você fez que eu identifiquei minha mãe, abraço.
    Aditi

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  14. Eu não poderia comentar qualquer outro post sem antes comentar este. Quando vi sua mãe pensei... "agora entendi porque Lud é vaidosa e ama a alma feminina"... rs... Ela, com a mesma voz rouca que voce tem, me emocionou... lembrei de você! hahahaha... da ultima vaz levei nikki para ela conhecer. Muito linda!

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  15. Aditi!!!
    Conheço sua mãe!! Foi minha colega!!!!
    beijos grande!!! Coisa linda...uma leitora de 11 anos!

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  16. Qdo a gente lê um texto, por mais que ele nos encante e nos interesse por completo, tem sempre uma frase, um parágrafo, um ponto qualquer q nos chama mais a atenção.
    Tudo que diz respeito à "mãe", sempre me emociona muito... pela minha vó, pela minha mãe e pelo fato de ainda não ser mãe e não conhecer esse gostinho.
    Mas tem uma frase sua aqui que me deixou muito tocada e como tb nunca fui de mandar as minhas lágrimas se calarem... estou aqui empurrando cada uma delas p fora...rs
    A frase é essa:
    "Penso que nossa casa será sempre o lugar onde vimos o maior número de pores-do-sol em toda a vida!"
    Eu tb não moro onde nasci e apesar de já viver mais tempo aqui do q no interior q nasci... é de lá que tenho as melhores e mais lindas recordações de cada pôr do sol q vi!
    E assim... me permito chorar de saudade... da minha cidade e da minha mãe tb!

    Linda declaração de amor à sua mãe!
    Beijos

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  17. Lindo post, Ludmila!
    Morando longe de casa, tambem recebo caixinhas e cartas da minha querida mae, que me comovem o coraçao...
    Beijos,
    Anita

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Sempre leio todos os comentários e gosto muito de recebê-los!